Estudantes da UFMG enfrentam uma trajetória marcada por desafios para consolidar seus nomes no cenário artístico.

Por Ana Catarina Souza e Isabela Costa

 

Foto por Ana Catarina Souza – Exposição na Escola de Belas Artes

A alguns quilômetros do centro de Belo Horizonte, artistas em formação ocupam salas, ateliês e corredores no campus Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ali, seis cursos de graduação dedicados às artes são ofertados: Artes Visuais, Dança, Design de Moda, Teatro, Cinema de Animação e Artes Digitais, e Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis. Todos os anos ingressam centenas de estudantes que tentam, ainda durante a graduação, encontrar caminhos para expor seus trabalhos e se inserir em um mercado cultural percebido como restrito e elitista.

Ainda paira sobre o mercado cultural a ideia de um território fechado, quase sempre reservado a poucos. Para quem vem de realidades econômicas menos favorecidas, entrar e se manter nesse universo artístico é uma batalha constante. E para os universitários, isso não seria diferente. Os artistas, em sua maioria, são profissionais autônomos, que estão constantemente em busca de encontrar lugares onde possam expor sua arte, como feiras, espaços independentes, coletivos culturais, museus e galerias.

Por mais que a UFMG ofereça espaços e materiais, não é o suficiente para garantir a consolidação desses artistas. Eles precisam alcançar um público externo e ainda mais amplo, o que torna necessária a busca de espaço em centros culturais, para tentar garantir mais reconhecimento e valorização de sua arte.

BH em sua cena artística

Belo Horizonte é um grande palco cultural e econômico que possui um ecossistema de produção artística bastante estruturado: segundo o MAPA CULTURAL BH (integrado ao SMIIC) do ano de 2021 a 2024, já existem 1.921 espaços culturais cadastrados, entre agentes individuais e coletivos. A cidade conta com cerca de 53 museus e 65 centros culturais, de acordo com o estudo das pesquisadoras Luiza Macedo e Ana Oliveira, publicado em 2022 na revista Licere, do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da UFMG. O Circuito Liberdade, que reúne 22 espaços culturais (museus, centros de arte, arquivos e galerias), teve mais de 7,4 milhões de visitantes em 2024, reforçando a força institucional desses equipamentos para gerar público. Além disso, Belo Horizonte abriga aproximadamente 9% das galerias de arte do Brasil, segundo mapeamento recente do Portal de Cultura – Conexões Artísticas. O que coloca a cidade como um polo relevante no cenário nacional para a produção e exibição de arte contemporânea.

Brígida Campbell, coordenadora do curso de Artes Visuais da UFMG, conta que Belo Horizonte apesar de ter certas precariedades tem um cenário muito rico, com muitas feiras gráficas e muitos eventos, o que possibilita embarcar uma diversidade intrigante de produções e formas de atuação “ a gente tem uma diversidade muito grande na cidade de coisas legais
acontecendo, tanto do ponto de vista autônomo, de pessoas independentes fazendo coisas, quanto no nível do estado também”, declara Campbell.

A fala da coordenadora evidencia que, apesar das limitações estruturais, Belo Horizonte abriga um ecossistema artístico dinâmico, plural e em constante movimento, no qual iniciativas independentes e instituições consolidadas convivem e ampliam as possibilidades de atuação para novos artistas.

Já sobre o diálogo entre a universidade e o mercado artístico de BH, a professora acredita que não há diálogo o suficiente entre as partes. “Claro que há um contato né, assim, nossos estudantes, nossos professores, nossos pesquisadores estão produzindo e estão circulando também as produções na cidade , mas, de fato, eu acredito, que é um ponto que a gente precisa melhorar”, explica.

Essa percepção de distanciamento entre universidade e mercado não é exclusiva da coordenadora, ela também ressoa entre os próprios alunos, que vivem na prática os desafios de se inserir na cena artística e cultural da cidade. Rayane Silva, @rayanesilva_____ , aluna do 5° semestre do curso de Artes Visuais diz que “apesar de existirem alguns espaços dentro da UFMG que realmente abrem portas e oferecem suporte para nós artistas, ainda sinto falta de maior visibilidade institucional fora da ‘bolha’ do prédio Belas Artes.” A fala de Rayane evidencia um problema recorrente: não basta produzir, é preciso circular. E essa mesma impressão se repete entre estudantes mais avançados do curso.

 

Tom, @thomas_t.o.m, aluno do 8° período de Artes Visuais, reforça a crítica ao apontar a falta de articulação institucional: “O mercado em BH para estudantes de arte é bom só em relação a editais. Mas a própria UFMG não tem um bom trabalho de divulgação desses editais, de parceria com instituições etc. Nesse ponto, vemos muito mais artistas da UEMG nesses espaços culturais do que da UFMG”, conta.

 

Estratégias para existir no mercado

Para tentar contrapor essa carência, os alunos estão a todo momento indo atrás de sua própria forma e maneira de furar a bolha e conseguirem levar sua arte para fora do muros da UFMG. Muitos começam pela construção de um portfólio ainda na graduação, participando de projetos, produções audiovisuais e trabalhos colaborativos que fortalecem sua presença profissional. Outros buscam oportunidades fora da UFMG, procurando empregos, estágios ou espaços independentes onde possam mostrar suas produções. A divulgação também se torna parte fundamental: mesmo enfrentando dificuldades, estudantes recorrem às redes sociais e ao boca a boca como forma de ganhar visibilidade. Editais, embora pouco divulgados pela universidade, se tornam uma alternativa recorrente.

Jocosa Pereira, @thejoco, aluna do último semestre de Cinema de Animação e Artes Digitais da UFMG, ao refletir sobre as principais dificuldades enfrentadas pelos alunos no meio artístico. “Acho que a falta de informação de como começar e a falta de estabilidade na área”, afirma. Mas, no final das contas, por mais que muitos sintam que estão caminhando no escuro, ainda sim estão caminhando rumo aos seus sonhos. O percurso desses jovens artistas revela um cenário marcado por contrastes: enquanto existe em Belo Horizonte um ecossistema cultural amplo e vibrante, os caminhos para acessá-lo nem sempre são claros ou disponíveis para quem inicia sua trajetória, mesmo que tenham o privilégio dessa iniciação ocorrer dentro de uma universidade. A UFMG forma talentos, mas ainda tem a falta de uma construção sólida de pontes entre a produção acadêmica e o mercado cultural da cidade.

Diante dessa lacuna, os estudantes seguem criando seus próprios caminhos e trajetos para existir artisticamente para além dos muros do campus. Entre inscrições em editais, redes sociais usadas como vitrine e a busca por espaços independentes que acolham novos trabalhos, eles constroem, passo a passo, sua presença no circuito belo-horizontino. E, apesar das incertezas que há em ser um artista, suas vozes mostram que há persistência, desejo e movimento. É nesse esforço contínuo que a arte feita na universidade encontra maneiras de circular pela cidade e reivindicar seu espaço no cenário cultural da capital mineira.

No fim, não podemos esquecer que fortalecer a cena cultural de Belo Horizonte também passa por nós: acompanhar o trabalho desses artistas em formação, visitar feiras, prestigiar exposições estudantis, compartilhar produções independentes e reconhecer o valor de quem ainda está começando, tanto quanto de artistas já consolidados no meio cultural, é o que permite que sigam encontrando espaço para existir como artista.


* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos