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O trabalho de quem tem deficiência

on 1 set, 2016 in Dossiê: Mercado de trabalho e deficiência | 0 comments

Enquanto recrutadores buscam profissionais “mais qualificados”, pessoas com deficiência dizem só encontrar postos operacionais. Nesse cabo de guerra, as vagas garantidas por Lei continuam não sendo preenchidas.

 

Abaixo está a versão em áudio desta reportagem, comentada pelos repórteres:

 

“Sou advogada, fiz pós-graduação em Ciências Criminais, pós-graduação em Política Pública, trabalhei no Estado”, lista Ana Lúcia de Oliveira. Entretanto, mesmo com as qualificações, ela encontra dificuldades para conseguir emprego. O motivo: ela usa cadeira de rodas. Em uma entrevista, após saber que não poderia ser contratada como advogada, chegou a ouvir “Eu tenho pra peão, serve?”, conta.

Uma amiga que trabalha com recursos humanos sugeriu que Ana não mencionasse algumas de suas qualificações nas entrevistas. “Ô, Lu, tira muita coisa do seu currículo, seu currículo é muito bom”, aconselhou a amiga. “Eu cheguei a tirar […] Se eu mostrar que eu tenho currículo bom, infelizmente a gente não é contratada, a pessoa com deficiência. Hoje eu tiro muita coisa”, comenta Ana. Ela nos contou sobre seu primeiro estágio, em uma penitenciária de segurança máxima, e como conseguiu fugir de uma rebelião. Isso você confere aqui.

Ana-Lúcia

Diego* (o nome foi preservado a pedido da fonte) também é paraplégico e afirma não encontrar emprego para a qualificação que tem. Ele é formado em Publicidade, seu sonho é trabalhar em marketing e ele possui experiência em processamento de dados e análise comercial, mas hoje é assistente administrativo em uma instituição de ensino. Diego* vive com a mãe, que é aposentada, por isso não tem direito a receber o Benefício da Prestação Continuada da Lei Orgânica da Assistência Social (também conhecido como BPC/LOAS, este benefício é recebido por pessoas com deficiência cuja renda familiar não ultrapasse um quarto do salário mínimo por pessoa). Os dois foram processados por atrasarem o pagamento do condomínio do apartamento em que moram e, por isso, ele aceitou a vaga de assistente administrativo. “Eu estava aceitando até salários muito ruins. […] Eu precisava trabalhar pelo menos pra pagar o condomínio”, ele conta.

Diego* trabalhou durante pouco mais de um ano como analista comercial em uma companhia de telefonia: “Era um empresa grande, que me pagava melhor, só que eu era inútil. Eu estava lá por Lei de Cotas mesmo. Tinha dia que se eu não pegasse algo pra fazer por conta própria, eu só chegava lá, batia o cartão pra entrar e batia pra ir embora. […] Quando delegavam [funções], eram funções muito simples, que não eram da minha função, e que ninguém queria fazer […] Quando eu percebi que estava ali por estar, me bateu uma tristeza muito grande, tinha dia que eu ia embora pra casa chorando. […] Eu fui humilhado, depois que eu saí de lá eu fiz tratamento psicológico”. Segundo Diego*, quando ele foi demitido a empresa alegou que precisava de alguém com uma qualificação melhor.

 

Infográfico sobre as pessoas com deficiência empregadas no Brasil em 2014. Um gráfico de barras verticais indica: 47,6% tinham Ensino Médio, 36,6% tinha Ensino Fundamental, 15% tinham ensino superior e 0,8% era analfabeta.

A situação de Ana e Diego* é o oposto do que argumentam alguns empregadores. A Transite conversou com alguns recrutadores que dizem não encontrar pessoas com deficiência qualificadas. “Existem vários profissionais sem qualificação específica, ou analfabetos e aqueles que são optantes por não trabalhar e utilizar o benefício financeiro oferecido pelo Governo”, comenta Leandro Souza de Pinho, Superintendente de Recursos Humanos da rede de supermercados Verdemar. Para selecionar e recrutar PCDs para as vagas que oferece, a empresa se utiliza de anúncios, indicações e parcerias com ONGs e o Ministério do Trabalho.

“Para as vagas que exigem uma qualificação mais específica é mais difícil encontrar PCD”, concorda Graciela Lima, coordenadora de Recrutamento e Seleção da Unimed-BH. Ela cita o Programa de Formação Profissional para Pessoas com Deficiência, que a empresa desenvolve desde 2012, como alternativa para auxiliar na capacitação desses trabalhadores. Duas vezes por ano, são selecionados participantes com Ensino Médio completo para um curso de três meses. Os alunos têm aulas teóricas e práticas de conteúdos como Postura Profissional, Língua Portuguesa, Matemática, Informática Básica, Excel Básico e Práticas Administrativas. Ao final, seus currículos são direcionados para o Banco de Talentos da empresa, e podem ser aproveitados para as vagas disponíveis.

Infográfico sobre as ocupações das pessoas com deficiência empregadas no Brasil em 2014. Dentre 100 bonecos cinzas, dois estão pintados de rosa, que representam os 2,1% das pessoas com deficiência que ocupam cargos de chefia ou gerência. Um gráfico de pizza indica que 26% das pessoas com deficiência empregadas trabalham como escriturárias, a função que mais concentra essas pessoas. As outras cinco funções mais exercidas estão representadas por um gráfico de barras e são: trabalhadores de transformação de metais e de compósitos (15,2%), trabalhadores em funções transversais (10,1%), vendedores e prestadores de serviços do comércio (5,5%), trabalhadores de atendimento ao público (5,3%) e trabalhadores dos serviços (4,1%).

De acordo com Patrícia, auditora do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), os empregadores ainda desconhecem o universo das pessoas com deficiência. “A gente tem casos de pessoas com curso superior cegas, engenheiro que é PCD. Essas pessoas não conseguem ser entrevistadas, elas nem são chamadas para entrevista”, comenta. Na visão de Patrícia, ainda faltam programas específicos para seleção e treinamento de pessoas com deficiência para que as empresas alcancem as cotas.

Segundo o Núcleo de Inclusão de Acessibilidade da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atualmente há 444 estudantes com deficiência: 371 em 68 cursos de graduação e 73 em 36 cursos de pós. Todas essas pessoas não chegam a 1% do total de alunos da Universidade.

DIFICULDADES PARA ALÉM DO CURRÍCULO

 

Se as pessoas com deficiência reclamam por não encontrarem empregos condizentes com a sua escolaridade, os candidatos às vagas operacionais, que exigem menos qualificação, enfrentam outros obstáculos – que incluem, até mesmo, chegar à entrevista de emprego. É o que aponta Raquel Bernardes, da Gerência de Equipamentos de Intermediação do Trabalho (GEEIT), responsável pelo posto do Sine em BH (Sistema Nacional de Emprego). “Infelizmente os candidatos com deficiência comparecem muito pouco aos postos do Sine. Muitos possuem receio de perder o Benefício, outros não possuem acessibilidade, outros não possuem acompanhante”, comenta.

Em 2016, o Sine de Belo Horizonte (Sistema Nacional de Emprego) ofertou 1525 postos de emprego na cidade que aceitavam PCDs. Desse total, 872 exclusivos para essas pessoas. A maior parte das vagas foi para cargos operacionais, como operador de telemarketing, auxiliar administrativo, de limpeza, cobrador de ônibus e técnico de manutenção de informática. Entretanto, apenas 34 postos foram preenchidos.

Infográfico sobre os setores em que as pessoas com deficiência estavam empregadas no Brasil em 2014. Um gráfico de barras verticais indica: 38,6% nos serviços, 29,3% na indústria de transformação, 17% no comércio, 6,9% na administração pública, 4% na construção civil, 1,9% nos serviços industriais de utilidade pública e 0,8% na extração mineral.

Associações, federações e ONGs são um caminho alternativo ao Sine para as pessoas que estão procurando emprego. O próprio Ministério do Trabalho encaminha para as empresas em busca de funcionários PCDs uma lista com mais de uma dezena de organizações. É o caso do Instituto Ester Assumpção, em Betim, que mantém um banco de dados de pessoas à procura de trabalho, repassa vagas de emprego, oferece cursos profissionalizantes e presta assessoria às empresas que queiram potencializar a acessibilidade.

Infográfico sobre o gênero das pessoas com deficiência empregadas no Brasil em 2014. Dentro de um círculo imitando o símbolo de masculino, o dado de que 64,4% são homens; dentro de um círculo imitando o símbolo de feminino, o dado de que 35,6% são mulheres.

Segundo o superintendente do Instituto, Oswaldo Barbosa, mesmo quem chega a marcar uma entrevista também pode passar por algumas dificuldades. “A pessoa já sai de casa pensando: ‘Será que nessa empresa vão me atender?’ Já teve casos aqui em que a pessoa chega na empresa e não consegue acessar a sala de entrevista, porque não é acessível, e descobre isso na hora. A pessoa é surda e não tem intérprete de Libras. O que era para ser atendimento vira uma catástrofe de desconforto. Em geral, a gente percebe uma baixa autoestima das pessoas. Elas já estão cansadas, já passaram por várias coisas”, descreve.

 Instituições que podem ajudar. O Ministério do Trabalho entrega às empresas  notificadas pelo descumprimento da Lei de Cotas  uma lista de instituições que podem ajudá-las na  busca por pessoas com deficiência para trabalharem. Confira:

Associação de Cegos Louis Braille: 3273-5858 / 99911-3932; Centro de Inclusão de Pessoas com Deficiência Rogéria Amato – Sesi-Cira (FIEMG): 33272-2312; Congregação dos Deficientes Auditivos de BH: Codabe: 3295-2211; Conselho Estadual de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência: 3270-3622; Coordenadoria das Pessoas com Deficiência: 3377-4105 / 3277-6949; Crepúsculo – Centro de Desenvolvimento Humano: 3225-0040 / 3223-4611 / 99530-9337; CV – Centro de Vida Independente: 99985-1136; Ensino Social Profissionalizante – Espro Aprendizagem: 98410-8690; Federação das Apae do Estado de Minas Gerais: 3291-6558; Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – Feneis: 3225-0088; Fundação de Atendimento Especializado de Nova Lima – Faenol:  3615-4100 / 98684-1007; Fundação João Bosco para Inclusão – Funjobi: 3223-9425; Incluir (QS): 2571-1525 / 99407-5018; Inovar: 2531-9001; NSS – Núcleo de Reabilitação BH: 3249-4454 / 3249-4456 / 3249-4416; INSS Contagem: 3329-3200; Instituto Ester Assumpção: 3592-1011; Instituto São Rafael: 3295-3221; Núcleo de Igualdade de Oportunidades do Ministério do Trabalho: 3270-6156; Programa de Mercado de Trabalho Inclusivo – Prometi: 3277-4483; PUC Sociedade Inclusiva BH – Núcleo de Direitos Humanos e Inclusão: 3319-4977 / 3319-4082; Rede Cidadã de Aprendizagem: 3236-1628 / 98362-0300; Rede Cidadã Contagem: 3354-9885; Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social: 3541-4369 / 3542-5905; Sistema Nacional de Emprego (Sine) BH: 3271-5566 / 3212-2415; Sine Betim: 3593-9640; União dos Paraplégicos de Belo Horizonte – Unipabe:  3373-4265 / 3373-4027 / 99590-9971 / 99764-0075 

Atualmente, o Instituto tem 722 PCDs cadastradas da Região Metropolitana de BH. Metade delas possuem Ensino Médio completo e 8%, o equivalente a 58 pessoas, são graduadas – em Administração, Desenvolvimento de Sistemas, Gestão de Logística, Psicologia, Engenharia Civil, entre outros cursos. A meta do Instituto é empregar ao menos 100 pessoas por ano, mas eles ainda não conseguiram alcançá-la. Em 2015, foram 25 pessoas, e até junho de 2016 haviam sido apenas 14, distribuídas em vagas operacionais de sete empresas.

No Núcleo de Direitos Humanos e Inclusão, projeto de extensão da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas, todo aluno que faz um dos cursos oferecidos pelo projeto é listado no banco de dados de possíveis candidatos a vagas de emprego. Em 2016, somente cinco pessoas foram contratadas, todas elas como auxiliares administrativas. Os cursos incluem Computação e Assistência Administrativa, por exemplo. Hoje já se somam cerca de 2 mil nomes na lista do projeto.

 

EMPREGO NA MÃO NÃO É SOLUÇÃO

 

Se encontrar emprego pode ser um problema, estar empregado não é sinônimo de solução. Para muitas pessoas com deficiência, o preconceito ainda é um obstáculo, mesmo após a carteira assinada.

O supermercado Superluna, em Betim, na Região Metropolitana de BH, emprega a maior parte de seus funcionários com deficiência como embaladores. Alexandre Yashida, 31 anos e deficiente intelectual, é um deles. Ele enfrenta dificuldades com uma cliente rotineira do supermercado. “Tem uma senhora que faz compra aqui, todo final de semana ela vem cá, uma senhora de setenta e poucos anos. Ela não deixa a gente embalar pra ela, não. Eu já até chorei esses dias, de tristeza”, diz Alexandre.

O coordenador de RH do Superluna, Cristian Lara, confirma os episódios de discriminação por parte dos clientes. “Eu já presenciei várias vezes. [Certa vez, uma cliente falou]: ‘Eu não quero esse menino retardado embalando a minha compra!’”, relata.

Luiza Ridolfi, 31 anos, está prestes a se graduar em Relações Públicas pelo Centro Universitário Una. Ela exerce RP como freelancer, mas reclama que os estágios de RP exigem diversos pré-requisitos e longo tempo de experiência, o que a impossibilitou de estagiar na área. Atualmente ela trabalha em uma loja de departamento no centro de Belo Horizonte e, ainda que goste do emprego, já se sentiu constrangida por comentários de colegas. Luiza possui hemiplegia e deficiência auditiva unilateral e uma de suas funções é organizar os provadores. Quando o movimento do estabelecimento aumenta, ela leva mais tempo que outros funcionários para realizar a tarefa. Por isso, já foi vítima de comentários como: “‘Você não vai dar conta de fazer’, sem saber da capacidade da gente”, relata Luiza.

Há ainda pessoas que recorrem ao trabalho informal depois de encontrarem dificuldades demais em empregos regulares. É o caso de Cleuton Santos, 40 anos. Há cinco anos, ele levou um tiro na coluna e, desde então, precisa usar cadeira de rodas. Neste ano começou a trabalhar de segunda-feira a sábado na Avenida Paraná, no Centro da cidade, vendendo mercadorias diversas em uma barraquinha instalada na calçada.

cleuton

Antes de precisar de cadeira de rodas, Cleuton trabalhava em um açougue, mas interrompeu o trabalho um ano depois do acidente: “Muito difícil, principalmente na minha área, açougue, em que você mexe com faca, com serra elétrica. É muito risco, né. Tem que entrar em câmara frigorífica, e pra eu me mover dentro de um açougue ficou muito complicado”, ele conta. Cleuton recebe o BPC/LOAS, mas, desde que a esposa ficou desempregada, ele recorre ao comércio informal para complementar a renda. Sem esse trabalho, acredita que seria impossível pagar os empréstimos que fez para construir a casa em que vive com a família, no bairro Pompeia.

 

UMA POSSIBILIDADE

 

Frente às dificuldades do mercado de trabalho, organizações direcionadas às pessoas com deficiência apontam o emprego apoiado como uma possível solução. A prática surgiu nos Estados Unidos nos anos 1970 para a inclusão de PCDs, em especial aquelas com grande comprometimento físico e/ou intelectual. De forma resumida, trata-se de um profissional que acompanha a pessoa com deficiência no seu ambiente de trabalho com o objetivo de averiguar sua inclusão, acessibilidade e outras potenciais dificuldades. Esse tipo de emprego apareceu no Brasil na década de 1990, mas só em 2014 é que foi criada a Associação Nacional do Emprego Apoiado (Anea).

Para Oswaldo, do Ester Assumpção (que começou a adotar o método para algumas pessoas), o emprego apoiado muda a lógica de recrutamento, já que “ao invés de a empresa ligar e pedir dez [funcionários] para selecionar um, o emprego apoiado entrevista uma pessoa e, a partir dela, busca a empresa”, explica. Além disso, segundo ele, outras vantagens do emprego apoiado são a qualificação contínua do empregado, possibilitada pela instituição, e o acompanhamento sistemático da pessoa no seu ambiente de trabalho, o que pode auxiliar no bom exercício profissional e na autonomia do trabalhador.

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de BH e a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis) também utilizam o Emprego Apoiado como ferramenta em suas abordagens. A Feneis, inclusive, recusa-se a fechar contratos sem a figura do profissional apoiador, segundo Gilberto Justino, coordenador de Recursos Humanos. 

Confira as outras reportagens do dossiê sobre pessoas com deficiência no mercado de trabalho:

Bruno Fonseca

Para além da superação pessoal e o esforço de cada um, existem direitos que precisam ser cumpridos. 

Gabriel Rodrigues

Fazer uma longa reportagem é encontrar cada vez mais problemas – na realidade que a gente pesquisa e no processo de produção. E também uma felicidade de ver gente – os entrevistados e a equipe de trabalho – driblar todos eles.

Júlia Valadares

Após enfrentar desafios, por três meses, para produzir estas reportagens, chegamos a este Dossiê. Nele, é possível perceber bem como não saber lidar com o potencial das pessoas com deficiência traz a elas desafios muito maiores, todos os dias do ano.

Kaio H Silva

“Para todas as coisas: dicionário / Para que fiquem prontas: paciência”.

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