A população LGBTQIAPN+ belo-horizontina promove sua resistência por meio de espaços em que sua luta encontra outras maneiras de se expressar
Por Gabriel Xavier e Lucas Rodrigues

Há uma clássica correlação entre o povo mineiro, sempre lembrado por sua recepção e acolhimento, e sua hospitalidade. Apesar disso, há marcas de um forte tradicionalismo, demonstrado por costumes e valores reforçados ao longo das décadas. Diante disso, a comunidade LGBTQIAPN+ busca por espaços de acolhimento dentro da capital mineira, lidando com as pressões sociais baseadas no conservadorismo, enquanto persiste em criar espaços de vivência dentro da cidade. Como uma “Metamorfose Ambulante”, de Raul Seixas, a população queer promove a ocupação de espaços da cidade.
A diversidade no percurso do tempo
Ao longo das décadas, as experiências da comunidade se transformaram, principalmente com as novas configurações sócio-culturais e avanços políticos, o que propiciou maior movimento e presença LGBTQIAPN+ em espaços de Belo Horizonte. Com relação a isso, o pesquisador Luiz Morando conta sobre o quão relevante foi a promoção e luta pelos direitos sociais, como a legalização da união civil, adoção de crianças por casais homossexuais, conquista do nome social, entre outros, para uma maior representatividade dos espaços queer no cenário municipal. “Todas essas conquistas, demandas, reivindicações e mobilizações, foram meio que atenuando essas fronteiras entre ambiente comercial frequentado pela população LGBT, ambiente comercial frequentado por pessoas cisgêneros heterossexuais”, afirma o pesquisador.
No início, esses espaços eram marcados pela sua marginalização, em decorrência do próprio preconceito, ainda mais presente na sociedade antes da ampliação dos direitos LGBTQIAPN+ observada nos últimos anos. Mas, ao longo do tempo, esses espaços foram sendo mais aceitos na sociedade. Luiz Morando explica que as boates costumavam ter fachadas mais discretas, as pessoas entravam rapidamente para não serem percebidas. Isso era uma prática comum nos anos 60 e 70, que, ao longo dos anos 80 e 90 foi amenizada.
Evolução das políticas
No decorrer das décadas, as políticas de auxílio para a comunidade LGBTQIAPN+ foram evoluindo, com um foco em garantir direitos. Segundo Luiz, “a partir do processo de redemocratização do país, […] você tem a possibilidade de se organizar e ter voz. A tendência é de que essas engrenagens comecem a se movimentar com um pouco mais de agilidade, com um pouco mais de rapidez, e que essas questões ligadas aos direitos humanos, aos direitos sociais, aos direitos civis, sejam mais discutidas, mais debatidas”, destaca.
Um claro exemplo dessa evolução é o campo da saúde. Destacando a crise do HIV no Brasil nas décadas de 80 e 90, marcada por um discurso conservador e anti-LGBTQIAPN+, Luiz Morando analisa o processo da melhora da qualidade de vida. “As ações de hoje são diretamente consequência dessas experiências do passado, como por exemplo a PrEP e a PEP. A oferta da profilaxia pós-exposição ou pré-exposição […] é uma iniciativa que vem como consequência de uma mobilização dos anos 90 com relação ao movimento social contra HIV e AIDS no Brasil”.
Entretanto, atualmente há uma destacada ascensão conservadora na geopolítica global, como visto na eleição de figuras políticas, como Jair Bolsonaro e Donald Trump, que acaba sendo cascateada no cenário municipal. Além disso, tal conservadorismo também é evidente quando o assunto é a luta pelos direitos LGBTQIAPN+, aspecto que pode ser exemplificado pelo recente caso, em 2023, do projeto de lei (PL 5167/2009) que buscava proibir o casamento homoafetivo no Brasil.
Espaços LGBTQIAPN+ em BH atualmente
Ana Carolina dos Sacramentos, 26, dona da Borda, um bar queer localizado no bairro Floresta, em Belo Horizonte, identifica uma diminuição dos estabelecimentos voltados a esse público. “A gente tinha vários espaços muito significativos, muito legais que acabaram sumindo. Porque é isso, né, BH é uma cidade muito conservadora. Então a gente incomoda sem estar fazendo nada”, reflete. A fala da gastrônoma registra o preconceito implícito da sociedade, que, a longo prazo, impacta o lucro destes locais e limita sua presença no mercado concorrido de bares em Belo Horizonte. Além disso, a política da boa vizinhança, uma série de medidas impostas a bares, restringe a expansão dos espaços LGBTQIAPN+ na cidade, por meio da limitação do transporte público e multas mais restritivas a estabelecimentos.
Já Antônio Manoel, DJ de 24 anos, tem outra perspectiva. Ele enxerga de forma positiva o fato de que lugares que antes eram restritos apenas a pessoas LGBTQIAPN+, agora englobam pessoas de fora da comunidade, interessadas em integrarem-se com a cultura queer. O universitário relata uma experiência com sua tia, que o chamou para visitarem uma boate LGBTQIAPN+ juntos. “É sobre colocar essas pessoas nesses espaços também, sabe? Aos poucos, as pessoas vão adentrando esses espaços, eu acho que a gente ganha uma legitimidade do discurso assim.”, afirma Antônio.

Segundo Ana, a Borda surgiu para ser um espaço de convívio, uma oportunidade para ela criar seus rolês e ocupar espaços. Com música eletrônica e artistas independentes da cena de Belo Horizonte, o estabelecimento é uma resistência em meio ao conservadorismo que se perpetua na cidade, em especial em bairros tradicionais. De uma maneira bem-humorada, ela conta que há a necessidade de ter uma boa comunicação com a vizinhança e uma documentação sólida, para que o estabelecimento não corra risco de ser fechado, o que ocorreu com outros bares.
Além disso, ela destaca a importância do faturamento para garantir a longevidade desses estabelecimentos. “A gente tem que se unir, porque querendo ou não a gente vive num mundo capitalista, é a grana que faz o dinheiro girar, então além de tudo, o que protege ali o bar é o consumo, são os nossos clientes mesmo”, explica.
À medida que BH renova-se, a “Metamorfose Ambulante” se mantém: Um conservadorismo histórico que se contrapõe a novas demonstrações LGBTQUIAPN+ e uma valorização da cultura queer.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos