Apesar das barreiras políticas e financeiras, o cinema mineiro ascende no país, e é fundamental conhecer figuras que fomentam a cena independente na Grande Belo Horizonte
Por Álvaro Goulart, Isabela Fernandes e Yasmin Veloso
Com uma história de 129 anos, recheada com diversas fases, revoluções e problemas em sua trajetória, o cinema brasileiro se consolidou como um dos mais relevantes mundialmente. Desde “Os estranguladores”, dirigido por António Leal em 1908 e considerado o primeiro filme de ficção brasileiro, até o último grande caso de sucesso da sétima arte no país, com o vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, o cinema no Brasil esteve em constante evolução. Porém, é preciso destacar que junto a essa crescente, diversas adversidades foram enfrentadas ao longo dessa história: problemas financeiros causados pelas grandes guerras, assim como governos que atacavam e sucateavam a arte no país, seja estruturalmente — com censuras e proibições — ou financeiramente. Essas são causas da desvalorização e falta de incentivo do cinema brasileiro até os dias de hoje.

Este cenário ainda se agrava quando se pensa a produção artística fora do eixo Rio-São Paulo, local onde os maiores investimentos tradicionalmente se fixaram. Dessa maneira, é possível dizer que cinemas como o mineiro sofreram e sofrem para se manter e propor uma maior valorização da arte de seu estado. Mesmo com uma história muito rica, que passa pela fama de atores mineiros como o Grande Otelo, até uma maior produção de filmes no estado a partir dos anos 50 e 60, Minas Gerais sempre renegou o cinema como arte.
Isso é perceptível quando entende-se que, mesmo sendo um estado muito rico, o dinheiro nunca chegou para a produção cinematográfica porque as famílias mais poderosas — financeiramente e politicamente — tratavam o cinema como algo de baixo valor. Portanto, o cinema mineiro nasce e sobrevive a partir da paixão pela arte por parte das pessoas “comuns”.
Sem muita ajuda até os dias atuais, a questão do pertencimento, como explica o professor e pesquisador de Cinema da UFMG, Érico Oliveira, se torna o combustível que sustenta as produções. Para ele, os filmes feitos por aqueles que “permanecem”, ou seja, que moram no local, apresentam mais densidade e conhecimento do território. “Isso sempre me interessou, como é que a gente, conhecendo os nossos vizinhos, produz uma narrativa muito adensada nessa demora do viver, do conviver. Como é que o conviver, o vínculo, se manifesta na imagem?”, comenta. O professor cita o filme “A vizinhança do Tigre”, de Afonso Shoa, como uma obra que deriva de uma longa relação com o espaço, já que ele foi filmado ao longo de cinco anos. “Todos os filmes que eu estudei são feitos por quem mora nos territórios. Então, de alguma forma, eu estava apostando nas consequências que isso tem para a própria narrativa, para a própria forma fílmica e as consequências que a gente pode observar no filme”, completa.
Protagonistas por trás das câmeras e telas
Dessa maneira, surge uma questão primordial para entender o cinema independente, principalmente ao observar o recorte da grande BH como pólo do cinema mineiro: quem o faz acontecer? Acerca disso, Luzia Lima Moreira, co-fundadora da Associação de Apoio aos Produtores de Cinema Independente e de Audiovisual (AAPCine), entende que pontos como apoio governamental são fundamentais.
“A maior barreira que enfrentamos é a falta de um financiamento perene, visto que os projetos de maior alcance somente são realizados quando aprovados em editais de fomento”, comenta Luzia.
A fala também mostra a importância das leis de incentivo para o cinema em âmbito municipal, estadual e nacional. Legislações como a “Lei Rouanet” — sancionada em 1991, que permite a empresas investirem em projetos culturais por meio de incentivos fiscais — são a base do fazer cinematográfico fora do eixo RJ-SP. Essa ideia de apoio é o ponto de partida para a criação da AAPCine, que nasceu a partir de uma conversa com o cineasta André Novais, em 2015, que relatou dificuldades e falta de apoio em sua trajetória. “E se existisse uma ONG para apoiar os jovens na realização de seus primeiros projetos audiovisuais e ainda fizesse a interlocução com as escolas, a fim de divulgar o que é produzido aqui, e o cinema brasileiro de uma forma geral?”, conta sua co-fundadora.
Assim, Luzia caracteriza a solidariedade comunitária e a construção de um público que valorize e trabalhe para que a arte se mantenha como essencial para a existência de um cinema independente. Para ela, a educação é fundamental na criação de novas plateias, pois é necessário políticas públicas com foco na formação de público para o cinema brasileiro, mas como questiona Luzia: “quem pode gostar daquilo que ainda não conhece? Por isso, a educação tem um papel fundamental na formação das futuras plateias”.
Da dor ao orgulho: Ponta de Anzol
Jacson Dias, com raízes na periferia de Belo Horizonte, deixou a escola ainda criança, aos 12 anos, após sofrer episódios de homofobia. Dois anos depois, já estava inserido no mercado de trabalho, atuando em lanchonetes e padarias. “Quando você é da periferia e corta a educação na raiz, ela não faz diferença mais na sua vida” — declara Jacson, relembrando sua adolescência marcada pela dedicação exclusiva ao trabalho. Ele se destacou rapidamente por suas habilidades de comunicação, passava de atendente a gerente em poucos meses.
Foi graças a essas habilidades que, aos 18 anos, enquanto trabalhava em um restaurante, Jacson se aproximou de um grupo de teatro — e acabou recebendo uma bolsa de estudos do dono da escola para cursar Teatro. A oportunidade marcou uma virada em sua trajetória, ainda que ele não tenha concluído o curso por falta de autoconfiança. Foi a partir desse primeiro contato com as artes e por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni) — política afirmativa criada em 2004, no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então com Fernando Haddad à frente do Ministério da Educação — que Jacson ingressou no curso de Cinema e Audiovisual do Centro Universitário UNA, caminho que o levaria a se tornar um dos fundadores da Ponta de Anzol, produtora independente de cinema.
Criada em março de 2018, a Ponta de Anzol Filmes é uma produtora de audiovisual sediada em Belo Horizonte, e formada por Bruno Greco, Higor Gomes e Jacson Dias. Diante de um cenário político pouco favorável ao setor cultural, a produtora iniciou suas atividades em meio a julgamentos e incertezas, porém inspirados pelo cinema negro e pela vontade de retratar as suas histórias e as realidades as quais pertenceram.
“Não é romantizar a pobreza, É você não ter vergonha do espaço que você nasceu, porque você não tem culpa de estar ali. E se você tem a possibilidade de mudar isso, a riqueza da vida está aí” — Jacson Dias, produtor e diretor de produção da Ponta de Anzol.

Durante as filmagens, Bruno, Higor e Jacson retornam aos lugares de onde vieram para registrar suas histórias. Nesse movimento de fazer cinema, acabam ressignificando suas relações de pertencimento com esses espaços, que em outros momentos também lhes provocaram dor.
Integrante de comissões de discussão de políticas públicas como a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), a Associação das Produtoras Independentes (API) e a Associação dos Trabalhadores do Cinema Independente de Minas Gerais (ATCIMG), Jacson comenta sobre as políticas de incentivo ao cinema: “A gente sobreviveu e está sobrevivendo até hoje por causa de políticas públicas e de editais, mas a gente está muito distante, tem muito caminho para percorrer”. Segundo o produtor, a própria trajetória profissional só foi possível graças à existência desses dispositivos, que garantem um mínimo de estrutura para quem está fora dos grandes polos de produção. Instrumentos como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc têm sido decisivos para manter viva a produção independente, especialmente no curta-metragem, segmento menos conhecido pelo público e historicamente negligenciado.
Apesar disso, o audiovisual vive em um ciclo permanente de “enxugar gelo” — como diz Dias —, em que os recursos obtidos em um edital frequentemente precisam ser realocados para viabilizar projetos futuros, dada a limitação dos valores financiados. É, portanto, urgente que governos em todas as esferas entendam a real dimensão e importância do apoio ao cinema independente, já que a continuidade das políticas não é espontânea, mas fruto de pressão, organização e mobilização política do próprio setor.
Mesmo com o cenário de luta contínua por políticas de incentivo mais robustas, o cinema mineiro vive um momento de ascensão e reconhecimento em âmbito nacional e internacional. Contudo, essa alta performance ocorre em um contexto de grandes desafios estruturais, e Jacson ressalta que, apesar de estarem na região Sudeste, Minas Gerais e Espírito Santo enfrentam uma desigualdade aguda no acesso a financiamentos federais. Na distribuição de editais pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), por exemplo, São Paulo e Rio de Janeiro competem apenas entre si, enquanto Minas Gerais e Espírito Santo são agrupados com a região Sul. Essa segregação regional impõe uma limitação financeira estrutural que o cinema mineiro precisa superar constantemente.
Por outro lado, com a injeção de recursos de leis emergenciais, como a Aldir Blanc e a Paulo Gustavo, o mercado está prestes a receber uma leva de filmes, o que coloca a distribuição e a preservação como os próximos grandes desafios urgentes. Jacson frisa que não é possível discutir a produção cinematográfica sem que os temas de distribuição e exibição sejam tratados de forma conjunta, pois é preciso garantir que o filme chegue ao público. Além disso, a multiplicação de obras levanta uma questão crítica sobre o futuro: quem irá preservar e onde serão guardados esses filmes, especialmente na era digital, onde a substituição de mídias físicas por HDs — que também se degradam — demanda novas estratégias de arquivamento. É preciso pensar em uma infraestrutura que acompanhe o nível quantitativo de produção para evitar que esse legado se perca.
Em solo árido, germina o fazer artístico: Fopagô Filmes
Mesmo em condições desfavoráveis, o cinema mineiro floresce com riqueza e diversidade. A Fopagô Filmes é uma das produtoras que movimenta o cinema em Belo Horizonte por meio das relações entre território e pertencimento. Criada por Lucas Uchôa e Victória Morais, a produtora surgiu em março de 2024, a partir do encontro entre dois cineastas que traziam em comum a vivência de deixar o Cerrado Mineiro para construir trajetória na capital.

A partir de um trabalho de conclusão de curso, a dupla decidiu aproveitar suas semelhanças na forma de entender o vínculo com Belo Horizonte e fundar a Fopagô, que leva o nome do pássaro fogo-apagou, uma rolinha tradicional do Cerrado.
Vindos de João Pinheiro e Rio Manso — pequenos municípios do interior de Minas Gerais — Lucas e Victória carregavam uma forte sede por cultura, mas Lucas conta que o cenário político alinhado à direita e ao agronegócio foi uma barreira para seu contato com a arte e a cultura.
“Eu cresci em uma cidade que não tinha cinema e tinha muito pouco acesso à cultura. A partir do momento que mudei para Belo Horizonte, minha visão em relação à cultura e em relação ao cinema mudou completamente.” — Lucas Uchôa, co-fundador e produtor da Fopagô.
Apesar de Belo Horizonte oferecer um cenário mais favorável ao fomento cultural, produzir cinema na capital está longe de ser simples. A cidade conta com algumas políticas de apoio consolidadas, como o “BH nas Telas”, porém as limitações financeiras ainda são muitas, resultando no sucateamento do trabalho no audiovisual. Soma-se a isso a escassez de iniciativas do governo estadual capazes de impulsionar o cinema mineiro. Os editais emergenciais da Lei Paulo Gustavo — criados para mitigar os impactos da pandemia de COVID-19 no setor cultural — trouxeram um breve respiro e devem sustentar a produção de filmes até o próximo ano. No entanto, ainda não há previsão de políticas que deem continuidade a esses efeitos.
Para o produtor independente, o futuro é cheio de incertezas. Afinal, os editais nacionais, como os da Ancine, costumam beneficiar as mesmas produtoras de grande porte, enquanto produtoras menores, iniciantes ou emergentes, encontram pouco espaço para competir. No âmbito municipal, os editais são escassos e de pequeno porte diante do número crescente de profissionais em busca de financiamento para produzirem filmes.
“Mas apesar disso a gente continua fazendo filmes. Mesmo nos tempos mais sombrios do governo Bolsonaro, a gente teve filmes sendo feitos, por mais que poucos. Então, acredito que, por mais que seja mais difícil, a gente vai dar um jeito de continuar fazendo. O problema é que a gente vai sucatear mais ainda nossa mão de obra.” — Lucas Uchôa.
Filmes… de Plástico?
Um dos maiores expoentes do cinema mineiro atualmente é a produtora Filmes de Plástico. Criada pelos diretores André Novais, Gabriel Martins e Maurilio Martins, e pelo produtor Thiago Macêdo Correia, a empresa se formalizou em 2012, mas foi criada de forma simbólica em 1º de abril de 2009, data da finalização do primeiro filme, o curta-metragem “Filme de Sábado”. Em meio aos seus mais de 15 anos de história, a Filmes de Plástico possui atualmente 28 produções, entre curtas e longas-metragens, selecionados para mais de 200 festivais e mostras de cinema e ganhadores de mais de 50 prêmios.
Os três diretores, naturais de Contagem, se conheceram através de parcerias anteriores no audiovisual, e encontraram Thiago, produtor de Teófilo Otoni, quando vieram para Belo Horizonte cursar cinema. Unidos pela cinefilia e pelo desejo de fazer filmes, surgiu a ideia de criar uma produtora.
Sendo hoje um dos expoentes do cinema mineiro no Brasil e no mundo, o início da Filmes de Plástico não foi fácil. Os recursos escassos para a cultura em Minas Gerais ao longo dos anos foi um empecilho que os cineastas tiveram que enfrentar. O primeiro patrocínio da Prefeitura de Contagem para a Filmes de Plástico veio apenas em janeiro de 2024, 11 anos depois de sua criação, para o curta-metragem “Quando Aqui”.
Curiosamente, o nome “Filmes de Plástico” não surgiu com um intuito específico, mas como uma sugestão de Maurílio em um brainstorming. Apesar disso, ele pode ser interpretado como uma ironia: de sintético e descartável, esses filmes não tem nada!
Representatividade e permanência
O fato de todos os fundadores terem nascido fora da capital de Minas Gerais foi um fator de união e identificação entre os quatro, e desde a criação da Filmes de Plástico, os cineastas tiveram como objetivo representar a periferia e seus moradores com valorização e respeito. Em entrevista para o Jornal Estado de Minas, André Novais afirmou: “A grande maioria dos nossos filmes é feita nos nossos bairros porque eles vêm desse olhar, que é muito carinhoso e respeitoso para os lugares de onde vivemos. Assim, as histórias são contadas por quem é destes lugares, pessoas que (até então) não eram muito retratadas”.
Esse fator está presente na maioria das produções já lançadas. O filme de maior destaque da produtora, “Marte Um”, representa as relações de pertencimento e de permanência que conduz os trabalhos da empresa. Ele acompanha a história dos Martins, família de média /baixa renda da periferia de Contagem, lidando com a recente eleição de um presidente de direita no Brasil em 2018. Com direção de Gabriel Martins, que também cresceu na periferia de Contagem, o longa explora os cenários da cidade ao contar uma história cotidiana, abordando relacionamentos familiares, sonhos e traumas, e se destacando pelos personagens complexos e a relação com o espaço em que vivem. Além disso, o movimento de manter uma linguagem e um sotaque tipicamente mineiro não apenas reforça essa possibilidade de identificação do público local, mas também afirma a importância da diversidade cultural dentro do cinema brasileiro, mostrando que histórias enraizadas em territórios específicos podem alcançar amplo reconhecimento sem perder sua autenticidade.
“Marte Um” saiu vencedor em oito categorias, incluindo “Melhor Longa Metragem de Ficção” e “Direção” apenas no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, de 2023. O filme também foi escolhido como o representante do Brasil na submissão para a categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar de 2023. Apesar de não ter sido selecionado para a pré-lista de indicados, isso proporcionou um aumento da circulação do longa, principalmente dentro do Brasil.

O lançamento mais recente, “O Último Episódio”, também se enquadra nessa característica. A trama se passa em uma Contagem dos anos 80, e acompanha Erik, um jovem de 13 anos que, para conquistar seu amor platônico, promete ter a fita cassete com o último episódio de Caverna do Dragão. O filme se passa no Bairro Laguna, onde o diretor Maurílio Martins cresceu, e, apesar de não ser um filme autobiográfico, remonta alguns cenários da infância e juventude do diretor. A casa do protagonista, por exemplo, é na mesma rua da casa que Maurílio mora atualmente, e a escola em que ele estudou também aparece no filme. Na divulgação do longa, o cineasta destacou:
“Eu sou muito da memória, sou muito nostálgico. Então me volto a isso. Vejo ali os meus amigos, os que já se foram e os que ainda estão. Vejo ali o meu espaço, o meu lugar, o lugar onde eu cresci, o lugar onde ainda moro. Isso pra mim tem um significado muito forte”. -Maurílio Martins, diretor da Filmes de Plástico.

Segundo Gabriel Martins, “o cinema é um forte mecanismo de afeto”, e é visível o esforço daqueles que fazem cinema no estado para destacar o que é mineiro como valioso. Os costumes, os sotaques, as gírias e o espaço representados nas telas de forma afetiva são um forte mecanismo na construção de uma memória coletiva, que reflete a importância da valorização da cultura. Além disso, esse cinema também gera espaços de encontro e diálogo que fortalecem vínculos sociais e conectam as pessoas por meio da identificação, ampliando o sentimento de permanência na sociedade. O cinema feito com afeto têm o poder de preservar e, além de tudo, de transformar.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos