Por trás dos gatos que circulam pelo campus todos os dias, existe toda uma trama de voluntários, iniciativas e histórias de amor aos animais

Por Giovanna Zanotti, Isabella Ludwig e Júlia Henrique

Você sabe o que são gatos comunitários? Talvez o conceito em si não seja algo que você reconheça, mas com certeza já os viu mais de uma vez enquanto visitava o campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os gatos comunitários nada mais são do que todos aqueles felinos que recebem cuidados e possuem laços afetivos com uma comunidade. Eles não possuem donos oficiais e seus lares abrangem muito mais do que um endereço único. Na UFMG, existem diversas iniciativas que vigiam, protegem e cuidam desses animais que deveriam ter um lar, mas que, na maioria das vezes, a crueldade trouxe para o campus. Entre elas, está o projeto UniversiCats, voltado para o resgate e o cuidado dos gatos comunitários da universidade.

Fernanda Louro e gatinhos do DGA (Foto: Kátia Botelho)

Durante uma entrevista concedida à nossa equipe, a bióloga Fernanda Louro, que trabalha no Departamento de Gestão Ambiental (DGA) da UFMG e atua como voluntária no UniversiCats, informou que a estimativa de gatos comunitários vivendo em colônias espalhadas pelos prédios do Campus Pampulha é de cerca de noventa a cem. Entre esses animais, a maioria é vítima do abandono — seus antigos tutores usaram a UFMG para se “desfazer” deles, mesmo que o ambiente do campus não seja adequado a animais domésticos. Cabe ressaltar que o abandono de animais é crime federal, enquadrado como maus-tratos pelo Artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei n°9.605/1998). O ato também se enquadra na Lei Estadual, que protege os animais de violências e abusos.

Os calouros 

Segundo Fernanda, o processo de acolhimento dos novos gatinhos começa com uma foto. Quase como um compartilhamento da nova fofoca da UFMG, o novo felino é avistado pelo campus, capturado por uma câmera de celular e tem sua imagem e características enviadas em formato de mensagem no grupo dos cuidadores voluntários. 

Todas as informações recolhidas são adicionadas à uma planilha de Excel e, a partir deste momento, o novato passa a ser monitorado e analisado para que seja realizada sua captura. No entanto, nem sempre é possível organizar a captura com a rapidez necessária. “Às vezes fica um intervalo entre a notificação e a captura. Nesse intervalo, já perdemos alguns animais. Não é um número grande, mas acontece. Outros animais nunca mais são avistados, ou só avistamos bastante tempo depois”, conta Fernanda. Estes são apenas os passos iniciais de um processo que inclui castração, alimentação e, quando possível e/ou necessário, até mesmo consultas no veterinário. É somente ao final deste processo, quando o animal é solto novamente, que os cuidadores descobrem se ele irá se fixar no campus ou ser colocado para adoção.

Apesar de algumas áreas da universidade não contarem com cuidadores fixos, os voluntários estão espalhados pelos territórios do campus. O trabalho se iniciou de forma espontânea, no interesse coletivo de algumas pessoas em zelar pelos animais. No entanto, existe uma tentativa de institucionalização: A Comissão Permanente de Política Animal nos Campi da UFMG. Instituída pela antiga reitora, Sandra Almeida, em 2019, a Comissão trabalha com ações para evitar o abandono e manejar a população de animais domésticos já presentes no campus. 

Algumas das ações já realizadas pela Comissão incluem o monitoramento e o controle populacional nas regiões do campus, condicionamento comportamental, principalmente para os animais mais ariscos, e manejo de alimentação. Inclusive, você sabia que não é recomendado alimentar os animais que você vê pelo campus? Os responsáveis pelo local realizam a alimentação de maneira adequada. Além disso, existe um trabalho de levantamento da fauna silvestre, a fim de garantir menos conflitos entre animais silvestres e domésticos.

Rotina universitária

Para quem se voluntaria ao cuidado, a rotina é trabalhosa. Os diversos felinos exigem alimentação, hidratação e castração. Em muitos casos de resgate, os animais vieram de situações de maus tratos e também precisam de cuidados veterinários. Tudo isso custa caro e, na ausência de verbas, sai do bolso dos próprios voluntários. 

Segundo Rossimiriam Freitas, voluntária e professora titular do Departamento de Química da UFMG, a divisão das atividades acaba sendo muito variada: “Há unidades em que há um cuidador apenas, ou dois. Há unidades em que algumas pessoas entram com o dinheiro para a ração e outras ajudam com os cuidados. Há unidades em que não temos cuidadores ativos”. Sob estas condições, manter a operação se torna um processo ainda mais complexo para os cuidadores dos projetos.

Quando algum voluntário deixa a Universidade, seja por se formar ou se aposentar, a ausência é sentida. Raione Pedrosa, voluntário desde 2024 na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia ocupacional (EEFFTO), compartilhou um caso assim: “Na EEFFTO havia uma servidora, enfermeira, que fez um excelente trabalho voluntário de manejo da população de cães e gatos que havia aqui, providenciando por conta própria captura e castração, adoção quando possível, bem como a alimentação e o monitoramento dos que se fixaram na Escola. Contudo, com sua aposentadoria em 2024, a Diretoria não sabia como dar continuidade a essa atividade, já que até então aquela servidora atuava de forma voluntária e independente”. A Comissão é um esforço para reunir e orientar o voluntariado, mas a questão da verba segue como um entrave. O cuidado, entretanto, permanece.

Fernanda cuida dos gatos do DGA desde 2015. Antes, ela mesma arcava com rações, castração e cuidado veterinário. Hoje, ela compra “somente” a ração, para os nove gatos que vivem na colônia. Amora, Benito, Dionísia, Esmeralda, Luiz, Narizinho, Patinhas, Tigrinho e Tostadinha. Todos os dias ela troca a água, a ração seca e dá sachê aos animais. A manhã, segundo ela, é a melhor parte, quando todos os gatos aparecem para comer. Apesar de todos já estarem acostumados com a presença dela, nem todos aceitam o carinho. O período da manhã é o melhor momento para a aproximação, já que os gatos querem aproveitar os sachês. 

Foto Amora: Fernanda Louro. Foto Benito: Fernanda Louro. Foto Dionísia: Fernanda Louro. Foto Esmeralda:Fernanda Louro. Foto Luiz: Giovanna Zanotti. Foto Narizinho: Fernanda Louro. Foto Patinhas: Fernanda Louro. Foto Tigrinho: Fernanda Louro. Foto Tostadinha: Fernanda Louro.

Na hora da alimentação, existe até uma hierarquia específica. Além da comida no próprio DGA, para os seis gatos que vivem ali, há a preocupação com os três que são mais isolados. Benito, um deles, é o mais novo estudante felino do DGA. É um gato laranja, bem tímido, e ainda não se integrou com os demais, então acabou escolhendo morar em uma garagem aberta junto com carros velhos. Esmeralda, a segunda felina mais reclusa, é uma tricolor medrosa que mora sozinha no estacionamento de ônibus. O último do grupo é Luís, um gato de espírito livre que passeia pelo campus, sem interesse em fixar raízes. 

Amorinhas na melhor parte do dia (Foto: Fernanda)

Para Fernanda, o trabalho demanda tempo e dedicação, mas não é incômodo. O contato com os felinos, ela diz, faz bem para a saúde mental.

Os desafios

Infelizmente, nem todos gostam dos gatinhos. Em 1999, cerca de 50 gatos foram massacrados na câmara de gás por ordem institucional da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich). Em 2011, na tragédia denominada “Watergato”, pelo menos 16 gatos foram assassinados com requintes de crueldade também no prédio da Fafich. Esse último caso gerou uma onda de protestos e repúdio de ONGs de adoção e alunos da UFMG. Os protestantes questionaram a omissão de servidores e a ausência de órgãos de defesa. Os gatos da Fafich, muitos deles pretos, se tornaram símbolo do prédio. Mesmo assim, a presença deles é, por vezes, um assunto polêmico. Em entrevista para O Tempo em 2011, o então gerente da cantina do prédio declarou que a presença dos gatos próximo a um local de preparo de alimentos não é recomendada e reclamações eram recebidas. 

Além disso, a problemática do abandono segue frequente. O monitoramento de casos de abandono pela Comissão é inviável, devido à falta de equipamento e pessoal disponível para realizar esse tipo de atividade. A segurança do campus, por ser patrimonial, não possui autoridade para agir nesses casos. O resultado é uma situação em que todos parecem estar de mãos atadas. Muitas vezes, a existência e a reputação da Comissão acabam agindo de forma negativa: os tutores, sabendo que existe alguém que cuida dos animais na universidade, abordam os voluntários diretamente, na intenção de deixar os animais com eles. 

Realizar uma denúncia também é um processo complicado. Fernanda Louro relatou que a Comissão já tentou acionar a Polícia do Meio Ambiente e a Polícia Civil, mas o resultado foi mais trabalho:  “A gente teria que praticamente juntar provas, conversar com as pessoas, fazer uma mini investigação, pra fundamentar bem a questão e passar para o delegado. E é inviável fazer isso, né? A gente já faz tudo.”

Os gatos são muitas vezes alvo de preconceito por seu comportamento mais elusivo, menos dado às carícias. Mas são animais domésticos, que podem ser dóceis, carinhosos e brincalhões. 

A Formatura 

Apesar da chegada marcada pelo abandono e, muitas vezes, pela violência, a história dos felinos resgatados na UFMG nem sempre tem um final triste e/ou trágico. Enquanto nossa equipe buscava informações sobre esses moradores da universidade e realizava as entrevistas com alguns dos voluntários que realizam esse trabalho tão especial, fomos apresentadas a algumas delas. Conheça os formandos, gatinhos que vieram de trajetórias difíceis mas, graças ao trabalho da comunidade, conseguiram encontrar novos lares. 

Fotos Nico Lau: Equipe de Manejo da Comissão e Giovanna Zanotti. Fotos Morgana: Fernanda Louro. Fotos Quindim: Fernanda Louro. Fotos Lakshmi: Fernanda Louro. Fotos Paçoca: Fernanda Louro.

Para os voluntários nessa constante luta de resgate e acolhimento dos felinos pelo Campus Pampulha da UFMG, o sentimento é agridoce e o desejo é, nas palavras de Rossimiriam Freitas: “Que envelheçam com saúde, que consigamos tratar dos mais ariscos quando ficarem doentes, que sobrevivam aos perigos do campus, que os dóceis encontrem um lar de amor e que a instituição consiga penalizar quem os abandona”.


* Reportagem produzida na disciplina "Laboratório de Produção de Reportagem", sob supervisão de Elton Antunes