O “funcionamento” da moradia “República Lar Doce Lar”?
Por Vinicius Henrique Granussi
Prólogo
O dia da mudança chegou. Não levei muita coisa: duas malas abarrotadas de roupas, uma mochila com alguns livros e meu notebook, além de um ventilador desmontado dentro de uma caixa que quase me impediu de viajar por excesso de bagagem no ônibus.
Quando descobri que havia passado em Jornalismo na UFMG, sabia que teria que encarar a realidade de me mudar da minha pequena cidade no interior de São Paulo para a capital mineira. Logo me deparei com os altos custos de moradia em Belo Horizonte, principalmente na Pampulha, próxima à universidade, onde a especulação imobiliária parece fazer a festa. Não demorou muito para eu aceitar que, dentro das minhas condições financeiras, morar sozinho seria impossível.
Entre inúmeros grupos de WhatsApp, Facebook e sites como OLX e WebQuarto, encontrei um anúncio enviado por um parente: “República Lar Doce Lar”.
O anúncio mostrava uma casa grande. Seu aspecto envelhecido já era aparente, mas ainda parecia estar em bom estado. Dois andares, garagem, área externa para churrasco e piscina. O anúncio oferecia três quartos vagos, cada um com cama de casal, armário e uma escrivaninha acompanhada de uma cadeira de plástico.
Outra informação importante era o fato de a república ser mista, algo que me chamou atenção por parecer incomum, já que a maioria costuma ser exclusivamente masculina ou feminina. O anúncio também deixava claro que a casa tinha 12 moradores. A quantidade de pessoas me assustou quando vi aquilo pela primeira vez, mas a localização e o valor eram bons demais para deixar a oportunidade passar (E “valor bom” em Belo Horizonte já é um conceito bastante relativo). Mal sabia eu que, em apenas um ano, os aluguéis da região conseguiriam aumentar ainda mais.
Entrei em contato com a anunciante, que depois descobri ser a “dona” da casa (não precisamos entrar em detalhes jurídicos). Ela explicou rapidamente como funcionava a residência, enviou alguns vídeos do interior da casa e, em poucos minutos, o acordo estava fechado. Eu nem sequer questionei o fato de não precisar visitar o imóvel antes.
Saí de Ribeirão Preto por volta das 20h30 e cheguei cedo a Belo Horizonte, aproximadamente às 5h30 da manhã. O ônibus da Buser nos deixou próximo ao Expominas e, de lá, chamei um Uber até o endereço da casa.
Foi aí que tomei o primeiro susto.
Eu não estava acostumado a pagar tão caro em uma corrida e muito menos esperava gastar mais de cem reais logo nas primeiras horas na cidade. Posteriormente entendi que aquilo fazia parte da experiência belo-horizontina e do trânsito caótico da capital. Naquele momento, porém, parti rumo à casa com o coração doendo mais pela corrida do que pela saudade.
A rua onde a república fica localizada me deu uma das primeiras “boas-vindas” em BH: uma subida completamente íngreme, daquelas que parecem nunca terminar.
Quando parei em frente à casa, ela parecia exatamente igual ao anúncio. Logo fui recebido pelo marido da “dona”, que mora relativamente perto dali e costuma recepcionar novos moradores.
Ao entrar, tive mais uma surpresa: a casa não possuía dois andares, mas três. O terceiro ficava abaixo do nível da rua, quase como um subterrâneo. Lá embaixo havia dois quartos; no primeiro andar, outros seis moradores; e no segundo, mais quatro, totalizando os doze residentes anunciados.
A casa possui apenas dois banheiros, algo que inicialmente me preocupou pela quantidade de gente. Mais tarde descobri que dois quartos eram suítes, o que não resolvia exatamente a matemática entre banheiros e moradores, mas já representava algum avanço.
A cozinha principal até conseguia comportar todos os moradores ao mesmo tempo, mas bastavam quatro pessoas para a sensação de claustrofobia aparecer. Mesmo assim, o espaço acomodava uma geladeira, um fogão de seis bocas (das quais apenas três funcionavam), duas pias e um armário grande, deixando um espaço razoável para circulação.
Tudo isso acompanhado de uma assustadora caixa de força aberta, potencialmente um foco de incêndio, observando silenciosamente quem cozinha.
Na área da churrasqueira, um espaço coberto ao lado da piscina, existe ainda uma segunda cozinha equipada com outra geladeira e um fogão de quatro bocas, milagrosamente todas funcionais.
Ali também existe um “projeto” de churrasqueira. Ela possui todos os elementos de uma churrasqueira comum: tijolos aparentes, grelha, espaço para o carvão. O único detalhe é que não possui saída de fumaça conectada ao telhado. Posteriormente me contaram que, quando utilizada, costumava defumar o churrasqueiro e espalhar fumaça por praticamente toda a área externa.
Os banheiros ficam distribuídos entre o primeiro e o segundo andar. Ambos possuem pia, privada e chuveiro. A diferença é que o banheiro do primeiro andar originalmente era apenas um lavabo, transformado improvisadamente em banheiro após a instalação de um box de vidro e de um chuveiro cuja fiação completamente exposta parecia desafiar qualquer norma básica de segurança.
O primeiro morador a me receber, porém, não foi nenhum humano.
Foi Chico.
Um pequeno cachorro vira-lata cuja raça mais próxima talvez fosse um salsicha. A idade dele era um mistério. Sempre que eu perguntava para algum dos moradores mais antigos, recebia respostas extremamente vagas, algo entre cinco e nove anos. Ainda assim, já era possível perceber alguns pelos brancos surgindo em meio à pelagem preta petróleo.
Chico originalmente era o cachorro da “dona” e vivia em um sítio, mas chegou à república por volta de 2020, após um episódio em que um morador de rua entrou na casa durante a madrugada depois de esquecerem o portão aberto. Segundo o que me contaram, foram levadas roupas do varal, comida e alguns objetos da casa.
A função de Chico seria proteger a residência.
Depois de um tempo convivendo com ele, cheguei à conclusão de que provavelmente não faria muita diferença caso já estivesse ali naquela noite. Talvez até mesmo ajudasse na parte de pegar comida.
Logo depois, fui apresentado ao local que seria meu primeiro quarto.
Desci as escadas que levavam para uma espécie de área de transição entre o primeiro andar e o subterrâneo. À direita ficava a sala: um espaço relativamente grande, com um sofá marrom, um ventilador de teto faltando duas hélices (Ele não é utilizado) e uma televisão de 43 polegadas apoiada em uma estante presa à parede. Era também por ali que se acessava a área externa da casa e que dá para a piscina e o espaço para churrasco.
À esquerda ficava meu quarto.
Assim como boa parte dos cômodos da república, ele claramente parecia ter sido outra coisa antes de se transformar em dormitório. As paredes de vidro, completamente inimigas da privacidade, e o formato em L davam a impressão de que o espaço talvez tivesse sido uma segunda sala ou até uma copa.
Havia também uma janela minúscula, tão pequena e claustrofóbica que parecia existir mais como elemento decorativo do que propriamente para ventilar o ambiente.
Depois disso, me despedi do marido da dona e fiquei oficialmente sozinho em minha nova morada.
Conheci alguns moradores, João e Augusto, que hoje já não vivem mais na casa atualmente, mas que rapidamente me apresentaram à dinâmica básica da república: o calendário para retirar o lixo, a escala da máquina de lavar e os espaços individuais reservados nos armários da cozinha.
Assim terminou meu primeiro dia naquele Lar Doce Lar.
Domingo
O domingo começa cedo na república Lar Doce Lar. Mesmo no único dia da semana em que a maioria poderia dormir até mais tarde, é comum encontrar moradores circulando pela casa, cada um preso à própria rotina.
Entre eles está Nayane, estudante de Engenharia Química, de 20 anos, natural de Montes Claros. Ela decidiu acordar às 6h para estudar. Durante sua sessão matinal, acabou encontrando Pedro, um dos poucos moradores da casa que não é estudante, mas servidor público da UFMG. Carioca, 31 anos, Pedro não estava acordando.
Estava voltando para casa completamente bêbado depois de uma noite de bebedeiras.
Os dois se encontraram sentados na mesa da área externa da casa. Pedro ficou genuinamente indignado ao descobrir que uma universitária daquela idade estava acordada naquele horário para estudar ao invés de estar chegando “louca” em casa ou dormindo até as 11h da manhã.
Depois de um ano vivendo na Lar Doce Lar, comecei a entender como certas coisas funcionam na casa. A maioria dos moradores raramente utiliza os mesmos espaços ao mesmo tempo, mas, curiosamente, sempre acabam precisando da cozinha ou do banheiro exatamente nos mesmos horários. Aos poucos, cada morador aprende a rotina dos outros quase por sobrevivência.
Ultimamente, a geladeira da cozinha de dentro tem sido um problema. Ela começou a emitir um som constante ao longo do dia, algo entre um gemido de dor e um suspiro cansado implorando para que alguém encerrasse seu sofrimento. Talvez seja consequência da superlotação.

Os moradores não possuem espaços separados dentro das geladeiras. O armazenamento funciona mais como uma disputa silenciosa por frestas disponíveis, principalmente na geladeira de dentro, a mais acessível da casa.
A dona da república é responsável pela maioria dos custos: gás, produtos de limpeza e, ocasionalmente, móveis novos (quando quer). Há alguns meses, ela demonstrou boa vontade ao anunciar a compra de uma terceira geladeira para resolver o problema da superlotação.
Quando chegou, era uma geladeira usada e quebrada.
Até hoje ela permanece encostada em uma parte da área externa, acumulando poeira e tomando sol, aguardando uma promessa de conserto que provavelmente nunca chegará. Enquanto isso, os moradores e a geladeira principal seguem esperando por algum respiro.
O domingo também marca o dia em que alguns moradores preparam comida para a semana inteira. Muitos escolhem cozinhar em casa ao invés de depender exclusivamente do Restaurante Universitário.
Uma dessas pessoas é Estér, uma das poucas mulheres da república ao lado de Nayane. Natural de Esmeraldas, Minas Gerais, ela cursa Enfermagem e costuma receber visitas frequentes da mãe aos finais de semana.
Surpreendentemente, a maior parte dos hábitos alimentares da casa são relativamente saudáveis (Pelo menos para a maioria dos moradores). Estér costuma preparar legumes cozidos, assados e refeições pouco baseadas em frituras ou alimentos ultraprocessados.
Ela e a mãe normalmente ocupam a cozinha externa durante boa parte do domingo. Enquanto cozinham, colocam a conversa da semana em dia, riem, comentam sobre a rotina e conversam com outros moradores que passam por ali em direção à geladeira ou acabam parando para almoçar junto delas na mesa de plástico branca cercada por quatro cadeiras, posicionada ao lado da churrasqueira, enquanto o Chico sempre acompanha tudo de perto, torcendo para cair alguma coisa.
Maria, mãe de Estér, é psicóloga e parece sempre tentar deixar algum conselho sobre a vida, principalmente para os rapazes da casa. No geral, aparenta gostar da república e não demonstra incômodo em que sua filha divida o espaço com tantos homens.
Sua única reclamação recorrente é a louça.
Segundo ela, “é algo simples de limpar”.
Ainda assim, já no domingo, o misterioso caos acumulado nas pias da casa começa lentamente a dar os primeiros sinais de existência.
Segunda
A segunda-feira começa antes das sete da manhã.
Na cozinha de dentro, o cheiro das panquecas de banana de Estér disputa espaço com o café preparado por Nayane. Enquanto uma organiza o café da manhã antes de sair para a faculdade, a outra tenta garantir algumas calorias para sobreviver ao restante do dia. Ao fundo, a geladeira continua emitindo seu lamento mecânico, um som que os moradores parecem ter incorporado à paisagem sonora da casa.
Nayane costuma ter aulas logo cedo. Pouco depois das sete ela já desapareceu pela porta da frente da casa.
Outro personagem frequente das manhãs é Gabriel, estudante de Engenharia de Produção e natural de Poços de Caldas. Diferente da maioria dos moradores, ele trabalha em regime de home office e passa boa parte dos dias dentro da república. Gabriel é adepto de uma rotina que parece cada vez mais rara entre universitários: dorme cedo, acorda cedo e diz se sentir melhor vivendo assim.
Seu principal desafio matinal costuma ser dividir o banheiro com os moradores que precisam sair para a aula. Não é raro encontrar Estér sentada na escada aguardando pacientemente enquanto Gabriel termina seu banho e se prepara para começar mais um dia de trabalho.
Com o passar da manhã, a casa vai esvaziando.
As portas dos quartos se fecham, o movimento diminui e os sons da república dão lugar ao silêncio. Restam apenas Gabriel trabalhando em algum canto da casa- geralmente na mesa da área externa- e Chico, que provavelmente passa esse período dormindo em alguma posição estranha no sofá.
Quando a tarde começa, a Lar Doce Lar volta lentamente à vida.
Os moradores retornam das aulas, a cozinha volta a ser ocupada e algumas conversas começam a surgir espontaneamente. É nesse horário que costuma acontecer uma reunião informal envolvendo Nayane, Gabriel e Hubert.
Ninguém marcou aquele encontro. Ele simplesmente acontece.
Basta duas pessoas aparecerem na cozinha para que a terceira surja pouco depois.
Em questão de minutos, a conversa pode sair de uma prova difícil, passar por gostos musicais completamente incompatíveis e terminar em desabafos sobre relacionamentos ou crises existenciais. Algumas vezes os assuntos se tornam tão pessoais que fica difícil entender como aquela conversa está acontecendo justamente na cozinha de uma casa com doze moradores.
Hubert, que ainda não havia sido apresentado, é natural de Boa Vista, em Roraima, e estudante de Medicina. Além de ser o morador mais jovem da casa, também é quem vive mais distante da família.
Apesar do Campus Saúde, onde atualmente acontecem suas aulas, ficar em outra região de Belo Horizonte, Hubert continua morando na Pampulha. Inicialmente, a escolha fazia sentido pela proximidade com as disciplinas dos primeiros períodos. Depois, permaneceu por gostar da rotina da república, apesar de todo o caos que a acompanha.
Hubert também ocupa atualmente o primeiro quarto em que morei quando cheguei à casa. Um cômodo que abandonei na primeira oportunidade que tive. Ele, no entanto, parece gostar bastante.
Quando a noite começa a chegar, a cozinha muda novamente de dono.
Se no domingo ela pertenceu a Estér e às marmitas preparadas ao lado da mãe, na segunda-feira costuma ser a vez de Nayane assumir o espaço. Diferente da colega, ela prefere utilizar a cozinha de dentro da casa, transformando o ambiente em uma espécie de laboratório culinário improvisado.
Uma das características mais marcantes de sua rotina é a organização. Enquanto a maioria dos moradores guarda temperos em embalagens abertas, sacolas ou recipientes reaproveitados, Nayane mantém todos cuidadosamente separados em potes. Há páprica, açafrão, orégano, alho em pó, pimenta e uma infinidade de outros condimentos que ela consegue incorporar nas refeições da semana.
O resultado costuma ser relativamente previsível. Em algum momento da noite, uma panela de frango desfiado estará sobre o fogão. Em outro, alguma travessa receberá uma quantidade considerável de carne de soja.
A insistência nesse último ingrediente sempre chamou minha atenção.
A própria Nayane admite que carne de soja não é exatamente saborosa. Ainda assim, continua comprando, temperando, preparando e consumindo o produto semanalmente, como se estivesse presa a algum compromisso misterioso que apenas ela conhece.
Talvez seja economia. Talvez praticidade. Talvez pura teimosia.
Outro personagem também retorna ao cenário.
Depois de mais um dia de trabalho, Pedro costuma seguir um ritual quase religioso: pegar um cigarro e caminhar até a área da churrasqueira.
Ali ele fuma, observa o movimento da casa e conversa com qualquer pessoa que passe pelo caminho.
Se for final de semana, provavelmente haverá cerveja acompanhando o cigarro.
Se for dia de semana, apenas o cigarro já basta.
Independentemente de quem esteja passando, basta demonstrar um mínimo de interesse para que Pedro comece a contar alguma história. Geralmente envolve o trabalho, algum acontecimento engraçado com sua família ou uma situação absurda que viveu recentemente.
Se a outra pessoa der corda, corre o risco de permanecer ali por uma ou duas horas sem perceber.
Pedro é o segundo morador mais antigo da república. Há quatro anos ocupa uma das suítes da casa e se descreve como alguém que gosta de aproveitar a vida. Diz não ter planos de casar ou ter filhos e afirma que seu principal objetivo é chegar vivo aos quarenta anos.
O resto ele pretende resolver no caminho.
Quando foi aprovado no concurso da UFMG, escolheu morar na região central de Belo Horizonte para ficar mais próximo da vida boêmia da cidade. O problema é que a diversão noturna veio acompanhada de longos deslocamentos diários até o trabalho.
Foi isso que o trouxe para a Pampulha.
E, consequentemente, para a Lar Doce Lar.
No começo, ele não tinha certeza se estava preparado para morar em uma república depois dos trinta anos. Acabou se adaptando rapidamente. Segundo ele, a casa era muito mais agitada naquela época, com festas, churrascos e bebedeiras acontecendo com frequência.
Hoje, a definição é outra.
Pedro costuma dizer que a república se transformou em um “lar de idosos”.
A ironia é que, sendo um dos moradores mais velhos da casa, ele parece ser justamente um dos mais jovens quando o assunto é disposição para sair, beber e transformar uma segunda-feira comum em alguma história para contar na área da churrasqueira.
Enquanto isso, a louça acumulada desde o domingo segue discretamente ocupando parte das pias. Ainda não é um problema. Ainda.
Terça
Se a segunda-feira ainda carrega a sensação de recomeço, a terça marca o retorno definitivo à normalidade.
Os horários já estão ajustados, os moradores voltaram às suas rotinas e a casa parece funcionar em piloto automático. Os mesmos banheiros voltam a ser disputados pela manhã, as mesmas panelas reaparecem sobre o fogão e as mesmas pessoas cruzam os mesmos corredores em horários previsíveis.
Ao longo de um ano morando na Lar Doce Lar, aprendi que algumas cenas simplesmente se repetem.
É comum encontrar alguém sentado na escada esperando o banheiro desocupar. Também é comum entrar na cozinha procurando um copo e acabar participando involuntariamente de uma conversa iniciada por outras pessoas. Em uma casa com doze moradores, a privacidade existe, mas nunca completamente.
Entre todos os moradores, talvez ninguém tenha uma rotina tão diferente quanto Walter.
Natural de Luanda, capital de Angola, ele tem 35 anos e faz doutorado em Pedagogia na UFMG. Para estudar no Brasil, precisou deixar temporariamente a esposa e os filhos em seu país de origem.
Seus horários de refeição desafiam qualquer lógica que os demais moradores consideram normal. Enquanto boa parte da casa já está pensando no jantar, Walter frequentemente está almoçando. Não é raro vê-lo preparando sua primeira refeição principal do dia por volta das quatro da tarde. Da mesma forma, quando alguns moradores já estão encerrando a noite, ele ainda está organizando seu jantar, muitas vezes próximo das dez horas.
Apesar das diferenças de rotina, Walter se tornou uma figura conhecida pelas observações que faz sobre a casa. Uma de suas teorias mais recorrentes envolve a louça acumulada na pia.
Segundo ele, existe um fantasma morando na Lar Doce Lar
A explicação seria simples.
Todos afirmam lavar aquilo que utilizam.
Todos parecem falar a verdade.
Mesmo assim, o número de pratos, copos, panelas e talheres cresce continuamente ao longo da semana.
Para Walter, não existe outra explicação plausível. Alguma entidade invisível estaria produzindo louça durante a madrugada!
A teoria pode não ser cientificamente comprovada, mas conforme a pilha de utensílios aumenta, ela passa a fazer cada vez mais sentido.
Walter também costuma fazer comentários frequentes sobre Chico.
Segundo ele, é o cachorro mais louco que já conheceu (A avaliação não parece completamente injusta). Chico desenvolveu o hábito de anunciar o retorno dos moradores. Basta alguém passar o dia inteiro fora para que ele corra em direção ao portão e comece uma sequência de choros, pulos e latidos que lembram mais um reencontro depois de vários anos do que algumas horas de ausência. Ele também arranha portas em busca de atenção, reage como se tivesse ganhado na loteria sempre que alguém menciona a palavra "passear" e mantém uma atividade paralela que parece levar bastante a sério: a caça esportiva de gambás e pombas que aparecem pelo quintal.
Entre todos os moradores, Nayane é quem mais assume responsabilidades sobre ele. Autoproclamada cuidadora oficial, ela costuma cuidar da ração, dos banhos e das tentativas de passeio.
A palavra "tentativas" é importante.
Antes de qualquer caminhada existe sempre uma negociação delicada para conseguir colocar a coleira em um animal que, ao perceber a possibilidade de sair para a rua, parece esquecer completamente como se comportar.
No restante da noite, a rotina segue seu curso habitual.
Hubert, Gabriel e Nayane ocupam novamente a mesa da área externa em alguma combinação de estudos, conversas e distrações. Livros, cadernos, notebooks e garrafas de água disputam espaço enquanto os assuntos alternam entre provas, trabalhos e temas completamente aleatórios.
Poucos metros adiante, Pedro realiza mais uma de suas tradicionais sessões de cigarro. A fumaça sobe lentamente, junto com o final do dia.
Quarta
A quarta trouxe a confirmação de uma suspeita que já vinha se desenhando desde o início da semana: metade da casa parecia estar ficando doente ao mesmo tempo.
Durante os dias anteriores, alguns moradores comentavam sobre a necessidade de atualizar a carteira de vacinação. A ideia era simples. Escolher um horário, ir até um posto de saúde e resolver a situação. Como acontece com a maioria dos planos coletivos da Lar Doce Lar, a conversa avançou muito mais do que a execução.
O resultado começou a aparecer poucos dias depois.
Primeiro surgiram os espirros.
Depois a dor de garganta.
Em seguida, a tosse.
Hubert insistia que estava perfeitamente saudável, embora interrompesse as próprias frases para fungar.
Gabriel atribui a culpa ao clima de Belo Horizonte.
Nayane culpava qualquer pessoa que tivesse colocado os pés em uma sala de aula nos últimos dias.
Como sempre acontece em situações assim, o principal objetivo deixou de ser melhorar e passou a ser descobrir quem havia sido o paciente zero.
Nenhum culpado foi encontrado.
Mesmo gripados, os hábitos permaneceram praticamente os mesmos. No período da tarde, os três continuaram ocupando a mesa da área externa. A diferença era a presença de garrafas de água, pastilhas para garganta e uma quantidade considerável de lenços de papel espalhados entre cadernos, livros e notebooks.
As sessões de estudo continuavam acontecendo normalmente, interrompidas apenas por espirros ocasionais e discussões sobre qual medicamento funcionava melhor para aliviar os sintomas.
Em uma casa com doze moradores, nem todos são vistos diariamente. Alguns aparecem em praticamente todas as refeições e conversas. Outros possuem rotinas tão diferentes que passam dias sem serem encontrados.
Existem moradores que saem antes de quase todos acordarem e retornam quando a maioria já está dormindo. Às vezes, a única evidência de que continuam vivendo na casa é uma luz acesa sob a porta do quarto durante a madrugada ou algum alimento novo surgindo na geladeira.
A própria comunicação da república ajuda a diminuir essas ausências.
O grupo de WhatsApp funciona como uma extensão da casa. É nele que surgem avisos sobre entregas, contas, visitas inesperadas e pequenos problemas do cotidiano. Também é nele que aparecem discussões que dificilmente aconteceriam presencialmente.
Naquela semana, por exemplo, alguém voltou a reclamar do barulho da geladeira da cozinha de dentro. O aparelho continuava emitindo seu lamento metálico quase ininterruptamente.
Alguns moradores concordaram que o som estava pior. Outros disseram que já nem percebiam mais. Nenhuma solução foi tomada.
Como costuma acontecer com vários problemas da casa, a conversa terminou antes que qualquer providência começasse.
Mas o principal acontecimento do dia não envolveu a gripe.
Veio através do mesmo grupo de WhatsApp da república.
No início da tarde, uma nova mensagem enviada por Gabriel chamou a atenção dos moradores.
A fotografia mostrava Chico ao lado de seu pote de ração.
Dentro dele havia uma calcinha.

A legenda era simples:
"Chico roubou a calcinha de alguém."
A teoria elaborada por Gabriel era de que a peça provavelmente havia caído do varal e sido encontrada pelo cachorro durante uma de suas patrulhas pelo quintal. Como quase tudo envolvendo Chico, a hipótese parecia perfeitamente plausível.
A foto rapidamente se transformou no principal assunto do grupo.
Surgiram piadas.
Surgiram teorias.
Surgiram tentativas de identificar a dona da peça.
As investigações não avançaram muito.
Poucas pessoas estavam dispostas a se apresentar voluntariamente como proprietárias de uma calcinha encontrada dentro do pote de ração do cachorro da casa.
Enquanto isso, Chico demonstrava absoluta indiferença diante da repercussão causada.
Passou o restante da tarde dormindo. Entre todos os moradores da Lar Doce Lar, ele é o único que consegue provocar um acontecimento coletivo sem precisar dizer uma única palavra.
Quinta
O feriado começou antes mesmo de começar.
Desde a noite anterior já era possível ouvir conversas sobre horários de ônibus, caronas, passagens compradas de última hora e o eterno medo de perder o despertador. A quinta-feira trouxe algo relativamente raro para a Lar Doce Lar: a possibilidade de alguns moradores passarem alguns dias longe da casa.
Logo pela manhã, malas começaram a aparecer pelos corredores.
Mochilas maiores que o habitual surgiram ao lado das portas dos quartos. Roupas desapareceram dos varais mais rápido que o normal. Carregadores, notebooks e roupas espalhadas sobre camas passaram a ser organizados às pressas poucas horas antes da partida.
Em uma casa formada majoritariamente por estudantes que vieram de outras cidades, um feriado prolongado tem significados diferentes para cada morador.
Para alguns, representa a oportunidade de reencontrar a família depois de semanas ou até meses.
Para outros, significa apenas alguns dias sem aulas.
Nem todos podem voltar para casa com facilidade.
Enquanto alguns enfrentam poucas horas de estrada, outros vivem longe o suficiente para que qualquer visita exija planejamento, dinheiro e muito tempo de deslocamento.
Ao longo do dia, a movimentação foi constante.
Portões abrindo.
Motoristas de aplicativo chegando.
Malas sendo arrastadas pela calçada.
Despedidas rápidas.
Na Lar Doce Lar, ninguém parece muito adepto de grandes cerimônias.
As despedidas costumam durar poucos segundos.
"Boa viagem."
"Manda mensagem quando chegar."
E então a pessoa desaparece pelo portão.
Chico parecia ser o único verdadeiramente interessado em acompanhar cada partida.
Durante boa parte do dia, seguiu moradores até a porta, observou malas sendo carregadas e correu pelo quintal tentando entender o motivo de tanta movimentação. Talvez acreditasse que todos estavam indo passear sem ele.
Até mesmo a cozinha começou a refletir a mudança.
Pela primeira vez na semana surgiram espaços vazios na geladeira. Alguns potes de marmita desapareceram. Frutas foram levadas para viagens. Restos de comida foram consumidos antes da partida ou jogados fora.
A sensação era estranha.
Durante dias os moradores reclamaram da falta de espaço.
Agora havia prateleiras parcialmente livres.
A geladeira, no entanto, continuava emitindo seus ruídos habituais, completamente indiferente à redução temporária de sua carga de trabalho..
Pouco a pouco, a casa foi ficando mais silenciosa.
Os corredores ficaram menos movimentados.
As filas para o banheiro desapareceram.
A cozinha passou longos períodos vazia.
Ao final da noite, a Lar Doce Lar ainda estava ocupada.
Mas já não parecia a mesma casa.
Alguns quartos permaneceram fechados.
Algumas camas, vazias.
E pela primeira vez naquela semana, o silêncio começava a disputar espaço com os moradores que haviam ficado.
Sexta
A sexta-feira revelou uma versão da Lar Doce Lar que raramente existe.
Ao longo da semana, a casa parece funcionar como um organismo em constante movimento. Portas abrindo, pessoas conversando, panelas batendo e chuveiros ligados criam um ruído permanente que, com o tempo, deixa de ser percebido.
Naquela sexta, boa parte desse ruído desapareceu.
Os moradores que haviam viajado no dia anterior continuavam fora. Os que permaneceram em Belo Horizonte aproveitaram o feriado para passar o dia fora de casa. Alguns foram encontrar amigos. Outros saíram para passear pela cidade. Houve até quem simplesmente aproveitasse a oportunidade para passar o dia inteiro na universidade ou em alguma biblioteca.
Por vários momentos, a casa ficou completamente vazia.
Não quase vazia. Vazia.
Sem conversas.
Sem portas batendo.
Sem alguém perguntando se ainda havia arroz na panela.
Sem ninguém ocupando a cozinha.
O silêncio causava uma sensação estranha.
Depois de um ano morando ali, percebi que já havia me acostumado tanto com a presença constante de outras pessoas que a ausência delas parecia deslocada.
A Lar Doce Lar foi feita para doze moradores.
Quando apenas dois ou três estão presentes, ou quando ninguém está, a casa parece maior.
Os corredores parecem mais longos.
Os quartos fechados chamam mais atenção.
Até a área da churrasqueira, normalmente ocupada por alguém estudando, fumando ou simplesmente conversando, parecia abandonada.
Foi também nesse silêncio que alguns detalhes normalmente ignorados se tornaram impossíveis de não perceber.
O barulho da geladeira continuava lá.
Sem as vozes dos moradores para encobri-lo, o som parecia ainda mais alto.
O relógio da cozinha fazia um pequeno estalo a cada segundo.
O vento balançava algumas folhas secas próximas à piscina.
Em algum momento da tarde, Chico atravessou a casa inteira apenas para verificar se realmente não havia ninguém em algum cômodo.
Parecia tão confuso quanto qualquer outro morador estaria.
Acostumado a receber atenção praticamente o tempo inteiro, passou boa parte do dia alternando entre o sofá da sala, a área externa e a porta de alguns quartos fechados.
Quando a noite chegou, a sensação se intensificou.
Normalmente esse seria o horário em que os moradores começariam a retornar das aulas, do trabalho ou dos estágios. As luzes dos quartos se acenderiam aos poucos e a cozinha voltaria a receber visitas frequentes.
Naquela sexta, não.
A maior parte das camas continuava vazia.
Os corredores permaneciam silenciosos.
A casa inteira parecia estar esperando.
Pela primeira vez durante a semana, a Lar Doce Lar deixou de parecer uma república estudantil e se aproximou daquilo que originalmente era: apenas uma casa.
Bonita ou feia.
Organizada ou caótica.
Mas apenas uma casa.
E talvez tenha sido justamente naquele vazio temporário que ficou mais evidente algo que normalmente passa despercebido.
Não são as paredes, os quartos ou os móveis que fazem a Lar Doce Lar existir.
São as pessoas.
E, por alguns instantes naquela sexta-feira, a ausência delas foi a presença mais perceptível da casa.
Sábado
Por volta das seis da manhã, quando a maioria dos moradores ainda dorme, Neide já está acordada. Há dois anos ela é responsável pela limpeza da Lar Doce Lar, trabalho que conseguiu após ser indicada por Pedro, que a conheceu enquanto ela trabalhava em um dos prédios da UFMG.
Ela possui uma cópia própria das chaves da casa.
Por isso, quando os primeiros moradores começam a despertar, geralmente ela já está trabalhando.
É comum encontrá-la esfregando o chão da cozinha antes mesmo do café da manhã. Um piso marcado por pegadas, pelos de cachorro e manchas deixadas por refeições preparadas às pressas ao longo da semana.
Neide conhece a casa melhor do que muitos moradores.
Conhece os cantos onde a poeira se acumula.
Os lugares favoritos de Chico para dormir.
Os armários onde objetos desaparecidos reaparecem semanas depois.
E conhece, principalmente, a capacidade quase sobrenatural dos moradores de produzir louça.

Walter talvez chamasse isso de atividade paranormal.
Neide chama apenas de rotina.
Mais de uma vez ela já comentou que pensou em abandonar o trabalho por causa da quantidade de pratos, copos, panelas e talheres que encontra acumulados. O mesmo vale para o lixo da cozinha, que frequentemente parece funcionar segundo regras inspiradas em uma partida de Tetris.
Em teoria, basta retirar o saco.
Na prática, os moradores preferem descobrir quantos objetos ainda podem ser empilhados antes do colapso estrutural.
Não raramente, ela mesma acaba lavando parte da louça e retirando o lixo para conseguir limpar a cozinha adequadamente.
Seu percurso pela casa segue quase sempre a mesma ordem.
Entra na casa, desce as escadas.
Primeiro os banheiros.
Depois a sala.
Por último a cozinha.
Ao longo do caminho, é comum ouvir comentários dirigidos a ninguém em particular.
"Meu Deus..."
"Como isso foi parar aqui?"
"Não é possível..."
Pequenas reflexões que parecem surgir naturalmente diante de algumas descobertas.
Enquanto esfrega o chão da sala, água escura costuma surgir debaixo do sofá onde Chico passa boa parte dos dias dormindo. Em algum momento da manhã, moradores começam a aparecer pelos corredores, desviando dos baldes, panos e rodos enquanto desejam um rápido "bom dia".
Apesar das reclamações, Neide guarda carinho pelos moradores.
Costuma dizer que, quando chega e vê o estado da casa, pensa que todos são verdadeiros monstros.
Poucas horas depois, já voltou a conversar e brincar com eles normalmente.
Ela sabe que boa parte da bagunça não nasce da má vontade, mas do ritmo acelerado que acompanha quem trabalha, estuda e tenta manter alguma vida social ao mesmo tempo.
Por volta do meio-dia, seu trabalho está concluído.
Os pisos voltam a aparecer sob a sujeira.
Os banheiros recuperam uma aparência civilizada.
A cozinha fica organizada novamente.
Neide vai embora.
E a casa respira por algumas horas.
O restante do sábado costuma ser tranquilo.
Especialmente em um feriado prolongado.
Pedro, que provavelmente chegou em casa quando o sol já ameaçava nascer, dificilmente aparece antes do início da tarde.
Os sons mais frequentes vêm dos portões abrindo para entregadores de comida. Com menos moradores presentes, muitos preferem pedir almoço e jantar em vez de cozinhar.
As panelas quase não aparecem.
O fogão permanece limpo por mais tempo do que o habitual.
Uma situação rara na Lar Doce Lar.
Durante a tarde, alguns moradores aproveitam para cuidar dos próprios quartos. Baldes, vassouras e sacolas de lixo surgem pelos corredores. Poeira acumulada durante semanas finalmente encontra seu destino.
Outros apenas aproveitam o silêncio.
Lêem.
Dormem.
Assistem alguma coisa no celular.
Quando o sol começa a se pôr, a cozinha volta a receber visitas. Alguém prepara café. Outra pessoa aparece em busca de alguma coisa para comer. Conversas pequenas começam a surgir naturalmente entre aqueles que permaneceram na casa.
À noite, o movimento aumenta um pouco.
Banheiros voltam a ser disputados.
Alguém inevitavelmente esquece que os dois chuveiros não podem ser ligados ao mesmo tempo.
Em poucos segundos, a casa mergulha na escuridão.
Então alguém precisa caminhar até o painel elétrico enferrujado do lado de fora e convencer um disjuntor a voltar para sua posição original.
Alguns moradores se arrumam para sair.
Outros permanecem na sala assistindo televisão.
A maioria simplesmente deixa o sábado seguir seu curso.
E assim mais uma semana chega ao fim.
Uma semana feita de louças acumuladas, espirros compartilhados, geladeiras reclamando, cigarros na área da churrasqueira, sessões de estudo, malas arrastadas pelos corredores e um cachorro que roubou uma calcinha.
No domingo, tudo começará novamente.
Talvez de forma diferente.
Talvez exatamente igual.
Mas certamente continuará sendo mais uma semana no Lar Doce Lar.