Inaugurado nas periferias belorizontinas, conheça o estilo que ganhou o TikTok

Por Isabella Leandra

 

Miranda se denomina a “Bebel 00” e ganhou mais de 140 mil seguidores no Tiktok mostrando sua rotina Foto: Reprodução/Tiktok

Se você já andou pelas ruas do centro de Belo Horizonte, com certeza já viu uma delas. Cabelo bem liso, acompanhado de uma franjinha e um piercing que lembra a Marilyn Monroe e roupas de poliamida – tecido sintético normalmente utilizado em peças de academia. Mas caso não tenha visto, vamos às devidas apresentações: conheça as Bebels. 

Esse foi o termo escolhido para nomear as “mandrakes” – gíria muito utilizada para descrever estilos periféricos no Brasil-, da Grande BH, e elas vestem essa identidade com muito orgulho. 

De acordo com uma das influenciadoras mais conhecidas do tema, Miranda, Bebel deve ser entendido como um estilo de vida, uma vivência, que vai muito além de só se vestir como uma. “Não é só você vestir uma poliamida, botar um piercing aqui e achar que é Bebel não. Tem toda uma carreira, tem toda uma história”, explica em vídeo postado em sua conta no Tiktok

A estética Brazilcore foi exportada ao mundo e ensinou uma versão brasileira que não se limita ao verde e amarelo, Havaianas branca no pé e sotaque carioca. Mas as Bebels vieram para mostrar que ela pode ser bem urbana e com um toque de “maladeza” – gíria utilizada nas periferias para se referir a alguém considerado muito estiloso, ou algo muito bom. 

Além da poliamida

Miranda conta que o nome “Bebel” veio a partir da personagem da novela Paraíso Tropical (2007), interpretada pela atriz Camila Pitanga. “Ela era uma menina ousada, que veste roupa bem decotada, e é bonita”, conta a influenciadora em um vídeo postado na plataforma TikTok, que também relaciona a origem do nome a  outra personagem, de mesmo nome, da série “A Grande Família”, interpretada pela atriz Guta Stresser. 

Nas redes sociais, a influenciadora Ana Reis (@.annareis10) descreve que houve um período em que se considerava Bebel, e que na época usava o cabelo liso com corte na altura no ombro, sobrancelhas bem marcadas, extensão de cílios volumosa e unhas de gel grandes e decoradas. Além disso, não poderia faltar as roupas de poliamida, com looks normalmente compostos por croppeds e vestidos curtos colados.

O estilo é comparado com outros nascidos em comunidades periféricas, como as planetárias (consumidoras assíduas e amantes da marca de roupas Planet Girls) e as afropatys (adaptação das “patricinhas”, mas voltado exclusivamente para mulheres negras).

Estilo também é marra 

De acordo com a historiadora Ana Clara Tolentino, de 23 anos, a moda no Brasil pode ser pensada a partir do período colonial, em que o que era considerado belo eram os padrões europeus reproduzidos em um novo território, criando uma ideia eurocêntrica sobre beleza e elegância que permeia até hoje na cultura latino-americana. “Os africanos traficados não podiam praticar, pelo menos não de forma explícita, os traços de sua cultura originária, o que implicou diretamente na forma como eles se vestiam”, explica.

Contudo, embora a moda periférica seja carregada por estigmas e preconceitos, ela é um espaço plural e pode ser vista também como um mecanismo de resistência e identidade dentro e fora das comunidades. 

As cantoras Tasha e Tracie inauguraram o termo “it favela” para dar destaque à potência que as periferias têm e são pouco vistas no universo da moda. Isso porque apesar do rótulo de “brega”, “vulgar” e “fubanga” serem constantemente associados aos estilos que nascem nos morros, não é raro ver eles sendo reinventados por influenciadores de classe alta, ganhando uma nova roupagem e só assim sendo valorizados como uma tendência.

“Se a gente for parar pra analisar, tudo o que é remetido a essa estética [fubanga], todos eles têm algo em comum. Todos eles, sem exceção, possuem sua origem de povos racializados e também dentro de comunidades periféricas, o que acaba exalando preconceito e também marginalização”, diz a influenciadora digital Carol Valle.

Na mesma ideia, estilos que valorizam o estilo de vida europeu têm ganhado força nas redes sociais e nos guarda-roupas femininos. As chamadas “clean girls” retomam a ideia de um olhar inferiorizado em relação à cultura brasileira, numa estética que valoriza o extremo limpo, neutro e sem imperfeições. “As meninas e mulheres, majoritariamente brancas, prezam por uma beleza minimalista e uma pele sempre bem cuidada, sem oleosidade e poros. Agora, como isso é possível no Brasil, onde temos um calor excessivo e uma realidade climática completamente diferente?”, questiona Ana Clara. 

Ela ainda lembra que tais estéticas levam pouco em consideração a diversidade cultural e de corpos presentes na América Latina, exaltando uma beleza irreal e ainda mais distante da realidade daqui. 

“Esparradas”

Com mais de 140 mil seguidores na rede social, Miranda se autodenomina como a “Bebel 00”. O nome não é à toa: a belo-horizontina atiçou a curiosidade da “for you”- aba de vídeos recomendados aos usuários do Tiktok-, e foi a responsável por tornar o estilo conhecido em todo o Brasil. 

Seu vídeo mais famoso já ultrapassou quatro milhões de visualizações, e marca o fenômeno que as Bebels viraram no último ano. Vídeos com as temáticas “o que é Bebel?” e “Arrume-se comigo pra virar Bebel” são cada vez mais frequentes. Nos comentários, meninas desde a pré-adolescência até a idade adulta têm se interessado em saber o que é e como ser uma Bebel. O sucesso na plataforma é um forte indicativo da curiosidade por esse estilo de vida e, quem sabe, influência para novas adesões. 

Se antes BH importava o estilo “ciclonado” de São Paulo ou “Furacão 2000” do Rio de Janeiro, hoje a cidade desenvolveu uma identidade própria, que vem muito antes do Tiktok, mas que, graças a ele, está sendo exportada junto com os MTGs – estilo de funk produzido pelos MCs de BH e região. 

*Reportagem produzida na disciplina de “Laboratório de Produção de Reportagem” sob a supervisão de Dayane do Carmo Barretos.