Na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, a arte urbana é mais que decoração. É afeto, acolhimento e sentimento de pertencimento

Por Elen Batista, João Pedro Salles, Lucas Carmona

Em Belo Horizonte, como em boa parte de qualquer centro urbano, basta um olhar ao redor para perceber que as ruas, muros e viadutos operam como formas de representação artística, política e moldam o viver na cidade. Mas em meio à densa paisagem urbana e política, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) eleva esse diálogo a outro patamar no Campus Pampulha. As paredes do prédio chamado de “o mais político” da UFMG funcionam para além dos limites estruturais: elas operam como o próprio arquivo vivo da história do ambiente e refletem as lutas que definem a alma da faculdade.

Grafite na FAFICH com os dizeres “FAFICH SEM MEDO!” – João Pedro Salles/UFMG

Memória em forma de arte

Para os estudantes, conviver diariamente com essas intervenções é uma imersão constante no debate e na memória. As paredes da FAFICH operam não apenas como arte, mas refletem um mapa de tensões históricas e contemporâneas: há referências explícitas à ditadura militar e à resistência estudantil que a FAFICH protagonizou no passado, lado a lado com as pautas do presente, além de representações artísticas que refletem gostos e vontades alheios.

Grafite em protestos ao Estado de Israel na FAFICH. Foto: João Pedro Salles/UFMG

Carolina Ramos, de 21 anos, aluna da UFMG, mulher preta e com passagens pelo jornalismo do Estado de Minas e da Rede Minas, enxerga nos desenhos a materialização da luta política que pulsa nos corredores. “A FAFICH é um lugar que abarca essa multiplicidade de corpos, de pessoas, de gêneros, e os grafites traduzem isso muito bem”, ela afirma, destacando a capacidade da arte de absorver a complexidade social da faculdade. A memória, nesse contexto, não é apenas nostalgia, mas um instrumento político ativo. Lutar pelo direito de pintar uma parede é, muitas vezes, lutar pelo direito de não esquecer, garantindo que os rostos de pessoas que não podem ser esquecidas – como o caso de Marielle Franco, vereadora da cidade do Rio de Janeiro que foi brutalmente assassinada – permaneçam visíveis. Essa é uma das formas em que a história da faculdade se conecta com as urgências do país.

Grafite da Marielle Franco na FAFICH. Foto: João Pedro Salles/UFMG

O mural de Marielle Franco, inclusive, não é uma manifestação espontânea, mas uma obra solicitada pelo próprio Diretório Acadêmico (DA) da FAFICH e autorizada pela direção, informa a diretora Thaís Porlan. “O grafite da Marielle é um que, especialmente, eu gosto muito, porque existe essa importância da arte enquanto instrumento de memória também, de não fazer a gente esquecer,” diz Carolina. Para ela, a obra carrega um peso especial, que define a própria mensagem do lugar: “É importante para quem pisar ali na FAFICH entender o que aquele prédio significa também, qual é a história que ele carrega.”

Outro grafite da Marielle Franco na FAFICH. Foto: João Pedro Salles/UFMG

A força política dos grafites também é vista como um catalisador de ideias conjuntas. Mariana Kuimijian (22), estudante de Jornalismo e membra dos coletivos de Hip Hop de BH, “Don’t Stop” e “aFIRMA”, aponta para a natureza do diálogo que a arte gera. “Eu vejo uma conversa muito política nas obras da FAFICH, principalmente aquelas que geram debate. Muitas vezes na própria parede da obra a gente vê esse estímulo de uma conversa, de alguém colocando uma posição, outra pessoa colocando outra, e isso pra mim é construção política.”

Apesar da clareza do caráter político da arte na faculdade, ela reconhece a diversidade de recepção. “Não acredito que seja necessariamente recebido da mesma forma,” diz, sobre a boa recepção esperada a partir das obras. “Existe uma força, sim, que inclina para um lado, mas ainda existe uma pequena quantidade de pessoas que têm outra perspectiva política e não necessariamente se agradam pelo que está acontecendo. Acredito que isso cumpre exatamente o próprio papel do grafite: causar uma intervenção.”

A perspectiva do artista

A relação da FAFICH com a arte ganhou novos contornos em 2016, quando a faculdade realizou uma reforma para revitalizar o prédio e escolheu, por meio de um edital, artistas para participar do processo.

Um dos artistas selecionados foi Marcelo Assis, popularmente conhecido como Gud, nascido e criado em Belo Horizonte, que iniciou sua trajetória nas paredes do seu bairro, o Nova Vista, e hoje é uma referência no cenário do grafite da capital mineira. Segundo ele, a participação na FAFICH o marcou profundamente.

“Foi muito interessante, porque é um lugar com gente muito instruída. Eu procurei fazer tudo direitinho, pensado, e não fazer qualquer coisa, sabe? Eu cresci um pouco com esse trabalho lá, conceitualmente. Tecnicamente também, mas acho que foi muito interessante pra mim no sentido conceitual,” conta Gud, que hoje tem obras espalhadas por escolas, e, além disso, sua maior arte fica exposta em um prédio de cinco andares no bairro Castelo.

Ao ser questionado sobre o que o grafite representa, o artista resume a complexidade em uma afirmação categórica: “É a minha vida. O grafite virou também sustento para a minha família. Então hoje ele é tudo para mim.”

Gud ancora o grafite em uma necessidade humana fundamental de expressão: “O grafite para mim é uma expressão. Lá no tempo das cavernas, os primeiros humanos escreviam nas paredes para se expressarem. Eu faço isso hoje em dia. Nas paredes das casas, muros e prédios. Faço para ser alguém dentro da sociedade.”

Essa visão de uma necessidade intrínseca aos seres humanos de marcação territorial e expressão encontra eco na motivação dos estudantes. Mariana Kuimijian, por exemplo, atribui a autoria dos murais à própria dinâmica de autoconhecimento político dos universitários. “Na minha perspectiva, parte muito de uma iniciativa dos alunos que estão em processo de autoconhecimento, que expressam isso nas paredes da própria faculdade, no lugar que esse conhecimento é a ponte,” afirma.

FAFICH: entre o acolhimento e o apagamento

A diretoria da FAFICH adota uma postura de acolhimento que, em teoria, reflete a pluralidade do lugar. Thaís Porlan, diretora da faculdade, resume a visão institucional: “Os grafites são formas de expressão artística que dão ‘a cara da FAFICH’, que é uma unidade muito diversa. Achamos que é uma forma de expressar essa diversidade nas características físicas do prédio.”

Contudo, essa aparente abertura encontra a barreira da institucionalização. O acolhimento da diretoria, que gosta dos grafites e os aprova, coexiste com o ato frequente de pintar e remover diversas pixações e grafites. A arte que é acolhida e legitimada é aquela que passa pelo crivo institucional da Universidade, como o mural de Marielle Franco. Já a intervenção crua, a manifestação política, está sempre sob o risco do apagamento. 

Grafite localizado na FAFICH. Foto: João Pedro Salles/UFMG

Grafite e pixo: uma disputa semântica pela legalidade

Segundo o portal educacional Brasil Escola, existem diferentes relatos do surgimento do grafite. Ele teria nascido na França em 1968 com estudantes parisienses. Mas só em Nova York, na década de 1970, a cultura ganhou propulsão para se espalhar por todo o mundo.

O pixo e o grafite, embora compartilhem a mesma origem urbana, ganharam significados muito diferentes ao longo do tempo no Brasil. O artigo “Captura e resistência: potências comunicacionais e políticas das práticas de intervenção urbana”, das professoras da Fafich Ana Karina Oliveira e Ângela Marques, aponta que a pixação se consolidou como a expressão “à margem da margem”, vista como ilegível e agressiva para quem não compartilha do código de escrita desenvolvido pelos pixadores. Essa estética própria, geralmente monocromática, é associada a jovens das periferias, o que contribuiu para sua marginalização e criminalização. Já o grafite, com suas cores, formas variadas e caráter figurativo, foi gradualmente incorporado por políticas culturais, conquistando reconhecimento e espaços legitimados.

“O pixo não é uma coisa que se diferencia do grafite nos outros países. O Brasil é o único país que faz essa separação. É um ponto linguístico importante o movimento  político dessa nomenclatura”, pontua Mariana.

Essa diferença de tratamento fica evidente na forma como instituições e a sociedade se posicionam diante dessas práticas. Enquanto a pixação é enquadrada como crime ambiental e frequentemente associada ao vandalismo, o grafite passou a ser considerado arte contemporânea, com apoio inclusive do poder público. Contudo, Oliveira e Marques destacam que a tensão entre aceitação e resistência permanece como motor dessas intervenções urbanas, evidenciando o contraste entre consagração e profanação, ordem e subversão, arte e vandalismo. Nesse embate, tanto o pixo quanto o grafite seguem ampliando o debate sobre o direito à cidade e os limites da expressão artística. A faculdade, com seu histórico de efervescência e caráter politizador, usa dessas manifestações para comunicar-se ativamente com a comunidade que ali convive. Os grafites e as pixações na FAFICH se integram ao prédio e se tornam parte indissociável de sua identidade.


* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes