Iniciativa é do grupo AUÊ! e oferece alimentos de qualidade feitos com ingredientes selecionados através de ocupação de cantina na UFMG
Por Ana Clara Moyen, Enzo Rossetti, Gabriel Marques, Priscila Ribeiro e Samir Cauã Alves
Paredes vermelhas, cartazes coloridos, barulho de microondas, cheiro de café e conversas ao fundo. Uma estudante entra e, sobre o balcão, vê coxinhas caseiras, fatias generosas de bolo e biscoitos de canela. Ao seu lado, um professor compra uma palha italiana enquanto uma vendedora esquenta batata recheada num potinho e vende seu último sanduíche natural. Do lado de fora, nas portas de vidro, frases como “comer bem é um ato político”, “solo sadio, ser humano sadio” e “de onde vem essa comida?” falam das intenções de uma cantina que não é exatamente uma cantina, mas um espaço colaborativo de venda de alimentos que oferecem sabor e saúde em igual medida. Essa é a Feira de Alimentação do Instituto de Geociências (IGC) da Universidade Federal de Minas Gerais.




Fotos: Ana Moyen / Produtos de diferentes comerciantes expostos para venda na Feira de Alimentação
Localizada no primeiro andar do IGC, a feira é resultado de um esforço coletivo de diversos vendedores independentes e do Grupo de Estudos em Agricultura Urbana da UFMG (AUÊ!). Criado em 2013, o AUÊ! surgiu como iniciativa de estudantes e professores interessados em repensar a relação entre cidade, alimentação e sustentabilidade. Desde então, o grupo tem se dedicado a estudar e promover práticas de agroecologia urbana, abordando temas como organização popular, conflitos socioambientais e segurança alimentar e nutricional.
É dessa vontade que surge a Feira de Alimentação do IGC. A ocupação do espaço da cantina começou em setembro de 2025, mas a ideia surgiu alguns meses antes, em maio do mesmo ano. A partir daí iniciou-se uma série de procedimentos burocráticos envolvendo a Reitoria para que fosse possível viabilizá-la. “Em maio, o diretório acadêmico, junto com o AUÊ!, escreve uma carta para a diretoria do prédio pleiteando o uso da Cantina, e aí começa um processo muito lento. Então, assim, milhares de reuniões muito extensas, muito longas. [...] a partir disso foi criado um comitê gestor, que tem representante do AUÊ!, nossa professora coordenadora, da diretoria do prédio, do SIEL [Seção de Infraestrutura e Logística] e do diretório acadêmico. Tudo que acontece dentro da Cantina é decidido por esse comitê”, contaram Gabriel Yugui e Luísa de Oliveira, estudantes de Ciências Socioambientais e Geografia, respectivamente, e bolsistas do AUÊ! responsáveis por acompanhar o projeto. A iniciativa veio não só para preencher a ausência de uma cantina no IGC — um vácuo comum em diversos prédios da universidade com as várias rescisões dos contratos de operação desde a pandemia — mas para avançar um debate sobre a alimentação saudável no campus.


Não é a primeira vez que uma iniciativa semelhante surge na UFMG. Em abril de 2025, por exemplo, estudantes do Movimento Correnteza ocuparam a cantina vazia do Centro de Atividades Didáticas 2 (CAD 2). A iniciativa recebeu o nome de Cantina Popular Edson Luís e beneficiava estudantes de diversos cursos, que não precisavam mais se deslocar para outros prédios para lanchar. A cantina foi forçosamente encerrada pela reitoria no final de maio.
Uma das vendedoras que ocuparam o espaço foi a cozinheira Mariana Carazolli, de 34 anos. Ela admite ter sofrido com o fechamento da cantina. “Foi triste, foi horrível [...]. Os meninos vendiam tudo direitinho, eles fizeram um envelope e colocavam lá cada centavo [...], mas aí a faculdade passou a perna nos meninos, porque falou que eles iam fazer um evento, convenceram eles a fechar [...], e nisso que eles acreditaram, quando deu o dia de voltar, segunda-feira [...], estava tudo trancado, cheio de guarda em volta, não podia entrar mais. Então, assim, foi bem triste, porque muita gente também estava tirando a renda dali, não era só eu não”, compartilhou ela.
Mariana ficou sabendo do projeto da Feira de Alimentação do IGC através de clientes da faculdade que a incentivaram a se juntar à ocupação. A cozinheira se inscreveu virtualmente e, hoje em dia, continua a vender seus bolos, tortas e salgados caseiros dentro da UFMG, agora no Instituto de Geociências, que tem suas próprias particularidades.
Alimentação saudável, sustentável e solidária

Mariana precisou adaptar algumas de suas receitas para que se adequassem ao perfil nutricional objetivado pela Feira de Alimentação do IGC. Quando vendia seus produtos na cantina do CAD 2, um de seus maiores sucessos era a torta de hot dog. No entanto, ela não pode ser vendida na feira pois contém salsicha, um alimento ultraprocessado. Como substituto, Mariana implementou a torta de frango, que, segundo ela, faz tanto sucesso quanto. Em algumas de suas produções, passou até a utilizar ingredientes do horto do próprio IGC, outra iniciativa do AUÊ!. “Com essa questão da agroecologia, tem o horto. [...] Eu faço uma torta vegetariana, que é maravilhosa, todo mundo ama. Eu uso as coisas dali”.



Fotos: Ana Moyen / Frutas e hortaliças em cultivo do horto do IGC

Mantido em colaboração com os estudantes, o Horto é dividido de modo que seus cultivos sejam facilmente identificados a partir do órgão do corpo humano que eles beneficiam. O orégano, por exemplo, está plantado na seção do baço/pâncreas, visto que tem ação antioxidante e pode ajudar na prevenção do câncer de pâncreas. O espaço também é utilizado para a realização de atividades coletivas e rodas de conversa, como as que aconteceram no dia 26 de novembro, durante o evento “Comida, saúde e cuidado”.



Fotos: Ana Moyen / Encontros promovidos pela atividade “Comida, saúde e cuidado”
Em colaboração com o Horto, a Feira de Alimentação se apresenta como uma frente de luta pelo acesso à alimentação saudável. A importância do cultivo agroecológico é incorporada na iniciativa da cantina a partir da instrução sobre o uso de ingredientes orgânicos e da promoção de atividades educativas. Gabriel Yugui lista a procedência dos produtos como uma das prioridades da feira: “É o alimento saudável que o estudante vai estar comendo, um alimento que ele sabe de onde que vem. Diferente da realidade que a gente tem hoje da comercialização de produtos super processados, em que a gente não sabe quais produtos são esses, de onde eles vêm. [...] Eu acho que o direito humano à alimentação adequada vai muito nesse sentido, é um princípio que a gente estabeleceu dentro de uma carta de princípios também, que foi instituída junto com o comitê, com a contribuição das meninas [vendedoras da feira], para o funcionamento da cantina”.
O direito que Gabriel menciona é aquele contemplado no artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Ele prevê que não basta estar livre da fome: também é necessário garantir à população uma alimentação de qualidade. Para a Feira de Alimentação do IGC, essa qualidade engloba o sabor, o preparo, o preço e a procedência dos ingredientes. O reflexo dessa atenção aos detalhes é a preferência dos estudantes. Mariana conta que alguns inclusive se deslocam de outros prédios para comer na cantina do IGC. Essa preferência se estende até mesmo aos professores e pesquisadores da faculdade, que contrataram Mariana e Kim para a realização do coffee break de um evento no prédio.



Fotos: Ana Moyen / Broa de fubá, torta de sardinha e biscoitos de canela preparados para o coffee break de evento de pesquisa no IGC.
Uma cantina feita de mãos dadas
Para além dos serviços prestados à comunidade universitária, com a oferta de alimentos variados, saudáveis e com qualidade, o projeto também fortalece relações afetivas entre os participantes, sejam eles vendedores, organizadores ou clientes da feira.
O sistema de funcionamento da cantina reflete essa mesma lógica. Os vendedores operam com bastante autonomia, de acordo com um cronograma estabelecido por eles, que revezam horários e dias da semana para exporem seus produtos. Cada produto pertence a um produtor diferente, e todas as vendas acontecem de forma direta, sem intermediação. Cada vendedor possui seu QR Code próprio, e o pagamento é feito diretamente ao responsável. Não há concorrência — há cooperação.
Quando um cliente paga em dinheiro, quem está no turno faz o repasse por Pix ao colega, garantindo que ninguém saia prejudicado. “A gente vai se ajudando. Se a moça dos doces não está aqui, eu vendo pra ela; quando é o meu bolo, ela vende pra mim. É tudo na base da parceria”, conta Mariana.
Essa rede de confiança e solidariedade é o que mantém o projeto de pé. Muitos produtos são feitos de forma artesanal, em casa, e transportados até o campus com esforço coletivo. As próprias geladeiras da cantina foram conseguidas por meio de doações e acordos entre os participantes, que dividiram até o custo do frete para poder garantir a estrutura mínima.
Mais do que um ponto de alimentação, o espaço se tornou um núcleo de convivência e pertencimento. Mariana descreve o carinho dos estudantes com emoção: “Tem cliente que vem só pra conversar. Tem professor que compra comigo há anos. O pessoal fala que a gente deu vida pro lugar. Está virando uma família.”
Esse vínculo também se expressa na diferença de qualidade: as porções são fartas, os preços acessíveis, e o sabor caseiro se destaca frente às opções escassas e industrializadas de outros prédios da universidade. O grupo segue firme, movido pelo desejo de permanecer servindo a comunidade. “Devia ter uma cantina assim em todos os prédios”, afirma Mariana. “Oferecer comida é o mínimo que uma faculdade pode fazer.”

Iniciativas como a do AUÊ! vão muito além da oferta de refeições. Elas representam um ato de resistência dentro da universidade pública, ao aproximar saberes populares, práticas sustentáveis e economia solidária. Ao mesmo tempo em que alimentam o corpo, nutrem vínculos e ressignificam o espaço acadêmico como lugar de cuidado, afeto e aprendizado coletivo.
Em um contexto em que muitas cantinas seguem fechadas e a alimentação se torna mais um desafio na vida universitária, experiências como essa mostram que é possível reinventar a rotina do campus a partir de valores como cooperação, confiança e consciência alimentar.
* Reportagem produzida na disciplina "Laboratório de Produção de Reportagem", sob supervisão de Elton Antunes