Quinze anos após a adesão ao SiSU, a Universidade lança o Vestibular Seriado com a promessa de ampliar a democratização do acesso.
Por Ana Catarina de Souza e Isabela Costa

Em 2010 o governo federal criou o Sistema de Seleção Unificada (SiSU) como alternativa aos vestibulares realizados até então, de forma descentralizada, pelas instituições públicas de Ensino Superior. Uma das grandes promessas do Ministério da Educação (MEC) em relação ao Sisu era a ampliação da mobilidade estudantil, entendida como a possibilidade de um estudante de uma determinada região se inscrever em instituições de ensino superior de outras regiões do país utilizando apenas a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) substituiu a primeira etapa do seu vestibular pela nota do Enem em 2011, mantendo esse formato até 2014. A partir do primeiro semestre letivo de 2014, a instituição extinguiu seu processo seletivo via vestibular e aderiu à seleção através exclusivamente do SiSU. Esse é, até hoje, o modelo de acesso adotado para a maioria dos cursos de graduação da UFMG, com algumas exceções, como os nove cursos da área de Artes, que fazem uso de um vestibular próprio com provas de habilidades específicas.
Francyelle Messias, 25, que realizou a prova do Enem em 2022, conta que sua experiência com a prova foi tranquila, mas muito cansativa: “É realmente um pouco pesado em apenas uma prova ter todo o conteúdo de 3 anos de ensino médio. Mas, como agora é dividido em dois fins de semana diferentes, aliviou um pouco a questão do cansaço mental”. Em 2017, o Enem começou a ser realizado em dois domingos consecutivos, antes disso era realizado em apenas um fim de semana.
A promessa de ampliação da mobilidade estudantil logo apresentou resultados visíveis. Em 2010, 7,11% dos ingressantes na UFMG eram provenientes de outros estados. Esse percentual subiu para 8,12% em 2011 e, em 2014, alcançou 11,06%, indicando um crescimento gradual no ingresso de estudantes de fora de Minas Gerais na Universidade. Percentual esse que continuou a crescer ao longo dos anos, alcançando 17,28% de alunos ingressantes de outros estados no ano de 2024.

O Seriado da UFMG
Em 2025, foi lançado o novo Vestibular Seriado da UFMG que pretende preencher 30% das vagas da Universidade. A proposta do exame começou a ser discutida em 2023, para ser uma forma adicional de seleção de candidatos aos cursos de graduação.
São três provas que serão realizadas de maneira gradual ao longo dos três anos do ensino médio, para que o aluno consiga realizar a prova de forma fundamentada em seu conhecimento escolar. Cada avaliação corresponderá ao conteúdo escolar da respectiva série em que o aluno está no ensino médio. E na 3º e última etapa do vestibular seriado, o aluno poderá escolher o curso em que deseja se graduar.
Alícia Rita Araújo Coimbra, 14, afirma que pretende entrar na UFMG pelo Vestibular Seriado e conta que ainda não tem certeza de qual curso seguir, mas entre suas opções estão medicina e ciências da computação. Para ela, como o vestibular seriado não possui uma pressão concentrada em apenas uma prova, valoriza o aprendizado contínuo: “O seriado é uma forma de ir construindo a nota aos poucos, sem depender apenas de uma prova no final. Acho mais justo e menos estressante”, destaca.
Segundo o co-diretor do cursinho pré-vestibular Equalizar, Yuri Akamine Gomes, a maioria dos alunos dessa organização sem fins lucrativos sediada no espaço da UFMG ainda não sabe da existência dessa nova modalidade e, aqueles que conhecem, ainda não têm certeza se vão participar, o que mostra que há ainda um desconhecimento por parte dos estudantes, que evidencia a necessidade de uma maior divulgação.
Modalidade já é utilizada por outras Universidades
Há mais de 20 anos a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) adotam também o método de avaliação seriada como forma de ingresso em suas instituições. De acordo com os sites oficiais das respectivas universidades, esse tipo de vestibular aumentou muito suas conexões com o ensino básico das escolas públicas.
Essa forma de ingresso é vista como mais acessível, especialmente para quem estuda em escolas públicas, pois os estudantes têm a oportunidade de aprimorar seu desempenho em cada módulo de avaliação. Por ser um processo escalonado, eles conseguem identificar defasagens no conhecimento e adaptar a aprendizagem, diferente de uma prova grande ao final do ensino médio, que necessita de muita organização e revisão.
Além disso, o modelo seriado diminui a pressão emocional típica dos vestibulares tradicionais e do próprio Enem, ao permitir que o estudante distribua seu esforço ao longo de três anos, em vez de concentrar tudo em um único exame. Com isso, cria-se uma nova dinâmica de preparação, que valoriza o processo de aprendizagem contínuo e crítico, em detrimento da memorização de curto prazo.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos