Como ruas como a Sapucaí e Abrahão Caram passaram de simples vias a símbolos culturais de Belo Horizonte
Por Andre Mendes e Vagner Cardoso
Belo Horizonte, cidade moldada pelo traçado de suas avenidas, guarda em cada via um pedaço de sua história e de sua vida cotidiana. As ruas de Belo Horizonte contam histórias que vão além da sua função como meros caminhos para ligar pontos da cidade. São espaços vivos, moldados pela interação entre as pessoas e a paisagem urbana. De feiras livres e bares a trajetos de torcida, algumas dessas vias se transformaram em verdadeiros polos culturais, econômicos e sociais.
A Rua da Bahia, por exemplo, é emblemática por seus bares que atravessam gerações, servindo como palco para encontros literários, rodas de conversa e muita música, mantendo viva a tradição boêmia do centro da capital.
Já o bairro Lagoinha, com sua rica história de boemia, é berço do famoso “copo lagoinha”, símbolo de descontração e celebração nas mesas de bar. A região carrega memórias de uma época em que músicos e trabalhadores enchiam as ruas em busca de diversão e boa companhia.
Já na Savassi, a cena noturna é onde o bairro brilha, com diversas casas de show e bares que movimentam as noites com festas e uma mistura de estilos musicais que refletem a diversidade e o dinamismo da juventude belo-horizontina. Juntas, essas localidades contam histórias que moldam a identidade noturna e cultural de Belo Horizonte.
E se as ruas narram os movimentos da cidade, duas delas se destacam pela capacidade de tecer encontros e transformar realidades: a Avenida Abrahão Caram, no entorno do Mineirão, e a Rua Sapucaí, que, ao longo dos anos, ganhou identidade como um polo cultural e boêmio.
A Abrahão Caram transformou-se em um ponto de encontro icônico para torcedores e visitantes, enquanto a Sapucaí renasceu de um passado marcado pelo abandono e pela pouca valorização, para um vibrante corredor da boemia belo-horizontina. Estas transformações, entretanto, não foram planejadas no papel — são fruto de apropriações populares e dinâmicas sociais que reinventaram esses espaços ao longo do tempo.
Avenida Abrahão Caram: o caminho dos torcedores
Semelhante a um rio que deságua no mar, caminhar pela Abrahão Caram em dia de jogos produz a mesma sensação, com um caminho me levando em direção ao ápice do futebol mineiro. A música das torcidas começa já no colégio Chromos, no início da avenida, com várias vozes ecoando um só canto. A conversa dos torcedores, o calor inevitável em meio à multidão, as camisas no varal sendo vendidas, tudo isso faz parte da experiência.
Além dos torcedores, a avenida é tomada por vendedores que enxergam nesses jogos uma oportunidade única de ganhar dinheiro. Diversas pessoas que moram na região alugam suas vagas de garagem, os bares e restaurantes vendem os clássicos tropeiros como em nenhum outro dia do ano, e as bandeiras são vistas com muito mais frequência. A subida se torna muito menos cansativa com toda a alegria que existe ali.

Após o trajeto, chega então o momento mais esperado: a vista do Mineirão, atraindo o torcedor quase como um canto de sereia. No ponto alto da avenida, é impossível não contemplar o estádio de cima a baixo. Nesse ponto, os cantos já estão muito mais altos, tornando quase impossível entender facilmente o que aquele seu amigo ao lado está dizendo. Você está preparado para entrar no estádio, mas prefere adiar por alguns minutos para confraternizar com seus amigos na avenida, algo que se tornou um verdadeiro ritual para muitos.
Nomeada como Abrahão Caram em 1966, durante o mandato do prefeito Oswaldo Pieruccetti, a avenida é hoje um dos principais eixos de conexão entre o centro de Belo Horizonte e o Complexo da Pampulha. Ela não é apenas uma via de acesso a dois dos maiores marcos esportivos da cidade — o Mineirão e o Mineirinho —, mas se consolidou como um cenário de vivência urbana multifacetada, especialmente em dias de eventos esportivos e culturais.
A avenida passou a ser vivida não apenas como uma via de passagem, mas como um espaço social vibrante, onde se desenha a convivência entre moradores, comerciantes, ambulantes e torcedores. Com a inauguração do Mineirão, a Abrahão Caram tornou-se um ponto de encontro para torcedores do Cruzeiro Esporte Clube e parte essencial da experiência dos jogos.

Hoje, para muitos frequentadores, a caminhada pela avenida já se tornou parte do ritual do evento, um momento que começa muito antes de adentrar o estádio. Gabriel Augustus, ambulante no Mineirão, afirma que: “Não tem como não entrar no clima. A galera animada, o som das músicas e os vendedores espalhados por todo lado dão uma vibe de feira, sabe?” Esse clima, cheio de vida e movimentação, é um dos maiores atrativos da Abrahão Caram, tornando a caminhada até o estádio mais que uma simples locomoção, mas uma verdadeira imersão no espírito do evento.
E falando em ambulantes, a Avenida Abrahão Caram se transformou em um palco de oportunidades para comerciantes como o próprio Gabriel, que vê nesse movimento um impacto amplamente positivo. Perguntado sobre a relação entre os frequentadores e a rua em dias de jogo, quando muitos esperam até o último minuto para entrar no estádio para o evento, ele responde: “É ótimo, pois não deixam de curtir seu evento, e ainda ajudam no comércio local”.
Para ele, a avenida oferece uma experiência única, unindo valorização do patrimônio local e atração de visitantes de diferentes lugares, além de proporcionar uma alternativa acessível para quem busca economia em comparação aos preços dentro dos estádios. Gabriel ressalta que o policiamento e a limpeza são pontos fortes da região em comparação a outros locais onde trabalhou, como durante o carnaval no centro de Belo Horizonte. “A organização é muito maior aqui, tanto nos dias de evento quanto nos dias comuns”, observa.
Mas esse grande fluxo de pedestres e carros também traz desafios. Além dos que frequentam os jogos e vêem na avenida um ponto de encontro, há aqueles que moram nela e em seu entorno e enfrentam problemas com o aumento do tráfego e do barulho. Yan Max, de 26 anos, que passou cinco anos morando na avenida, comenta: “É ter que se planejar pra chegar e sair de casa, de acordo com o calendário de eventos. À noite, dependendo do evento, dá pra ouvir tudo de casa.”
A população de Belo Horizonte, que hoje conta com aproximadamente 2,3 milhões de habitantes, cresceu expressivamente desde a década de 60, o que intensificou os desafios urbanos, especialmente em locais como a Abrahão Caram. Esse crescimento, aliado à modernização do Mineirão em 2014, trouxe novas dinâmicas. A reforma do estádio ampliou sua capacidade para eventos de grande porte, atraindo ainda mais visitantes.
A reforma do gigante da Pampulha
A reforma do Mineirão em 2014, realizada em preparação para a Copa do Mundo, trouxe novas mudanças. Com a modernização do estádio e a ampliação da capacidade para receber eventos de grande porte, a região passou a atrair um fluxo ainda maior de pessoas, especialmente durante jogos e shows.
Para moradores como Leila Maria Brant Alves, de 56 anos, que viveu na avenida por oito anos, a região inaugurou novas dinâmicas com shows e diferentes eventos, além dos tradicionais jogos de futebol. Apesar disso, ela citou as aglomerações como um incômodo na vivência da avenida, destacando tumultos nas ruas ao redor durante alguns jogos, com gritarias e pessoas bebendo nas ruas. Ainda assim, ressaltou pontos positivos sobre a segurança: “Sempre tem muita presença de BH Trans e policiamento”, disse Leila. “Alguns shows são mais organizados e já não vão até tão tarde, o que minimizou o impacto do barulho, mas o movimento de carros e pessoas ainda é intenso”, completa.
Além disso, Leila observa que algumas atividades comerciais, como academias e pequenos negócios, às vezes encerram as atividades mais cedo com receio de tumultos. Para ela, a convivência entre frequentadores e moradores é marcada por insatisfação em alguns pontos, mas sem grandes conflitos.
Vale lembrar que, antes da reforma, parte da convivência e encontro entre torcedores, em dias de jogo, se dava na região do estacionamento do Mineirão, que deu lugar a atual esplanada do estádio.
Ainda para Leila, a reforma também trouxe benefícios, como o estímulo à economia local e a criação de oportunidades para a realização de shows que, segundo ela, “são ótimos, mas ainda precisam de melhor organização em questões como estacionamento e transporte público”.
Em resumo, a revitalização do Mineirão reforçou a vocação da avenida como um polo de eventos, mas trouxe ainda mais desafios para a comunidade local, que continua a buscar um equilíbrio entre o dinamismo cultural e a qualidade de vida no entorno.
De via funcional a ponto de encontro para celebrações e eventos, a Abrahao Caram carrega em si as marcas do crescimento da cidade e os desafios de equilibrar tradição, inovação e convivência. Apesar das tensões ocasionais entre moradores e frequentadores, a avenida permanece como um espaço dinâmico, onde cultura, esporte e comércio se encontram.
Rua Sapucaí: a transformação do centro boêmio e gastronômico de BH
A Rua Sapucaí tem um jeito diferente de receber as pessoas. Ao chegar, é como se ela abraçasse tudo ao seu redor com sua mistura de arte, história e vida pulsante. As fachadas coloridas dos prédios e os grafites espalhados pelas paredes contam histórias e mais histórias. A vista para a praça da estação é um espetáculo à parte. Por ali, cada um vive o seu momento da sua maneira. Seja fumando escorado no muro, frequentando algum bar, tomando uma cerveja na rua ou simplesmente conversando, todos estão ali para serem felizes de suas maneiras.
O clima boêmio exala. O belo horizonte (literalmente) nos faz agradecer por morar na capital mineira. Mesmo com sua vasta gama de prédios e construções cinzentas, as diversas luzes, as pessoas e os bares lembram a todos que há vida ali. Na Sapucaí, o movimento é mais tranquilo, sereno, sem muita agitação. Fotos, amizades, beijos, risadas. Tudo isso é contemplado com um local onde não passa carros, apenas pessoas que buscam sair da monotonia.
A rua, antes pouco movimentada e localizada no tradicional bairro Floresta, possui uma história que remonta aos primeiros anos do século XX, quando Belo Horizonte ainda dava seus primeiros passos como capital planejada. Já recentemente, um projeto que visou valorizar o ambiente para pedestres e consolidar o local como um ponto de encontro cultural, transformou parte da rua em praça.
Nos últimos anos, a revitalização consolidou a Sapucaí como um epicentro de cultura e lazer, refletindo o potencial de Belo Horizonte em transformar seus espaços públicos. Um dos marcos dessa transformação foi o fechamento parcial da via e sua reconfiguração para promover a convivência ao ar livre.
Para Izadora Figueredo, moradora da região há três anos, a chegada desse movimento trouxe benefícios claros: “A qualidade de vida melhorou com a variedade de comércio, além das reformas e melhorias estruturais.” Além disso, para Francisco Rubens Feijó Sampaio, outro morador, a vida noturna trouxe mais emprego, lazer, diversão e valorização dos imóveis.
Kenia Borges, que vive há cinco anos nas proximidades, elogia a organização trazida pela revitalização, mas ressalta que o barulho e a alta movimentação noturna podem ser inconvenientes para quem prefere um ambiente mais tranquilo. “A Sapucaí é boêmia por essência, quem não gosta desse estilo de vida talvez não deva morar próximo à rua”, comenta Kenia.
Porém, como em qualquer espaço urbano reconfigurado, os desafios também surgiram. Ela destaca que questões como segurança ainda precisam ser aprimoradas. “Gostaria que tivesse mais segurança para evitar o uso de drogas, para que a região fosse frequentada por todos os públicos, inclusive crianças”, aponta.
Outro ponto que divide opiniões é a infraestrutura da avenida. Apesar das melhorias na arborização e na limpeza, a fiação exposta e a deterioração da famosa mureta da Sapucaí são temas recorrentes nas conversas dos moradores. Muitos sugerem que os fios sejam enterrados e que a mureta seja revitalizada para alinhar a estética da avenida ao padrão vibrante que ela representa hoje.
Apesar dessas tensões, a Sapucaí continua a atrair tanto moradores quanto visitantes, que veem na avenida um local de encontro e celebração. A Sapucaí tornou-se uma síntese do espírito belo-horizontino: acolhedora, diversa e em constante reinvenção. “Adoro beber e comer nos bares com meus amigos e meu namorado”, destaca Francisco.
À medida que a cidade segue expandindo sua identidade cultural, a Sapucaí se consolida como um exemplo de como a interação entre projetos urbanos e apropriações populares pode criar espaços que vão além de sua função prática. Ainda que desafios persistam, a avenida permanece um símbolo vivo da força transformadora de Belo Horizonte e de sua população.
Hoje, para moradores e frequentadores, a Sapucaí reflete o espírito de Belo Horizonte: acolhedora, vibrante e repleta de diversidade. “A transformação da rua em praça trouxe uma nova vida ao local”, conta Laura Raquel, de 21 anos, dizendo considerar o local um ambiente seguro e acolhedor. “Sempre vejo policiamento e muito movimento por lá, isso acaba ajudando na ideia de segurança em contraste de quando ela está mais vazia”, complementa.
Mesmo com todos desafios entre moradores e frequentadores, a percepção predominante é de que os benefícios superam os problemas. A avenida tornou-se um espaço que celebra o encontro, redefinindo o significado de morar e conviver na cidade.
Cenários vivos da história e transformação urbana
Assim como o Mineirão ecoa as memórias de grandes partidas e eventos culturais e a Sapucaí combina a pulsação da boemia com o peso de sua história, as vias de Beagá são mais do que meros trajetos. São cenários vivos que capturam as transformações de uma cidade também viva, que se reinventa a cada esquina e impacta profundamente a vida de seus moradores. Sem as histórias que essas vias carregam, Belo Horizonte perderia parte de sua alma. A Abrahão Caram, a Sapucaí, o bairro Lagoinha, a Guarapari e tantos outros pontos da cidade não são apenas caminhos, mas sim capítulos de uma narrativa urbana que continua sendo escrita todos os dias.
E mais do que espaços físicos, esses caminhos reforçam a pluralidade e identidade de Belo Horizonte, onde vidas se cruzam e histórias se entrelaçam. Elas conectam não apenas bairros, mas pessoas e experiências, criando laços que fortalecem o senso de comunidade. Em suas esquinas, residem tanto os desafios de uma cidade em constante transformação quanto às possibilidades de inovação e convivência. São artérias que fazem a cidade pulsar, reflexos de sua alma vibrante e de sua capacidade de acolher o novo sem apagar o antigo.
*Reportagem produzida na disciplina de “Laboratório de produção de reportagem” sob a supervisão de Dayane do Carmo Barretos.