Entre moradias, rotinas e lazer. As histórias de quem chegou por um motivo e ficou por todos os outros.
Por Keila Guedes, Maria Eduarda Batista e Sofia Silva

Com motivações distintas, pessoas passam a chamar a capital mineira de lar, seja de forma temporária ou definitiva, mas sempre com uma esperança em comum: uma vida promissora. Fundada oficialmente em 1897, Belo Horizonte se tornou a capital de Minas Gerais em 1893, quando passou de Curral del Rey para Belo Horizonte, nome que faz jus às belas paisagens horizontais do município. Desde sua fundação, a nova capital tornou-se o destino de pessoas vindas de todas as partes do estado.
Uma das quatro capitais da Região Sudeste do Brasil, BH reúne o que há de mais marcante em uma cidade grande:, infraestrutura, diversidade, universidades renomadas e oportunidades diversas de trabalho. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é possível considerar a capital mineira como uma das melhores para se viver. De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que avalia fatores como educação, saúde e renda, o município recebe 0,810 em 1,000. No entanto, fatores culturais também tornam Belo Horizonte atraente, com o lazer diversificado e a hospitalidade tradicional, a cidade cativa o migrante, seja ele temporário ou não.
No ritmo da cidade

O despertador toca às 6h. Em um apartamento alugado na região da Pampulha, Germannu Giraud, 24, se prepara para mais um dia cheio: percursos, aulas na faculdade, estágio e iniciação científica. Ele é um entre os vários jovens que saem de suas cidades para buscar formação superior em Belo Horizonte e acabam construindo uma vida na cidade. Nascido em Vitória, capital capixaba, e criado em Rio das Ostras, município pequeno e pacato na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro, Germannu teve uma motivação comum, mas muito valiosa para querer chamar Belo Horizonte de casa: a aprovação no vestibular para cursar o ensino superior na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Por ser uma das sete instituições no Brasil que oferecem o curso de Engenharia Aeroespacial, alvo do estudante, a UFMG era mais do que uma possibilidade, era crucial para realizar um sonho que não seria possível na cidade fluminense em que residia. Há quatro anos o universitário chama a capital de Minas Gerais de lar, onde está estabelecido e pretende ficar ao menos até completar o curso.
Para muitos universitários, que têm Belo Horizonte como cidade natal e que permanecem na cidade para cursar o Ensino Superior, a volta para casa no final do dia é marcada pelo encontro com a família. Entretanto, essa não é a realidade dos estudantes que mudam de cidade sozinhos, como é o caso de Germannu.
“Lidar com a saudade é uma atitude diária. Os meus dois irmãos ainda estão em Rio das Ostras com os nossos pais, e conseguem ver eles com frequência. A minha mãe nem gosta que eu diga por aí que eu moro em outro estado que não seja o dela”, conta.
O contato restrito aos meios digitais é uma barreira complexa, afinal, ela não é apenas uma opção, mas a única maneira de manter vivas as relações que são dificultadas pela distância. Porém, com um dia a dia intenso, horários apertados e demandas nos núcleos em que participa, até mesmo com a facilidade que o digital possibilita o contato com quem está longe pode ser complicado.“Eu saio de casa às 7h, saio do trabalho no fim da tarde, às vezes à noite. O tempo que tenho em casa durante a semana geralmente é para estudar e fazer trabalhos, já que grande parte do meu dia eu dedico ao estágio. Então, meus horários dificilmente batem com os da minha família, pra gente conseguir construir um diálogo rotineiro mais profundo”, conta Germannu.
De portas abertas: quando a moradia vira lar
A vida em Belo Horizonte começa, para muitos, entre malas, sonhos e endereços provisórios. Quem chega em busca de estudo, trabalho ou apenas de um novo começo, logo percebe que é nas casas, repúblicas e apartamentos divididos que se constrói o primeiro laço com a cidade. A moradia, que, a princípio, parece apenas um abrigo, passa a ser também o eixo de uma rotina que conecta o indivíduo à cidade e às suas possibilidades.
Como lembra o filósofo Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, “a casa é o nosso canto do mundo, o nosso primeiro universo”. E é nesse pequeno universo que muitos migrantes encontram, aos poucos, uma forma de se fixar em BH.
“BH é, sem dúvidas, a minha segunda casa…”

Elyan Ramos afirma que BH se tornou sua segunda casa. Estudante de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal de Minas Gerais, Elyan veio de Manaus para fazer faculdade e mora atualmente em uma moradia universitária, com mais sete colegas. O espaço, segundo ele, “é uma casa de verdade, com cozinha, lavanderia, quartos e uma rotina compartilhada”. Mesmo com os horários diferentes e a correria da vida acadêmica, a convivência é o que sustenta a sensação de pertencimento. “A rotina faz com que o ambiente faça parte do seu dia a dia. Acho que é isso que torna BH minha casa agora”, completa Elyan.

Para Celso Almeida, estudante de História e estagiário do Minas Tênis Clube, o lar também é coletivo. Ele vive em uma república no bairro São José, região da Pampulha, um tipo de moradia que, segundo ele, “traz muito esse senso de pertencimento por objetivos compartilhados”. Nascido em Belo Horizonte, mas criado em Sete Lagoas, Celso retornou à capital para cursar a graduação e redescobriu a cidade sob outra perspectiva. “A moradia republicana me deu um senso de conforto e lar muito grande. Aqui encontrei grandes amigos, pessoas com pensamentos semelhantes, que buscam o mesmo objetivo que eu”, conta.
O interior que cabe na capital
A história de Lucca Lima segue um caminho parecido, mas com outra motivação: o trabalho. Ele veio do interior de Minas para ocupar uma vaga profissional em BH e mora há um ano e meio na mesma república que Celso. “BH parece uma cidade pequena dentro de uma cidade grande, por causa disso eu me senti seguro e acolhido, ao mesmo tempo que tem muita oportunidade não é tão corrido e competitivo como nas outras capitais. Acho que o povo daqui é o que mais me fez ficar”, afirma. Para ele, a casa foi o primeiro ponto de apoio, mas foram as relações criadas dentro dela que consolidaram sua permanência. “Mesmo se eu fosse demitido, acho que continuaria aqui. BH é o lugar onde cresci como pessoa, e a república foi onde me encontrei na cidade”, reflete.
BH, destino de quem recomeça
Essas trajetórias se entrelaçam a um fenômeno cada vez mais comum. Segundo dados do IBGE (Censo 2022), Minas Gerais é o terceiro estado que mais recebe migrantes internos no Brasil, atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Grande parte desses deslocamentos ocorre por motivos de educação e trabalho, concentrando-se nas cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, que abriga mais de 6 milhões de habitantes e representa um importante polo de oportunidades. Ainda, segundo o levantamento, quase 30% dos moradores da capital nasceram em outras cidades, dentro ou fora de Minas, um retrato de como BH se tornou destino de quem busca recomeçar.
Casas que acolhem e transformam
O impacto dessa migração vai além das estatísticas. As moradias tornam-se pontos de encontro e, ao mesmo tempo, refúgios. É nelas que as pessoas dividem despesas, refeições e silêncios, mas também que compartilham conquistas, aprendizados e afetos. “Depois da faculdade, ter um local para retornar é o que me faz sentir pertencente a algo aqui”, afirma Elyan, que reconhece na casa universitária um espaço de acolhimento e de autonomia.
Essa sensação é reforçada pela dinâmica da cidade. Como observa Celso, “BH tem sua parte desigual, mas também tem a inclusão e a aceitação do que é diferente”. Entre as árvores da Pampulha, os ônibus que cruzam as avenidas e o vai e vem dos bairros universitários, o lar se desenha mais como uma experiência do que como um endereço fixo.
As moradias, sejam elas repúblicas, apartamentos alugados ou residências estudantis, abrem portas não apenas para um teto, mas para o acesso a outras dimensões da vida urbana. Estudar, trabalhar e circular pelos espaços culturais da cidade tornam-se extensões desse sentimento de casa. Como escreveu Guimarães Rosa, mineiro por excelência, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente no meio da travessia”. E é justamente nessa travessia que os moradores de fora transformam o estar em ficar.
Entre paredes e afetos
Hoje, muitos dos que vieram por necessidade se veem ligados a Belo Horizonte por razões que escapam ao planejamento inicial: a segurança percebida por Lucca, a diversidade que encanta Celso, ou a rotina que acolhe Elyan. Entre as paredes das casas, os corredores das faculdades e os rolês pela capital, a cidade deixa de ser apenas cenário e passa a ser personagem na história de cada um. E, por em lazer e vínculos, é importante lembrar que essas dimensões também nascem em casa, nas conversas de fim de dia, nos cafés compartilhados e nos amigos que viram família. Porque, no fim das contas, fazer de BH um lar é mais do que morar: é aprender a viver nela e com ela.
Acolhimento e reinvenção
Por um bom tempo, o produtor cultural mineiro, Rômulo Spuri Barbosa, especializado em planejamento de carreira, lançamentos e projetos artísticos, atuou no interior de Minas Gerais, onde conseguiu a consolidação do seu trabalho com artistas independentes. Foram sete anos de atuação intensa, especialmente no universo do hip hop, até perceber que havia chegado em um ponto que podia construir algo que agregasse sua vida em um grande centro cultural. A decisão de se mudar para Belo Horizonte surgiu tanto de uma necessidade profissional quanto de uma intuição afetiva: ele se deu conta que era o momento de viver em uma cena mais pulsante, mas sem abrir mão do jeito mineiro de viver.

“Era habituado com cidades médias, onde eu conseguiria trabalhar e também não precisava ter uma rotina mais caótica que as capitais têm, mas só que foi chegar em BH que minha concepção em relação a isso mudou bastante”, relata. Mesmo resistindo à ideia de morar em capitais, especialmente antes de 2020, ano em que começou a pandemia da Covid-19, ele encontrou na capital mineira uma espécie de equilíbrio raro: uma cidade grande, porém com ritmo, acolhimento e estilo de vida próximos aos das cidades médias pelas quais ele havia morado, como Alfenas, Nepomuceno, Lavras e Poços de Caldas.
Em virtude disso, a adaptação foi rápida. “Não demorou para eu me sentir parte da cidade”, afirma. Esse sentimento de pertencimento, porém, não veio apenas do fator geográfico ou do cotidiano, mas também veio do fator cultural.
O motivo nem sempre é óbvio
Produtor de um festival de hip hop e envolvido com a cultura de rua há mais de dez anos, ele revela que o gênero sempre foi um norte em sua trajetória, inclusive nas decisões sobre onde morar. A escolha por Belo Horizonte também passou por isso. Antes de se mudar, conhecia nomes clássicos da cena: Djonga, FBC, Matéria Prima, além do Viaduto Santa Tereza. Entretanto, ao chegar, descobriu uma paixão que não imaginava.
“O rap é o elemento que eu mais trabalho, mas o grafite foi uma conexão que eu tive, e acredito que foi uma das maiores conexões que eu tive em BH também.”, comenta. Dividindo casa com um grafiteiro, Spuri foi introduzido a uma cena vibrante de arte urbana: rolês, encontros, intervenções em postes e muros, e uma rede de artistas que se expandia a cada semana.
No meio de eventos, batalhas e rodas culturais, ele circulou por diferentes pontos da cidade, mas o Viaduto Santa Tereza se tornou quase um segundo lar. O fato dele já realizar a seletiva do Duelo Nacional no sul de Minas, o que, de certa maneira, o conectava, mesmo antes da mudança, à Família de Rua, que é um coletivo responsável por transformar o viaduto em um dos mais simbólicos palcos do hip hop no país.
Pertencimentos e travessias!
Histórias que atravessam Belo Horizonte revelam uma cidade que não apenas recebe, mas transforma aqueles que a escolhem, ou que são escolhidos por elas. Entre rotinas agitadas, lares compartilhados, sonhos acadêmicos, oportunidades profissionais e encontros culturais que surpreendem, eles encontram na capital mineira algo que vai além da mudança de endereço: encontram pertencimento. Tanto no silêncio das repúblicas universitárias quanto nas amizades improvisadas que viram família e no pulsar do hip hop que ecoa sob o Viaduto Santa Tereza, BH se torna um território onde o cotidiano e o afeto se entrelaçam. Assim, muitos descobrem que a capital mineira deixa de ser apenas destino e se torna lar um lugar onde reinvenção e pertencimento caminham juntos.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos