As experiências dos estudantes nas linhas de ônibus que adentram o campus Pampulha

Por Ana Clara Moyen, Enzo Rossetti, Gabriel Marques, Samir Caua Alves e Priscila Ribeiro

A linha S50 – Caiçara/Nova Vista Via UFMG foi criada pela BHTrans em 2001 para compor o Sistema de Transporte Suplementar de Belo Horizonte. O sistema consiste em linhas operadas por micro-ônibus que complementam o Sistema de Transporte Convencional da cidade. 

No início de maio de 2024, a BHTrans anunciou a extinção de três linhas do Serviço de Transporte Suplementar de Passageiros da capital sob a justificativa de “adequar o atendimento ao usuário e a continuidade do serviço de transporte suplementar”. Essa decisão, embora não surpreendente, afetou diretamente passageiros que dependiam do transporte público para se deslocar através do sempre caótico trânsito belorizontino. Dentre os itinerários cancelados se destaca justamente o S50, um importante meio de acesso dos estudantes ao Campus Pampulha.

Colagem dos ônibus 9550, 5102 e 9502 sob fundo com o mapa da cidade de Belo Horizonte – Fotos de J. Alexandre Machado, Pablo Henrique e Edmar Junio. Mapa: reprodução/Google Maps.

Apesar de ser uma linha suplementar e relativamente curta, o S50 tinha um papel estratégico no transporte coletivo: era uma das poucas vias de ônibus que adentrava o Campus Pampulha, percorrendo as paradas de ônibus internas da universidade. Isso facilitava e muito a vida dos estudantes, sobretudo aqueles que frequentavam os prédios mais afastados, como é o caso de Gabrielle Roque, do bairro Cidade Nova e veterana do curso de Farmácia: “Ele [S50] me deixava em todos os pontos dessa UFMG, ele me deixava na porta da Farmácia. Era ótimo, era maravilhoso!”.

A Universidade Federal de Minas Gerais possui mais de 3 milhões de metros quadrados em sua unidade principal, segundo dados da própria instituição. Essa vastidão faz com que os deslocamentos entre os prédios, especialmente aqueles situados longe das portarias principais, sejam muito demorados e cansativos se feitos a pé. Para amenizar o problema, a própria universidade conta com linhas gratuitas de ônibus internos que circulam pelo campus principal. Entretanto, estas linhas possuem frota e horários limitados, que nem sempre são compatíveis com as necessidades dos estudantes. Deve-se levar em conta, também, o fato de que isso indica que muitos alunos precisam pegar dois — ou mais — transportes diferentes em seu caminho até a universidade: um para chegar até o campus e outro para chegar até o seu respectivo prédio.

Com uma rota a menos, atualmente os alunos dispõem de apenas três linhas de ônibus que adentram o campus principal: a  9550, a 9502 e a 5102. Essa constatação foi o ponto de partida para a elaboração desta reportagem. A partir dela, pode-se questionar: levando-se em conta os mais de 30 mil alunos de graduação e os quase 11 mil alunos de mestrado e doutorado distribuídos nos cinco campi da universidade, será que somente estas rotas são capazes de atender, de forma suficiente, a grande parcela dos discentes que diariamente se dirige à região da Pampulha para estudar?

 Para responder essa e outras questões, buscamos ouvir ativamente aqueles que lidam com essas linhas de transporte público todos os dias nos ônibus que partem e se dirigem até a UFMG. Além de entrar em contato com essas pessoas, vivenciamos também parte de sua experiência nessa jornada rumo à formação acadêmica, um caminho longo que muitos de nós também percorremos diariamente.

Entrevistas com estudantes que pegam o 5102, 9550 e 9502

5102

 O 5102, UFMG/Santo Antônio, parte da Avenida Reitor Mendes Pimentel, no interior do Campus Pampulha e, a partir daí, percorre os entornos da universidade até a região central de Belo Horizonte. Alguns dos 72 pontos de parada da linha são a Praça da Liberdade, a Avenida Augusto de Lima e a Rua da Bahia. Seu quadro de horários, em dias úteis, se estende, oficialmente, das 05h às 22h50min, partindo da UFMG. Essa grade de horários, na maioria das vezes não levada à risca, condiciona muitos estudantes a saírem mais cedo de suas aulas para não perderem o transporte para casa. Muitos também acabam se atrasando para o início dos estudos, podendo, inclusive, ser penalizados por isso. Além disso, o ônibus está sujeito a lotação na área central da cidade, embora isso ocorra geralmente nos horários de pico.

É justamente no Centro, mais especificamente na Avenida Bias Fortes, que Júlia Miranda, moradora do bairro Barro Preto e estudante de Jornalismo, inicia sua jornada para a faculdade. Há sete anos Júlia convive quase diariamente com a linha 5102. Em sua segunda graduação na UFMG, a estudante faz uso dessa rota desde 2017, quando ainda estudava Letras e viveu na pele as mudanças no itinerário dos ônibus. Aluna do período noturno, precisa retornar para casa em um horário em que as opções de deslocamento via transporte público se tornam mais limitadas. A experiência de Júlia é similar a de diversos outros estudantes que têm de se deslocar diariamente até a universidade, enfrentando um trânsito tão imprevisível quanto os horários das linhas.

No site Reclame Aqui, usuários expressam seu descontentamento com a frequência e falta de pontualidade dos ônibus. “Pego o ônibus 5102, de segunda a sexta para ir e voltar da UFMG, e está sem condições a demora dos ônibus para passar no ponto, NUNCA passam no horário previsto, é um ônibus muito importante pros estudantes, e que possui uma rota muito boa, mas infelizmente a espera no período noturno pra esse ônibus passar na faculdade, por volta das 18:30, está absurda”, relata um usuário anônimo da plataforma no dia 20/04/2023.  

9550

 A linha 9550, Casa Branca/UFMG, parte do bairro Casa Branca e percorre as regionais Leste, Nordeste e Pampulha, onde adentra o campus da universidade. A rota possui 93 pontos de parada, geralmente estando sujeita a lotação na região central.

A linha, que atualmente é a alternativa para o S50, já foi paralisada durante a pandemia em decorrência das políticas de isolamento e distanciamento social, voltando a circular em 12/07/2022. Junto a ela, outras doze linhas também foram suspensas pela BHTrans, sob a alegação de que a demanda estaria muito baixa. Entre esse tempo, foi realizado um abaixo-assinado que reuniu 1330 assinaturas pedindo seu restabelecimento.  

Outro abaixo-assinado também foi feito para pedir a volta da circulação do ônibus S50. Embora não tenha conquistado o que desejava, ele demonstra que a linha era necessária e útil para seus passageiros. Uma reclamação feita em agosto, no próprio Change.org, site do abaixo-assinado, demonstra a insatisfação com a situação. “Essa linha [S50] faz falta demais, ela era muito mais rápida e sem ela o 9550 tá superlotado em todos os horários que os estudantes precisam mais, vai fazer muita diferença a volta dela”, diz a usuária Laura

Para alunos como Gabrielle Roque, a linha 9550 é a forma mais barata de se deslocar até a UFMG, apesar de não ser a mais prática. Ela a deixa longe de seu prédio e costuma ter muitos atrasos. Dentro da UFMG, Gabrielle desce no ponto em frente ao prédio da FACE e precisa se deslocar a pé até o prédio da Farmácia, trajeto que leva mais de 10 minutos. 

Postagem do usuário @GuilhermeLucasY na rede social X — Foto: Reprodução/X

9502

O itinerário da linha 9502, São Geraldo/São Francisco via Esplanada, é mais acessível para alunos da região central, atravessando a Avenida dos Andradas, Contorno, Silviano Brandão e rua Guaicurus, por exemplo, ao longo de suas 53 paradas. O ônibus possui um amplo horário de atividade: em dias úteis opera das 00h30min às 22h40min, saindo do São Francisco, e das 01h30min às 23h19min, partindo do São Geraldo. Nesse quesito, aparenta ser a linha que melhor se adequa à demanda dos alunos do noturno, operando até de madrugada. Nos horários de pico está sujeito à lotação, uma característica comum de todas as linhas observadas. 

Conforme o entrevistado Arthur Leôncio, morador do bairro Floresta e aluno de Psicologia na UFMG, a infraestrutura das linhas varia muito de acordo com o ônibus, com algumas unidades contando com ar condicionado funcional e assentos confortáveis, enquanto outras apresentam inúmeros problemas de estrutura.

Para os alunos do período noturno que fazem o retorno para casa tarde da noite, o ônibus oferece uma alternativa mais acessível para o deslocamento urbano, embora atrasos não sejam incomuns.

Postagem do usuário @eltonsemh na rede social X — Foto: Reprodução/X

A que ponto chegamos?

Os relatos dos estudantes que utilizam as linhas 5102, 9550 e 9502 evidenciam diferentes rotinas que se unem no transporte público. A maior parte das reclamações tinha a ver com a frequência e falta de pontualidade dos ônibus, que, segundo entrevistados, nem sempre cumprem os horários divulgados. Outros entrevistados destacaram o cansaço físico provocado pelos longos trajetos e pela necessidade de caminhar grandes distâncias dentro do campus após o desembarque.

Para avaliar uma perspectiva além da estudantil, tentamos contato com a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) da UFMG e com a Secretaria de Mobilidade Urbana de Belo Horizonte, mas, até o fechamento desta reportagem, não obtivemos retorno. 

Finalmente, a partir dos dados mensais sobre o número de passageiros das linhas de ônibus coletados pela Superintendência de Mobilidade do Município de Belo Horizonte em 2025, montamos o seguinte gráfico: 

Gráfico elaborado pela equipe a partir dos relatórios mensais de dados coletados pela Superintendência de Mobilidade do Município de Belo Horizonte em 2025

Nessa comparação, a linha 8107 — que não passa por dentro ou perto da UFMG — é utilizada como controle para que seja possível observar com clareza um maior número de passageiros nas linhas 9550, 5102 e 9502 durante os meses de março, abril, maio, junho e agosto. Esse crescimento do número de passageiros em meses letivos pode indicar que parte considerável dos usuários destas linhas as utilizam principalmente para se deslocar indo ou saindo da universidade. Com isso, apesar dos empecilhos relatados pelos entrevistados, fica evidente que as três linhas seguem sendo essenciais para a comunidade universitária e que fazem parte do cotidiano de inúmeros estudantes do campus Pampulha da UFMG.

Os perrengues dessa reportagem 

A pesquisa para essa reportagem demandou trabalho de campo ao longo de três dias, nos quais buscamos pegar cada uma dessas linhas para tentar vivenciar a experiência de parte dos alunos da universidade. O empreendimento não foi poupado de perrengues. Muitas vezes as entrevistas ocorriam entre trancos e barrancos, no sentido mais literal possível. Uma constante durante os três dias foram as viradas bruscas, os solavancos constantes, o barulho intenso e os buracos onipresentes nas rodovias que fizeram do processo de filmagem um verdadeiro desafio. 

Algo que percebemos após o primeiro dia, no qual pegamos o 5102, foi o baixo engajamento dos entrevistados. Para tentar contornar esse problema buscamos acrescentar três perguntas mais descontraídas nos próximos dias: Você possui um assento favorito no ônibus? O que você faz durante a viagem nessa linha? Você já teve um(a) crush enquanto pegava essa linha? Além disso, antes mesmo de começar as entrevistas, tivemos um contratempo. Um dos ônibus estava atrasado, fazendo com que dois deles chegassem ao mesmo tempo no ponto onde parte da equipe esperava. A outra parte, já dentro do ônibus, não sabia do atraso e informou que estava chegando, fazendo com que aqueles no ponto subissem no veículo errado.

No segundo dia, no qual percorremos a trajetória do 9550, os entrevistados pareciam mais engajados e curiosos com as entrevistas. Um sentimento geral compartilhado era o de que o preço das passagens era elevado. Embora o serviço seja encarado como regular e essa seja a opção mais barata para chegar até a faculdade, eles acreditam que a tarifa cobrada não corresponde à qualidade do serviço prestado. Uma situação não diretamente relacionada com os ônibus, mas que se revelou problemática para nós que utilizamos o transporte tarde da noite, era o cenário deserto dos pontos de parada, onde a pouca iluminação contribuiu para uma sensação maior de perigo. 

No terceiro dia, a bordo da linha 9502, obtivemos um engajamento semelhante ao do dia anterior, com grande contribuição dos entrevistados. Uma opinião também comum a todos eles foi o apoio ao Projeto de Lei 60/2025, da câmara de vereadores de BH, também conhecido como PL Busão 0800, que buscava implementar tarifa zero nos ônibus de Belo Horizonte, democratizando o acesso ao transporte. 

De início, esperávamos entrevistar autoridades da Secretaria de Mobilidade Urbana, para questionar o cancelamento de linhas como o S50 e buscar descobrir possíveis planos para ampliação das frotas e linhas que atravessam a universidade, facilitando a mobilidade dos estudantes. Contudo, não tivemos resposta, o que fez com que contássemos sobretudo com as entrevistas dos estudantes e as vivências por eles compartilhadas. Apesar dos problemas, de forma geral, foi uma experiência produtiva que nos ampliou a visão acerca do que é, na prática, trabalhar com jornalismo.

Relato dos repórteres após as entrevistas nos ônibus


* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes