Custos de estudantes com condução batem de longe o valor do benefício

Por Damoran Muzunguê

O auxílio-transporte da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atualmente fixado em R$185,00 mensais para estudantes dos campi de Belo Horizonte e R$165,00 para estudantes do campus Montes Claros, gera questionamentos sobre sua efetividade em garantir a permanência estudantil. Embora represente um apoio, o valor não cobre os custos reais de deslocamento, sobretudo para quem vive fora de Belo Horizonte. 

“Com os R$185,00, consigo pagar apenas 16 passagens, o que não cobre nem metade do mês”, diz Franciele Alves, estudante de Artes Visuais da UFMG.Moradora de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, a estudante Franciele Alves Lopez, de 25 anos, do 4º semestre de Artes Visuais, é uma das beneficiárias do auxílio. Vivendo na casa dos pais, ela precisa pegar dois ônibus para ir e dois para voltar em cada dia de aula. O custo diário chega a R$16,40, valor que rapidamente ultrapassa o montante do auxílio

“Com os R$185,00, consigo pagar apenas 16 passagens, o que não cobre nem metade do mês. Por não ser suficiente, fiz outro processo seletivo para receber o auxílio-mobilidade que acaba completando o valor faltante. Ambos os processos levaram de 4 a 5 meses para que fosse disponibilizado, ainda tendo que passar por uma assistente social para comprovar que sou de baixa renda”, relata Franciele.

A situação se agrava quando atividades acadêmicas acontecem fora do campus Pampulha, exigindo deslocamentos extras, como por exemplo visitas a museus ou aulas que requerem fotos de diversos contextos da cidade, algo muito comum nas disciplinas de laboratório das artes visuais.

Perspectiva institucional

De acordo com o Relatório de Atividades e Demonstrações Contábeis da Fundação Universitária Mendes Pimentel (FUMP), atualizado em 2023, “a política de permanência e assistência de estudantes é sempre atravessada por questões de variada natureza, multifacetada, tendo como desafio acolher, compreender e articular as dimensões sociais, culturais, étnicas, raciais, de gênero e de orientação sexual, de acessibilidade, econômicas, dentre outras, que envolvem os sujeitos que demandam as ações dessa Política”. O documento destaca que, além desses aspectos, as análises dos pedidos de auxílio buscam “se aproximarem, ao máximo, das mudanças nas realidades e contextos daqueles que chegam à UFMG”.  

Fica claro que, idealmente, a assistência estudantil na UFMG busca lidar com múltiplas dimensões da permanência acadêmica. Para os estudantes, no entanto, o valor permanece insuficiente diante das tarifas do transporte público da Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde a passagem comum das linhas convencionais custa R$5,75 (Veja o quadro Tarifas de Ônibus em BH, 2025), e também para Montes Claros onde a tarifa é de R$4,60.

Fonte: Acervo UFMG / Fump 2023

O documento da FUMP registra que a prioridade é para estudantes de maior vulnerabilidade (nível I), e é criticado por padronizar o valor, sem considerar distância ou custos reais de deslocamento. Em 2023, o investimento total no auxílio-transporte foi de R$2.756.505,00, uma redução em relação a 2022, quando o montante ultrapassou 3 milhões de reais. Apesar disso, a Fump afirma que todas as demandas dentro dos critérios foram atendidas.

Fonte: Pref. de BH, 2025; Decreto 4.942/2025; elaboração da reportagem

Consequência e Alternativa 

A FUMP, conforme exposto no seu relatório de transparência, reconhece as restrições orçamentárias e afirma que a unificação de valores busca atender o maior número possível de estudantes dentro da verba disponível. 

A Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), responsável por formular políticas de permanência, ainda não divulgou um diagnóstico detalhado sobre o impacto do auxílio-transporte e se negou a responder às perguntas da reportagem, afirmando estar tudo disponível no site de transparência da FUMP.

Maria Olivia, residente da moradia estudantil em Belo Horizonte, contrapõe a visão oficial:

Os dados indicam que a discrepância entre o valor do auxílio-transporte e o custo real do transporte ameaça a permanência de alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Por este motivo a UFMG começa a oferecer o auxílio-manutenção, que varia no valor de R$180,00, R$240,00 e R$400,00, para cobrir os demais gastos do transporte e das necessidades básicas dos estudantes.

Permanência em Risco

Apesar da criação do auxílio-manutenção, um questionamento ainda permanece: esses valores são realmente suficientes para garantir a permanência de quem vive em situação de vulnerabilidade social? Com o aumento dos custos de moradia, alimentação e transporte, os valores oferecidos não chegam à metade do salário mínimo, mal cobrem as passagens, de ida e volta, para manter as frequência nas aulas, e é ainda muito mais difícil cobrir as despesas básicas mensais.  A discussão expõe uma lacuna entre o objetivo declarado da assistência estudantil e a realidade enfrentada por parte significativa dos alunos da UFMG.

Para muitos alunos, anônimos nos fóruns estudantis, e em espaços como o Reddit, onde circulam relatos como “dá pra sobreviver com o auxílio da UFMG?”, multiplicam-se histórias semelhantes às de Maria Olívia e Franciele: estudantes que, entre longos deslocamentos, tentam equilibrar o orçamento para seguir estudando. 

Fonte: Reddit, 2025

A insegurança financeira se soma às dificuldades acadêmicas e emocionais. Enquanto o debate sobre reajustes não avança, estudantes seguem buscando estratégias para conciliar estudos e orçamento, arcando com custos que deveriam ser minimizados por políticas públicas de permanência.

 


* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes