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Quem mocotó é esse?

on 9 jul, 2015 in Comportamento | 0 comments

Os bares são uma tradição em BH.  E o mocotó, por sua vez, é uma tradição em muitos deles. Conheça o Bar do Nonô, dono do mocotó mais famoso da cidade, e seus frequentadores mais fiéis.

 

Esta reportagem vai muito além do que o mocotó é. Mocotó não é abstrato, não é correlato, não é lagarto. Mocotó é um barato. Talvez se Jorge Ben Jor tivesse frequentado o centro de Belo Horizonte, teria acrescentado em sua letra que mocotó também é rito, é mito e é bonito.

Descendo a Avenida Amazonas, encontramos o Bar do Nonô, que sem modéstia se intitula como o Rei do Caldo de Mocotó. No entra e sai fervoroso de clientes, descobrimos que mocotó pai, mocotó filho e mocotó família são uns dos responsáveis por manter viva a tradição do caldo de mocotó na capital mineira.

Nós? Um trio formado por mineiros que nunca haviam experimentado o prato feito da pata do boi. Com a pergunta Quem mocotó é esse? na cabeça, encontramos histórias, memórias, heranças e laços afetivos. Para entrar no clima, sugerimos a seguinte trilha sonora:

 

Quem se alimenta da tradição

 

Para cortar caminho da Avenida Amazonas para a Rua dos Tupis, é possível passar por dentro do bar que liga as duas vias por um balcão de ponta a ponta. Se fizer esse caminho, verá que os clientes ali buscam o mesmo prato. Com atenção, perceberá que esse prato não é só para encher a barriga e satisfazer o paladar, mas também para alimentar a cultura e o imaginário dos seus adoradores. Não é à toa que por horas e dias quase ininterruptos de funcionamento, o Bar do Nonô não fica vazio. Ali, não existem cadeiras nem conforto. A passagem do cliente deve ser breve. Tempo de comer, tomar uma e dar espaço ao que está por vir.

Na ida ou vinda do trabalho, o primeiro turno do dia recebe clientes de longa data. Ingrediente fundamental para o café da manhã, o caldo de mocotó é a primeira refeição do dia de Levy Vieira, 64. “É diariamente, desde 1971 que eu tomo caldo de mocotó aqui”. Já Antônio Eustáquio, 58, trabalha como vigilante noturno e seu relógio funciona um pouco de cabeça para baixo. O trabalho fica longe, no bairro Serra, mas vale a pena cair no centro só para tomar o caldo. Essa é sua rotina em pelo menos dois dias na semana. Antônio explica que sua relação com o mocotó é um tanto quanto milagrosa, “curou meu filho que teve meningite, aí firmou mais as pernas, o corpo. Quando ele tinha 3 meses de nascido, dava uma colherzinha, pouco de caldo”.

O período da tarde é quando o Bar do Nonô recebe sua maior clientela. Mas é no canto, dominando sozinho a mesa feita com engradados de cerveja empilhados, que está José Félix, 50. “Eu venho todo dia, esse horário, todo dia eu tomo caldo. Meu almoço é esse horário, 15h. Se eu almoçar, aí fica pesado. Se eu tomar o caldinho aí já diminui bastante o peso, né?”. Substituir o arroz com feijão pelo mocotó também foi o que fez o carteiro Bráulio Carvalho, 27. Nascido em Conceição do Mato Dentro, ele busca, duas vezes na semana, encontrar no Bar do Nonô a rotina de quando morava no interior. “Minha vó fazia muito quando eu era criança, aí quando eu vim pra cá falei ‘oh, aqui eles também vendem!’. O pessoal acha estranho quando eu falo que tomo desde criança. Minha vó era doceira e fazia muito caldo e geleia de mocotó”.

Sábado, nove horas da noite, final de empreitada. Silvia Januária, 40, é professora de capoeira angola e toma o caldo de duas a três vezes no mês. “A gente, negro, já está acostumado a tomar o caldo, pra gente é uma comida normal. Porque vem do pé do boi, igual a feijoada antigamente. E todo mundo fala ‘nossa, que coisa ruim. Vou comer coisa que vem do pé do boi?’, não era qualquer um que comia na época, né? E hoje se tornou uma coisa comum em alguns bares”. Observação que também é feita por João Júlio Gonçalves, 46. “Quem era menos abastado antigamente usava isso. Lá em casa são dez filho, então é essas comida que dá pra muita gente. Era fubá suado, canjiquinha, mocotó. Eu, por exemplo, gosto é do osso, de chupar o osso até descobrir aquela carninha. Quando é em casa, é assim. Na minha casa sempre faz”.

Valdir Resende, 84. “Fazendo serviço de rua, comecei a me alimentar do caldo. Foi em 75! Às vezes eu olho minha carteira assinada e falo ‘É… to bem veterano’”.
José Barbosa, 61. “Hoje eu já não moro aqui não. Mas eu e minha esposa, nós chegamos da rodoviária, primeiro ponto é aqui”. Vilma Lima, 57. “Aprendi com ele de tanto ouvir falar”.
Vanusa Gouveia, 38. “Às vezes quando eu tô aqui no Centro e não quero almoçar, eu venho tomar o caldo. De manhã cedo, quando eu tô de ressaca e tem que trabalhar, eu venho e tomo o caldo. Eu gosto muito do caldo”.
Antônio Eustáquio, 58. “Esse aqui é o melhor, mas o meu saía um pouquinho parecido”.
José Félix, 50. “Dá sustança, ainda mais com os ovinho de codorna”.
Fanuel Batista, 28. “Meu pai que meu falou (do bar), ele tomava aqui. Aí um vai falando pro outro... Mas não sei do que é feito”. Taíres Marques, 19. “Não tomo, e nem quero experimentar”. Bernardo Viol, 5 meses.
Evaldo Nazaré, 22. “Meu pai que me trouxe aqui”. Lorraine Oliveira, 18. “Minha vó fazia geleia de mocotó. Eu passava tanto no meu cabelo e o trem parecia catarro que eu comecei a ter nojo”.
Silvia Januária, 40. “Morar em Minas e nunca tomar um caldo de Mocotó é a mesma coisa que morar em Minas e não comer um pão de queijo”. Lenison Cunha, 26. “Ela me disse que era forte, bom pra gripe, bom pra energia. Eu tinha achado estranho tomar a cerveja gelada e o caldo quente, mas é bom”.
Rafael Molecaro, 31. “O caldo eu já tinha tomado. Nós somos do interior, então...”. André Urani, 28. “Hoje, a gente fez um roteiro tradicional. Fomos no Café Palhares, juntamos, e viemos aqui toma um caldo”.
Eliziete, 28. “Todo sábado passo aqui pra tomar um caldo, isso ai já é registrado. Hoje eu trouxe ela aqui, minha amiga Romilde”.
Ronaldo Viana, 59. “É aquela tradição, cê vai no mercado central, cê tem que passar aqui pra tomar um caldo”. João Júlio Gonçalves, 46. “Na minha família é assim: todo ano cê tem que tomar um caldo de mocotó, porque dá sustentação pra gente”.
Oscar Eustáquio, 65. “Às vezes a gente faz, mas não é tanto da qualidade que a gente toma aqui nos bares. O deles é mais gostoso”. Emerson Costa, 35. “Nessas oportunidades de encontro familiar, a gente reúne e vem aqui tomar o caldo. Nosso ritual”. Isabele Nascimento, 31. “Eu já experimentei, mas não gostei. Eu venho pra acompanhar, porque eles bebem e eu dirijo”.
Paulinho Preto, 56. “Minha família é da roça e realmente nós fazia o caldo de mocotó. Hoje o caldo de mocotó é diferenciado”.

 

A tradição por detrás do balcão

 

O caldo de mocotó marcou e marca a família Corrêa. Raimundo de Assis Corrêa, mais conhecido como Nonô, levou seis meses para chegar a uma receita que julgasse boa o suficiente para colocar à venda. Em uma barraquinha de zinco na região do Barreiro, Nonô começou a vender o caldo em 1964. Desde o começo, o trabalho em família teve papel fundante para o bom funcionamento do comércio.

Alaydes Conceição Corrêa, esposa de Raimundo, ajudava na confecção do caldo. Suas tarefas incluíam limpar, serrar e fritar o pé do boi. O casal teve dez filhos e a maioria deles trabalhou junto ao pai em algum momento de suas vidas. Com ele aprenderam não só a receita e os truques para preparar a iguaria, mas também a valorizar e bem exercer seu ofício de comerciante.

Nonô decidiu abrir um segundo bar, além daquele que mantinha no Barreiro. Em 1969, a movimentada região central ganhava um estabelecimento que se tornaria parada obrigatória para muitos: Rua dos Tupis, nº 587. O espaço ficou pequeno para a quantidade de clientes e Nonô optou por ocupar um novo endereço, o número 577, ainda na Rua dos Tupis. O plano era expandir a loja para a Avenida Amazonas, o que veio a se realizar somente depois de sua morte.

Hoje, o bar é administrado por cinco dos filhos, conhecidos também como os cinco Nonôs: Nívio, Décio, Clelson, Crélio e Dênio. Eles dividem os horários de trabalho entre si e são raras as vezes em que nenhum deles se encontra no estabelecimento, que possui atualmente cerca de 20 funcionários.

Ernani da Silva, 51. “Trabalho aqui há 25 anos. Tenho um filho de 12 e uma filha de 16, eu que ensinei a tomar. Eles falam ‘leva caldinho para mim’, todo mundo toma. O caldo é um vício, tomou uma vez… não tem jeito”.
Rafael Esteves, 26. “Eu trabalho aqui vai fazer seis anos. Eu comecei (a tomar caldo de mocotó) quando entrei aqui mesmo. Todo dia eu tomo. De manhã cedo, um ou dois caldinhos tem que ter”.

 

O caldo de mocotó está presente na história da família de Ernani, de Rafael, Côrrea e de tantas outras… Funcionários, clientes antigos, curiosos e novos amantes. A tradição continua viva e se refaz dia após dia, caneca por caneca. A depender de Décio dos Santos, um dos cinco Nonôs, isso não tem fim à vista:

A gente também quer mocotó

 

Em uma tarde movimentada no Bar do Nonô, nós finalmente pedimos nossa caneca do caldo acompanhada dos inseparáveis pão francês e cerveja Caracu. Seja por estranhamento de uma juventude alheia à tradição ou até mesmo pelo preconceito com a parte “não nobre” do boi, nunca havíamos provado o mocotó até então. Saímos do imaginário e vivemos, de fato, essa experiência.

Aline Azevedo

“É tipo caldo de mandioca, só que não”.

Carolina Resende

Com o estômago pouco entendido do assunto, está digerindo o mocotó até agora.

Kaio H Silva

Provou, fez cara feia e prefere a música do Jorge Ben. 

 

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