Criadores de conteúdo ganham credenciais para eventos como Copa do Mundo, Olimpíadas e festivais internacionais, levantando debates sobre credibilidade, mercado de trabalho e os limites entre jornalismo e entretenimento.
Por Cauã Henrique Alves de Souza
Durante grande parte do século XX, a cobertura de eventos como Olimpíadas e Copas do Mundo era quase exclusiva para jornalistas. A lógica era simples: para narrar os acontecimentos era preciso dominar técnicas de reportagem, apuração, entrevista e contextualização.
No entanto, a popularização da internet e das redes sociais transformou essa dinâmica. O que começou com blogs e canais independentes evoluiu para um ecossistema de criadores capazes de mobilizar milhões de seguidores sem depender dos veículos tradicionais. E nesse cenário, a disputa das empresas de comunicação deixou de ser apenas pela informação e passou a ser também pela atenção do público.
O jornalismo como formação
Segundo reportagem publicada pelo portal Metrópoles, a Geração Z passou a enxergar influenciadores como importantes referências de autoridade e formação de opinião. Figuras públicas nas redes sociais frequentemente exercem influência comparável ou até superior à de veículos tradicionais, alterando a forma como informações circulam na sociedade contemporânea.
Os números ajudam a explicar esse fenômeno. O Digital News Report de 2025 mostra que os influenciadores já figuram entre as principais fontes de notícias para os mais jovens. Entre pessoas de 18 a 24 anos, 44% afirmam recorrer a criadores de conteúdo para se informar. Ao mesmo tempo, quase metade dos entrevistados considera que esses mesmos influenciadores são importantes propagadores de desinformação.
O pesquisador Paulo Silvestre, em publicação no Estadão, entende que parte da explicação está na maneira como esses criadores se comunicam. Enquanto jornalistas costumam falar em nome de instituições, influenciadores falam em nome próprio. Compartilham bastidores, opiniões, erros e experiências cotidianas, criando uma sensação de proximidade difícil de reproduzir nos formatos tradicionais do jornalismo.
Jornalismo, entretenimento e credibilidade

A tensão entre alcance e credibilidade ganhou um novo capítulo em maio de 2026, quando a TV Globo anunciou que Virginia Fonseca participaria da cobertura da Copa do Mundo para o programa "Domingão com Huck". A influenciadora foi escalada para produzir conteúdos sobre bastidores, rotina das cidades-sede e experiências relacionadas ao torneio.
A escolha gerou reações imediatas. Durante o programa Posse de Bola, o jornalista Juca Kfouri classificou a decisão como um exemplo da substituição do jornalismo pelo entretenimento. Já o influenciador Felipe Neto afirmou que acompanharia a competição por outras transmissões.
Para o professor Carlos Eduardo Lins da Silva, para o Jornal da USP, organizações públicas e privadas têm dado cada vez mais espaço a influenciadores em eventos, entrevistas e ações institucionais. O problema, segundo ele, não está na produção de conteúdo em si, mas na substituição de práticas jornalísticas por conteúdos que nem sempre seguem critérios de verificação, contraditório e responsabilidade editorial.
A preocupação dos pesquisadores não está na capacidade dos influenciadores de informar, mas na preservação de princípios que historicamente sustentam o jornalismo, como checagem de fatos, transparência e compromisso com o interesse público.
Nem só entretenimento: o fenômeno CazéTV
Se a presença de influenciadores como Virginia Fonseca desperta críticas, o caso da CazéTV revela um cenário diferente. Criada pelo streamer Casimiro Miguel em 2022, a plataforma se consolidou como uma das principais transmissoras esportivas do país.

Na Copa do Mundo de 2026, o canal alcançou cerca de 30 milhões de inscritos no YouTube e chegou a disputar audiência e faturamento com a Globo, líder histórica das transmissões esportivas brasileiras. O crescimento da CazéTV está associado a uma linguagem mais informal, marcada pela interação com o público e pela forte presença nas redes sociais. O fenômeno demonstra uma mudança nos hábitos de consumo de informação e entretenimento, especialmente entre jovens que passaram a acompanhar eventos esportivos por plataformas digitais em vez da televisão aberta.
Ao mesmo tempo, o sucesso da plataforma mostra que o público jovem não necessariamente abandonou o interesse por coberturas esportivas, mas passou a consumi-las em formatos diferentes dos oferecidos pela televisão tradicional.
O caso da CazéTV mostra que a discussão não pode ser reduzida à oposição entre jornalistas e influenciadores. Embora a plataforma conte com profissionais de imprensa e uma estrutura semelhante à de um veículo de comunicação, seu crescimento também está associado à figura de Casimiro como influenciador. Isso evidencia que, mesmo quando o jornalismo permanece presente, a lógica do engajamento e da personalidade individual se tornou central para a atração de audiência.
Quando a crítica não é ao influenciador, mas ao privilégio
A discussão vai além dos influenciadores e envolve também questões relacionadas ao mercado de trabalho. Redações cada vez menores, redução de vagas e exigências crescentes convivem com a contratação de personalidades digitais para funções antes destinadas a repórteres formados em Jornalismo.

Em Belo Horizonte, o anúncio de que JP Menin integraria a cobertura da Copa do Mundo pela Itatiaia provocou questionamentos nas redes sociais. Neto do empresário Rubens Menin, controlador da emissora, ele foi alvo de críticas de estudantes e profissionais da área. Entre eles está o estudante de Jornalismo, Paulo Santos, conhecido nas redes sociais como @eh.opaulera. Em vídeo publicado após o anúncio, ele questionou a escolha e argumentou que a decisão desvaloriza profissionais que construíram trajetória na imprensa esportiva.
"É a maior rádio do Brasil cuspindo na cara dos seus trabalhadores. Isso é um desrespeito com quem trabalha lá e com todo mundo da imprensa", afirma.
A percepção é compartilhada por outra estudante da área. Para Lorena Vieira, estudante do quinto período de Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a crescente presença de influenciadores e personalidades digitais em espaços tradicionalmente ocupados por jornalistas gera um sentimento de desigualdade entre profissionais em formação.
"É frustrante perceber que, enquanto muitos estudantes e profissionais passam anos se qualificando para atuar na área, algumas oportunidades acabam sendo direcionadas a pessoas que já possuem influência e visibilidade. Isso passa a impressão de que o engajamento vale mais do que a formação profissional", avalia.
As falas evidenciam que o debate não se limita à presença de influenciadores nas coberturas. Também envolve questões relacionadas à meritocracia e as oportunidades dadas a quem tem influência.
A discussão que atravessa a Copa do Mundo de 2026 não é apenas sobre quem ocupa o microfone, mas sobre quais critérios definem autoridade no ambiente digital. Influenciadores, streamers e jornalistas profissionais passaram a compartilhar espaços que durante décadas estiveram restritos às redações tradicionais. Enquanto os criadores de conteúdo oferecem proximidade, linguagem acessível e engajamento, o jornalismo continua sendo associado à produção sistemática de informação verificada.
Em um cenário em que audiência, alcance e credibilidade nem sempre caminham juntos, a disputa pela atenção do público redefine as fronteiras da comunicação. O resultado dessa transformação pode influenciar não apenas a forma como os grandes eventos serão cobertos nos próximos anos, mas também a maneira como as futuras gerações irão se informar. Em um mercado cada vez mais híbrido, onde entretenimento, informação e influência se cruzam, a disputa pela audiência também se tornou uma disputa por autoridade.
* Reportagem produzida na disciplina "Laboratório de Produção de Reportagem", sob supervisão de Elton Antunes