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Isso não é um Carol

on 2 dez, 2014 in Memória do curso | 0 comments

O Carol era um e-zine produzido por alunos de Comunicação Social da UFMG para seus colegas de curso no começo dos anos 2000. Rememore o bom-humor da publicação e desvende os bastidores desta publicação que deixou saudades.

 

A fama do Carol transcende gerações do curso de Comunicação Social da UFMG. Talvez você já tenha ouvido falar nele, talvez não. É possível que as histórias contadas a seu respeito deem ao Carol um ar mítico, lendário, de um ícone da Comunicação – o que ele é, de fato. Pois agora a história do Carol será revelada, sem rodeios e sem delongas. O clássico e-zine começava mais ou menos assim:

Neste #

* Big bang

* Bando de nerds

* Trans

* Flashes da semana

* Ego

* O fim, ou não

 

Nasce uma estrela

 

A Grande Explosão que deu origem ao universo carolístico começou em 2001 e, nessa teoria, o Big Bang tem um criador. Antes do Conselho Jedi, havia apenas um mestre: Henrique Milen.

Foi a partir de experiências como o CardosOnline da UFRS e mesmo dentro do próprio curso, como o Jornal Gardenal, que Milen teve a ideia. “Qualquer coisa repercutia entre os colegas, e pra maioria dos alunos do curso esse é o universo que importa.”

O Carol já nasceu non-sense, “um semanário basicamente de fuxico online”, em homenagem à uma das cinco Caróis (ou todas elas) da turma de Milen na época. O #1 foi mandado, sem aviso prévio, aos alunos de comunicação no dia 9 de abril de 2001. A lista de emails? Coletada aos poucos. A turma antiga, a atual e alguns professores de Henrique foram os primeiros a terem os olhos atacados pela cor de fundo florescente do e-zine, que logo se tornou regular. Uma série de textos curtos, mandado aos domingos, com colaboração dos alunos, “formatado em HTML, fonte Courier New e fundo verde limão gay.”

“Vingou porque era divertido, às vezes útil, totalmente de graça e sem concorrência.”, segundo Milen, que não tinha grandes pretensões com o e-zine. Uma versão #0 foi mostrada para alguns amigos, que não entenderam muita coisa. O que fez Henrique decidir mandar  para todo o curso foi o comentário de uma das Caróis: “não entendi, mas gostei”. Por anos, esse foi o espírito: uma grande piada interna, sem sentido, sem noção, mas que, por algum motivo, conquistou espaço na caixa de entrada do curso de Comunicação Social.

 

Conselho Jedi e companhia

 

 

Henrique Milen

De 20 em 20 destinatários, na internet discada de 14.400kb/s do domingo, lá estava Henrique Milen, enviando o Carol. O editor pioneiro entrou para o curso em 1997, na habilitação Jornalismo, e se formou em 2001, deixando o Carol para as próximas gerações.

“Pensar os temas, escrever e editar os textos dos colegas eram não só um grande prazer, mas também um baita exercício.” O Carol se formou como um veículo dedicado aos alunos, aberto aos alunos, feito pelos alunos – havia por vezes o “assunto da vez”, alguma experimentação literária, discussões políticas e reclamações do curso. Para Milen, refletia bastante o perfil do editor, “alguns mais preguiçosos, outros mais caóticos, outros mais panfletários, outros mais literários.” Ele se lembra de sua edição como um tanto obsessiva, fazendo 3 versões do Carol antes de mandar.

“Foi um ótimo exercício, um grande aprendizado. Relendo, sempre concluo que o Carol foi um erro, mas errar é muito gostoso.”

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Henrique Millen e Breno (2º Editor)

 

Sílvia Amélia

“Não sei quem é essa menina, é Sílvia Amélia, Sandra Helena?”. De um bullying praticado no ateliê do antigo projeto de extensão “Manuelzão dá o recado”, surge o codinome, Sandra Helena, de uma das colunistas mais lembradas do Carol.

Sílvia “era super fominha, de escrever em qualquer lugar”. Caloura, na primeira semana, já era voluntária do Manuelzão e ao saber do Carol, mesmo achando ser um lugar de veteranos, ela quis escrever também. “Minha participação era totalmente non-sense, acho que eu não respeitava o projeto editorial”. Mesmo assim, foi convidada para ser editora, quando Milen decidiu sair. Não aceitou porque era “totalmente enrolada com a vida: participava de mil coisas, voluntária disso, bolsa daquilo, fazia não-sei o quê aqui” e ficou com medo de não dar conta de enviar o Carol todos os domingos.

Continuou escrevendo, participou da época do Breno, do Rafael e ainda organizou o Carol 100 Noção, premiação do “oscar” para comemorar a 100ª edição do Carol.

 

Igor Costoli

Para Igor, fazem assustadores 12 anos que ele conheceu o Carol, quando o editor ainda era Breno Lobato. Depois veio Rafael Cruz e Silva, que escolheu Costoli como seu sucessor. Ele adorava editar o Carol, “uma experiência muito divertida”. Sua principal preocupação era animar o maior número de pessoas à escreverem, e para isso tentou criar vários quadros diferentes. O que deu mais certo foi o Flashes da Semana, que surgiu quando ouviu uma frase absurda um dia e resolveu tirá-la do contexto. Isso fazia muita gente participar e confessar que só lia o Carol por isso.

Igor tinha uma persona irônica, sempre tentando subverter os textos em suas notas de editor. E o principal assunto? Futebol! Se atrasar o Carol era um charme, ele institucionalizou o atraso: “meu Carol saía na terça”. Hoje, quando pesquisa alguma coisa no e-mail e aparece um Carol, ele confessa que não consegue deixar de reler.

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Lívia Bergo

Lívia Bergo foi ombudsmuié do Igor, mas confessa que só depois de umas três edições do Carol caírem em sua caixa de entrada, foi entender que aquilo não era spam e dar uma lida. Para ela, o que mais marcou foram as conexões que o zine criava, pessoas com quem ela não teria contato se o Carol não existisse. E contatos não faltavam para essa ombuds. Ela teve o suficiente para conseguir inventar uma aluna no curso, Poliana, que tinha seu nome na lista de e-mails do colegiado e contava com muitos “amigos”, testemunhas da sua existência. Poliana era uma aluna nostálgica e tradicional, que enviou, na época da sessão “Cartas” no Carol, uma carta de verdade para a casa do editor, Igor Costoli. A carta, em que a garota falava de sua admiração por Costoli, foi publicada no zine. A história foi se espalhando e o editor parecia ser o único que ainda acreditava na veracidade de Poliana. Lívia chegou a manter um caderno cheio de assinaturas das pessoas que sabiam a verdade, como um pacto de não revelar nada a Igor e alimentar o boato. Quando ele finalmente descobriu, fez um zine especial sobre o caso e hoje não sabe dizer se estava muito bravo ou rindo de toda a história quando escreveu aquela edição. No fim, Lívia enviou o caderno a Igor pelo correio, como lembrança, e para ela, ficou a história para contar.

 

Vetrô

“Você vira alguém por ser editor, o Carol te coloca no mapa. Mas o Vetrô já chegou no cargo alguém”, conta Igor Costoli. Os dois disputaram a sucessão na edição do Carol, foram colunistas um do outro e dividiram algumas controvérsias: para Vetrô, Costoli diminuiu a qualidade do e-zine e o quadro Flashes da Semana foi uma ideia roubada dele. Mas continua: “talvez essa polêmica entre eu e o Costoli não exista realmente”.

O Vetrô, aluno de comunicação e editor do Carol, era assim: pronto para confundir e polemizar. Seus textos e notas de editor tinham o objetivo de cutucar, por que isso fazia as pessoas escreverem, inclusive pela possibilidade de defesa. “Eu puxava muita gente pra falar, gente que me amava e gente que me odiava”.

Editar e escrever para o Carol era uma oportunidade de se libertar de uma série de formatos que o curso de jornalismo o enquadrava. “Foi importante para provocar um jornalismo com marca pessoal, seria muito legal se ainda existisse uma iniciativa semelhante”.

 

Bruno Costoli

“O Carol #171 tinha que ser picareta”. Foi o que Igor pensou ao ver o número sugestivo do e-zine que caiu perto do seu aniversário. A ideia foi passar a responsabilidade da edição para o irmão mais novo. Costolinho, como Bruno ficou conhecido, teve então sua primeira experiência como editor, “muito divertida”, mas quase ninguém percebeu.

Algum tempo e dois editores depois, Bruno teria sua chance de ser oficialmente o editor do Carol, um e-zine que no início do curso ele não conhecia, só ouvia falar: “Minha turma não recebia seja lá o que fosse aquilo de que estavam falando”, e mesmo depois que passou a receber, levou um tempo até entender a dinâmica do e-zine.

Com o tom sempre irônico e conhecido por ser engraçado, Costolinho deixou o cargo depois de ficar um ano na edição, “ou algo assim” – ele não se lembra bem de muita coisa. Segundo Costolinho, era bom para o Carol ficar com alguém mais inserido no curso, “e quem está quase formando perde um pouco disso”. Ainda assim, escreveu algumas vezes para o Carol, assinando “Bruno Costoli (11ºPP)”, em referência a um inexistente 11º período de Publicidade e Propaganda do curso.

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Augusto Veloso Leão

“Acontecia assim: um dia o Carol chegava no seu email e ninguém conseguia explicar como tinham conseguido seu endereço, o que era aquilo ou porque ele era escrito em Courier New com fundo verde limão” – é assim que começa a história de Augusto e Carol. O amor veio com o #186, do Costoli e seu trote, e a partir daí não parou mais, até que Augusto chegasse ao posto máximo de mestre jedi e editor do Carol.

Nessa função, ele confessou que pensava o e-zine só um pouquinho – um pouquinho o tempo todo. Criou o Blog Carol Sem Noção e até levou o Carol para o finado Orkut. Para ele, o zine teve um papel forte de integração entre as gerações do curso, falando com as pessoas que já tinham se formado e com as que estavam começando no curso. Augusto saiu do Carol #307, passando o bastão para a primeira editora.

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Mariana Garcia

Mariana, hoje analista de redes sociais da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, recorda que seu primeiro texto para o Carol foi sobre música, recomendando o cantor Devendra Banhart. Era plena época de MySpace e as pessoas “descobriam” artistas pela rede social.

Para escrever no Carol, era preciso viver intensamente o curso, e Mariana era representante discente do ComuniCA, passava as tardes no ateliê do Manuelzão e fazia matérias o dia todo na Fafich. Tornou-se ombuds do Augusto, quando Lívia foi para o Paraguai, e se recorda dele como um editor “fofo”.

Mariana se lembra com carinho que “causar”, polemizar, era altamente desejável, e “era para isso que o Carol existia na minha época”. “É natural que falemos com saudosismo do Carol porque na verdade a gente é saudosista de tudo o que diz respeito àqueles anos na Fafich”, analisa. Talvez seja por isso que Mariana e alguns amigos (entre eles o fofo Augusto e Lívia Aguiar) arquitetaram o roubo do Carol, pouco antes do seu fim, quando já não era enviado regularmente. Carol virou Neuza por uma edição: caso de cleptomania coletiva.

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Lívia Aguiar

A primeira vez que Lívia escreveu para o Carol foi por engano. Ainda caloura, ela sempre encaminhava o e-zine para uma amiga de fora do curso, pois achava divertidíssimo. Certa vez, errou o botão: clicou em responder ao invés de encaminhar e lá se foi um email para o editor, Igor Costoli. Ele agradeceu os elogios, Lívia morreu de vergonha e dali veio a coragem para escrever mais vezes, além de uma amizade que perdura até hoje. “O Carol criava essa ponte. Você lê textos de pessoas de todos os períodos, conhece as lendas do curso… é um lugar para as pessoas testarem, fazerem coisas novas – boas e ruins”, afirma.

A entrada de Lívia na Comunicação Social foi em 2005, na turma Engenharia, que contava com 35 homens. Em sua época, o Carol passou por muitos editores: Costoli, Vetrô, Bruno e Augusto, de quem foi “ombudsmuié” – aquela que lia o Carol antes de ser publicado e criticava tudo, a chamada “Esculhambadora geral”. Saiu para fazer intercâmbio no Paraguai, deixando o cargo com Mariana Garcia. Ao voltar, foi escolhida como a primeira editora mulher do Carol e teve também o único ombudsmaníaco da história, o Assunção.

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Fábio Megale

Quando recebeu o Carol pela primeira vez, Megale só conseguiu pensar “que porcaria é essa?”. Ele estava começando o curso de Comunicação e tudo era novidade: as festas, o campeonato de futebol e aquele e-mail sem imagem que chegava toda semana. Ele não conseguia entender do que é que o e-zine falava, até começar a realmente viver o curso.

“Fiquei com a missão terrível de pegar um Carol moribundo, numa época em que ninguém mais escrevia”, lamenta. Fábio chegou a mandar um Carol em branco, depois de semanas esperando que alguém escrevesse um texto. Alguns falaram que ele era o pior editor: “A Comunicação sempre foi muito crítica. E não tinha como defender, estava muito ruim”, explica.

Foi por isso que Megale resolver dar um tempo com o Carol, como Ross e Rachel. “Não funciona pensar o que eu poderia mudar, porque não vai acontecer. Era eu naquele momento. Foi o que foi”, reflete.

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Carol é o cara, ou “o e-zine de macho com nome de muié”

 

“O Milen – criador desse barco coletivodélico que eu pretendo levar a partir de agora – um dia disse que a editora-messias conduziria o Carol ao nirvana. O Rafa, desde que entrou para a organizaçao secreta de ex-editores, espera a tal “super editora mega-gostosa que vai atender, na calada da noite, os desejos mais lascivos de todos os ex-editores”.

Assim escreveu Lívia Aguiar no Carol #308, a primeira, a única, a escolhida, editora do Carol. “E escolheram a mim? Modelo? Sorry, tenho o pé torto e tropeço até descalça. Sou aquela esquisita de cabelo rosa perambulando pelo hall da Fafich, definitivamente não sou gostosa, o mais próximo do nirvana que cheguei foi a biografia do Kurt Cobain e não, Rafa, pode dormir com a porta trancada sossegado.”

Mas por que só houve uma mulher editora em toda a história do Carol?

“Porque somos machistas, ora”, foi o que nos respondeu o lendário Henrique Milen. “No curso de jornalismo, cultua-se uma visão masculina do jornalismo, uma narrativa masculina da História. É difícil perceber isso porque isso é dado como natural, e é difícil mudar essa percepção porque toda crítica enfrenta resistência, é repelida, considerada radical. Mesmo com mulheres em maioria no curso, o tal ‘mercado’ ainda reserva às mulheres posições e pautas secundárias, ou de assessoria, secretariado”, critica.

“Ele é o Carol. O nome é feminino, mas a voz dele é masculina, se você for parar para pensar”, observa Mariana Garcia. Para Igor Costoli, todo editor acabou tendo uma colunista, inconscientemente, para quebrar essa voz.  E conta que uma vez uma menina mandou um e-mail no Carol perguntando “quando é que vem uma editora mulher?”. A resposta: “Ué, nenhuma nunca se candidatou”. Hoje ele reflete que isso pode ser uma condição histórica: de que adianta dar oportunidades iguais a homens e mulheres, se elas são criadas não acreditando que tem as mesmas oportunidades?

Sílvia Amélia, porém, poderia ter sido a segunda editora. Quando Milen a procurou, ela preferiu recusar por fazer muitas outras atividades na época. Então, de certa forma, acabou sendo uma obra do acaso o fato de Lívia ter sido a única mulher a ocupar o cargo de editora. “É claro que, depois de ter vários editores homens, cria-se uma cultura masculina e dá-se a questão como natural – mas não é.”

Com o tempo, um padrão foi se formando: o editor era homem, a ombuds era mulher. Ombudsmuié, no caso. “Ombudsmuié, que termo chauvinista!”, Mariana ri. E a profecia se estabeleceu: um dia viria a editora mulher, e ela mudaria tudo. Para Vetrô, ela se realizou: Lívia entrou e escolheu Megale para lhe suceder, o homem que matou o Carol.

 

Flashes da semana

 

“O ego carolístico existe e é uma criação que domina o criador”.

“Por que eu topei eu realmente não sei, acho que eu devia estar com um parafuso a menos na hora. Porque domingo à noite não é hora para ter um compromisso, sabe?”

“Vi aquele trem chegando na caixa de entrada e eu meio que entendi que falava do curso, pensei até que era informativo do colegiado”.

“O Carol é isso, você enchendo o saco dos seus amigos para te mandar mais textos e não te deixar sozinha”.

“Mal de editor do Carol é falar demais”.

“Faço coisa para não lembrar”.

“Aos poucos a gente descobria que o Carol era para ser não-lido”.

“Normalmente, eu abordava os colaboradores nos corredores e (ameaçava) pedia algum texto sobre algo que a pessoa achasse interessante”.

“Achei paia quando acabou. Era um trem legal”.

 

Coluna social

 

Quando o Carol completou 100 edições, um grande evento foi organizado, e perpetuado por algum tempo, pelos editores do Carol: o Carol 100 Noção, ou Oscarol. As premiações, como Melhor Impossível, Arroz de Festa, Com a Bola Toda e o sonhado Sem Noção, tinham indicações (arbitrárias na época de Sílvia Amélia e democráticas em alguns oscaróis que se seguiram) e os candidatos faziam campanhas e angariavam votos, com panfletos, cartazes e tudo. No dia da festa, o tapete vermelho se enchia de celebridades e personalidades carolísticas do curso de Comunicação e os convidados logo pegavam suas cédulas para votar.

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OsCarol

Mais fotos: http://carolsemnocao.blogspot.com.br/2009_10_01_archive.html

Um belo assunto para manter no Carol era o Dia do Bigode: está chegando o Dia do Bigode, faça já o seu bigode, quais os bigodes da moda nessa temporada, quais foram os melhores bigodes, porque esse bigode é melhor que o seu… Além da garantia de um Carol bem abastecido de textos e dicas, o Dia do Bigode passou a ser organizado pelos editores. O resultado era essa maravilha:

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Mais fotos: https://plus.google.com/photos/112190365578543269493/albums/5270469457991546353?authkey=COe1itKprPXg3QE

 

Ele (não) matou o Carol

 

Todo editor do Carol teve medo do e-zine morrer na sua mão. Nem mesmo Henrique Milen achou que a brincadeira duraria tanto tempo e ainda assim seu fim não foi fácil.

Aquela era uma época de mudanças e, se no início Milen usava servidores antigos de e-mail, Megale teve que lidar com uma geração que já desbravava o Facebook. “O Carol surgiu em 2000, uma época anterior à disseminação de blogs, redes sociais e tal. Depois disso, o e-zine por e-mail foi ficando sem função. Até o próprio e-mail hoje está meio sem função”, é o que diz o criador.

Para Augusto Veloso, além do suporte do Carol ter se tornado obsoleto, o curso sofreu uma grande transformação, com a expansão de vagas e a mudança de habilitações. “O Carol funcionava porque as pessoas se encontravam no corredor do terceiro andar e acabavam lendo sobre coisas com as quais elas se identificavam minimamente. A Comunicação era um clubinho pequeno e o Carol, uma forma de saber o que estava rolando”.

Cada pessoa que participou da história do e-zine traz uma contribuição para o assunto, mas a tecnologia e o novo perfil do curso são apontados por todos eles. “O Carol acabou provavelmente porque não se adaptou aos novos tempos, ao perfil da galera que tava entrando”, sugere Bruno Costoli. O outro Costoli diz mais: “O Carol representava o apreço dos alunos pelo curso, o que talvez não exista mais. E as pessoas que cresceram acostumadas com e-mail não viam mais sentido em um e-zine”. Vetrô é taxativo: “Quem matou o Carol foi a tecnologia, ou o que a tecnologia passou a proporcionar ao ser humano”. Já Augusto lembra que todos costumavam ter a percepção de que o Carol sempre tinha sido melhor antigamente e “que sua decadência em termos de contribuições e leitores era um sinal da decadência do próprio curso de Comunicação e da destruição dos laços sociais na sociedade pós-moderna”.

Nada disso impediu que Fábio Megale fosse acusado de assassinato – culposo –  e criticado por sua atuação como editor. “Peguei o Carol em estado vegetativo e mantive em aparelhos”, ele conta, “fiz muitas edições com textos só meus, e pensei que se fosse pra fazer uma coisa só minha, eu podia criar um blog. O Carol não era para ser assim”.

Mariana Garcia acha que Megale pode até ser visto como um corajoso. “Corajoso na covardia dele, de dar um fim ao Carol. E foi um fim sem dor, vinha de 20 em 20 dias, deu um último suspiro e se foi”. Igor Costoli lembra que eram as pessoas mais próximas, que viam o drama do editor, que mais participavam e o ajudavam: “Não sei se faltou ao Megale isso de falar ‘Me ajuda!’”. Fábio conta que tentou chamar colaboradores fixos, fazer jogos, convocar a galera. Nada disso funcionou. “Os alunos mais velhos tinham que trabalhar e os mais novos estavam no twitter”, afirma.

Para muitos, o Carol está morto e enterrado. Megale não concorda: “Eu o coloquei em coma induzido. Pode voltar entre os mais velhos ou só ser relembrado… Os caminhos da força são misteriosos”. Ou seja, o Carol pode não ter acabado. Quem sabe não chega, domingo que vem, na sua caixa de entrada.

Lívia Araújo

Vive o curso de Comunicação com nostalgia de tempos mais antigos do que sua própria matrícula. Iria gostar de um Carol fofoqueiro, nonsense ou ativista chegando em seu e-mail toda semana. Não seria a pessoa a editá-lo domingo à noite.

Marcella Boehler

Sente falta do que nunca viveu, como um Carol verde-limão em sua caixa de entrada.

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