Da identificação genuína aos negócios lucrativos, entenda como as fan accounts se tornaram as grandes estrategistas por trás do Big Brother Brasil.

Por Isabella Ludwig e Julia Henrique

O ano era 2020. Com a pandemia, os participantes da vigésima edição do Big Brother Brasil não eram os únicos confinados. O Brasil inteiro parou para acompanhar o que veio a se tornar uma temporada histórica dos realities – com o perdão da hipérbole, dados do Painel Nacional de Televisão (PNT) revelam que cerca de 165 milhões de telespectadores acompanharam a edição. Mas o que se tornou recorde não foi apenas a audiência acumulada durante a temporada, e sim um momento específico do programa: o décimo paredão, disputado entre os participantes Manu Gavassi e Felipe Prior. A casa estava dividida, as torcidas também. E o resultado foi de mais de um bilhão e meio de votos, ganhando o título do Guinness World Records para maior votação pública televisiva já ocorrida. E o que explica números tão expressivos? A resposta pode muito bem estar por trás das câmeras.

Certificado do Guinness World Records para o BBB20 (Reprodução/Rede Globo)

Isso porque, até a edição de 2023, as votações do reality se davam apenas pelo voto da torcida, que eram ilimitados. No caso do BBB20, a quantidade avassaladora de votos foi resultado da mobilização de duas torcidas opostas e muito engajadas. E o impacto das torcidas não se limitou ao ano da pandemia, uma vez que as regras do programa tiveram que ser alteradas duas vezes, nos anos de 2023 e 2026, para evitar a utilização de bots – programas de automação que realizavam dezenas de votos por minuto de maneira automática e independente – e garantir votações mais justas e controladas. Após o fim do BBB23, o Gshow publicou uma reportagem anunciando uma nova formulação no sistema de votação, a divisão entre votos únicos por CPF e os votos de torcida (ilimitados). 

Mesmo que a emissora possuísse um maior controle sobre a quantidade real de pessoas votantes com esse novo sistema, as categorias possuírem o mesmo peso foi o grande motivo por trás da falha em conter os votos em massa das torcidas e a disparidade das porcentagens entre os participantes. A edição de 2024, por exemplo, ficou marcada por grandes diferenças no número de votos. Segundo dados disponibilizados pelo Gshow, dos 21 paredões ao longo da edição, 14 possuíam diferenças discrepantes entre os participantes. O 14º paredão do BBB24, disputado por Matteus, Leidy Elin, Davi (vencedor do programa naquele ano) e o cantor MC Bin Laden, talvez tenha sido um dos mais chocantes: enquanto Leidy foi eliminada com 88,33% dos votos, Davi recebeu 6,76%, Bin 3,84% e Matteus com apenas 1,07%.

Davi, Leidy Elin, Matteus e MC Bin Laden formando o 14º paredão do BBB24. Leidy Elin é eliminada com 88,33% (Reprodução/ Globo)

Por conta destas situações recorrentes, a Globo precisou reformular novamente o sistema de votação e, em 2026, a emissora divulgou – ao vivo e no Gshow – uma nova regra: a partir dessa edição o voto único passa a ter peso de 70% nas decisões do programa, enquanto o voto das torcidas torna-se coadjuvante, com peso de 30% na competição.

As regras mudam, a força do público não

Essa mudança reflete uma tentativa de equilibrar o jogo, mas não anula a força do público; pelo contrário, faz com que o papel das torcidas ganhe novos contornos nesse mundo cada vez mais mediado pelo digital. A mobilização dos votos é apenas uma parte do ecossistema dos fandoms, que contam com novos atores que constroem a narrativa do programa e seus participantes para além da casa mais vigiada do Brasil. Segundo Aline Margotti, doutoranda em comunicação pela UFMG e especialista em marketing digital e transmídia: “ [...] as redes ajudam a construir a imagem dos participantes: cortes de vídeos, memes e comentários destacam certos comportamentos e influenciam como o público enxerga cada um, podendo moldar percepções e impactar as escolhas.” 

Para além da construção de imagem mencionada por Margotti, essa organização dos fandoms adquire formas estratégicas em plataformas como o X (antigo Twitter), onde a instantaneidade dita o ritmo do jogo. Como observa a pesquisadora Gabriela Habckost, a dinâmica dos fãs estabelece uma "segunda tela" essencial, na qual as fan accounts, contas de fãs, atuam na vigilância constante e na defesa de seus favoritos, organizando mutirões de votação capazes de alterar o destino do programa. Essa estrutura evidencia uma articulação complexa que valida a participação do público como um elemento de poder real, consolidando favoritismos ou decretando eliminações antes mesmo do encerramento da edição ao vivo. Nesse contexto, as fan accounts se tornam tão importantes para o jogo do BBB quanto o que acontece dentro da casa.

A paixão por trás das telas

Se no contexto midiatizado os participantes investem em equipes profissionais para controlar suas redes sociais e sua imagem durante os três meses de confinamento, as fan accounts trabalham em outra dinâmica: a do conteúdo orgânico. Para Margotti, “a lógica do fandom supera as limitações da obra original e expande ativamente seu universo. Ao adicionar os seus próprios repertórios à história, os fãs operam uma semiose que amplia infinitamente as fronteiras dos universos narrativos”. No geral administradas por anônimos como nós e você, as contas operam com variados níveis de profissionalismo. O que não significa necessariamente menos impacto. 

Por trás da conta @acessotiamilena, perfil oficial dos fãs da participante do BBB 26 Milena Moreira, com mais de 100 mil seguidores, há uma pessoa só. O número de seguidores quase dobrou desde nossa entrevista, menos de um mês atrás. O Adm (como são chamados os administradores das contas) nunca havia criado uma conta de fã, e quando nós o questionamos sobre isso, a resposta foi que ele e a participante compartilhavam trajetórias de falta de oportunidades, invisibilidade e rejeição. É natural querermos ver vencer alguém que nos represente, partilhar a vitória. É de uma motivação aparentemente simples – a identificação com alguém – que a conta nasce, e em um movimento genuíno (mesmo que amador) que ela conquista um público.

VT de homenagem à Tia Milena, destacando a luta e a força da participante. (Reprodução/@acessotiamilena)

O Adm revela não ter uma rotina específica, e nem atuação profissional nas postagens. Mesmo assim, o engajamento é alto, com vídeos cujo número de visualizações alcança a casa dos milhões. Isso porque a atuação dessas contas vai muito além da simples postagem. Trata-se de uma comunidade com vocabulário e memes próprios, que servem como ferramentas de engajamento e construção narrativa. Segundo as pós-graduandas Luiza Stefano e Soraya Vieira, autoras do artigo “Práticas de Consumo dos Fãs de Big Brother Brasil e a Cultura de Memes”, o consumo do BBB nas redes sociais é marcado por uma apropriação lúdica, onde o meme funciona como uma linguagem que traduz os acontecimentos da casa para o universo digital.

Essa linguagem lúdica, no entanto, não é aleatória, mas o combustível para uma estrutura de suporte que atravessa diferentes edições e perfis. É a mesma lógica de transformar o afeto em engajamento estratégico que também é compartilhado por Fau Santos, administrador do perfil @cactosmaranhenses. O internauta descreve a atividade como um "hobby sem interesse financeiro", motivado pela humildade da ex-BBB Juliette Freire e pelo desejo de compartilhar momentos da sua vida como forma de agradecimento. O interesse permaneceu mesmo após o fim do programa: hoje, quase 5 anos depois do BBB21 (do qual Juliette foi a vencedora), o perfil ainda é ativo com postagens do dia a dia da ex-participante, e faz parte da comunidade de fãs do Acesso Juliette, o perfil oficial desse fandom.

Feed Cactos Maranhenses, acompanhando o dia a dia de Juliette após o programa (Reprodução/@cactosmaranhenses)

Mesmo operando de forma amadora, esses administradores estabelecem rotinas de monitoramento constante e articulação mútua, confirmando a eficácia dessas redes na transformação do carinho dos fãs em um movimento que ultrapassa o individual. É o empenho dos Adms por trás de cada conta que vai, pouco a pouco, alcançando os fãs mais casuais, em uma sinergia de torcida que, sob as condições certas, pode chegar aos números expressivos de 2020.

Os lucros por trás das telas

Mas nem todas as contas seguem o mesmo padrão. Conversamos com um Adm que pediu sigilo quanto à sua identidade e à identidade de sua conta, mas que se dispôs a revelar um outro lado desse negócio: o financeiro. Seu perfil, com quase 100 mil seguidores, emplaca uma média de duzentos comentários por post, de pessoas interessadas em consumir as marcas que aparecem na conta. Com esse tipo de visibilidade, as parcerias pagas são praticamente inevitáveis. “Eu consegui fazer uma grana muito boa com links afiliados, cupons. E as lojas também têm uma interação surreal. Uma delas me mostrou o faturamento de um dos meses: era um número milionário"  ele conta. 

A Rede Globo, emissora responsável pelo programa e pelos direitos de imagem dos participantes durante a edição, não demonstrou uma postura favorável às atividades do perfil: “Essa semana recebi uma notificação da Globo me pedindo para retirar as publicações.” O Adm relatou “Querendo ou não é a imagem da Globo associada à venda, e eu já esperava que fosse acontecer em algum momento". O trabalho de fã deve continuar, mas dessa vez, fora do perfil – e de forma mais casual.

O Big Brother Brasil deixou de ser apenas um programa de TV para se tornar um vasto ecossistema digital, onde a paixão dos fãs e o mercado de influência caminham lado a lado. Ao mesmo tempo em que perfis de fãs alcançam grandes faturamentos e desafiam limites comerciais, o que realmente mantém essa engrenagem pulsando é a busca por conexão e representatividade. Seja na identificação com a trajetória de uma participante como Milena Moreira ou na lealdade duradoura dos "cactos" de Juliette Freire, o público prova que cada voto e cada meme são formas de validar histórias de vida. 

Independentemente das novas regras, o jogo fora da casa continua a ser movido por esse afeto transformado em estratégia. Até porque, enquanto a emissora tenta equilibrar os números, os fandoms garantem que a vitória no reality seja, acima de tudo, um sentimento compartilhado.

Edição Vinicius Henrique Granussi


* Reportagem produzida na disciplina "Laboratório de Produção de Reportagem", sob supervisão de Elton Antunes