O Bar que transformou um ponto amaldiçoado em um reduto de torcedores do América em Belo Horizonte
Por João Pedro Salles da Silva e Lucas Carmona
A rua Pitangui, no bairro Horto, na zona leste de Belo Horizonte, é um mapa de cicatrizes e glórias do futebol mineiro. Próximo ao imponente muro da Arena Independência, que já foi palco da maior zebra de uma Copa do Mundo (1950) e hoje é oficialmente patrimônio do América Futebol Clube, resiste um pequeno balcão de memórias e bolinhos de carne: o Bar da Sandrinha.

No recinto, o tempo é medido não pelo relógio, mas pelo apito final dos jogos e pelas lendas que a própria proprietária, Sandra, ajudou a construir. O bar é mais que um ponto comercial: é o refúgio onde o orgulho americano se preserva, mesmo quando o momento do clube não é dos melhores e o estádio, a casa do torcedor do Coelho, se curva à presença dos rivais maiores.

A Cabeça de Burro
Sandra Erci, popularmente conhecida como Sandrinha, chegou ao Horto em 2003, um ano em que o América se encontrava na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. O ponto, próximo ao Independência, era um enigma.
“A ideia é minha. Eu tinha um trailer na parte de baixo do (Bairro) Sagrada Família… Aí rodando, rodando, aí cheguei aqui. Aí tinha um pessoal aqui que estava passando o ponto. Estava doida para sair e eu aproveitei a oportunidade”, conta Sandra.
O lugar, que sequer tinha nome, era conhecido apenas como “bar do meio”, carregava um folclore sombrio. “Quando eu cheguei falaram que tinha uma cabeça de burro enterrada aqui, que almadiçoava todos estabelecimentos que foram aqui e que eu não ia conseguir nada”, relata a dona do bar.
A cabeça de burro não resistiu à organização metódica e à culinária de Sandrinha. No mês seguinte à sua chegada, o passado desorganizado do local quase atrapalhou seu negócio..
“A vigilância sanitária chegou. Elas já me conheciam lá no trailer de baixo e quando chegaram, até se assustaram. Perguntaram o porquê de eu estar aqui e relataram que estavam ali para fechar o bar. Me disseram que o último pessoal que estava aqui, tinha deixado o lugar em um estado muito ruim”, contou Sandrinha sobre o passado complicado do local.
Mas Sandrinha já tinha o alvará, e logo estabeleceu o padrão de limpeza e qualidade que se tornaria a marca do bar. Seus quitutes, como o tropeiro, o contra-filé com fritas e o pezinho de porco ensopado, ganharam fama. Mas nenhum é mais emblemático que a iguaria que a torcida alviverde batizou:
“Temos um bolinho de carne que foi batizado pelos clientes de “dinossauro.” Tem uns que até diminuem, e o chamam de dino! É o nosso produto mais vendido e a cara do nosso bar”, afirmou a empreendedora com orgulho.
O Bar do Deca
O Bar da Sandrinha não é apenas um bar no Horto. É, como atesta Aldair, um de seus clientes mais antigos, a “única embaixada americana” do entorno. O aposentado, frequentador assíduo desde que amigos o apresentaram à Sandrinha, não tem dúvidas:
“A Sandrinha é o único bar de Americano que existe na região. A frequência aqui é de americano mesmo”, relatou Aldair.

A relação única dos torcedores com o Bar já gerou algumas boas histórias. Antes de um jogo da Série B, a tradição de passar no Bar da Sandrinha na véspera da partida era algo muito importante para uma turma de torcedores. Então eles tiveram uma ideia inusitada
“Um grupo de torcedores que frequenta bastante aqui marcou de ir pra São Paulo, ver um jogo do América. Só que eles sempre vinham aqui antes dos jogos, né?Aí eles me pediram pra fazer um ‘pré jogo’ aqui, 6 horas da manhã, antes do vôo deles. E eu topei. Fiz um café da manhã bonito pra eles, com bolo, pão de queijo e tal. Uma mesa que ia do balcão até a porta”.

Decatropeirão
Combinados entre Sandrinha e torcedores já aconteceram outras vezes. Certa vez, com o América lutando pelo acesso, Sandrinha prometeu que caso o América subisse iria colocar no cardápio o “Decatropeirão”. Um tropeiro especial com 10 ovos. E assim foi feito, pois o América conseguiu subir de divisão.
“Eu fazia o Decatropeirão. Era o máximo, todo mundo gostou. Ele era muito grande. Dava trabalho. Mas eu prometi pra eles né?”
O América, fundado em 1912, carrega a aura do Decacampeonato Mineiro (1916-1925), um feito jamais igualado no estado. Essa hegemonia histórica, com seu título de 1925 reconhecido apenas em 2012, dialoga com a resiliência do clube em um cenário dominado pelos rivais mais poderosos Atlético e Cruzeiro. O bar de Sandrinha é o palco onde essa história é celebrada em meio a porções de pernil com mandioca.
Para Aldair, o América é mais que um time. E é no bar, antes ou depois da partida, que os momentos de glória são revividos. O jogo contra o Penarol, na histórica participação da Libertadores de 2022. E também jogos marcantes do Campeonato Brasileiro. Todos os grandes momentos do América até agora no século XXI contaram com a torcida frequentando o Bar da Sandrinha.
O Galo Invade o Horto, a Sandrinha Resiste
O estádio Independência, casa do Coelho, tem uma história turbulenta e compartilhada. Inaugurado em 1950, foi repassado ao Sete de Setembro Futebol Clube e, em 1997, tornou-se oficialmente patrimônio do América.
A década de 2010 trouxe uma grande reforma (2010-2012) e, ironicamente, uma nova onda de invasão rival. Com o estádio do Mineirão em obras para a Copa de 2014, o Clube Atlético Mineiro fez do Horto seu talismã, sua fortaleza invicta.
Em 2013, o Horto foi um aliado crucial na campanha do inédito título da Copa Libertadores do Atlético. A sequência de vitórias, a mística criada, tudo conspirou para que um dos maiores rivais do América tomasse conta do seu estádio. Torcedores atleticanos lotavam a Pitangui e as ruas adjacentes. Recentemente, mesmo com a inauguração de estádio próprio, a Arena MRV, o Galo ainda utiliza o Independência em ocasiões pontuais. O Cruzeiro também teve sua parcela no estádio, celebrando ali seu último título estadual em 2019, vencendo justamente o Atlético.
No entanto, em meio a essa dança dos gigantes, o Bar da Sandrinha se manteve fiel à sua cor original. Enquanto o Coelho encerrou a temporada de 2025 com um amargo 14º lugar na Série B, o bar continua sendo o ponto de encontro onde a chama verde e branca se mantém acesa, blindada pelas paredes e pelo cheiro do “dinossauro”.
Sandrinha, em seu balcão, é a guardiã dessa tradição. Ela viu seu bar ser invadido por outras cores, mas seu estabelecimento segue sendo a voz, e o paladar, do time do Decacampeonato. O Horto pode ser o estádio de todos, mas o Bar da Sandrinha é, inegavelmente, a casa do América.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes