A régua da masculinidade mede quem cabe na ciência: ela ainda é um espaço de exclusão, mas a diversidade busca seu lugar
Bernardo Henrique Rezende Luiz

Masculinidade, substantivo feminino
De acordo com o dicionário Aurélio, “Masculinidade” significa “Qualidade de masculino” e “Masculino”, por sua vez, significa “Que é do sexo dos animais machos” ou “Másculo”. Quem diria que uma palavra poderia pautar todo um modo de vida…
Apesar de múltipla, a Humanidade ainda falha em abraçar sua diversidade ao tentar encaixá-la em padrões estritos. Parte dessa tentativa de encaixe decai sobre a formação profissional das pessoas, por meio das imposições da masculinidade. Através da retomada da história de um dos cientistas mais importantes do mundo, de pensamentos sobre identidades de gênero e de entrevistas com estudantes de três áreas distintas das ciências exatas e naturais, nasce a pergunta: hoje, há ciência para quem?
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Um fim em meio a muitos cálculos
Era uma segunda-feira, em Wilmslow, Inglaterra, quando Alan Turing foi suicidado. Mais especificamente, dia 7 de junho de 1954, após ingerir cianeto, como sugere a versão narrada pelos oficiais da polícia britânica. Acontece que nenhuma morte se dissocia da vida e não seria diferente no caso do pai da ciência da computação moderna…
De acordo com a 11º seção da Lei de Emenda à Lei Criminal de 1885 (Emenda Labouchère, proposta pelo deputado Henry Labouchère), estavam criminalizados todos os “atos homossexuais” entre homens cisgêneros no Reino Unido, para além do sexo anal, anteriormente considerado como “sodomia”. A “sodomia” foi utilizada como justificativa plausível para a pena de morte de homens cisgêneros não heterossexuais no território inglês desde o Século XVI, a partir da Lei da Sodomia de Henrique VIII. Somente em 1861, com a Lei de Ofensas contra a Pessoa, o mandato de pena de morte foi reduzido para prisão perpétua.
A criminalização de Turing por sua homossexualidade em 1952 resultou em uma dura decisão jurídica: a troca da prisão até o último de seus dias pela tortura, perseguição social e humilhação pública – nomeadas pelo Estado Britânico como “tratamento hormonal com estrogênio/ terapia de castração química”. Tudo isso o levou ao seu fim.
Nem mesmo um cientista da computação pioneiro, criptoanalista, matemático, filósofo e biólogo, capaz de decodificar a máquina nazista e localizar as posições das tropas alemãs, auxiliando no fim da Segunda Guerra Mundial, conseguiu escapar da régua moral da masculinidade. Essa régua segue entre nós, medindo as vidas de quem cabe ou não cabe enquanto existência no mundo.

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Não se nasce homem, torna-se homem
Em algum momento da vida, você provavelmente ouviu ou leu a sentença “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. A partir dessa afirmação, Simone de Beauvoir colocou em jogo a discussão sobre a construção de uma identidade feminina perante a sociedade. Da mesma forma que as mulheres, cisgêneras e transsexuais, se estabelecem como mulheres a partir dos referenciais de feminilidade ao redor, também o fazem os homens, cisgêneros e transexuais, a partir da masculinidade.
Para a filósofa Judith Butler, “ser homem” não acontece naturalmente, muito menos existe uma essência capaz de tornar alguém masculino. Enquadrar-se enquanto homem, cisgênero ou transsexual, diz respeito a uma repetição estilizada de atos, gestos e discursos que, ao serem repetidos ao longo do tempo, criam a ilusão de uma identidade de gênero estável e “natural”.
Rupaul, drag queen estadunidense mundialmente reconhecida, resume mais amplamente, abrigando demais identidades não-binárias: “Todas as pessoas nascem nuas, e o resto é drag!”. Assim como na arte drag, existir no mundo implica performar, e, especialmente quando se trata de papéis de gênero, as performances estão sempre se adaptando.
Ao longo do tempo, em distintos cenários e civilizações (considerando o Ocidente – na pesquisa de Pedro Eduardo Silva Ambra), a busca pelo caráter másculo – o “ser homem” – esteve atrelada a diferentes funções sociais. Na Antiguidade Clássica, dialogava com direitos e deveres cívicos, com a participação na vida política e com a valorização do intelecto e do estudo da filosofia. Na Idade Média, ligava-se à honra, à coragem de batalhar e à fé cristã – sabendo que a Igreja Católica foi uma das grandes responsáveis por impor papéis de gênero binários mundo afora através do Colonialismo. Na Modernidade, a partir da ascensão burguesa e consolidação do capitalismo, a masculinidade passa a ser associada à capacidade de prover, ao trabalho, à racionalidade e ao controle emocional.
Apoiadas na valorização da racionalidade, aquelas profissões que compreendem as ciências exatas e naturais – como a engenharia, a física, a química, a biologia e a matemática – passam a valer também como ambientes hegemonicamente masculinos e cisgêneros. Tal exatidão pressupõe uma menor subjetividade, enquanto defende a análise de fenômenos aparentemente neutros – sem a presença de emoção, apenas de razão, (o que não se concretiza na realidade).
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Existir pode ser desafiador
Diz muito o fato de uma das personalidades pioneiras na construção de diversas facetas da ciência moderna, Alan Turing, ter tido um fim tão questionável, pelos motivos que narro alguns parágrafos acima. Diz mais ainda a ausência de mulheres e de pessoas LGBTQIAPN+ nessa área, as últimas as quais não são sequer consideradas em dados consolidados.
Seguindo com os dados estatísticos que temos, como divulgado pela pesquisa da Associação Brasileira de Estágios (Abres), cujas fontes partem do Instituto Nacional de Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), Ministério da Educação (MEC), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre outros, em 2023, 59,41% das matrículas no ensino superior eram de mulheres e 40,59% eram de homens (uma vez que a pesquisa não se expande para além desses dois gêneros e segue os preceitos de autoidentificação de cada cidadão, sem se aprofundar nas classificações de cisgeneridade e transexualidade). Entretanto, um estudo da Nexus – empresa de pesquisa e inteligência de dados, que também utilizou fontes do IBGE – revelou que, em cursos de Science Technology Engineering Math (STEM – acrônimo em inglês para ciências, tecnologia, engenharias e matemática), do total de ingressantes, 74% se identificavam como homens e 26% como mulheres; do total de concluintes em 2023, 71% se identificaram como homens e 29% como mulheres. Constatou-se também que, na década analisada – desde 2013 -, o ingresso de mulheres tem caído proporcionalmente, já que era de 30% na época.
Tal ausência não se resume somente a números, pode ser vista na prática. Alice, estudante de Engenharia de Software na Puc Minas, conta sobre sua vivência em sala de aula:
“Na minha sala só tem eu e mais quatro meninas, e a sala tem cinquenta pessoas; todos os professores, exceto a de cálculo, são homens; todas as pessoas que a gente vê no Linkedin, pessoas de referência, geralmente são homens…”

A partir do momento que entendemos que nossas identidades de gênero surgem, justamente, de referenciais, o que acontece quando grande parte das referências disponíveis são homens? Ao posicionar o homem cisgênero, branco e heterossexual como ideal de racionalidade, todas as existências distintas desta são catalogadas como os “outros”. A partir da alteridade, os “outros” não são considerados pertencentes dos lugares masculinizantes – nas áreas de STEM, por exemplo – e enfrentam desafios quando ousam se fazer presentes neles.
Julia, ex-estudante de Física na Universidade Federal de Minas Gerais, relata um pouco de sua experiência anterior à troca de curso:
“É um nicho (a Física) em que claramente mulheres são muito diminuídas em vários contextos, não são tão levadas em consideração, principalmente em matérias laboratoriais, matérias mais práticas, dava para ver que tinham nuances ali… Nas entrelinhas, uma coisa que você percebia é que você tinha que se esforçar um pouco mais que o restante para as coisas fazerem sentido, sabe?”

O esforço para as coisas fazerem sentido é importante e, mais do que isso, necessário para afrouxar os moldes, para existir onde não se foi feito para caber, o que pode levar a uma determinada solidão:
“É um pouco solitário. E, recortando para a questão de ser uma mulher lésbica, além de sentir que sou diferente por ser mulher, eu ainda sinto que sou diferente por ser lésbica… por ser um lugar de maioria masculina (as Engenharias), a gente pode pensar que existem muitas mulheres lésbicas, né? Mas não é assim… É um lugar em que a gente é minoria como qualquer outro… Então, é desafiador.”, afirma Alice.
Lyssandra, técnica em Enfermagem pelo Grau Técnico, comenta sobre sua passagem pela instituição e pelos locais nos quais estagiou:
“Não têm tantas pessoas como eu lá, né? Pessoas LGBTQ’s, principalmente mulheres trans… acho que de todos os estágios que eu fiz, de todos os hospitais que eu trabalhei, nunca me encontrei com uma enfermeira trans, uma técnica de enfermagem trans, acho que sempre fui a única.”

Ao olharmos por um aspecto interseccional, se as mulheres cisgêneras e brancas (como é o caso de Alice e de Julia, que são pessoas LGBTQIAPN+) são consideradas exceções, as pessoas trans e negras são ainda mais excluídas.
“Sou muito desafiada por certos pacientes e, também, por profissionais. O jeito de me olhar, de me tratar, por parte dos profissionais, sempre me discriminando, olhando torto, tratando com soberba, sendo transfóbicos, me diminuindo como pessoa, como mulher… Eu só continuo pela forma com que algumas pessoas me agradecem por ajudá-las, os sorrisos, os obrigados…”, ressalta Lyssandra.
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Representações mais amplas
or mais que, historicamente, as mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ tenham sua presença, atuação e influência dificultadas e apagadas dentro das ciências exatas e naturais, há a esperança de um cenário mais plural. A mudança passa pela representação, ou melhor, pela consciência da possibilidade de existência dentro dessas áreas.
Através das redes sociais, vozes podem ser amplificadas e ouvidas, incluindo as de cientistas que fogem ao padrão de masculinidade. São vivências que reprogramam o imaginário coletivo de quem pode pertencer, somando com suas diferenças e construindo a ciência fora de sua forma hegemônica e limitante.
Se Alan Turing, de fato, afirmou “Eu acredito que às vezes são as pessoas de quem ninguém espera nada que fazem as coisas que ninguém consegue imaginar”, tenho apenas uma coisa a dizer:
- Sim, Turing, você estava certo.
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Abaixo, deixarei algumas referências que inspiram à Alice, à Julia e à Lyssandra. Espero que a força das três também te inspire de alguma forma.
Cientistas negras brasileiras instagram.com/cientistasnegras
Giulia Bordignon instagram.com/spacecoding
Herdeiras da Tradição instagram.com/herdeirasdatradicao
Kananda Eller instagram.com/deusacientista
Laura Gomes instagram.com/kibum.png
Projeto Elas Mais Mais instagram.com/elasmaismais
Projeto Minas Conecta instagram.com/minasconecta.tech
Roberta Duarte x.com/import_robs
Stella Guilhermina Branco instagram.com/stellag.branco
Stephane Werner x.com/stephanevw
* Reportagem produzida no “Laboratório de Comunicação: Jornalismo sobre Ciência e Decolonialidade”, coordenado por Antonio Fausto Jr., Jornalista e Residente pós-doutoral do PPGCOM/UFMG