Com presença trans abaixo de 1% nas produções nacionais, a escolha de elencos cisgêneros sabota a representatividade, acentua a exclusão econômica e silencia profissionais no mercado audiovisual.

Por Hugo Leonardo

O silêncio nos testes de elenco e a ausência de corpos trans nos bastidores dão os contornos mais nítidos à problemática do transfake. Diante dos poucos personagens transgênero que conseguem espaço nas telas brasileiras, a escolha por escalar pessoas cisgêneras para esses papéis interrompe um processo essencial de representação. Essa decisão de produção afeta diretamente a sobrevivência profissional de artistas trans e interfere na maneira como a sociedade enxerga essas vidas, limitando existências reais a uma interpretação baseada em conveniências.

Fragmentar essa dinâmica exige compreender que as imagens construídas pela mídia não são neutras e elas tem o poder de ditar quem pertence e quem é excluído do imaginário social. Quando o audiovisual brasileiro escolhe colocar um corpo cisgênero para performar a transição, a identidade é reduzida a um artifício de cena, como um figurino removido ao fim de cada gravação. O impacto público dessa escolha é enorme, pois valida o estigma histórico de que a vivência trans é algo simulado ou passageiro, enquanto estabelece que apenas pessoas cisgêneras possuem a legitimidade para narrar essas histórias. 

Escrever sobre esse apagamento exige reconhecer que, como homem branco e cisgênero, por muito tempo consumi essas obras moldadas por uma forte naturalização da heteronormatividade, construções hegemônicas de gênero e a quase completa ausência de diversidade nas produções. Nas raras vezes em que essa diversidade de fato aparecia, era estereotipada, confinada a caricaturas e alívios cômicos, que a audiência habitual frequentemente absorve de maneira acrítica. Ao descobrir o termo “transfake”, a novidade me fez questionar a escolha da atriz cisgênero Carol Duarte para interpretar o personagem transmasculino Ivan na novela “A Força do Querer”, escrita por Glória Perez, exibida pela TV Globo em 2017 na faixa das 21h, uma vez que foi a primeira vez que consumi algo sobre vivência transgênero. O letramento destruiu essa minha ingenuidade e transformou o consumo dessas obras em um incômodo ético. 

Fotografia 1: Antes e depois de Carol Duarte, que cortou os cabelos para viver Ivan. Foto: TV Globo e Estevam Avellar/TV Globo.

Vale ressaltar que a anulação promovida pelas telas encontra ecos fora da ficção. Lideranças políticas e parlamentares atuam de forma sistemática para criminalizar e desumanizar essas identidades sob a justificativa de combater uma suposta "ideologia de gênero”, como aponta o Projeto de Lei 4893/20, de autoria do ex-deputado Léo Motta (PSL-MG), um homem cisgênero, que tenta proibir debates sobre diversidade em instituições de ensino. Outro exemplo são as declarações do deputado cisgênero Nikolas Ferreira, o qual já afirmou que “mulheres trans são homens de saia”. Tais amostras demonstram como a transfobia é articulada publicamente para deslegitimar existências. Ao tratar a identidade trans como uma farsa na política, que outros espaços, como o mercado audiovisual, também as tratem como um mero adereço cênico substituível.

Essa barreira na representação caminha lado a lado com a exclusão econômica. Em um cenário nacional onde o mercado de trabalho formal frequentemente se recusa a absorver a população de pessoas transgênero, os palcos e os sets de filmagem funcionam como extensões desse apagamento estrutural. Alguns relatórios da ANCINE e pesquisas do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) evidenciam que a presença de profissionais trans na direção, roteiro e atuação principal de produções nacionais chegam a apenas 0,1%. Ao justificar a escolha de elencos cisgêneros por critérios puramente comerciais, a indústria audiovisual se esquiva de sua responsabilidade ética, minando o direito de profissionais trans de contarem suas próprias histórias.

À margem do mercado: a realidade de quem resiste fora das grandes produções

Na cena do audiovisual belorizontino, longe das grandes produções nacionais, as barreiras “invisíveis” do mercado não retratam a falta de profissionais qualificados, mas da explícita escolha de exclusão. A trajetória de Clléo Ventura, mulher trans/travesti, atriz da capital mineira fala sobre esse teto de vidro imposto pela indústria. Clléo Ventura participou de campanhas publicitárias e no curta-metragem Cuidado Garoto, dirigido por Lea Monteiro, homem cis. 

Para Clléo, a substituição de atrizes trans por mulheres cisgênero nas telas representa um retrocesso ético e estético que atende apenas às expectativas de uma sociedade patriarcal machista.

Atriz Clléo Ventura. Fonte: Arquivo Pessoal/Instagram

“O impacto de ser representada por mulheres cis esbarra no estereótipo da mulher trans que só é aceita ou suportável se for extremamente feminina em um olhar patriarcal”, afirma a atriz. “Hoje em dia, existem mulheres trans e travestis que possuem conhecimentos, estudos, formação em arte e, como atrizes, saberiam passar melhor o impacto social que uma vivência como a nossa precisa para se ver representada”.

Quando a indústria cultural valida o transfake, o estrago vai além do campo artístico. Há consequências sociais imediatas, na ausência de corpos transgênero nas produções audiovisuais a população trans é ainda mais desmoralizada pela sociedade. A preferência por elencos completamente cisgênero influencia o público com uma mentira estética de que a singularidade das vivências trans é eliminada por uma régua que dita quais aparências são aceitáveis, além de exigir que esses corpos se moldem á cisgeneridade.

Clléo alerta que, se o mercado audiovisual se acostumar a usar pessoas cis para interpretar essas histórias, profissionais trans perderão sua utilidade, transformando o que deveria ser um leque de empregos em uma luta diária onde apenas quem cabe em caixas "passáveis" consegue oportunidade. Esse ciclo de exclusão é agravado pela ausência de autoria trans por trás das câmeras, na direção, no roteiro ou na edição. Para a atriz, a falta de pessoas que sintam essa realidade na pele todos os dias valida o silenciamento. Mesmo quando as portas se abrem, as narrativas costumam se restringir a debates exaustivos sobre transição. “Faltam convites para atuar em papéis universais. Temos camadas: somos mães, pais, filhos e filhas, pagamos impostos e sabemos interpretar qualquer personagem com uma trama mais complexa do que girar em torno do gênero”, pontua Clléo.

Mudar essa engrenagem exige romper com a obsessão em padronizar e domesticar corpos reais para que caibam em “proporções áureas” ditadas pelo medo de a hegemonia perder seu posto. O encerramento da investigação deixa um apelo ético urgente para a indústria criativa brasileira: não se trata de retirar ninguém de seus espaços, mas de expandir as margens. Afinal, como sintetiza Clléo Ventura sobre a dignidade de sua classe: “A única coisa que queremos é respeito e igualdade, só arrecadar um pouco para o lado para cabermos também. Agora, não temos culpa de entregar excelência!”.


* Reportagem produzida na disciplina Transgeneridades, Linguagem Inclusiva e Jornalismo de Subjetividade sob a supervisão da prof. doutorande Gaia Bê Limah.