A cena Ballroom, mais do que um espaço político, é espaço de acolhimento e descoberta de identidade para as pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.

Por Gustavo Teles

Surgido dos movimentos underground nos Estados Unidos, o movimento Ballroom, traduzido para o português brasileiro como “salão de baile”, ganhou espaço em meados dos anos 1980 e ocorria principalmente em Nova Iorque. O movimento surgiu como uma festa para a comunidade LGBTQIAPN+, realizada principalmente por e para pessoas negras e latinas. Seguiu crescendo e hoje se tornou um movimento que mais do que um espaço de resistência política é um local de liberdade de expressão e descoberta de identidade(s).

Em Belo Horizonte (MG), a cena conta com espaços como a Funarte (Fundação Nacional de Artes) e o CRJ (Centro de Referência das Juventudes), locais onde ocorrem as próprias balls (ou bailes), ensaios e trocas de experiências entre as pessoas envolvidas na cena. O movimento conta com as competições entre as chamadas houses, que vão muito além das disputas. Nas balls, as houses disputam contra outras houses em categorias de moda, dança e performance. Para além das balls, as houses são coletivos de apoio, famílias escolhidas. Como explica a multiartista e mulher trans Lázara dos Anjos, as casas representam “as famílias escolhidas: entre sobrenomes, duelos e bailes, ficam o acolhimento, pertencimento e apoio que muitas vezes falta nos lares de sangue”.




Lázara dos Anjos na ball “A Terra dá a terra quer” no festival Fanchecléticas. Foto: Jeferson Azul

Minha primeira experiência em uma ball aconteceu durante o Festival Fanchecléticas, na ball "A Terra Dá, a Terra Quer", retratada na fotografia acima e em uma próxima vocês verão futuramente. Conheci a cultura Ballroom por meio de uma pessoa amiga e fui ao evento movido principalmente pela curiosidade. Assim que cheguei, percebi que aquele era um espaço diferente de qualquer outro que eu já havia frequentado. Ao mesmo tempo em que observava tudo com atenção, senti uma sensação inesperada de pertencimento.

O que mais me chamou a atenção foi a liberdade expressada por cada pessoa ocupante daquele espaço. Aparentemente, não havia preocupação em seguir normas sociais de gênero ou padrões de aparência. Cada indivíduo estava vestido da maneira que fazia sentido para si, expressando sua identidade com autenticidade. Enquanto esperava o início da ball, vi grupos conversando, rindo, fazendo fotos e acolhendo quem chegava. Mesmo sendo a minha primeira vez, fui recebido com simpatia por várias pessoas, o que tornou a experiência ainda mais marcante.

Antes do início das competições, as pessoas apresentadoras explicaram ao público como funcionavam as categorias e a dinâmica de uma ball. Foi nesse momento que compreendi que aquele não era apenas um espetáculo para ser assistido, mas um espaço aberto à participação. Ao longo da noite, pessoas que estavam sentadas ao meu lado levantavam-se quando uma categoria era anunciada e ocupavam a passarela com confiança, criatividade e orgulho. Ver que qualquer pessoa poderia participar, inclusive eu, tornou a experiência ainda mais significativa. As performances, as danças, os looks e a entrega de cada participante demonstravam uma liberdade de expressão difícil de encontrar em outros ambientes.

Ao deixar o evento, fui embora com a sensação de ter encontrado um lugar onde eu também poderia ser quem realmente sou. Mais do que uma competição ou uma manifestação artística, a Ballroom me mostrou a força de uma comunidade que acolhe, incentiva e celebra a diversidade. Desde aquela primeira experiência, todas as balls que frequentei despertaram o mesmo sentimento: um espaço onde diferenças de idade, classe social ou identidade deixam de ser barreiras. Para mim, a ballroom se mostrou uma grande família reunida em uma celebração coletiva, na qual cada pessoa encontra espaço para existir, se expressar e ser acolhida exatamente como é.

A importância desse acolhimento pode ser percebida na trajetória de Cristal Siuves, ícone da luta LGBTQIAPN+, com três décadas de trajetória. Performer, atriz, dançarina e estilista, uma multiartista conhecida na cena como Mother Cristal, da house Barracuda. Ela conta que já conhecia elementos da cultura Ballroom antes mesmo de ingressar no movimento, mas que seu interesse cresceu após assistir ao documentário norte-americano Paris is Burning dirigido pela artista cisgênero Jennie Livingston. O filme lançado em 1990 retrata a cultura Ballroom e voguing desenvolvida por comunidades negras, latinas, gays e transexuais na cidade de Nova Iorque durante a década de 1980. Cristal também recorda experiências da adolescência que dialogavam com a cultura Ballroom: “Na época do meu ensino médio eu estudava numa escola em que todos os alunos eram LGBTQIAPN+ e a gente fazia concurso de passarela runway, e eu sempre ganhava”.

Para Cristal, a cultura Ballroom teve um papel fundamental em sua trajetória pessoal. Ela relata que se reconheceu como uma mulher trans aos 12 anos e decidiu compartilhar sua identidade com a mãe. “Eu arrumei minha mala e contei pra minha mãe quem eu era. Disse que, se ela me mandasse embora, eu entenderia, mas que eu não iria deixar de ser a filha que ela sempre teve.” No mesmo dia, Cristal assistiu ao documentário Paris Is Burning e encontrou nas balls uma nova possível realidade que transformaria a visão sobre si mesma: “Eu vi que tinha uma comunidade Ballroom onde a minha existência era celebrada”, afirma.

Fotografia 2: Mother Cristal na ball “A Terra dá a terra quer” no festival Fanchecléticas. Foto: Jeferson Azul.

As competições nas balls contam com a liberdade de poder ser quem se é, sem medo, havendo a liberdade de expressão artística demonstrada nas danças voguing (vogue), maquiagens elaboradas e desfiles de looks de criação e execução autoral das pessoas participantes. Durante as competições, são anunciadas diferentes categorias, disputadas entre as houses e avaliadas por pessoas juradas que, geralmente, são as mais antigas e experientes dentro da cena Ballroom local.

As categorias são divulgadas previamente pela organização da ball e, em geral, seguem um tema central que orienta todo o evento. Em Minas Gerais, o principal espaço de divulgação é por meio das redes sociais e do compartilhamento de pessoas participantes, como o perfil mgballroom,  fundado pelo multiartista cisgênero Legendary e pai da casa Capiva Mayky, que tem esse papel principal de divulgação dos bailes que ocorrem em Minas Gerais. A partir desse tema, são construídas categorias específicas inspiradas na cultura pop, na história da comunidade LGBTQIAPN+ ou em referências ancestrais, valorizando diferentes formas de expressão artística e identitária. Esses temas estimulam a criatividade das pessoas participantes, que desenvolvem performances, figurinos e interpretações relacionadas à proposta do baile, tornando as competições ainda mais envolventes para quem participa e para o público.

Embora as disputas aconteçam, em sua maioria, entre as houses, elas não se restringem apenas a esses grupos. A Ballroom também abre espaço para pessoas conhecidas como 007 ou free agents, participantes que não integram nenhuma house, seja por ainda não pertencerem a uma house ou por não se sentirem confortáveis em participar de uma família naquele momento. Essas pessoas podem competir em qualquer categoria, enfrentando participantes de diferentes houses. Já as pessoas que integram uma mesma house não competem entre si, mas disputam com pessoas integrantes de outras houses e com as pessoas competidoras 007. A presença das pessoas 007 reforça o caráter democrático da Ballroom, permitindo que qualquer pessoa da comunidade participe das competições independentemente de estar vinculada a uma house. Dessa forma, elas desempenham um papel importante na ampliação da diversidade e da inclusão, tornando as balls espaços cada vez mais acessíveis para quem deseja conhecer, vivenciar e fazer parte dessa cultura.

Mais do que apresentações artísticas, as balls se tornam espaços de construção coletiva e fortalecimento de laços. Segundo Cristal, “a importância dessa comunidade é que ela me trouxe acolhimento e pertencimento”. Ela destaca ainda que um dos maiores valores da cena é a possibilidade de fazer parte de algo maior: “Eu vejo com carinho o grande acolhimento que a Ballroom e as balls trazem e também como é bom você se sentir parte de algo".

A cena exalta pessoas LGBTQIAPN+, latinas e negras, dando espaço e amplificando a voz de todo um povo que há anos é marginalizado. A revista “O Globo” destacou, em reportagem publicada em 2025, o aumento da violência contra a população LGBTQIAPN+ e os desafios enfrentados principalmente pelas pessoas trans. Diante desse cenário, a cultura Ballroom se apresenta como um espaço de resistência, proteção e valorização da diversidade.

Dentro das balls o que escutamos são gargalhadas de alegria, vemos abraços e acolhimento entre as pessoas, gritarias e palmas para as pessoas que competem, mostrando que somos frutos de resistência e persistência. Como disse Lázara dos Anjos, somos “como uma grande família”. Cristal reforça essa mensagem ao convidar novas pessoas a conhecerem a cultura Ballroom: “Gostaria de dizer para as pessoas que se aproximem da comunidade Ballroom. Que podem chegar com todo carinho e respeito, sendo elas quem são, sem medo nenhum, porque a existência delas é importante e celebrada".

Assim, a Ballroom permanece como um espaço de arte, liberdade e resistência social, preservando vidas, fortalecendo identidades e construindo comunidades baseadas no respeito, no acolhimento e no pertencimento.


* Reportagem produzida na disciplina Transgeneridades, Linguagem Inclusiva e Jornalismo de Subjetividade sob a supervisão da prof. doutorande Gaia Bê Limah.