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Confissões de ônibus

on 8 mar, 2014 in Dossiê: Transporte | 0 comments

Dossiê: Transporte

Admita, você presta atenção na conversa dos outros no ônibus. Fui justamente o que fizemos nesta matéria.

 

T rim Trim Trim! Que bom que você ligou, estava precisando desabafar.

O calor atordoante do interior do 8106 fazia com que os passageiros se inclinassem para a janela, sem se importar tanto com o que acontecia dentro do veículo. Bernardo Vasconcelos, Cristiano Machado e logo um toque de celular. Os olhares se viram, procuram o responsável pela chamada. Vasculham bolsas e alguém atende. Dentro do ônibus, o telefone parece ser a linha direta com o psicólogo sem diploma. Dores, chagas e carências são expostas em voz alta, como se ao redor dos falantes houvesse uma parede invisível, intransponível, repleta de segredos que se fixam por ali.

 

Filho meu, filho meu

 

Ele estava lá, com os olhos cheios de água e o celular colado na orelha. O calor de setembro incomodava, fazendo inquietos os passageiros que também seguiam viagem. Murmurava qualquer coisa enquanto esperava resposta do outro lado da linha. Alguns olhares curiosos cortavam sua imagem, indo e voltando na tentativa de simular uma discrição que não existia. O outro lado da linha parecia não conhecer sua história, e foi quando ele, com a voz grave, desandou a contar:

Foi em uma festa no fundo da casa de um amigo que conheceu aquela garota. Era linda, risonha e dançava como ele nunca havia visto antes. Seguia o ritmo da música como uma serpente encantada, deixando todos que a observavam completamente estupefatos. Ele se aproximou, tentou conquista-la, dançou um pouco e logo conseguira o que queria. Taylane rendeu-se aos seus encantos na mesma velocidade em que ele fizera-se encantado e, antes que se dessem conta, já estavam completamente envolvidos. Ele acreditou que seria eterno, já estava se preparando para essa nova fase de sua vida, quando ela simplesmente… desapareceu. Não havia mais sua voz, seu cantar, seu rebolado, seu calor, seu carinho. Até o perfume de seu travesseiro ela havia levado. A depressão tomou conta de sua vida. Sentia-se ainda ligado a ela de uma maneira inexplicável. Mas sabia que seus caminhos um dia cruzariam novamente.

E cruzaram. A voz grave denunciava que o destino não havia lhes reservado o melhor, muito pelo contrário. Fez-se silêncio por alguns instantes, a voz do outro lado falava-lhe com certa agitação. O volume exageradamente alto de seu celular permitia que algumas palavras escapassem e completassem o quebra-cabeças de seu diálogo. A garota retornara alguns meses depois, grávida – ou pelo menos dizia estar. Mudara-se para o interior, para a casa dos pais, e precisava de dinheiro para sustentar a criança que viria. Carregava no ventre o fruto de uma noite de descuido, e estava impossibilitada de vê-lo novamente.

Nove meses se passaram desde seu desaparecimento, e já era hora do filho nascer. Enfrentou diversas situações até que conseguiu contato com Taylane. Ela concordou em lhe mostrar a criança: Só pela webcam. Insistiu. Ansioso, ele aceitou seus termos. Quando a criança apareceu, já era forte. Prematuro. Contou Taylane. Nascera com sete meses, e não teve tempo de contá-lo da novidade.

– Você acredita nisso?

Perguntou com a voz embargada. De seu tom, notava-se a angústia e dor impregnados na memória de quem conta uma decepção. Os passageiros do ônibus entreolhavam-se ocasionalmente, sem deixar escapar qualquer som que pudesse atrapalhar a audição daquele caso. Mas ninguém se movia, ninguém interferia, ninguém parecia estar realmente ali. Ele continuava a falar, como que inconsciente da presença dos outros passageiros ao seu redor. Contou que viajara para a cidade de Taylane, e enfim encontrara a criança. Ali, descobrira um esquema perverso de extorsão de dinheiro. O filho, na verdade, era de sua irmã. Taylane se arranjava assim, enganando jovens em festas e extorquindo dinheiro para que a sustentassem – e a seu falso filho – por um tempo. Depois simplesmente os abandonava. Dessa vez fora o filho de sua irmã. Outras vezes eram os de suas amigas. E todas retiravam uma parte para si.

– Eu tinha uma faca na mochila. Você sabe. Eu podia ter acabado tudo ali. Não só com a minha dor, mas com a de muitos outros que estão por vir.

Confessava, dissimulado. Mas não conseguiu. Segurou-se, sua vida valia mais que os anos de prisão. Então a abandonou. Dentro do ônibus, desandou a chorar. Aos berros, reclamava o filho que nunca lhe pertencera. Os olhares se cruzavam com receio, as vozes se baixavam na curiosidade de ouvir o que acontecia. E ele se levantou. Os olhos inchados de desespero e angústia não fitavam os rostos que o acompanhavam. Desceu do ônibus, deixando para trás os cochichos de quem se assombrara com sua desolação.

 

É segredo, OK?

 

Foi no ponto da Praça da Liberdade que ela parou o ônibus. Exuberante, caminhar firme e olhos parados no tempo. Os ipês de setembro dançavam ao fundo, criando uma visão quase que cinematográfica para sua entrada. Não demorou a conseguir a atenção de todos, tampouco precisou esperar muito para que alguém se oferecesse para segurar sua bolsa. Esperou, em silêncio, observando a tela de seu telefone. Suspirava, provavelmente ansiosa, sem resposta. O celular chamou, uma, duas vezes, até que ela atendeu. O “Alô” foi lento e desanimado. Os olhos, ainda parados, lutavam contra as lágrimas que lhe subiam. Ouviu em silêncio o outro lado da linha, até que começou a falar.

A aliança era de prata, comprada em uma das milhares de loja da Galeria do Ouvidor. Cuidara para que em seu interior estivesse gravado o nome daquele que escolheu, o mesmo que, evidentemente, também marcara seu coração.

A conversa começou devagar. Sua voz fraca não reagia à voz enérgica que se ouvia através do telefone. Murmurava, cabisbaixa, que já sabia de tudo aquilo, mas a outra voz insistia. E tanto insistia que as lágrimas logo escaparam-lhe pelo rosto, embargando sua voz de menina.

– Mas eu ainda o quero!

Gritou contra o aparelho, fazendo que os passageiros saltassem todos de seus assentos em um susto. Cochichos correram o ônibus, mas a jovem já havia mergulhado em sua parede invisível novamente. Repetiu que sabia que “ele” não queria compromisso algum, e por esse motivo não usava a aliança que comprara para os dois. Afirmou, demonstrando força pela primeira vez, que não se importaria com a traição, contanto que ele não a deixasse. Uma ponta de angústia correu pelos rostos questionadores do ônibus, e um jovem de boné, sentado mais à frente, virou-se para encará-la.

Continuou a discussão, deixando claro que não cederia às tentativas infrutíferas daquela que se encontrava do outro lado da linha de fazer com que ela se acalmasse. Suspirou, já exausta, e suplicou…

– Mas é segredo, ok? Ninguém pode saber que eu disse isso.

Foi a última onda de indignação que correu o ônibus, acompanhando a incongruência do pedido nos passos firmes da garota que descia.

O calor atordoante continuava a pressionar os passageiros do 8106. De certo que a temperatura criava a miragem da parede invisível dos segredos, mas, não só isso, erguia também a muralha da indiferença. De quem ouve os problemas, angústias e receios e nada fez para abrandá-los.

– Agora vou descer. Obrigado por me ouvir.

Laura Ribeiro Araújo

Dentro do ônibus vidas e histórias se confundem em máscaras de tênue anonimato. Por alguns momentos, vi-me como uma sorrateira sombra, esgueirando-me por detrás dessas máscaras, dando vida e forma a palavras lançadas a esmo.

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