No centenário da Escola de Música da UFMG, a marginalização de alguns ritmos ainda é uma questão, mesmo que muita coisa tenha mudado.

Por Álvaro Goulart, Isabela Fernandes e Yasmin Veloso

Seja rock ou funk, seja jazz, dos elitizados encontros de orquestras de música clássica nos séculos passados até a cultura do rap urbano atual, a música sempre moveu as pessoas. Da rádio que toca dentro do carro, aos fones de ouvido que acompanham o exercício físico, ela está lá, independentemente do seu estilo. 

Os estudos em instituições de ensino superior — como a Escola de Música da UFMG, que completa 100 anos de existência em 2025 — mostram como o conhecimento é uma das principais ferramentas na produção de respeito cultural sobre as diversas formas de se expressar musicalmente, principalmente no que se refere aos ritmos populares. Contudo, na grade curricular do curso de Licenciatura em Música, vigente desde 2017, apenas cerca de 5% das disciplinas do percurso são voltadas para a música popular.

Escola de música da UFMG. Foto: Isabela Fernandes

A música popular com o passar dos anos

Em primeiro lugar, é preciso entender o que são as “músicas populares” e como suas transformações ocorreram — e continuam a ocorrer — na sociedade. Antes usada como uma justificativa para segregação social e racial, a música popular teve seus limites transformados em algo mais fluido — porém não apagados totalmente.

Como exemplo disso, o funk e o rap, gêneros musicais com origem nas periferias, retratam a realidade desse recorte da sociedade e muitas vezes são caracterizados como produções de baixo valor artístico. Algo semelhante ao que ocorreu com o samba durante a República Velha e a Ditadura Militar, quando frequentar uma roda de samba era motivo de prisão por vadiagem. Mais recentemente, a Lei Anti-Oruam, que está em tramitação na Câmara Municipal de Belo Horizonte e visa criminalizar o funk e demais manifestações culturais periféricas, evidenciam que essa tensão se mantém até hoje. 

O PL 25/2025, de autoria do vereador Vile, do PL, tem o objetivo de proibir o “financiamento de shows, artistas e eventos abertos ao público que envolvam, no decorrer da apresentação, expressão de apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas”. O projeto de lei foi apresentado pela primeira vez na Câmara Municipal de São Paulo pela vereadora Amanda Vettorazzo, do União Brasil e, depois, foi replicado e apresentado em mais onze capitais brasileiras.

Ao longo da história, outros estilos já ocuparam lugar de “música inferior”. Se voltarmos às origens do rock, do samba e do jazz, por exemplo, todos vieram de grupos socialmente invisibilizados, em sua maioria, pretos ou com influência da cultura afro-americana, que tinham como objetivo usar da arte como resistência social e valorização da própria cultura. Porém, essa relação não se manteve. O jazz, criado no início do século 20 com influência da cultura afro-americana, a partir da década de 50, com movimentos como o bebop e o cool jazz, passou a receber atenção de críticos, acadêmicos e conservatórios, iniciando um processo de reconhecimento que o daria o título de música erudita futuramente.

De Conservatório para Escola: um passo em direção ao novo

Professor e vice-diretor da Escola de Música Carlos Aleixo. Foto: ALMG.

Apesar dos seus longos 100 anos de história, até 1962 a Escola de Música ainda atendia por Conservatório Mineiro de Música, e foi só em 1997 que a instituição foi agregada ao campus da Pampulha, no prédio que ainda opera. Carlos Aleixo, vice-diretor da Escola de Música da UFMG e professor da área de Performance e Pedagogia da Viola, entende que essa migração foi fundamental para ampliar o olhar — ou os ouvidos — para ritmos menos prestigiados.

Nós acabamos ficando, inclusive, numa diversidade de escolas que a gente antes não tinha acesso, não tinha muito contato. E isso proporcionou uma vivência dos alunos e de professores em uma forma muito mais ampla na questão social.

Historicamente, o estudo no Conservatório era bastante tradicional, voltado para música de concerto. Mas, ao migrar para um campus mais diverso, plural e dinâmico, não era possível que a Escola de Música permanecesse igual. Com a chegada de alunos de outras unidades, por meio dos projetos de extensão, a procura por outros gêneros cresceu, seja do chorinho ou do rock, seja do funk, os estudantes estavam interessados em outros fazeres musicais, e a Escola de Música não fugiu desse movimento.

A partir de 2009, o curso de Música Popular passou a ser ofertado na UFMG, sendo a segunda graduação dessa categoria no país. Isso foi possível devido ao Reuni, programa de apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais Brasileiras, instituído em 2007.

A presença de nomes como Toninho Horta, icônico guitarrista do Clube da Esquina, colaborou com a aceitação desses novos gêneros na Escola. Hoje, ao andar pelos corredores do prédio, especialmente no período noturno, é possível ouvir uma variedade de práticas musicais e culturais, como o rock, o chorinho, a Folia de Reis, os congados, a música indígena, entre outras. Entretanto, as sonoridades mais clássicas ainda prevalecem.

“Sempre existiu e hoje ainda é forte a ideia de música como um lugar distante socialmente. Ela qualifica no pensamento de muitas pessoas como um local de estratificação social, (...) o que é um equívoco porque a música é algo inerente da humanidade” — declarou Bruno Vasconcelos, estudante de licenciatura em Música na Escola de Música e presidente da empresa júnior Vanguarda Produções.

A organização e a vivência musical fazem parte da vida de todos e romper com a ideia de que a excelência musical é o que está próximo de um padrão europeu, como a música de concerto, é um desafio importante para a comunidade acadêmica como um todo. Uma percepção da própria gestão da Escola de Música, inclusive, é que os estudantes acabam construindo barreiras que impedem a sensação de pertencimento naquele ambiente, com base no gênero que estudam.

Desafios e Avanços

Apesar de toda evolução com o passar dos anos, ainda existem mecanismos para o ingresso no ensino superior de carreiras artísticas que podem ser considerados excludentes. O principal deles é o Vestibular de Habilidades, que tem uma taxa de R$205,00. Além da prova de vestibular tradicional, o ENEM, para ingressar nos cursos de Artes Visuais, Cinema de Animação e Artes Digitais, Dança, Design de Moda, Música e Teatro é necessário realizar essa segunda avaliação.

Essa prova tem o objetivo de filtrar os conhecimentos, priorizando estudantes com aptidões específicas e até complexas para um aluno ingressando no Ensino Superior. Assim, esse procedimento pode ser segregatório, uma vez que o estudo de música, por exemplo, envolve conhecimentos diferenciados dependendo da área e do gênero de especialização. Segundo Bruno Vasconcelos:

“[O vestibular de habilidades é] uma prova que exige que você tenha um conhecimento que não é o conhecimento iniciante, inclusive. Você precisa saber ler [partitura], você precisa saber harmonia, você precisa saber várias questões que uma pessoa precisa ter um tempo já dentro daquele conhecimento”

Apesar da postura institucional da UFMG de aplicação do Vestibular de Habilidades, o vice-diretor da Escola de Música reforça o compromisso da instituição com a diversidade e a pluralidade. Segundo ele, ao perceber a grande demanda por gêneros considerados distantes da música de concerto, tradicionalmente ensinada desde a fundação da Escola, a grade curricular foi modificada. Nesse movimento, a Música Popular foi integrada ao curso, que não se desprende totalmente da raiz “erudita” da graduação, mas apresenta matérias como “Música, Cultura e Sociedade”.

Escola de Música da UFMG. Foto: Álvaro Goulart.

Um pioneiro nos estudos de estilos marginalizados na Escola de Música da UFMG foi o Professor Carlos Palombini (1957-2025). O musicólogo era considerado o precursor dos estudos acadêmicos sobre o funk, iniciados ainda nos anos 2000, com o objetivo de valorizar o valor estético e artístico do gênero.

“Ele que trouxe o funk aqui para dentro [da Universidade]. E era uma época que tinha uma resistência. ‘Ah, o funk é música de periferia, música de bandido?’ Não, é música de resistência.” diz Carlos Aleixo.

Professor Carlos Palombini. Fonte: UFMG

Palombini foi importante não apenas para os estudos de funk, mas para estudos diversos na academia. Ele também ofertou disciplinas de rap e música eletrônica na época em que lecionava, e seus estudos colaboraram para a diversificação das ofertas na Escola de Música.

A Etnomusicologia, por exemplo, é o ramo que estuda a música dentro de seus contextos históricos e sociais. Segundo definição do site do próprio curso, essa vertente busca explorar “muito além de sons e de sua dimensão formal mais imediata”, mas uma visão associada a fatores históricos, políticos, religiosos e estéticos, com um olhar sensível  e que considera as relações sociais e culturais de cada povo. Sobre o tema, é possível citar a Professora Glaura Lucas, líder do grupo de Etnomusicologia da UFMG, que fez um estudo sobre a relação da comunidade indígena dos Arturos com a música, como forma de reconhecer a relevância das manifestações artísticas ameríndias e afro-diaspóricas.

Por mais espaço para outros sons

Olhar para o que passou é importante para pensar o que está por vir. A Escola de Música, por muitos anos, viveu separada, mas o contato com outros mundos abriu portas para novos ritmos e expressões. Por frestas e com insistência, novos sons começaram a compor a vivência da instituição, mostrando que o novo merece espaço.

Nesse sentido, inúmeros músicos, professores, alunos e egressos foram e são atores no processo de pluralização da Escola de Música da UFMG. O caminho idealizado por uma parcela do corpo acadêmico é que cada vez mais vozes, sons e estilos sejam ouvidos por aqueles corredores — e para além deles.

**Reportagem produzida na disciplina de “Laboratório de Produção de Reportagem” sob a supervisão de Dayane do Carmo Barretos.