A relação conflituosa entre as duas esferas gera debates sobre a presença de movimentos evangélicos na UFMG.

Por Letícia Gonzaga

De acordo com o Censo 2022 divulgado pelo IBGE, embora tenha subido o número de pessoas sem religião, também cresce o de seguidores de religiões afro-brasileiras e de evangélicos no Brasil. No entanto, entre os evangélicos com 25 anos ou mais, apenas 14,4% possuem ensino superior completo, um dos menores índices entre os grupos religiosos.

Esses dados refletem uma mentalidade cada vez mais recorrente na sociedade, alimentada por certos líderes religiosos e pesquisadores: a de que a religião evangélica não combina com o ambiente acadêmico. No entanto,diversos grupos e eventos de caráter religioso têm desafiado essa separação dentro das universidades, e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se insere nessa lógica ao ser palco de reuniões motivadas pela fé de seus estudantes.

Dunamis Pockets, Aliança Bíblica Universitária (ABU) e O2 Movement estão entre os movimentos evangélicos com encontros semanais que dividem espaço com o conhecimento científico na UFMG. Eventos como o Aviva e o Fire Universitário mobilizam um grande número de estudantes para cultos realizados, em geral, no anfiteatro da Praça de Serviços da universidade. Iniciativas como essas buscam estabelecer um diálogo entre fé e ambiente acadêmico, superando uma dicotomia histórica, mas também levantam debates sobre os limites da laicidade na universidade.

O abismo entre a religião e a razão

A rixa entre razão e religião é antiga e possui várias raízes. Desde a hierarquização do mundo em dois andares por Platão, em que  o sensível é o inferior, e o inteligível uma realidade superior, muitos rompimentos foram consolidando o abismo que existe hoje entre as duas esferas. Especialmente quando se fala de protestantismo, vale mencionar o hiper-pietismo na Alemanha dos séculos XVII e XVIII, movimento que se opunha à igreja fortemente racionalista que se levantou após a Reforma Protestante, e o fundamentalismo estadunidense, movimento que ocorreu entre 1910 e 1915, promovendo um forte anti-intelectualismo. Ambos tinham como objetivo principal fortalecer disciplinas espirituais e promover um retorno aos fundamentos da fé cristã presentes nas escrituras, mas tiveram como efeito colateral de seu extremismo a criação de uma “bolha gospel” que despreza aquilo que é exterior às paredes da igreja, inclusive o conhecimento científico. 

Os impactos dessa divisão ressoam em falas atuais, como do pastor e presidente da Igreja Batista da Lagoinha, André Valadão, em 2024: “se a faculdade vai acabar com a vida do teu filho, não manda ele para a faculdade. Não manda! Vai vender picolé na garagem. 'Ah, mas eu não criei meu filho para isso'. Você criou para quê? Para ele ir para o inferno, pô?”, disse ele em uma pregação. O conselho evidencia uma visão de que a universidade é um local que coloca a fé em risco.

No mesmo ano, a filósofa e professora emérita da USP, Marilena Chauí, também gerou repercussão ao afirmar, em uma palestra para pós-graduandos, sentir-se “muito agoniada” quando motoristas de aplicativo encerram a corrida com um “Fica com Deus”. Segundo ela, “eu sei que ele é pentecostal, que é fundamentalista. Eu fico desesperada com essa ideia”. A fala da filósofa, ao ser dita em um ambiente universitário, reflete uma tradição de pensamento inspirada em autores como Marx, Nietzsche e Freud, que interpretam a religião como “ópio do povo” e ferramenta que ilude e manipula as pessoas, substituindo a razão. 

Os dois discursos nutrem uma visão estereotipada sobre os jovens universitários de um lado e sobre evangélicos do outro, o que fortalece a rivalidade entre religião e universidade.

É possível estabelecer uma ponte?

Contrastando com tal percepção, encontra-se na própria história do conhecimento referências que conciliam essas duas esferas. Isaac Newton, um cientista religioso, entendia sua pesquisa científica como uma forma de compreender a obra de Deus. Interpretando a criação como ordenada a partir de leis divinas, desenvolveu as Leis de Newton com o rigor científico necessário. Apesar dos atritos, o exemplo de Newton mostra que, mesmo em um contexto profundamente religioso, é possível aplicar a razão de forma rigorosa para compreender o mundo, construindo ciência sem abandonar a fé.

Essa mesma realidade é experimentada pelos jovens estudantes da UFMG que conciliam a vida acadêmica com a religião. Daniel Henrique, estudante do curso de Engenharia de Controle e Automação e líder do grupo evangélico Pockets Engenharia, afirma que seu ingresso na universidade foi majoritariamente benéfico para sua crença. “Nunca passou pela minha cabeça largar a fé. Tem sido um ambiente de crescimento espiritual para mim, um campo missionário”, conta. 

Para Júlia Alves, estudante do quarto período de matemática na UFMG e membro do Pockets desde o primeiro semestre de 2024, a iniciativa é o espaço onde ela pode compartilhar aquilo que mudou sua vida (a fé em Jesus) e um refúgio em meio a correria, em que os estudantes podem encontrar paz.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é IMG_3678-1.jpg
Pockets XP na UFMG - Instagram @pocketsufmg

O Pockets Engenharia integra o Dunamis Pockets UFMG, que atua em cinco prédios da universidade, uma vez por semana. Sobre os membros frequentes nas reuniões, Daniel afirma que são de diversas áreas possíveis, compondo um ambiente bem plural. Quando perguntado sobre sua percepção em relação a participação dos estudantes nas reuniões ao longo de suas trajetórias acadêmicas, o líder constatou que há uma frequência regular que se mantém quase totalmente constante, sendo que a saída de algumas pessoas tende a ser consequência da dificuldade em conciliar os horários, e não do abandono da fé.

E como fica a laicidade?

Os atritos entre fé e religião também podem ser entendidos como naturais em um ambiente de múltiplas opiniões, tal qual embates políticos e debate de ideias sobre temas diversos. A universidade, mesmo sendo uma instituição laica e de espaço público, pode permitir o uso dos seus espaços para fins religiosos e outras manifestações públicas. Essa liberdade é uma realidade na maioria das universidades públicas hoje, que são palcos para o encontro desses grupos religiosos e grandes eventos, como o Aviva Universitário. 

O Aviva Universitário acontece em várias universidades em todo o Brasil, com autorização da reitoria, e foi barrado apenas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em agosto de 2025. Mais de 500 estudantes foram expulsos de uma área externa da instituição pública, dos quais alguns afirmaram terem sido intimidados por um grupo de seguranças. O pedido para realizar o evento, feito à reitoria anteriormente, havia sido negado. Em nota ao jornal Gazeta do Povo, a universidade alegou que veta a realização de serviços religiosos nos campi e condutas que configuram intolerância religiosa ou desrespeito a qualquer crença. 

O Movimento Brasil Laico defende que esse deveria também ser o posicionamento da UFMG, e já acionou o Ministério Público após o último Aviva realizado no anfiteatro, acreditando que há uma violação da laicidade da universidade ao permitir que os cultos aconteçam.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é IMG_3690-1024x687.jpg

Aviva Universitário na UFMG - Instagram @avivauniversitario

As solicitações feitas foram divulgadas no perfil do Movimento no Instagram:

  1. Seja instaurado procedimento investigatório para apurar as responsabilidades da UFMG, da Associação Evangelística Aviva (Aviva School) e do influenciador digital Lucas Teodoro (líder do movimento);
  2. Seja expedida nota recomendando a proibição expressa de novos cultos religiosos em espaços públicos da UFMG;
  3. Seja expedida nota recomendando a interrupção imediata, pela Associação Evangelística Aviva e seu presidente, Lucas Teodoro, de realização de cultos religiosos em quaisquer instituições de ensino do Estado de Minas Gerais;
  4. Seja expedida nota recomendando a exclusão, pela Associação Evangelística Aviva, de todos os conteúdos de cultos religiosos em instituições de ensino, de todas as páginas do instagram ligadas à Associação e do seu site;
  5. Sejam aplicadas as demais sanções cabíveis aos responsáveis pelas violações constitucionais.

Até o momento, não há respostas do Ministério Público. 

Hoje a sociedade ainda sente os impactos de uma vivência em “bolhas”, potencializada durante a pandemia, que leva a um aumento da polarização e surgimento de extremismos. Nesse contexto, a atuação de diversos movimentos no contexto universitário pode contribuir para o aumento da pluralidade de vozes em um ambiente de debate de ideias e aprendizado.

*Reportagem produzida na disciplina de “Laboratório de produção de reportagem” sob a supervisão de Dayane do Carmo Barretos.