Para artistas independentes e especialistas, Belo Horizonte ainda se consolida como um grande polo de artistas e sonhos.
Por Kauet Machado e Willian Assis

Há décadas Belo Horizonte se consolida como um dos grandes pólos da música nacional. Com uma paisagem plural, que vai desde o MPB ao rock e pop, a capital mineira já foi o palco de estreia de grandes nomes da música brasileira, como Milton Nascimento e Lô Borges, com o Clube da Esquina, além de Skank, Jota Quest e Sepultura.
Recentemente, nomes como Marina Sena, Djonga e Lagum demonstram que a cidade ainda tem grande relevância na indústria musical brasileira. Porém, o que se pode observar na produção musical que não é ancorada por grandes investimentos e gravadoras, a cena independente de Belo Horizonte?
Nós conversamos com três artistas independentes sobre as suas trajetórias, percepções e o que desejam para a música independente da capital mineira.
O começo da independência
Jimmy Andrade descobriu a música ainda na infância, em Minas Novas, no interior do Vale do Jequitinhonha. Sua criação foi marcada pela musicalidade regional que, em suas palavras, tinha o tambor, a viola, e ritmos caipiras como o centro de tudo. Sua cidade natal e a região em seu entorno é marcada por diversos ritos religiosos como festa de reis, congados, forros, entre outras manifestações culturais.
Em meio à forte tradição e à cultura regional, Jimmy, uma pessoa não-binária com uma grande curiosidade para desbravar o mundo, começa lentamente a aspirar novos horizontes em seu futuro. Sua jornada começou em 2002, aos 12 anos, quando começou a brincar despretensiosamente com sons em seu computador. Anos mais tarde, em 2004, um conhecido pediu sua ajuda para gravar músicas e, assim, Jimmy começou a trabalhar com os Irmãos do Forró e com uma banda rock. Foi nesse ponto em que Jimmy mergulhou no universo da produção musical pela primeira vez.
Nos anos seguintes, se mudou para Diamantina, participou de uma banda de rock como vocalista, se formou em Sistemas da Informação e se aprofundou nos estudos musicais em um conservatório da cidade. Em 2015, Jimmy se mudou para Belo Horizonte, buscando espaço para crescer em sua carreira musical e por uma maior estabilidade em sua área de formação, na qual trabalhava.
Em 2016, Jimmy lançou seu primeiro álbum “Entre o Não e o Querer”, no qual relata experiências pessoais e sentimentos complexos. Desde então, vêm lançando singles, como “?(Dúvida)”, “O que me fez maior ” e “Ultimato “. Atualmente, o artista está se preparando para o lançamento do seu próximo grande projeto, um álbum inédito, a ser lançado em breve.

Música independente é persistir
Em nossa conversa, o músico e produtor nos contou sobre os desafios vividos por ser um artista independente. Questões como respeito, visibilidade e financiamento são algumas das dificuldades enfrentadas em sua carreira. Para Jimmy, fazer música é algo de grande investimento e pouco retorno para artistas independentes: eles se dedicam, investem suas finanças e tempo e, na maior parte do tempo, não recebem um retorno de visibilidade ou financeiro proporcional ao esforço destinado à arte.
“Muitas vezes eu me vejo tendo que batalhar pelo mínimo, pelo mínimo de respeito, pelo mínimo de cachê, e pelo mínimo de estrutura para cada evento”, desabafa.

Para artistas independentes que não possuem grandes financiamentos ou renda elevada, produzir arte se torna um grande desafio. Jimmy retornou recentemente à sua área de formação, a fim de buscar estabilidade financeira para sua vida pessoal e forma de angariação de recursos financeiros para sua vida artística. Entre o trabalho e a arte, sua vida se prova uma grande corrida por tempo e espaço para se expressar.
“Eu acho que o desafio do artista é o desafio de todos nós que somos trabalhadores. É conseguir trabalhar de forma ética, digna, produzindo coisas legais e ainda conseguir ter dinheiro para pagar as contas no fim do mês”, comenta Eduardo Antonio de Jesus, professor de Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A correria também é experimentada por Alexia Cristina, ou Lexis. A artista também teve contato com a música desde cedo, quando os seus familiares cantavam nas igrejas em que frequentavam ou em reuniões de família.
Após o ensino médio, integrado ao curso técnico em Eletroeletrônica no Cefet, ela decidiu tirar um ano sabático. Foi neste período em que fez um curso de capacitação profissional em teatro que, segundo ela, a ensinou muito sobre as burocracias relacionadas aos editais de incentivo à cultura.
Em 2023, ela entrou no curso de Relações Públicas na UFMG como um complemento do seu sonho: trabalhar com arte.
Além de fazer uma graduação e se dedicar à música, Lexis ainda trabalha na empresa da sua família. Tanto a rotina agitada quanto a indisponibilidade de recursos a obrigam a buscar por um equilíbrio, muitas vezes delicado.
“Eu acho que tenho que ir um passo de cada vez mesmo, sabe? Porque, sendo sincera, afeta totalmente. Em questão de rotina, esse ano foi um ano que eu compus pouquíssimo”, comenta Cristina.
Leis de incentivo à cultura e editais
A forma como Lexis conseguiu viabilizar a sua música foi por meio das leis de incentivo à cultura, que se materializam por meio de editais. Eles podem ser disponibilizados recorrentemente em três níveis – nacional, estadual e municipal – e oferecem os recursos de forma direta ou indireta. A lei Rouanet, por exemplo, exige que o artista, ao ser aprovado, busque as empresas para captar o recurso, que vem dos seus impostos. Em outros, como os do Fundo Municipal de Incentivo à Cultura de Contagem, em que a artista participou, o dinheiro é repassado de forma direta.
“Se o nosso projeto estiver de acordo com a visão e o objetivo daquele edital, a gente é classificado, consegue o financiamento para promover as nossas obras”, explica Lexis.
Foi dessa forma que ela lançou a sua segunda música, Peito Sambô, em setembro deste ano. A canção, que nasceu de um processo de luto, tema comum em suas canções, foi contemplada no edital Movimenta Cultura, do Fundo Municipal de Incentivo à Cultura de Contagem.

Para Jimmy, a sociedade brasileira tem um problema muito sério de letramento sobre como a cultura é gerenciada no Brasil. A Lei Rouanet, ele explica, é um mecanismo em que o artista cadastra um projeto no sistema, e o governo, através do Ministério da Cultura, o homologa, permitindo que o artista vá atrás de empresas e pessoas físicas para captar recursos.
“Ela é uma das primeiras iniciativas de grande conhecimento que a gente tem no Brasil, de democratização do acesso à arte, de preservação do nosso patrimônio cultural. Existe essa ideia de que ela beneficia grandes artistas, mas ela também beneficia artistas menores, projetos menores e projetos mais regionais”, complementa.
Em Belo Horizonte, segundo ele, há diversas oportunidades proporcionadas pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, com editais como o Zona Cultural Praça da Estação, o Multilinguagens e o BH nas Telas.
O papel da Internet na produção
A popularização da internet e das redes sociais é um outro fator que facilita as dinâmicas de divulgação dos projetos musicais autorais. De acordo com Eduardo Antônio de Jesus, a chegada deste novo meio de comunicação alterou e reconstitui a cena independente.
“De um lado, tinha os meios de comunicação que eram massivos e se tinha muito mais controle na mídia; a emissão era muito mais controlada, especialmente a emissão massiva. Quando a gente muda as formas da comunicação, altera o modelo”, explica o professor.
Ainda, para Jesus, a internet muda o envolvimento do público e a forma de fazer com que as produções independentes cheguem nas pessoas.
Para Elen Ribeiro, a internet é uma ferramenta essencial. A belo-horizontina, de 25 anos, é publicitária formada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e teve sua formação musical iniciada cantando em uma igreja evangélica na infância. Aos quinze anos, ela teve a oportunidade de apresentar músicas não religiosas em sua escola, e desde então participou de diversos projetos musicais.
Sua carreira enquanto artista independente se iniciou com o lançamento do single “Pra sentir” em 2023. De lá para cá, a cantora lançou alguns singles como “Eu me levo a sério”, a colaboração “Tô perdido”, com os artistas Virtoloo e Izzy Cunha, e seu mais recente trabalho “O preto e preta”. Atualmente, ela atua como publicitária e tem essa atividade como principal fonte de renda.
Sobre a comunicação nas redes sociais, Ribeiro acredita que ela pode ser um fator decisivo para o deslanchar de uma carreira. Para ela, isso não exclui o papel do presencial e da cena local, acreditando que os dois meios devem andar juntos. Elen comenta que, como a internet representa um local imprevisível, o artista pode estourar com um conteúdo ou talvez nunca alcançar relevância no espaço virtual.
“Tem muita gente que cria conteúdo cantando, cria conteúdo das próprias músicas e que nunca estoura e tem gente que estoura com um vídeo. Então, tem muito a ver com o movimento, tem muito a ver com o que que tá circulando, com o que as pessoas vão parar para ver? Tem uma certa parte que é, que é de uma imprevisibilidade, sabe?”, reflete.

Os palcos da cena
Fora do ambiente digital, as oportunidades também se manifestam. De acordo com Jimmy, quando chegou em Belo Horizonte em 2015, encontrou uma dinâmica acelerada, mais plural e competitiva, com um ritmo muito diferente dos códigos do interior de Minas.
“Belo Horizonte tem uma pluralidade bem bacana de gênero hoje. Tem rock, tem indie, tem MPB, tem pop, tem samba, tem eletrônico”, comenta.
Nestes 10 anos, Jimmy tocou em diversos espaços como A Autêntica, localizada em Santa Efigênia, que é a maior casa de show de música independente da cidade, na sua opinião.
Além disso, relata uma boa experiência no Tranquilo, um projeto que possibilita artistas independentes divulgarem os seus projetos. A dinâmica começa com a divulgação, com pouca antecedência, do local e as pessoas descobrem o artista na hora. Estes encontros sempre são intimistas, o que aumenta a conexão entre os artistas e o público.
Jimmy, que conseguiu um espaço no Tranquilo através da sua característica determinação, conta que cantar lá foi uma grande oportunidade. “Quando eu toquei lá, me trouxe uma autoridade. Muita gente passou a me conhecer, muita gente passou a me respeitar mais”, relata.

Porém, mesmo com esses espaços de acolhimento e a diversidade local, o artista nos conta que, desde quando chegou à capital, ainda se sente subestimado e desvalorizado, já que o mercado fechado é dominado por homens brancos, cisgênero e héteros com equipes e condições que facilitam seu sucesso.
“Teve momentos que, quando eu recebia um não de um contratante ou um edital que eu não passava, eu senti o mundo martelar na minha cabeça: ‘Tá vendo? Isso aqui não é para você. Não adianta você saber cantar, saber compor, produzir música, isso não é suficiente. Você não vai conseguir fazer dinheiro com isso. É melhor você voltar para a tecnologia’”, desabafa o artista.
Jimmy também comenta que os artistas não devem se enganar com o mito dos bares e restaurantes, acreditar que eles serão encontrados milagrosamente por um produtor ao tocarem nesses espaços. No lugar, eles encontrarão um espaço de pouca abertura pelo público, que também é ingrato.
“As pessoas não estão ali para ouvir um trabalho autoral, de vez em quando isso pode acontecer, mas é ingrato demais, sabe?”, conta.
Na visão de Jimmy, a tendência futura da música caminha para eventos menores e intimistas, mais focados na experiência. A busca das pessoas por autenticidade e conexão fará com que as pessoas busquem por encontros mais genuínos fora dos shows de estádio.
“Em 2025, com a era da inteligência artificial criando o que não existe, a gente precisa ser verdadeiramente quem a gente é, sabe?”, completa.
O futuro em cena
Em meio a uma cena extremamente plural, artistas de todo o estado se aventuram na capital mineira, todos em busca do tão sonhado reconhecimento. É nesse contexto em que a cena e a comunidade se tornam o centro de tudo.
Para Jimmy, a comunidade tem um papel essencial. O artista considera que há uma falta de apoio mútuo entre os músicos quando se trata da cena local. “Eu acho que falta as pessoas olharem para esses projetos com um olhar de apoio e de igualdade”, comenta. Para mudar isso, o cantor compartilha que o seu objetivo é construir a cena com esse apoio, a partir da formação de uma rede de contatos, agindo sempre com a vontade de ajudar, de querer ver um cenário melhor do que aquele que encontrou no início.
Na própria carreira, ele visualiza uma expansão de mercado para além de Belo Horizonte, abrangendo o interior de Minas e até mesmo outros estados. O cantor vê as conexões entre artistas como uma possibilidade crescimento de carreira e, dessa forma, planeja apresentar sua arte para novos públicos. Para o futuro, Jimmy espera maior reconhecimento e respeito como artista e a possibilidade de viver exclusivamente com a renda gerada por sua arte.
O sonho de Lexis não se distancia completamente da aspiração de Jimmy. Ela conta que espera que o futuro a permita crescer enquanto artista, expandindo seu público e permitindo seu acesso a novos espaços.
“Então, acho que eu tenho que aprender a me inserir nesses lugares onde eu acho que a minha música fica melhor contextualizada, onde ela combina mais, aprender sobre isso, como eu chego nesses locais, construir a minha comunidade de fãs, de pessoas que vão me acompanhar”, comentou.
Para ela, o trabalho e o investimento na própria carreira é o caminho a se seguir. O desejo de crescer como artista está em seu horizonte e as ferramentas para isso estão no presente. Seu objetivo é ganhar maior reconhecimento e, um dia, poder viver de sua arte.
“É sobre isso, ampliar esse público, sabe? E ir fazendo mais e mais projetos, me apresentando mais e fazendo a minha música ser cada vez mais conhecida. E assim, um dia, se Deus me permitir, gostaria de viver de música. Meu sonho. Enquanto isso não acontece, a gente vai fazendo igual tá acontecendo”, contou a cantora.
Elen Ribeiro almeja crescer, viver o sonho de sua música um dia, ser reconhecida e realizada em sua carreira. Ela nos contou sobre seus próprios desafios com o financiamento de seus projetos musicais. No momento, ela está trabalhando para que, em um futuro próximo, desenvolva sua carreira da forma que sempre sonhou.

“Eu acho que, hoje em dia, todo mundo tem boleto para pagar. Então, eu vejo que tá todo mundo tentando achar um equilíbrio. Queria eu largar tudo e viver de música, assim como meus amigos? Sim, todos nós queremos, mas não é tão simples assim.” comenta a cantora.
Para ela o futuro é incerto, mas a arte continua, a música é uma parte indissociável de sua vida. Ela planeja ampliar sua carreira e identidade enquanto artista, e dessa forma fazer sua arte alcançar novos horizontes.
Próximos lançamentos
Em breve, Jimmy lançará a música “Eu descobri a música”, um pop-rock que oferece um resumo da conversa que tivemos com ele sobre a sua trajetória enquanto artista musical. Acompanhe em @jimmyandrade em todas as plataformas.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos