O grande fomento de festas noturnas tem transformado a cena techno de Belo Horizonte em precursora de troca de afeto e celebração da comunidade trans.

Por Nicolas Pereira.

Nos últimos cinco anos, temos acompanhado a efervescência de festas eletrônicas na capital mineira. Masterplano, Trembase, 101⊘, Horny, Dildo, são somente alguns nomes de eventos voltados para a comunidade LGBTQIAPN+ que movimentam as noites belorizontinas. Somado a essas grandes festas, também há o impulso da cena underground que traz Avulsa, Acha, Brasa, Madagascar, Flop, Delírio, Trava Elétrica, Panca e NBaile como verdadeiros espaços simbólicos de liberdade e aceitação principalmente entre pessoas trans e travestis. Mas como o cenário se tornou tão favorável para o estabelecimento dessas festas? Por que elas se fazem tão necessárias para acolher corpos socialmente marginalizados?

Fotografia 1 – Participantes de festas techno: (1) Gana, DJ Nbaile; (2)  Kellé, performer Panca; (3) Lucas FMQ, frequentador; (4) Mathy <3, produtora Panca. Fotos: Reprodução do Instagram

No dia 20 de setembro de 2024, foi a primeira vez que eu fui em uma Panca. O tema era Sagrada e Profana e eu consigo lembrar exatamente da sensação de não saber como seria, de ficar inseguro com a roupa que eu iria e de como deveria me comportar. Sendo uma pessoa transmasculina, negra, com recém completados 19 anos, essas dúvidas permeavam qualquer evento que eu fosse, porque era o momento em que eu estava descobrindo como as outras pessoas reagiam ao meu corpo ocupando certos lugares. 

Registro da Panca Sagrada e Profana. Foto: Nicolas Pereira (acervo pessoal)

Me recordo vividamente de pegar emprestado uma bermuda do meu pai e colocar uma camiseta que propositalmente mostraria meu binder (peça de roupa que tem a função de comprimir peitos) e me sentir mais masculino do que gostaria. A sensação apareceu depois de me ambientar na festa e perceber que eu poderia ter me vestido de qualquer forma, na verdade poderia estar sem camisa e ninguém ligaria. A festa foi no Spot Culture, localizado no centro de Belo Horizonte, lugar de feiras, pista de skate, sinuca e casa da cena underground. Foi atravessando uma grossa cortina de plástico estilo açougue e entrando naquele espaço sem ventilação de aproximadamente 30 metros quadrados que eu vivi o que seria minha festa favorita. 

A sensação de entrar em um evento e perceber que a pessoa que está tocando é trans, quem está performando é trans, do seu lado tem uma pessoa trans dançando e uma pessoa trans beijando outra pessoa trans, é finalmente encontrar um ambiente seguro. Mas até chegar no dia 20 de setembro de 2024, muita coisa aconteceu para que eu pudesse viver a Panca e todo meu futuro na cena techno. 

A intro da cena techno em Belo Horizonte

No dia 1º de março deste ano, eu estive na festa Kuir, especificamente para ouvir o set do Supololo, DJ cisgênero residente da MientrasDura e uma das pessoas produtoras da Masterplano. Nesse mesmo dia, acabei descobrindo que Supololo é meu colega de Academia, sendo doutorando em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Em 2022, apresentou uma dissertação ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Ouro Preto, intitulada Masterplano e redes de mediações: A festa de música eletrônica na pandemia de Covid-19. 

Fotografia 3 - Supololo tocando durante a festa Kuir. Foto: Nicolas Pereira (acervo pessoal)

Em sua pesquisa, o DJ, que já possui o bigode e cabelo cacheado como identidade visual, faz um apanhado histórico de como a cena techno na capital mineira surgiu, abordando duas cenas de música eletrônica de pista do mundo, a de Detroit (Estados Unidos), e a de Berlim (Alemanha). A estadunidense começa a ganhar força em 1980 pelo seu caráter de “ocupar o vazio com música eletrônica” gerado pela falência das indústrias automobilísticas, com apropriação de espaços industriais inativos e música produzida por pessoas negras que, entre 1950 e 1980, foram despejadas para as regiões periféricas desta cidade. 

Para Berlim, Supololo cita o documentário Black to Techno, produzido pela cineasta cisgênero nigeriana-britânica Jenn Nkiru (2019), que mostra como música eletrônica chega à Alemanha a partir do final dos anos 1980, com um caráter de reunificação após a queda do muro de Berlim. O gênero musical chegou ao país para acompanhar “uma revolução”, sendo o contexto histórico e político perfeito para a cultura jovem de resistência misturar com a música techno.

No Brasil no início dos anos 1990, a música eletrônica começou a aparecer em festas como parte de um movimento iniciado por grupos socialmente minorizados que encontraram uma possibilidade de se reconhecer. Em Belo Horizonte não teria como ser diferente e o surgimento da cena clubber veio como resposta a algumas limitações dos usos dos espaços públicos a partir de 2010, como a limitação da Praça da Estação e o aumento da tarifa de transporte público. O início de coletivos como o Masterplano aconteceu em combate à essas políticas de governo e aos protagonistas da música eletrônica brasileira, quase majoritariamente homens brancos, cisgêneros e de orientação heterossexual.

O que sentir para além do beat? 

No dia 19 de novembro de 2023, eu fui à minha primeira Trembase, e apesar de não gostar de festas techno na época, estava ansioso para ver o show de uma das minhas cantoras favoritas, a Urias. A artista transgênero estava em turnê do álbum Her Mind, uma obra que busca contrapor a hipersexualização e violência voltadas ao corpo trans, focando no impacto em nossas mentes. Lembro bem do calor característico de final de ano misturado com a ansiedade e desconforto de um ambiente novo, me levando a observar mais do que dançar durante a festa. Sendo o meu primeiro contato com um evento voltado para a comunidade LGBTQIAPN+, fiquei me questionando se todas as pessoas estavam sentindo o gosto da liberdade que eu estava experimentando e como e por que ninguém tinha me apresentado esse ambiente antes?

Nesse dia eu encontrei meu padrinho de transição Lucas FMQ já na fila de entrada. Fiquei extremamente feliz, porque antes disso tínhamos nos visto presencialmente pouquíssimas vezes e não imaginaria que atualmente seríamos parceiros de techno. Após diversas festas que curtimos juntos, o entrevistei em fevereiro deste ano para discutirmos nossa vivência enquanto transmasculinos negros nesses eventos e, principalmente, se ele compartilhava do sentimento de liberdade que me preenche toda vez que entro na cena clubber de Belo Horizonte: “Eu percebi que era um espaço onde as pessoas, elas se expressavam tanto com as roupas, quanto com o modo de dançar de forma muito livre. Então já foi um uma observação diferente que eu tinha de outros espaços.  Antes eu frequentava festas de funk e samba, assim... Então eu percebi uma diferença gigantesca na forma como as pessoas se expressam mesmo”, contou-me Lucas.

Essa observação é muito rica porque apesar de gostarmos bastante, eu e meu padrinho nunca fomos a um samba juntos, muito por entender que não ficaríamos tão confortáveis quanto em um techno. E mesmo sendo esse espaço de encontro e acolhimento, as festas de música eletrônica nem sempre são perfeitas para nossos corpos atravessados por racismo e expectativas de gênero. “Eu ainda sou muito preocupado com a minha performance, né? É uma coisa que eu tento me desvencilhar [...] durante muito tempo da minha vida eu não dancei em festas porque eu tinha muito medo das pessoas estarem me olhando. Mas hoje em dia não, hoje em dia eu consigo dançar, eu consigo mexer meus braços, antigamente eu ficava com um braço muito, muito travado assim. Ainda tem essa preocupação com a questão da performance, mas eu me sinto muito mais tranquilo em dançar, em estar curtindo essa festa”, confessou-me. 

Dia 19 de novembro de 2023 também foi a primeira vez que assisti a uma performance. Em um dos palcos da festa, pouco antes do show da Urias, minha amiga Kellé performava todos os olhos nela, com uma roupa construída por ela mesma em sua estreia como residente da Trembase. Nessa época, a festa tinha mais duas performers residentes, Amerikana e Melody Queen, que incentivaram Kellé a se apresentar, compondo um trio incrível de artistas travestis negras. 

Kellé performando Todos os olhos nela. Foto: Reprodução do Instagram

Com um olho acima da cabeça e vários outros pelo seu corpo, a ideia de Todos os olhos nela era trazer na arte a reflexão sobre os olhares que uma pessoa trans racializada recebe ao longo da vida. Como novata, não tinha como Kellé não homenagear as pessoas com que estava dividindo o palco e trazer à tona o fenômeno de termos quatro travestis negras como estrelas da Trembase. A performer segurava uma página de jornal com a manchete “TODOS OS OLHOS NELA” junto com as fotos da Amerikana, Melody Queen, Urias e, ela mesma, Kellé. Realmente todos os olhos estavam nela desde o segundo que subiu no palco, e não tinha como não estar. A performance é o que preenche uma festa, é o momento em que o palco ganha vida e o público se conecta com a narrativa que a pessoa performer quer contar. Atualmente, Kellé também é residente na Panca e em março deste ano ela me contou a importância da performance em sua vida durante uma entrevista: “É como se eu tivesse possuída no palco, meio que fora de mim, tudo muda quando eu subo em cima do palco e existem vários contrastes assim. O que eu elaboro ali no palco, comigo mesma, com os olhares do público pra mim, tudo ali constrói coisas dentro de mim que me ajudam muito fora do palco também. Eu acho que eu mudei muito a partir disso. Eu era uma pessoa muito tímida, ainda sou, mas assim, eu faço coisas hoje que antes eram inimagináveis, então me mudou muito essa experiência toda”. 

As festas se tornaram esse lugar de criar uma realidade em que corpos dissidentes sejam livres, criando um espaço seguro em contraste com a violência sofrida em outros ambientes. Seja em cima do palco, controlando as caixas de som, ou apenas curtindo o evento, a cena clubber de Belo Horizonte mostra possibilidades de vivência para comunidade trans. O techno permite a troca de olhares de afeto, carinho, reconhecimento, um momento de alívio diante de um contexto tão hostil.

O disco arranhado

A última Panca que fui aconteceu no dia 12 de junho deste ano. Quando recebi o anúncio da festa senti uma mistura de felicidade com alívio, pois havia mais de 6 meses que não ocorria. Com o passar do Réveillon, Carnaval, Dia das Mães e muitos eventos, porque justamente o que eu me sentia mais seguro tinha parado? Alguns meses antes dessa edição da Panca, entrevistei a Mathy <3, uma das pessoas produtoras do evento, que enquanto travesti negra, entende bem a potência e importância da festa. Conversando sobre esse assunto, chegamos à conclusão de que Belo Horizonte passa por um momento crítico para eventos culturais, especialmente voltados para o público LGBTQIAPN+: “A gente percebia muito essa dedicação nossa de fazer coisas muito legais pra nossa comunidade, construir espaços seguros para vozes queers, e eu sentia que a gente construiu mesmo esse espaço seguro pra expressões queers e tal, mas fica nessa coisa de ter a falta de retorno. Então a gente fazia isso única e exclusivamente pelo prazer que era ver esse espaço nascendo, esse espaço crescendo, esse espaço fluindo e isso é muito legal, muito legal mesmo! Mas falta, eu acho, essa coisa da empregabilidade trans na arte, na cultura, pra além só das festas, né, mas tudo o que envolve a arte e cultura na cidade”, relatou-me Mathy <3. 

No plenário da câmara das pessoas vereadoras de Belo Horizonte, dia 3 de fevereiro deste ano, foi aprovado em primeiro turno o Projeto de Lei (PL) 11/2025, que dispõe sobre a proibição da presença de crianças em eventos culturais, carnavalescos, artísticos, paradas LGBTQIAPN+ e afins, ou que apresentem exposição de nudez ou conteúdo inapropriado para menores de idade. Já em 13 de março, foi aprovado em primeiro turno o PL 25/2025 que proíbe o financiamento de shows, artistas e eventos abertos ao público que envolvam, no decorrer da apresentação, expressão de apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas e conteúdo de natureza sexual explícita. 

Esses projetos de lei exemplificam como o conservadorismo atua contra eventos que exaltam corpos dissidentes e que apresentam natureza política. Temas subjetivos como conteúdo inapropriado e de apologia à natureza sexual explícita são constantemente associados a eventos de exaltação à cultura LGBTQIAPN+, negra e periférica. A cena techno da capital mineira, sendo essencialmente política e oferecendo um espaço seguro para pessoas trans, é atingida por cada avanço de projeto que tem como objetivo invisibilizar ainda mais a comunidade. 

A música não pode parar

Em 20 de março, tive a honra de entrevistar Gana, DJ residente da NBaile, multiartista, professore, dançarine, performer, maquiador, produtor, pesquisadore e uma das minhas maiores referências de drag king. Conversando sobre suas experiências trabalhando em diferentes áreas da cena musical, refletimos que os corpos trans são socialmente marginalizados e como isso influencia no processo dos eventos voltados a esse público ocorrerem:“Eu fui na Buma no Clube 415, lá em Nova Lima. Tipo assim, a Buma é uma festa que o perfil no Instagram tem 300 mil seguidores, uma festa itinerante que onde ela acontece, ela bomba. E eu te pergunto: como? Como que a Masterplano rala tanto pra sair de Belo Horizonte? Como que a Mientras não consegue sair de Belo Horizonte? Por que os coletivos menores não conseguem? Porque são os corpos que a galera não tá a fim de trombar nos rolês. Tipo, ‘os cara’ me olhavam e eles não sabiam o que eles tavam entendendo. [...] Teve um bofe que me viu, me olhou de cima a baixo e falou: ‘O que cê tá fazendo aqui?’.” 

Gana tocando durante última edição da NBaile de 2025. Foto: Nicolas Pereira (acervo pessoal)

A situação vivida por Gana infelizmente não é uma exceção. Para nós, corpos dissidentes, entrar em certos espaços significa lidar com olhares de estranhamento, ter a nossa presença questionada e a sensação constante de vulnerabilidade. O medo se coloca acima da diversão e acabamos entrando em estado de vigilância e autopreservação, pois a violência nos acompanha diariamente. De acordo com o Dossiê: Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025, produzido pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), Minas Gerais é o estado com maior número de assassinatos de pessoas trans no último ano. O estado mineiro está entre os 10 estados mais violentos contra essa população há anos, sendo o quarto estado brasileiro com maior índice de assassinatos entre 2017 e 2025. 

Dos poucos espaços que restam para pessoas trans se sentirem acolhidas, as festas techno sobrevivem apesar do esforço por parte do conservadorismo para que elas não aconteçam. Apesar de pessoas cisgêneras tentarem tornar nossas vidas descartáveis, ainda criamos lugares em que nossos corpos são celebrados. A cena clubber criou um ambiente de resistência para que a arte trans seja apreciada em vida. Por isso a música eletrônica não pode parar e as festas devem continuar fomentando até que todos os espaços sejam seguros.


* Reportagem produzida na disciplina Transgeneridades, Linguagem Inclusiva e Jornalismo de Subjetividade sob a supervisão da prof. doutorande Gaia Bê Limah.