Espaços de acolhimento e resistência: como bares, casas noturnas e a cena de baile LGBTQIAPN+ de Belo Horizonte promovem debates sobre raça, gênero e classe, enfrentando desafios de discriminação e segurança em um contexto político e social em transformação.  

Por Quéren Hapuque 

No centro de um salão iluminado por luzes vibrantes, a música eletrônica pulsa, reverberando pelas paredes de um espaço que transborda energia e emoção. No palco de uma ballroom em Belo Horizonte, um público diverso se reúne, formado por pessoas pretas, trans, não-binárias, gays, lésbicas e travestis, todas conectadas pela celebração das suas identidades e pela resistência a um sistema que historicamente as marginalizou. A cena é um espetáculo de expressão e poder. Um dos destaques da noite é Hagen, uma das artistas mais expressivas da nova geração da cena ballroom local. Quando ela entra no salão, o ambiente parece parar. Sua presença é inegável — com um olhar penetrante e atitude impecável, ela começa seu catwalk com uma fluidez de movimentos que capturam os olhares de todos os presentes. Cada passo que dá é uma afirmação de sua identidade e de seu espaço no mundo. 

Os competidores na ball não apenas desfilam; eles contam histórias através de seus corpos, incorporando uma narrativa que transborda expressão artística e política. Os juízes observam, com a mesma intensidade que o público, atentos a detalhes que vão além da técnica. As regras da ball são claras, mas flexíveis, permitindo que cada competidor se expresse de forma única. A competição é organizada em diferentes categorias, que podem incluir o catwalk, a performance de voguing, o realness, e o face, que premia a expressão facial. Os critérios de avaliação, que envolvem o estilo, a originalidade, a confiança e a autenticidade, são reflexos de uma cultura que valoriza a liberdade de ser e a capacidade de transformar a dor e o sofrimento em beleza e força. A ballroom é mais do que uma competição. Ela é um espaço de resistência, onde as identidades dissidentes, que foram silenciadas e marginalizadas ao longo da história, têm uma nova chance de brilhar.  

A cultura ballroom, reconhecida como um símbolo de resistência e expressão LGBTQIAPN+, tem suas raízes históricas nos subúrbios de Nova Iorque, mais especificamente no Harlem, onde movimentos como o Harlem Renaissance, nas décadas de 1920 e 1930, fomentaram uma cultura substancialmente negra e marcada pela fluidez de gênero e sexualidade. Nos anos 1960, a exclusão de queens negras em concursos de beleza motivou Crystal LaBeija a organizar o primeiro baile exclusivamente voltado para essas artistas, consolidando os alicerces das houses e das balls. Décadas depois, essa cultura rompeu barreiras locais e ganhou visibilidade global com ícones como Madonna, que introduziu o voguing ao mainstream com Vogue, e Beyoncé, que no álbum Renaissance homenageia diretamente a ballroom. 

Em Belo Horizonte ela continua viva, reafirmando a importância de criar espaços de pertencimento, onde a liberdade de expressão e o amor por quem se é não são apenas permitidos, mas celebrados. A cena é um reflexo do desejo de se ver e ser visto, de se afirmar no espaço público, e de criar narrativas de pertencimento e resistência. Ao som de batidas vibrantes, no centro do palco, quem se apresenta não apenas dança, mas também resiste e reivindica um lugar no mundo, e é nesse palco nasce Bárbara Haggen, uma jovem de 19 anos negra travesti figura imponente na cena ballroom local, integrante da House of DuBeco surgida no Aglomerado da Serra, região centro-sul de Belo Horizonte, cuja história e presença se entrelaçam com a vibrante cena noturna de Belo Horizonte. A cidade se tornou um campo de resistência para a comunidade LGBTQIAPN+, e, em meio a bares, casas noturnas e o crescente movimento da ballroom scene, os espaços noturnos são mais do que locais de lazer: são territórios de resistência e afirmação de identidade. Para pessoas como ela, esses ambientes oferecem não apenas um refúgio, mas também um campo seguro para a expressão pessoal e a liberdade Foi nesse primeiro contato, ao se ver reconhecida e abraçada pela comunidade, que ela experimentou um novo senso de família e pertencimento. 

“Foi doido para mim essa coisa do acolhimento, porque eu cheguei sem conhecer as pessoas. Eu cheguei sem nenhum senso de família. E aí, a Americana, que já era Americana, me mandou uma mensagem dizendo: ‘Ei, eu vi você dançando hoje no canto. Você não quer ser minha filha, não?’ Eu fiquei tipo lógico, né? Filha? Não, sério velho. Aí eu falei, lógico.”    

Mini ball realizada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)  (Quéren Hapuque/Arquivo Pessoal)

Na cultura Ballroom, as “casas” são muito mais do que grupos ou coletivos; elas são verdadeiras famílias escolhidas, formadas principalmente por pessoas LGBTQIAPN+ que enfrentam exclusão, discriminação ou abandono por parte de suas famílias biológicas. Essas casas desempenham um papel crucial, oferecendo um lar simbólico e prático para quem precisa de acolhimento, suporte e pertencimento em um mundo que muitas vezes os marginaliza.

Cada casa ou família é liderada por uma figura parental, conhecida como “mãe” ou “pai”, que desempenha o papel de protetor, mentor e guia para os membros mais jovens, chamados de “filhos” ou “crianças”. Essa estrutura hierárquica reflete o modelo de uma família tradicional, mas ressignifica o conceito de laços familiares ao priorizar o apoio emocional, o compartilhamento de experiências e o fortalecimento coletivo.  Dentro das casas, cria-se um espaço seguro e inclusivo que proporciona aos seus integrantes a possibilidade de reconstruir suas identidades e viver suas verdades de forma plena.

“Então normalmente, essa pessoa tem um conhecimento ali de vida e retido ao longo da vida que ela vai passar pra frente. E eu acho que a ballroom reproduz muito disso. Tipo assim, as figuras centrais da house” declara Haggen.

Em uma sociedade que ainda enfrenta grandes desafios de discriminação e invisibilidade, esses espaços se tornam uma forma de resistência e afirmação de quem são. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, aproximadamente 5% da população brasileira se identifica como LGBTQIAPN+, e embora não existam dados exatos sobre a população LGBTQIAPN+ em Belo Horizonte, estima-se que a cidade concentra uma parcela significativa dessa comunidade devido ao seu papel central como polo cultural e de entretenimento no estado de Minas Gerais. 

Refúgio e Resistência  

Em Belo Horizonte, os bares e casas noturnas LGBTQIAPN+ não são apenas locais para lazer, mas verdadeiros refúgios onde a comunidade encontra um ambiente seguro para se expressar e viver sua identidade sem medo. Em um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2020, mais de 60% das pessoas LGBTQIAPN+ relataram já terem sido vítimas de algum tipo de violência ou discriminação. Nesse contexto, espaços e eventos como o Bar da Cácia, 80 Bar, 101Ø, Gueto, Trembase, além de outros pontos de encontro se tornam fundamentais para fortalecer a cena LGBTQIAPN+ de Belo Horizonte. Esses locais não apenas promovem festas e encontros, mas também criam ambientes de acolhimento, onde expressão, identidade e liberdade são celebradas sem restrições. São palcos de conexão, pertencimento e resistência, que reafirmam o direito de existir plenamente e com orgulho. Ao abraçar a diversidade, esses espaços contribuem para a construção de uma comunidade mais unida, fortalecendo laços afetivos e gerando visibilidade para narrativas que desafiam as normas sociais. 

Em meio a um cenário de constante luta por direitos e visibilidade, bares e casas noturnas LGBTQIAPN+ surgem como espaços de resistência e refúgio para aqueles que buscam não apenas diversão, mas um lugar seguro para se expressar sem receios. Esses ambientes representam uma válvula de escape das dificuldades diárias enfrentadas pela comunidade, proporcionando um senso de pertencimento que muitas vezes falta em outros contextos sociais. 

O 80 Bar, um dos locais mais emblemáticos da cena noturna LGBTQIAPN+ de Belo Horizonte, é um exemplo de como os espaços podem ser moldados para acolher e proteger aqueles que, em outros ambientes, poderiam ser marginalizados. Segundo o dono do bar, a criação desse espaço foi uma necessidade crucial em meio a um cenário de violência crescente contra a comunidade. “A ideia sempre foi criar um local onde todos pudessem ser quem realmente são, sem receio de julgamentos ou violência. Quando começamos, não havia muitos lugares assim, e entendemos que a nossa missão era criar uma atmosfera de acolhimento, mas também de resistência”, explica o proprietário. 

O bar tem sido mais do que apenas um ponto de diversão. Ele se tornou um local onde pessoas de todas as identidades de gênero e orientações sexuais podem se sentir vistas e respeitadas. Um refúgio, não só para a festa, mas também para a construção de vínculos de apoio e solidariedade. 

Guthierrez, designer de 28 anos frequentador assíduo de ballroons, explica que os bares e casas noturnas da cidade oferecem uma segurança  que ele não encontra em outros lugares. 

“Eu me sinto bem, eu me sinto em segurança, onde eu vejo que eu não vou ser roubado, que eu não vou ser assaltado, que não vai acontecer nenhum acidente, que ninguém vai me bater, enfim, que ninguém vai me discriminar, e é as balls de vogue, onde eu me sinto bem assim, e os technos, prefiro os coletivos e bares pequenos” afirma. Para ele, esses ambientes são essenciais para garantir a liberdade de expressão e o sentimento de pertencimento, algo que é muitas vezes negado nas ruas e em espaços públicos mais amplos. 

Esses espaços tornam-se ainda mais importantes quando os dados da realidade social da população LGBTQIAPN+. O IBGE, em pesquisa de 2020, apontou que mais de 60% da população LGBTQIAPN+ relatou já ter sofrido algum tipo de violência. O Mapa da Violência de 2021 revelou que, em 2020, houve 329 homicídios de pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil, com a maioria das vítimas sendo mulheres trans e travestis. Esse dado reforça a importância de espaços seguros como os de Belo Horizonte, onde, para muitas pessoas, o simples ato de sair para se divertir pode representar uma forma de resistência e afirmação de identidade. 

Para muitos, como Haggen e Guthierrez, a cena de voguing, tecno e bares LGBTQIAPN+ em Belo Horizonte vai além do entretenimento: é uma forma de afirmação identitária em uma sociedade historicamente excludente. A ballroom vem ganhando força na cidade, com um aumento de 45% no número de eventos de voguing desde 2018, segundo pesquisa do Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual e Identidade de Gênero de Minas Gerais (CELLOS-MG).No entanto, apesar desse crescimento, os desafios ainda precisam de ser superados. Como destaca Haggen, “por ser uma cultura trans e negra, ela acaba sendo uma cultura periférica, uma cultura marginal da cidade”. Muitas vezes restrito ao underground, essa cena enfrenta barreiras para acesso a espaços. A gente não vai acessar os lugares comerciais e, quando acessar, eles vão dizer: ‘Meu amor, acessou, não acessou, então se feche.’” 

Esse cenário evidencia a luta contínua por reconhecimento e inclusão, mesmo em meio ao florescimento da cena ball embora representem um refúgio, a cena noturna de Belo Horizonte não está isenta de dinâmicas excludentes. Rafael Andrade, pesquisador de Fenômenos Musicais no Campo da Comunicação explica:

“As dinâmicas de classe atravessam inúmeros grupos em países do sul global, como o Brasil. E a elitização que você chama que acontece dentro de eventos e espaços na cidade certamente exclui parcelas mais pobres da população, não se limitando ao recorte LGBTQIAPN+. Quando o lazer e a cultura são mediados também por instituições privadas (algo normal dentro de uma cidade), a entrada e permanência em espaços como estes são condicionadas ao poder aquisitivo”. 

Essas barreiras reforçam a importância de iniciativas públicas e comunitárias que democratizam o acesso a espaços culturais e de lazer, diversificando ainda mais a cena noturna de BH. 

Embora os espaços de acolhimento como o  80 Bar, 101Ø, Gueto e eventos de voguing sejam vitais para a sobrevivência e expressão da comunidade, a insegurança e a discriminação ainda são obstáculos significativos. Além disso, o ambiente político no Brasil tem afetado diretamente os espaços LGBTQIAPN+ em várias cidades, incluindo Belo Horizonte. A pesquisa do Observatório de Políticas Públicas para LGBTs (2021) aponta que, com o aumento de discursos conservadores, houve uma queda de 18% no financiamento público para eventos culturais LGBTQIAPN+ is so tem gerado dificuldades para a continuidade de diversas iniciativas culturais e artísticas dentro da comunidade, como as competições de voguing e outros eventos que promovem a inclusão e a visibilidade.  

 “A forma como tratam em BH, a forma como funciona. Porque você até consegue acessar certos espaços, mas eles não dão dinheiro pra você fazer o evento. Quando eles dão dinheiro, é um dinheiro que não dá pra pagar bem as pessoas que estão no evento, tá ligado?”  alega Hagen

Para responder às demandas de uma comunidade diversa, muitas casas noturnas e bares têm se esforçado para oferecer eventos que promovam a inclusão. Projetos como festas em praças públicas ou eventos gratuitos em espaços alternativos se mostram como formas de contornar as barreiras da elitização. Esses eventos não apenas celebram a diversidade de forma mais acessível, mas também garantem um espaço de resistência para aqueles que, por questões financeiras, não têm acesso a eventos mais exclusivos. 

Essas iniciativas são fundamentais, pois vão além do simples entretenimento. Elas representam a construção de redes de apoio e a luta por direitos, ao mesmo tempo que oferecem visibilidade e representatividade para pessoas de diferentes realidades sociais. 

(Quéren Hapuque/Arquivo Pessoal)

  

 * Reportagem produzida na disciplina Laboratório de Produção de Reportagem sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos