As amizades na universidade e seu papel fundamental no acolhimento dos estudantes

Por Enzo Beber e Hugo Reis

Família: um grupo de pessoas que partilha ou já partilhou a mesma casa, geralmente, constituindo relações de parentesco, ancestralidade ou de afetividade. Embora esse seja o significado dado para a palavra “família” no dicionário, é fato que, na prática, esse conceito pode ser muito abrangente. Quem não faz parte de uma família tradicional, por exemplo, pode encontrar nas amizades universitárias um espaço de acolhimento tão importante para a transição da adolescência à vida adulta.

 

Amigos Álvaro, Enzo, Hugo, Isabela e Yasmin, estudantes de Jornalismo durante aula de fotografia Foto: acervo pessoal

Na Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, muitos alunos vêm de diferentes realidades e enfrentam, cada qual, suas dificuldades. São nesses momentos em que os laços desenvolvidos na faculdade contribuem como suporte para cursar as matérias em companhia, mas também como forma de acolhimento, referência, validação e conexões futuras. Esses laços se tornam ainda mais importantes para alunos que vêm de fora de Minas Gerais, possuem menos contato presencial com a família e, por isso, necessitam de ainda mais apoio para se adaptar às expectativas e o ritmo do ambiente universitário.

De acordo com dados da Pró-reitoria de Graduação (Prograd) da UFMG de 2022, na UFMG, de 100% dos estudantes da graduação, cerca de 18% são de fora de Minas Gerais. Esses dados evidenciam a necessidade de apoio e acolhimento para estudantes oriundos de outras regiões do país.

Caminhada conjunta

Segundo a psicoterapeuta Júlia Campos Carvalho Rezende, criadora do projeto Entrelinhas, que atende estudantes universitários à distância, as relações de amizade construídas na universidade têm um papel fundamental na transição dos alunos a vida adulta

 “É bastante diferente uma relação presencial, ainda que uma pessoa que se mudou para poder estudar mantenha uma relação frequente com amigos e família da cidade natal, tem uma diferença nos contatos, especialmente porque a faculdade é o começo da vida adulta. Uma nova personalidade está sendo construída. E os amigos da faculdade que estão acompanhando, testemunhando e validando essa evolução”, explica Júlia.

 

Foto: acervo pessoal

Segundo Júlia, amigos do mesmo curso servem como referências positivas que contribuem para elevar sua autoestima, uma vez que jovens universitários oriundos de outras regiões precisam balancear o stress da distância familiar com a necessidade de performance universitária. “As dificuldades em determinadas matérias, se você se isola e não compartilha essas dificuldades com seus amigos que são suas referências positivas, você pode achar que é por sua burrice ou falta de desempenho, e não por ser uma dificuldade geral”, afirma a psicóloga.

De acordo com a psicoterapeuta, são em meios como a atlética que o contato com pessoas, de modo não estritamente profissional, como disciplinas e estágio, que a identidade pode aparecer. Então serve como porta de entrada, também, para formar vínculos e se sentir pertencente. Traçar esse grupo de apoio, principalmente quando sua configuração familiar não te proporciona isso, seja pela distância, ou característica da própria família, é de suma importância para a condição psicológica do indivíduo. 

Conforme o Mapa da Educação Superior do Instituto SEMESP divulgado em 2024, Minas Gerais teve 49,8% de taxa de desistência em redes privadas e públicas, reflexo de diversos fatores. Esses dados indicam a necessidade de acolhimento dos estudantes para que eles permaneçam em ambientes novos e desafiadores e não desistam dos cursos. Para os alunos que ainda não possuem amigos nem suporte familiar, o autocuidado e a terapia podem ser caminhos para a permanência dessas pessoas.

“Para um estudante que não tem laços, a relação terapêutica que a gente chama de transferência é uma relação de amor, não amor no sentido de relação de namoro, mas um laço que pode sim sustentar esse sujeito e fazer com que ele, a partir desse laço, possa criar outros laços com outras pessoas. Então, o vínculo terapêutico é um vínculo e uma relação que pode precipitar outras relações” conclui Júlia.

Do choque inicial ao acolhimento

A mudança de cidade para novos ares pode ser igualmente cativante e assustadora. Entre os percalços, novos amigos e variações culturais, muitos estudantes oriundos de outras regiões podem se sentir deslocados. Um desses alunos é Lucas Meneguetti Moreira Teixeira, estudante de Física da UFMG e ex-morador de Salvador e São José dos Campos. 

“Eu tive um processo de mudança de cidade, foi um choque, tinham muitas coisas diferentes, foi muito difícil“ expõe Meneguetti. Experiências como essa são o retrato de inúmeros estudantes que chegam a Belo Horizonte assustados e cheios de inseguranças sobre o futuro. Para aqueles que demoram a se formar os vínculos universitários, a desistência e o trancamento do curso, mesmo que por um breve período, são pensamentos que circulam pelas mentes dos alunos.

Ao passar alguns semestres sem amizades que o ajudassem a se sentir conectado à sua nova realidade, Meneguetti conta que: “no primeiro momento, nos dois primeiros semestres da faculdade eu pensei em trancar um semestre do curso, para me preparar psicologicamente antes de entrar de cabeça”.

Me senti mais acolhido na cidade depois das amizades”

– Lucas Meneguetti

Mesmo visitando a família durante as férias entre os semestres da UFMG, Lucas somente conseguiu se sentir integrado depois do acolhimento de seus colegas. “Eu senti que só comecei a me adaptar à nova cidade e à faculdade, quando eu comecei a fazer mais amigos na faculdade, dentro do meu curso e fora dele e na atlética”, completa.

Muito além da prática esportiva

Entre diversas alternativas presentes pela universidade para incentivar a permanência e vivência universitária como as festas, estágio e processo de apadrinhamento, a prática esportiva se destaca na formação de laços na faculdade que funcionam como sustentáculo para diversos alunos. Praticada e organizada pelos próprios alunos, o esporte, realizado em uma extensão da Universidade, o CEU, se torna algo fundamental na vida de muitos estudantes.

Antes mesmo de entrarem na Universidade, muitos estudantes já carregam os esportes como parte integrante de suas vidas, seja praticando ou, mesmo, apenas assistindo. Ao saírem de suas cidades, distanciando-se de familiares e amigos, e partirem rumo a um ambiente completamente novo e desconhecido, o esporte acaba por se tornar algo para além de uma simples atividade física.

Jogo entre as atléticas da Fafich e EAD pela Copa União, realizada no CEU Foto: Isabela Giulia

Vitor Pata, estudante do 6° período de Jornalismo na UFMG, é um destes casos. “De início, fui apenas porque é um esporte que jogo há anos e me divirto jogando. Hoje, percebo que esse esporte me proporcionou grandes amizades que ajudaram, e muito na minha adaptação e vida em BH’, destaca o goleiro do time de futsal da Fafich sobre sua entrada na modalidade.

Sei que, com as amizades que fiz aqui, estar lá [em Paranatinga] também seria estar longe de amigos

– Vitor Pata

Natural de Paranatinga, Mato Grosso, o estudante acredita que os esportes e atividades de grupo possuem influência considerável na readaptação. “As pessoas que entraram para esportes, coletivos e outros grupos, tiveram uma adaptação muito mais tranquila do que pessoas que “se isolaram” e tinham a sala de aula como única vivência na universidade”, completa.

Pedro Martins, também estudante de Jornalismo e do 7º período, participa do time de futsal desde que entrou na Universidade e pontua que, graças ao esporte, pôde fazer novas amizades e se “enturmar mais rápido com o pessoal”. Além do gosto e apreço pela prática do futebol, o espaço foi crucial para a formação de novas amizades. “Sem o esporte, teria sido diferente a adaptação. Com certeza. Porque teria variado um pouco essa lógica de formação de amizades”, completa.

Tendo boas relações a pessoa consegue ter uma vida feliz

– Pedro Soares, o “Peu”

“Peu”, como é chamado entre os amigos, nasceu em Marabá, onde sempre morou até sua vinda para a Universidade, e não tinha nenhum conhecido na capital mineira. “A importância dos laços construídos é muito grande. Conheci muitas pessoas importantes para a minha vida”, diz Pedro sobre a importância das amizades e relações construídas em Belo Horizonte, reforçando a importância dos laços nesse processo de adaptação.

Alteridade no percurso universitário

Para entender um pouco melhor as influências de questões relacionadas à distância da cidade natal, entrevistamos o mestrando em Psicologia pela UFMG Gabriel Carvalho. Sua área de pesquisa engloba questões relacionadas à importância das relações sociais no âmbito universitário para estudantes migrantes.

Foto: acervo pessoal

Existe uma influência étnico-socioeconômica que interfere nos fatores de risco e fatores de segurança?

Sim. Você tem atravessamentos de raça, de gênero e de classe nessa situação de migração. Alunos que vêm de condições sociais mais precárias, questões financeiras que pertencem a raças, por exemplo, a negritude, mulheres de modo geral são públicos que tendem a essa travessia, a essa jornada ser mais difícil. O aluno que sai de casa vem pra cá construir uma nova vida e precisa trabalhar para se custear, ele vai ter mais dificuldades. Então, não dá pra dizer que são todos iguais. Por isso a importância de práticas de assistência estudantis como a Fump. Então é fundamental esse amparo para buscar e equilibrar a trajetória formativa de todo mundo para que essas desigualdades de base possam ser equalizadas e essas pessoas que já vem com dificuldade possam encontrar equiparação.

Existe um processo importante de troca cultural entre as perspectivas de diferentes regiões do país que aparece com essas novas amizades? Essa dimensão de troca cultural aparece?

Hegel vai dizer, nesse processo, que é um processo de síntese dialética. O que é a dialética hegeliana? Você tem um ponto de vista, esse ponto de vista se soma ao outro, acontece um processo de síntese, e a síntese vai produzir um novo elemento, um terceiro elemento que é a dialética. Então, provavelmente quem é estudante da UFMG sabe que em uma sala de aula você vai ter pessoas de todas as regiões. E isso, psicologicamente falando, é um baita processo de um enriquecimento existencial, porque é como se o outro nos tirasse das nossas próprias ilhas, dos nossos próprios pontos cegos, o outro nos faz conhecer coisas novas, diferentes, faz a gente aprender a lidar com a alteridade.

No caso de pessoas mais contidas, que já têm o costume de socializar menos, qual o impacto disso quando saem de um ambiente conhecido para um completamente novo? Há uma maior cobrança por parte delas mesmo ou apenas a manutenção deste estilo de vida (e, também, se há impactos dessa manutenção)?

Claro que sim! Características individuais de personalidade (como a timidez, a insegurança, a introversão) influenciam diretamente na capacidade da pessoa de criar relações ou não. Então, pessoas mais tímidas, mais inseguras, têm mais dificuldade de se estabelecer nesse espaço. Pode ser que elas demorem mais tempo até construir uma base da própria casa. E aí, cada profissional vai dizer uma coisa para ajudar quanto a isso. A minha orientação [como psicólogo] é que a psicoterapia é um ótimo lugar para que a pessoa possa se sentir mais livre, porque o que tá em jogo aí, na timidez, na insegurança, é uma restrição de liberdade, é uma perda de autenticidade.

*Reportagem produzida na disciplina de “Laboratório de produção de reportagem” sob a supervisão de Dayane do Carmo Barretos.