Entre memória e resistência, a fotografia de rua transforma o clique de uma câmera em gesto político quando encontra beleza nos múltiplos cantos da cidade.

Por Evelyn Lemes e Sthefany Luize

Registro de um olhar para a cidade em movimento. (Foto: @fotoderuabh)

As fotografias podem ser descritas a partir de variadas formas, cada uma marcada por suas singularidades que revelam muito sobre quem as produz. Podem ser interpretadas como uma cápsula do tempo ou uma reivindicação de si próprio por meio de um enquadramento próprio. No entanto, uma visão que se aproxima muito ao dia-a-dia do ofício do fotógrafo de rua é a capacidade de registrar o extraordinário no real ou no que é considerado trivial. 

O escritor mineiro Guimarães Rosa (1908-1967), em seu livro “Grande Sertão Veredas”, de 1956, descreve com bastante fervor o sertão mineiro como algo que transcende um simples cenário ou pano de fundo, transformando-o em algo vívido e repleto de mistérios. Uma simples caminhada por uma estrada de terra ou o olhar lançado a um riacho se metamorfoseiam, em sua narrativa, em algo sublime. Não é mágica; é uma forma de ver a vida. A beleza reside no momento em que se expõe isso para o mundo, seja através de palavras, ritmos, pinceladas ou uma lente. 

A fotografia de rua atravessa o mesmo percurso construído por Guimarães Rosa, mas a partir de mecanismos um pouco diferentes. A maneira como um fotógrafo de rua vê a vida  se manifesta no “não dito”, isto é, nas entrelinhas de uma imagem: nas sombras, no recorte e no movimento capturado. Assim como Rosa transformava o sertão em algo maior que si, o fotógrafo transmuta a rua em narrativa, principalmente quando encontra beleza nos espaços que costumam passar despercebidos. O fotógrafo de rua Rafael de Paulo e Silva, 39 anos, responsável pelo perfil @fotoderuabh descreve um pouco disso:

Fora de casa há um universo que, às vezes, a gente não se dá conta. Eu acho que andamos tanto no piloto automático que acabamos deixando de viver aquilo que é real. Acho que a rua, sem romantizar, tem muita coisa bacana. A partir do momento que a gente olha, passa a ver ela com outros olhos.

Em Belo Horizonte, uma capital marcada pelo equilíbrio entre tradição e modernidade, a arquitetura característica da cidade dialoga com um cenário artístico vibrante. Nesse ambiente, as ruas se tornam um terreno fértil para o surgimento de profissionais dedicados a capturar a vida urbana em sua forma mais autêntica e realista. Porém, isso não surgiu da noite para o dia.

Captura de percursos cotidianos, vidas em movimento. (Foto: @fotoderuabh)

Memórias e invisibilidades 

A formação da capital de Minas Gerais se consolidou com objetivos muito claros e idealistas, ligados à construção de uma capital-modelo que encarnasse o ideal de modernidade e progresso. O projeto foi ornamentado com o intuito de simbolizar o avanço e, simultaneamente, romper com o passado colonial escravocrata da região. A cidade foi planejada e desenvolvida na década de 1890, pela Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC), com sua inauguração oficial em 1897. Paralelamente a isso, existia o Gabinete Fotográfico da Comissão Construtora  que, como o próprio nome já sugere, era responsável por registrar o núcleo inicial e o processo de construção da nova capital. Tais arquivos eram utilizados como “instrumento técnico” e registro histórico, além de gerar publicidade ao projeto, para, assim, atrair cada vez mais imigrantes europeus e migrantes da classe alta do Brasil.

Quando analisados de perto, os arquivos oficiais desse período demonstram uma evidente intenção de eternizar uma Belo Horizonte delimitada, pomposa e, sobretudo, branca. É um dado particularmente revelador, se lembrarmos que Minas Gerais foi um dos estados mais escravocratas do país durante o Ciclo do Ouro (século XVIII), o que significava uma predominância de pessoas negras na região. Presença essa que, no entanto, foi sistematicamente apagada das fotografias oficiais. Para esses registros, romper com o passado colonial significou invisibilizar justamente aqueles que trabalharam na construção e na materialização do projeto da capital.

 A arquiteta e pesquisadora Priscila Musa, especialista em arquivos fotográficos e memória racial, desenvolve tal questão de maneira abrangente em sua tese intitulada “Quem vê cara não vê ancestralidade: arquivos fotográficos e memórias insurgentes de Belo Horizonte”. Na obra, Priscila traz reflexões acerca dos critérios e interesses que determinam quais arquivos são preservados na memória coletiva, revelando como esses registros moldam e, muitas vezes, distorcem o imaginário social sobre determinados contextos:

“O que atravessou a memória e as décadas são justamente arquivos que retratavam esse ponto de vista da elite dominante e, por isso, tiveram poder para permanecer na história. Isso nos forma, coloniza o nosso olhar. Por isso a importância na maneira como a gente olha as fotografias do passado, até mesmo para ressignificar essas imagens.”, destaca.

Nuances enraizadas

Durante grande parte do século XX, o fotógrafo Wilson Baptista (1913-2014) dedicou  parte de seu tempo aos registros da cidade, retratando as transformações urbanas de maneira singular. Segundo seu filho, Paulo Baptista, “ele tinha uma visão muito mais formalista da fotografia. Ele se interessava mais pela forma das coisas do que propriamente pelo conteúdo do que estava trabalhando. No caso da fotografia de rua, ele se interessava pela  maneira como as coisas se organizavam, como as pessoas se vestiam, como a cidade era em termos arquitetônicos”.

O olhar formalista de Wilson Baptista para a arquitetura de Belo Horizonte. (Sobreposição de fotografias: Samuel Costa/Hoje em Dia e Conjunto Governador Kubistchek, 1955, por Wilson Baptista)

Por outro lado, naquele momento, alguns olhares já se direcionavam para aquilo que escapava do enfoque das lentes voltadas ao projeto de modernidade e às transformações arquitetônicas. Mana Coelho, fotógrafa dedicada à documentação de ações, greves e atos de insurgência na vida periférica de Belo Horizonte, e Valéria Borges, liderança comunitária da favela Pedreira Prado Lopes, foram responsáveis por importantes acervos fotográficos que registraram um cotidiano marcado por luta, cultura e histórias ausentes nos livros oficiais.

A realidade escondida pelos arquivos oficiais, de um cotidiano real, sem filtros.
 (Sobreposição de fotografias: Barraco com risco de desmoronamento, 1985. Foto: Mana Coelho. Acervo Museu Histórico Abílio Barreto e reprodução: oabmg)

Os arquivos fotográficos oficiais da década de 1890 retratavam a formação de Belo Horizonte sob o ponto de vista das forças dominantes do período, representando uma história hegemônica e excludente. Em contraponto, ao longo do século XX, inúmeros fotógrafos se empenharam em capturar momentos que desafiavam a normatividade visual presente nas fotos oficiais. Não era necessariamente uma atitude política ou proposital. Eram registros de realidades diversas que, juntas, compõem uma ampla pluralidade de vozes, narrativas e corpos que movimentam a capital mineira. Além disso, revela muito sobre as técnicas, olhar de mundo e personalidade do fotógrafo.

O poder de uma imagem

Os arquivos fotográficos oficiais da década de 1890 retratavam a formação de Belo Horizonte sob o ponto de vista das forças dominantes do período, representando uma história hegemônica e excludente. Em contraponto, ao longo do século XX, inúmeros fotógrafos se empenharam em capturar momentos que desafiavam a normatividade visual presente nas fotos oficiais. Não era necessariamente uma atitude política ou proposital. Eram registros de realidades diversas que, juntas, compõem uma ampla pluralidade de vozes, narrativas e corpos que movimentam a capital mineira. Além disso, revela muito sobre as técnicas, olhar de mundo e personalidade do fotógrafo. 

O ofício da fotografia de rua se fortalece, gradualmente, como um movimento que se contrapõe ao que é registrado pelos arquivos oficiais da cidade. Com o acesso ampliado a equipamentos fotográficos e smartphones, esses profissionais capturam e difundem diferentes perspectivas, modos de vida e existências diversas, cristalizando a ideia de que existem múltiplas Belo Horizontes. Só depende de quem posiciona a câmera.

Memórias marcadas no grafite de rua (Foto: @fotoderuabh)

Esses registros permitem que memórias antes invisibilizadas sejam compartilhadas e reconhecidas. Mais do que simples cliques, ajudam a construir uma visão crítica sobre a cidade e as realidades que a perpassam. Ao voltar a atenção para o cotidiano, revelam a complexidade das relações, das transformações, dos problemas urbanos e da humanidade que atravessa cada percurso, produzindo um novo significado ao ato de fotografar.

A gente atravessa milhões de imagens todos os dias e  ninguém passa neutralizado por elas.  Podemos usar a força dessas imagens para construir algo positivo, algo que brilhe e que potencialize as existências múltiplas[..]Elas têm essa capacidade de transformar realidades também”, adiciona Priscila.

A tecnologia impulsiona, cada vez mais, a divulgação da cidade sob diferentes pontos de vista e facilita o acesso a realidades antes apagadas. Com isso, o olhar político para esses registros se torna cada vez mais palpável e evolutivo. Porém, esse mesmo desenvolvimento  produz também uma certa efemeridade no olhar daqueles que consomem as imagens, tornando esses instantes mais breves do que nunca.

Rafael destaca que, embora as redes sociais tenham ampliado a divulgação da fotografia, elas também contribuem para que as imagens sejam consumidas de forma rápida e descartável, sem espaço para reflexão. Segundo ele, diferentemente do que ocorre em uma exposição, onde a fotografia impressa e contextualizada permite uma apreciação mais atenta e profunda, nas plataformas digitais muitas pessoas mal chegam a observar verdadeiramente o que veem. Para ele, quando recebida com atenção, a imagem pode gerar reflexão e revelar histórias que vão além do simples registro, por isso a importância da sua materialização.

Cada esquina carrega consigo memórias que atravessam o tempo, marcas que preenchem a história da cidade e revelam um mundo de vivências múltiplas. Se Guimarães Rosa encontrava o extraordinário em cada pedra e folha do sertão, a fotografia de rua busca esse mesmo extraordinário nas vielas e calçadas do cotidiano belo-horizontino.


* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos