Por Cauan Carvalho
Ao falar de moda você pensa no quê? Considera ela algo fútil? Isso não é verdade, pois a moda está em tudo, e comunica pela sua utilização de símbolos e cânones já fixados no imaginário social. Perpassa diversos campos sociais em sua existência, como raça, gênero, religião, entre outro, podendo moldar percepções sociais a partir de sua vestimenta. Então, não, não diria que moda é algo fútil, pois seria uma redução simplória.
Esse pensamento, sobre as barreiras impostas em comum acordo entre a sociedade e seu vestuário, me faz refletir sobre como normas silenciosas definem o que cada um deve vestir, ou deixar de vestir, e em quais contextos isso é considerado aceitável. Essas regras envolvem não apenas o que se usa, mas também quando, onde e como se usa. Elas traçam limites sociais e simbólicos sobre quem pode vestir determinada peça ou cor. Um exemplo claro disso é o uso do roxo, que durante muito tempo foi exclusivo da nobreza, por conta da complexidade e do alto custo de obtenção do pigmento, evidenciando como o vestuário é ligado a construções de status e poder. O vestuário, portanto, não é apenas uma questão de gosto pessoal, mas um reflexo direto das normas sociais que regulam os corpos, os espaços e as identidades.
Esse raciocínio surgiu durante um momento de autoquestionamento provocado por uma situação cotidiana. Para contextualizar: eu estava vendo stories nas redes sociais quando me deparei com o anúncio de um item — um shorts-saia, uma peça tradicionalmente considerada “feminina”. Isso, por si só, não me incomoda; já adquiri outras peças rotuladas como “femininas”, pois não vejo sentido nessas distinções engessadas entre masculino e feminino. No entanto, dessa vez, a situação era mais delicada.
O shorts-saia, diferente de outras peças mais ambíguas, carrega uma estética diretamente associada ao vestuário feminino, tanto pelo fator histórico de mulheres e a associação com vestidos e saias, quanto pela dissociação entre vestuário masculino e peças mais curtas, exceto quando é para a demonstração da tal “virilidade” – aí, tal associação é bem-vinda. Essa consciência despertou em mim um medo genuíno: o que aconteceria se eu usasse essa peça em público? Que tipo de reações eu provocaria em diferentes grupos com meu shorts-saia? Mentalmente, percorri diversos cenários e percebi com clareza que a recepção provavelmente não seria positiva.
Esse exercício mental me causou frustração e estresse. Fiquei inquieto com o quão sufocantes ainda são as normas de gênero que delimitam o que é aceitável vestir, ser ou expressar. E foi justamente essa inquietação que me levou ao insight que deu origem a este texto.

O que aconteceu?
Afinal, como chegamos a esse ponto, em que tecidos e cortes carregam tanta carga simbólica?
“Muita gente acha que roupa de homem e roupa de mulher sempre existiram assim, separadinhas. Mas, se a gente olha para a história, vê que essa divisão é super recente.” diz Isabela Monteiro, que atende pelos pronomes ela/dela e é estudante de Design de Moda na UFMG.
Cursando o 6º período, Isabela é fascinada pela história refletida no vestuário. Aos 22 anos, ela se dedica a entender como a moda acompanha, e muitas vezes desafia, as normas sociais, especialmente no que diz respeito à identidade de gênero.
A moda nem sempre foi tão rígida quanto parece hoje. Até a Idade Média, roupas como túnicas eram comuns a quase todos, e o que as diferenciava era, muitas vezes, o comprimento ou os enfeites, não o gênero. Durante o Império Romano, as vestimentas serviam muito mais para marcar status social do que para separar homens de mulheres. Foi apenas a partir da Europa Gótica que essa divisão entre “roupa de homem” e “roupa de mulher” começou a se estruturar, com os homens adotando calças e calções, enquanto as mulheres seguiam com vestidos e saias.
“A moda não é só estética, ela muda junto com o mundo. Sempre que há uma transformação social, ela se reflete no que as pessoas vestem.”, reflete Isabela.
Essa diferenciação de gênero se fortaleceu ao longo dos séculos, mas sofreu reviravoltas importantes. A Revolução Industrial, por exemplo, democratizou o acesso às roupas ao permitir a produção em massa. Mais tarde, as grandes guerras mundiais tiraram as mulheres do lar e as colocaram no mercado de trabalho, um movimento que exigiu roupas mais práticas e menos ornamentadas. A calça, que antes era símbolo exclusivo do universo masculino, começou a ocupar espaço no guarda-roupa feminino. A moda passou a dialogar diretamente com o comportamento e as transformações sociais.
Nos anos 1960 e 1970, movimentos como o feminismo, o antirracismo e a libertação sexual desafiaram as convenções de gênero e estilo. Surgiram roupas unissex, cabelos naturais, minissaias, jaquetas de couro e uma multiplicidade de formas de expressão, tudo isso rompendo com a ideia de que o vestuário deveria seguir um padrão binário.
“Hoje, a moda é super diversa, mas isso não quer dizer que os julgamentos acabaram. Tem muito preconceito disfarçado por aí.”, alerta Isabela.
Atualmente, vivemos em um momento de hibridismo cultural, impulsionado pela globalização e pelas redes sociais. A moda se tornou ainda mais democrática, acessível e politizada, para ambos os lados, tanto no conservadorismo quanto no progressismo. Assim, ao mesmo tempo, muitos dos antigos preconceitos continuam à espreita, disfarçados de opinião ou “tradição”. E é nesse conflito, entre liberdade estética e julgamento social, que muitas pessoas ainda se veem presas.
Cultura não é trend
O filósofo Moscovici, em seu conceito de representação, fala sobre esse diálogo entre o individual e o social, entre os aspectos subjetivos e objetivos, sendo construído a partir das interações comunitárias englobando processos cognitivos, emoções, interações e construções simbólicas de significado. Um conceito interessante de se pensar na moda é o da comunidade e como isso se dá para além da pessoa, como uma construção coletiva para a expressão de cada grupo.
Moscovici complementa, ainda, ao propor o estranhamento pela falta de compreensão daqueles que não fazem parte da comunidade, gerando, além da estranheza, a discriminação, principalmente na área da estética.
Com base nos relatos coletados para a composição deste texto, foi possível identificar com frequência a experiência descrita por Moscovici, em que a incompreensão diante do diferente resulta em estranhamento e, muitas vezes, em discriminação. Isso se manifesta por meio de piadas, insultos, comentários e conselhos não solicitados, cuja intenção, velada ou explícita, é invalidar a expressão estética de uma pessoa ou de um grupo por não se alinhar a normas e expectativas socialmente estabelecidas. A reação coletiva frente à estética sempre oscilou entre aceitação e rejeição. Houve momentos de maior abertura, em que a valorização da diversidade e da identidade ganhou força, como ocorreu a partir de 2015 com a ascensão de movimentos como o body positive, a valorização dos cabelos crespos e naturais, a crítica aos padrões de beleza eurocentrados e a popularização de estéticas queer e não-binárias. Esses movimentos, muitas vezes rotulados de forma pejorativa como “militância”, contribuíram para reposicionar o corpo como território político e a moda como ferramenta de afirmação.
Por outro lado, também presenciamos o avanço de ondas conservadoras, que reagem a esses avanços com discursos que reafirmam padrões normativos e binários, intensificando o estranhamento frente às expressões dissidentes e tentando reprimir ou deslegitimar manifestações estéticas que fogem ao “aceitável”, reduzindo a uma simplicidade do tipo “Meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, como na declaração feita pela senadora Damares Alves quando Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos na gestão Bolsonaro (2019-2022). Esse movimento pendular entre avanço e recuo revela o quanto a moda e a aparência são territórios em constante disputa simbólica, diretamente atravessados pelos contextos sociais e políticos de cada época.
Atualmente possuímos uma diversidade de comunidades, que utilizam a moda como um meio de expressão, convergindo-se constantemente em vários canais, e como esses encontros (os que não terminam em discriminação) dão frutos uma nova versão fagocitada daquelas comunidades, um movimento inofensivo à primeira vista. Porém, essa ação pode gerar um apagamento, ao assimilar e adaptar somente os elementos considerados positivos a determinado grupo.
Recentemente, uma trend viralizou no TikTok: a “Asoka Makeup”. A proposta era se maquiar inspirando-se na cultura indiana, mas o que se via, na maioria dos vídeos, era uma representação extremamente estereotipada e superficial dessa cultura. Isso me fez pensar em como essas ondas virais, a exemplo do que já vimos em outras tendências como Clean Girl, Mob Wife, Y2K e tantas outras, têm influenciado diretamente tanto no consumo desenfreado quanto na forma como nos relacionamos com o vestuário.
Essas estéticas são rapidamente apropriadas, esvaziadas de contexto e transformadas em produtos. Deturpando a própria cultura de tal povo, essa ação com as relações instantâneas das redes sociais se tornou comum, essa ressignificação superficial efêmera de outro grupo, muitas vezes, exclui fatores através de seu esvaziamento de significados, extirpando a vestimenta de toda a sua história. Uma colonização digital, que busca encaixotar o tudo de alguns em um “aesthetic” momentâneo. Não estou querendo dizer que está proibido utilizar itens de outras comunidades, mas qual a sua intenção com isso, como você utiliza dos signos movidos por esses itens e se você possui o conhecimento por trás daquele item? Essas são as perguntas que devem guiar a sua decisão antes de tudo.
Zona Cinzenta
Muitas vezes, pessoas mais velhas não conseguem decifrar só de olhar quais pronomes usar comigo, acho engraçado, pois me sinto uma incógnita. Talvez essa incompreensão que causo venha do fato de ignorar um padrão cisnormativo, deixando tais pessoas sem um referencial comparativo. Uma zona cinzenta, portanto, nesse binarismo imposto.
A forma como uma pessoa se veste pode refletir sua identidade de gênero, mesmo que isso vá contra as expectativas da sociedade. Nesse sentido, a roupa se torna uma ferramenta importante para afirmar quem se é, ajudando a desconstruir estereótipos e a tornar visível essa identidade por meio da aparência.
“Sim, não só no reconhecimento de gênero, mas sinto que até para autodefesa da transfobia, as pessoas enxergam a expressão através da roupa também, isso meio que vira um arsenal para você utilizar em situações de constrangimento, a separação de gênero às vezes se dá pelas roupas, cabelo e afins, então sinto que me vestir de certa forma, não só me fez feliz, mas também reduziu bastante os ataques e violências cotidianas.”, conta Fernanda, mulher trans que atende pelos pronomes ela/dela e é estudante de Design de Moda na UFMG.
Falo exclusivamente sobre como a moda é uma ferramenta importante durante a transição de gênero, reafirmando o seu papel na expressão de identidade. Por que as pessoas se vestem da maneira como se vestem? Como a roupa contribui para a identidade de uma pessoa como homem ou mulher, como profissional de colarinho branco ou trabalhador? Como é que a vestimenta deixou de denotar classe social para indicar estilo de vida?
“Sendo uma mulher trans e preta, vejo o vestuário não só como forma de identificação, mas como um lembrete visual de que nossa cultura e tradições estão vivas e presentes.”, complementa Fernanda.
O acúmulo de significados que se projeta sobre a vestimenta torna-se ainda mais evidente em comunidades historicamente marginalizadas, onde a expressão estética transcende o gosto ou a tendência, torna-se um ato de resistência. Nesses contextos, o vestir não apenas comunica, mas prolonga a existência daquela pessoa, conectando-a à sua trajetória, às memórias coletivas e à identidade de seu grupo social.
A apropriação de elementos do cânone conservador em contextos progressistas revela uma ação poderosa e transformadora. Mostra como estruturas tradicionalmente rígidas podem ser ressignificadas de forma revolucionária. Como disse Clarice Lispector: “Não basta existir, é preciso pertencer”, e essa luta por pertencimento é contínua e exaustiva, pois basta um descuido para que nossa existência seja colocada em dúvida ou invalidação. Nesse contexto, usar um short-saia deixa de ser apenas uma escolha estética; torna-se um gesto político, uma provocação direta às normas que nos moldam desde sempre. No fim das contas, o que está em disputa não é apenas a roupa — é o direito de existir, de se afirmar e de se expressar plenamente, sem medo.