Mulheres que ampliam narrativas e transformam o audiovisual da região

Por Júlia Duarte e Luiz Fernando

O set já está pronto antes mesmo dela chegar. Cabos atravessam o chão como raízes expostas, tripés ocupam cada canto e vozes se sobrepõem em decisões rápidas.

Ela entra carregando a mochila em um ombro só, desviando de equipamentos e de olhares que passam por ela sem parar.

“Você é da produção?” alguém pergunta, sem esperar resposta.

Ela respira, ajusta o crachá no peito e continua andando.

No monitor, uma mulher ocupa o enquadramento – central, iluminada, dirigida em cada gesto. Atrás da câmera, nenhum rosto se parece com o dela.

Ela para por um segundo. Observa. Calcula. Depois, segue até o lugar onde ainda não abriram espaço e começa a trabalhar como se sempre tivesse pertencido ali.

Há alguns anos, uma cena como essa provavelmente se repetiria nos mais variados contextos audiovisuais. Nos dias atuais, apesar de ser possível observar e vivenciar uma lenta evolução na diversidade e representatividade no setor, as mulheres ainda continuam, e continuarão, por muito tempo, a terem que lutar pelo seu espaço. 

De acordo com a Agência Nacional do Cinema (ANCINE), no ano de 2024, 75% dos filmes produzidos no país foram dirigidos exclusivamente por homens, enquanto apenas 17% por mulheres. Além disso, as áreas de roteirização e fotografia seguem dominadas pelo estruturalismo patriarcal, com a participação masculina em torno de 80%. 

Em Minas Gerais, um dos palcos da ascensão do cinema independente brasileiro, a realidade não é muito diferente. Segundo dados da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em comparação com a última década, o número de trabalhadores no setor audiovisual da Região Metropolitana de Belo Horizonte cresceu em 121%. No entanto, as mulheres ainda são a minoria. 

A Transite entrevistou profissionais que marcam a história do cinema independente da Grande BH. São mulheres que transformam o audiovisual da região a partir de seus olhares e narrativas. 

“Moeda de troca”

O ambiente é aconchegante, com iluminação suave e aparência de sebo tradicional.  Em primeiro plano, à esquerda, aparece desfocada uma câmera em tripé, mostrando que a cena está sendo filmada. Uma mulher jovem, de cabelo preso em coque, está atrás do balcão de uma livraria antiga, escrevendo em folhas de papel. Ela usa uma camisa estampada colorida em tons de rosa, azul e verde e carrega uma bolsa transversal preta.

Paula Santos defende que admirar é o primeiro passo para se tornar / Foto: Paula Santos 

Mineira, nascida na cidade de Teófilo Otoni, na região Nordeste do estado, Paula Santos sempre teve a vontade de estar por trás das maravilhas do cinema. Durante a sua infância, ela pôde ver os seus pais se apaixonarem pelas mais diversas formas de se expressar, crescendo rodeada por obras literárias e passos de dança. Em sua casa, ninguém trabalhava diretamente com arte, mas, de alguma forma, todos viviam através dela.

Quando o interior ficou pequeno diante dos seus sonhos, ela se mudou para Belo Horizonte em busca de oportunidades. Na capital, no entanto, a realidade não lhe pareceu tão bela quanto havia imaginado. O mercado audiovisual era como um círculo fechado, somente graduações privadas ofereciam cursos na área e as relações funcionavam como uma importante “moeda de troca”, era essencial conhecer para ser conhecido, principalmente sendo mulher. 

A visibilidade feminina no setor era, e ainda é, um espaço a ser conquistado. Ela conta que no início de sua trajetória grandes cineastas já faziam e pensavam o audiovisual há muito tempo, ocupando cargos de liderança e construindo histórias para que um dia a sua presença possa ser parte do processo e não de uma luta constante. “Trabalhar com mulheres que eu admiro, como Clarissa Campolina, a Tânia Anaya  e a Luana Melgaço, fez com que me admirasse também”, revela.

Hoje, Paula é sócia da Tauma – importante produtora do cenário independente da Região Metropolitana de Belo Horizonte – ao lado de seu companheiro e melhor amigo Lucas Sander. Para ela, é muito gratificante poder contribuir para que mais mulheres possam ter acesso à produção cinematográfica, mesmo que ainda haja um longo caminho pela frente.

“Teto de vidro”

O ambiente é ensolarado e ao ar livre, com um céu azul limpo e luz solar direta que ilumina o lado esquerdo do rosto da mulher. Em primeiro plano, uma jovem de pele clara, olhos castanhos e cabelos castanhos curtos, na altura do queixo, olha diretamente para a câmera com um leve sorriso. Ela veste uma blusa de gola alta em malha canelada cinza claro e usa um brinco geométrico artesanal com detalhes em vermelho e madeira. Ao fundo, destaca-se um jardim de estilo clássico com gramados verdes e arbustos podados em linhas geométricas.

Mariana Ferreira, acredita que a mudança no audiovisual também nasce em uma sala de aula / Foto: Mariana Ferreira 

Para evidenciar a desigualdade de oportunidades na indústria do cinema, recorre-se com frequência à noção de Teto de Vidro. A expressão refere-se a uma barreira invisível que restringe a ascensão de determinados grupos – sobretudo minorias –, mantendo-os afastados dos níveis mais altos da hierarquia, mesmo quando têm qualificação para chegar lá. 

No Brasil, conforme dados da ONU Mulheres, os cursos de audiovisual têm maioria feminina, com cerca de 60% das salas de aula ocupadas por alunas. No entanto, essa presença não se reflete na produção cinematográfica, com a participação chegando apenas a 42% do total dos empregos no setor. Quando analisados os postos de trabalho, as mulheres ultrapassam os homens apenas nas funções de Direção de Arte e Roteirista Chefe.  

Mariana Ferreira, doutora em Comunicação Social pela UFMG, comenta a inacessibilidade da lógica de mercado do setor. Segundo ela, em uma área historicamente marcada por desigualdades de gênero e vieses elitizados, as mulheres tornam-se, em diversos momentos, dependentes de políticas públicas e ações afirmativas para ocuparem o seu espaço. Apesar do avanço nas últimas décadas, com editais que oferecem pontuação adicional para projetos dirigidos por mulheres, a exemplo do “Circula Minas Audiovisual”, do Fundo Estadual de Cultura (FEC), e de editais vinculados à Lei Paulo Gustavo (LPG), os recursos continuam insuficientes. 

Em Minas Gerais, iniciativas como a Minas Film Commission atuam como agentes de suporte para produções no estado, contribuindo para a desburocratização e a atração de projetos audiovisuais. Esse movimento dialoga com programas como o BH nas Telas, da Prefeitura de Belo Horizonte, que busca fomentar a produção local e passa a incorporar critérios de diversidade e de valorização do protagonismo feminino e de outras minorias.

Mariana também destaca a importância de programas que garantam a continuidade desses projetos. “Embora existam ações, ainda escassas, voltadas ao incentivo da participação feminina nessa indústria, é fundamental que essas políticas atuem de forma mais ampla, fortalecendo o setor como um todo. Caso contrário, muitas obras correm o risco de se perderem em um mercado ainda despreparado para recebê-las”, avalia.

“Para existir, é preciso estar em muitos lugares”

O ambiente é vibrante e minimalista, composto por um fundo de parede com textura granulada em um tom de amarelo intenso. Em plano médio e centralizada, uma mulher de pele clara e expressão serena posa para o retrato. Ela tem cabelos curtos, cacheados e grisalhos, e usa um batom vermelho marcante que contrasta com o fundo. Sua vestimenta consiste em uma camisa de manga curta preta com estampa de poá e gola colarinho. Como acessório, ela utiliza brincos de argola prateados de tamanho médio. A iluminação é frontal e uniforme, destacando as cores e as texturas da cena.

Mariana Mól luta para que mais mulheres possam contar as suas histórias / Foto: Lucas Uchôa 

Sobreviver na produção audiovisual independente, tanto como pessoa, quanto como profissional, significa se fazer presente 100% do tempo para conquistar o seu espaço. A desvalorização e a instabilidade recorrentes no setor transformam a especialização em uma única prática insuficiente. É preciso transitar por diferentes funções, sobretudo para as mulheres.

Mariana Mól, produtora na Anavilhana – destaque no cenário cinematográfico independente da capital mineira – construiu sua trajetória entre a academia e os sets de filmagem, equilibrando diferentes frentes ao longo dos anos. Para ela, os obstáculos para a produção feminina vão muito além da falta de oportunidade, uma vez que a permanência no setor torna-se uma conquista diária. Dados da ONU Mulheres e da ANCINE indicam que 20% das profissionais da área se dizem insatisfeitas por não conseguirem conciliar vida pessoal e trabalho, diante de rotinas muitas vezes inviáveis em busca de estabilidade em um setor no qual mulheres recebem, em média, 11% menos que os homens. 

Apenas nos últimos cinco anos, Mariana pôde se dedicar inteiramente ao mundo da cinematografia independente, procurando estar à frente de projetos com foco em representatividade e equidade de gênero, dentre eles, “A Ventura da História Múltipla”, uma bolsa de formação - com incentivo do projeto BH nas Telas – voltada para coletivos com demandas de produção de conteúdo audiovisual. Segundo ela, a ideia não era ensinar, mas sim fortalecer e multiplicar esses grupos, ampliando a presença feminina no setor.

Ela conta sobre como se sentiu realizada ao coordenar uma iniciativa que abriu portas para que outras profissionais pudessem escrever suas histórias dentro da área. “A gente criou um curso voltado para coletivos femininos, pensando o audiovisual como espaço de troca e multiplicidades de narrativas. Além das discussões e da produção coletiva, as participantes receberam apoio e equipamentos para continuarem criando depois da oficina. A experiência fortaleceu os grupos e incentivou muitas mulheres a desenvolverem seus próprios projetos e a ocuparem novos espaços no mercado.” 

A pesquisadora, no entanto, ressalta a responsabilidade do Estado em ampliar e fortalecer políticas públicas e ações afirmativas como essa, tornando-as mais acessíveis, uma vez que, muitas vezes, sequer há conhecimento sobre essas oportunidades. 

Com quem as histórias falam?

O ambiente é interno e simples, com um fundo composto por uma parede em tons de pêssego e marrom terra dispostos em faixas horizontais. Em primeiro plano, uma mulher de pele clara e expressão tranquila olha diretamente para a câmera, esboçando um sorriso discreto. Ela possui cabelos castanhos escuros, lisos e de comprimento médio, que emolduram seu rosto. A iluminação é suave e frontal. Ela veste uma blusa de alças na cor azul royal, da qual apenas a parte superior é visível na borda inferior da imagem

Magela Cavalleri, dos números a narrativas que transformam / Foto: Magela Cavalleri 

Apaixonada por ciências econômicas, Magela Cavalleri encontrou no cinema independente uma nova paixão para chamar de sua. 

Nascida no Uruguai, a produtora audiovisual iniciou a sua carreira bem longe dos sets de filmagem, fez graduação e se tornou mestre em Economia Agrícola, buscando no Brasil novas formas de se desafiar em seu doutorado.

Ao longo de seus primeiros anos no país, uma antiga amizade veio à tona – Maurílio, diretor de umas das mais importantes produtoras cinematográficas da Grande Belo Horizonte, a Filmes de Plástico. Aos poucos, o audiovisual passou a ser muito mais do que a área de atuação de um querido amigo, para se tornar um interesse real.  Foi, então, que a decisão pela troca de seu foco de pesquisa aconteceu e o mundo do cinema entrou em sua vida. Na época, eles haviam ganhado o edital para a produção de um longa-metragem, o “Último Episódio”, e ela passou a integrar a equipe.

Magela reflete sobre como o olhar muda quando se está por trás das telas: “A possibilidade de criar algo novo e contar uma história é encantadora, mas é preciso entender quem fala e para quem está falando”, avalia. A observação ganha ainda mais peso quando se considera que as mulheres representam cerca de 50% do público das salas de cinema, segundo a Motion Picture Association of America (MPAA).

Ainda assim, essa presença não se traduz nos bastidores da produção. Embora o cinema seja frequentemente visto como uma arte atualizada, e, até mesmo, à frente de seu tempo, dados recentes da ANCINE mostram que a produção brasileira segue sendo, em grande medida, masculina e branca.

Diante desse cenário, a produtora acredita que ampliar as narrativas femininas pode contribuir não apenas para tornar o mercado mais diverso, mas também para fortalecer o próprio audiovisual brasileiro, aproximando-o do público que o consome. “Quando mais mulheres ocupam os espaços de produção, o setor também se transforma. As histórias passam a dialogar com outras vivências, outros olhares e outras pessoas que, muitas vezes, não se viam representadas nas telas”, ressalta.

Novos olhares

O ambiente é escuro e dramático, envolto em uma névoa tênue que preenche o espaço. Ao centro, sob um foco de luz que desce verticalmente, destaca-se uma cadeira clássica de direção cinematográfica, feita de lona preta e estrutura escura. No encosto da cadeira, a palavra "Diretora" está escrita em letras brancas e nítidas. A iluminação cria um círculo brilhante no chão, destacando a textura do piso, enquanto as bordas da imagem permanecem mergulhadas em sombras profundas.

“Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige” - Clarice Lispector / Foto: reprodução banco de imagens 

A verdade é que a Grande Belo Horizonte se torna pequena diante de tantas mulheres para se admirar. Basta abrir os olhos para ver.

Região em que o cinema independente é destaque nacional, o número de trabalhadores no setor audiovisual cresceu mais de 100% na última década, mas as vozes femininas continuam, muitas vezes, a terem que gritar para serem escutadas. 

É uma luta que não é só delas, mas também de quem controla e ocupa esses lugares. Para que mais mulheres possam expressar suas visões e contar suas histórias, é preciso que essa responsabilidade deixe de ser um peso individual e passe a ser compartilhada pelo Estado, pelos homens desse setor e pelo próprio público, que também sustenta, reconhece e escolhe o que ganha espaço.

Afinal, o que você assiste também é uma escolha. Já parou para pensar em como você decide o que vê, quem dirige as histórias que chegam até você e quais nomes ficam por trás dessas obras? 

Deixamos aqui algumas dicas sugeridas pelas próprias entrevistadas, para que você possa se inspirar e inspirar aqueles à sua volta. Que, por fim, as mulheres possam ser tão independentes quanto esse cinema se propõe a ser.

 

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Elas indicam / Montagem: Júlia Duarte

Júlia Duarte é apaixonada por dança e fotografia... faz arte, porque a vida não basta
Luiz Fernando é fã de música boa, super-heróis e cinema


* Reportagem produzida na disciplina "Laboratório de Produção de Reportagem", sob supervisão de Phellipy Jácome