Estudantes de diversos países embarcam numa grande jornada, repleta de novas experiências, em solo universitário e mineiro.
Gabriel Xavier e Lucas Rodrigues
“Natureza Urbana”, por Henrique Aguiar.
Malas andando pelos espaços como se tivessem vida própria, aeromoças caminhando por todas as direções, familiares se reencontrando, o barulho da decolagem de aeronaves, pessoas indo e chegando para realizar um sonho (ou um desafio). Luisa chega da França apreensiva, mas com uma certeza: a oportunidade do intercâmbio na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A distância geográfica é o ponto que interliga toda a sua recém chegada ao Brasil, que se conecta à diversidade cultural e ao começo da familiarização do português. O aeroporto é a representação da globalização, com a conexão das culturas e paira uma reflexão na mente da estudante: o medo e a esperança em relação ao novo.
A experiência tida pela intercambista Luisa Villacis, 19, não é particular. Matriculada no curso de Ciências Sociais, ela sente que está sendo um processo desafiador viver em um outro país, mas está animada com as experiências que a UFMG proporciona.
“Vi que vocês eram a melhor universidade federal do Brasil e pensei que deveriam ter muitas pessoas diferentes de diversas origens lá e era realmente interessante conhecer pessoas assim. Também vi que vocês investem muitos recursos e esforços no desenvolvimento de tecnologias, e era um campus grande, com um histórico muito rico”, afirma.
Para a franco-equatoriana, a escolha de vir para o Brasil se deu em razão da proximidade da cultura com o seu país natal, Equador, além da oportunidade de conhecer outras culturas, dentro do ambiente universitário. Ainda assim, para Luisa, é perceptível o choque cultural até na questão espacial, uma vez que ela estuda no Instituto de Estudos Políticos (IEP) de Fontainebleau, uma universidade francesa, que, segundo ela, é bem menor do que o campus Pampulha, da UFMG.
Processo de Intercâmbio
Antes de entrar na UFMG, Luisa pesquisou sobre a universidade, mas se deparou com um longo processo burocrático para se matricular no curso de Ciências Sociais. O processo consistiu em aplicar para a universidade, esperar o resultado e finalmente ser aceita, mas o processo não finalizou por aí, a aluna também precisou enviar um plano de estudos, o que não foi o processo mais fácil. “Foi um processo longo, porque tivemos que escolher as disciplinas, mas não estava atualizado no site. Completamos o plano de estudos, enviamos para a UFMG, então eles retornaram dizendo que os cursos não estavam atualizados e tivemos que pesquisar outros cursos e enviar novamente”, relata. Devido à falta de acessibilidade de informações para os estudantes internacionais, Luisa acabou precisando refazer o seu plano de estudos, devido a falta de atualização sobre as matérias disponíveis.
Com uma experiência parecida, a aluna Ana Marecos, que é paraguaia, sofreu uma grande espera pela resposta de sua aprovação: aplicou em fevereiro e só recebeu uma resposta em julho. Em seu caso, a escolha pela UFMG se deve principalmente ao caráter político da universidade, com marcações nos prédios que simbolizam a sua história. “E depois, eu pesquisei tudo, a faculdade, o tempo que ela tem, eu pesquisei também a trajetória (…) eu gostei muito mais porque ela tem muita história de luta, né? E é isso que a gente que estuda ciências sociais sabe, que tudo é luta!”. Além disso, o apoio dado pela universidade para os alunos em comparação ao Paraguai foi um forte ponto em sua escolha.

Para Ana, a Fafich é um exemplo de resistência. Créditos: “Marcas que resistem”, por Júlia Duarte.
Vivência universitária
Em relação à vida na UFMG, Ana Marecos, 35, ressalta a importância da cultura dentro do ambiente universitário, e a aponta como um ponto de destaque da universidade. As aulas de forró, as feirinhas de arte e até o Centro Esportivo Universitário (CEU) são partes essenciais da vivência na UFMG que oferecem possibilidades de integração. Programas como esses são essenciais para intercambistas, trazendo possibilidades de contato com a cultura.
“Eu acho que a gente que vem do intercâmbio, seja do Paraguai ou seja de onde seja, tem que ter essa abertura de aprender da cultura daqui. (…) E eu acho que também nessa questão do contato mesmo, principalmente com o seu caso ou com as pessoas que vêm de outros países, conseguem construir também uma cultura com o Brasil também”, conta.
Nesse sentido, eventos como o apadrinhamento de intercambistas, grupos em redes sociais, festas universitárias e, principalmente, a relação dos estudantes brasileiros no convívio com os intercambistas se tornam fundamentais para a integração à universidade. Em relação a isso, o estudante de jornalismo, Basile Claus, 21, da Bélgica, destaca esta parceria entre os estudantes locais desde o começo de suas aulas. “Toda vez que tínhamos um intervalo, quase todos os estudantes brasileiros vinham nos receber e conversar um pouco. E então acho que foi bom porque eles nos disseram que estavam interessados no que fazemos”, diz. Assim como ele, a colombiana Laura Carolina, 37, enfatiza a conexão que sentiu com outros estudantes intercambistas que, mesmo sendo de cursos totalmente diferentes ao dela, podiam compartilhar vivências e trocar experiências. “A oportunidade de comer comidas típicas de pessoas de outros países e compartilhar a cultura com meus colegas de quarto foi muito bom”, afirma a estudante de dança.
Basile chegou ao Brasil antes das aulas começarem, algo que foi fundamental para conhecer outros brasileiros e alunos estrangeiros e formar um grupo de amigos. Estudante do Institut des hautes études des communications sociales (IHECS), da Bélgica, relata que um dos motivos pelos quais decidiu ingressar-se na UFMG foi em razão do alto número de intercambistas. “Sabíamos que poderíamos ter ajuda se não entendêssemos português no início. Porque no começo foi difícil, estávamos meio perdidos com o português”, declara.
Suporte da UFMG
Acerca do suporte da UFMG, a opinião diverge e se complementa em alguns dos relatos. Luisa relata que recebeu documentos contendo endereços, nomes e lugares conhecidos para entrar em contato, mas só ficou sabendo da moradia estudantil, por exemplo, assim que chegou ao Brasil. Ela, assim como Basile, recebe apoio do Erasmus, um programa de mobilidade financiado pela União Europeia. Já para Ana e para Laura, o cenário é um pouco diferente, visto que ambas, além de receberem auxílio de suas instituições de origem, conseguiram ter conhecimento da moradia antes de virem estudar.
Tomando o seu “Tereré”, bebida típica da sua terra natal, Ana também recebe apoio financeiro da UFMG e destaca o apoio que a instituição dá, em relação ao Paraguai, e que isso é fundamental para se sentir integrada à universidade. “Gosto muito da cultura da universidade, tem aulas de forró, idiomas, feirinhas de arte e o CEU. Ama essa integração. Faz muita diferença como uma intercambista, ter essa abertura de aprender a cultura daqui”, afirma.
Essa integração é possibilitada pela Diretoria de Relações Internacionais (DRI) e em razão do alto número de redes de cooperação (16) e de instituições parceiras (623), que facilitam o acesso de diferentes alunos à UFMG. De acordo com o Censo de Internacionalização do ano de 2024, produzido pelo orgão, houve 206 alunos estrangeiros na graduação e 336 na pós-graduação, de 43 países diferentes, representando um total de 1,14% do total de alunos da Universidade. Das 623 instituições parceiras da UFMG, o Censo mostra a predominância de instituições francesas e estadunidenses e uma alta participação de países Sul-americanos e Europeus.

De acordo com o Censo de Internacionalização – 2024, EUA e França lideram no ranking de instituições parceiras.
Como se integram ao “BH é nóis”?
Um dos principais aspectos da experiência do intercâmbio é a mudança para um novo ambiente, com um novo cotidiano e principalmente uma nova cultura. Se mudar para outro país, mesmo que por um curto espaço de tempo, pode ser um grande desafio, exigindo que o estudante se adapte a uma nova realidade e uma maneira diferente de navegar socialmente.

Para quem vem de fora, BH se torna um ponto de acolhimento. Créditos: “Fotografia Urbana em BH”, por Ynaê Januário.
Ana e Laura, por serem da América Latina, comentam sobre as semelhanças culturais entre o Brasil e seus países. “Não, eu não achei muita diferença, não(…) eu me sinto na minha casa mesmo.”, conta Ana. Já Laura afirma que achou a cultura mineira muito similar à colombiana, o que facilitou bastante o seu processo de adaptação. A estudante também comentou sobre como as produções brasileiras, especialmente a música, foram uma grande influência para a escolha do país para seu intercâmbio, já que é uma grande fã de Roberta Sá, Tom Jobim e “Jazz Standards” brasileiros.
Para Luisa, em comparação com a França, o Brasil tem sido um país muito acolhedor. “Todo dia você pode conhecer pessoas, se conectar com elas. Na França é um pouco mais difícil, leva tempo. Na França leva tempo, não é como aqui”, explica. Esse relato exemplifica o Brasil como um país conhecido pela sua hospitalidade. Essa cultura de acolhimento característica do país auxilia no processo de adaptação para os estudantes estrangeiros.
O aluno belga, Basile, comenta sobre um choque cultural que teve com o funcionamento das aulas na universidade no país. “Aqui, um dos maiores choques foi as aulas na UFMG, que você pode entrar e sair quando quiser, e na Bélgica é bem indelicado fazer essas coisas, tipo sair da aula sem dizer nada, e aqui é normal, mas temos que nos acostumar a levantar e ir ao banheiro sem dizer nada”, comenta. Já sobre as diferenças culturais mais gerais, Basile comenta que “aqui as pessoas gostam de falar com todo mundo, e de conhecer pessoas, então é um bom choque cultural”.
Em relação a Belo Horizonte, a aluna Ana Marecos, conta que ainda não conseguiu explorar a cidade, mas que a história por trás dela te interessa muito. “Cada pedaço que eu vi e visitei tem uma história. É isso que é bom porque uma coisa que tem história vai ficar no tempo mesmo. Cada coisa, seja pequena, eu amo. Porque tem uma história ali falando”, comenta Ana.
Já Luisa também comenta sobre as suas experiências desde que chegou em Belo Horizonte, no começo do semestre letivo. “Esta cidade tem muitas coisas para fazer, muitos jovens, e o ambiente é muito legal. Sempre há algo para fazer, e é seguro”. Tal variedade no lazer se prova um sentimento compartilhado entre os demais entrevistados, que exploram as faces históricas, sociais e culturais da cidade, e especialmente da universidade.
Apesar de se encontrarem em um país diferente, e para alguns um continente afastado, as conexões criadas durante essa experiência moldam a jornada acadêmica desses estudantes, que carregarão essa bagagem com o decolar de suas aeronaves.
*Reportagem produzida na disciplina de “Laboratório de produção de reportagem” sob a supervisão de Dayane do Carmo Barretos