Aberto de terça a domingo, CEU/UFMG ainda carece de estrutura para receber estudantes com mobilidade reduzida

Por Ana Júlia Corrêa, Ana Luiza Nunes e Isabella Neres

Há mais de 50 anos, o Centro Esportivo Universitário, mais conhecido como CEU, é um espaço de lazer e esportes da Universidade Federal de Minas Gerais voltado para alunos, docentes e servidores técnico-administrativos, assim como seus familiares. Segundo o site da própria instituição, o CEU está inserido no âmbito da política de permanência na UFMG “devido ao reconhecimento do esporte e do lazer como direitos fundamentais dos estudantes”. Porém, essa premissa parece não se concretizar no dia a dia de uma parcela da comunidade universitária, a das pessoas com mobilidade reduzida.

Placa na entrada do CEU/UFMG. Foto: Ana Júlia Corrêa

Como explica a professora Ana Cláudia Porfírio Couto, diretora do Centro Universitário, quando o clube foi projetado, em 1971, a questão do acesso, seja para pessoas com deficiência seja para pessoas com mobilidade reduzida e idosos, não foi uma das preocupações. O local foi construído em um terreno íngreme, com escadas inclinadas ligando os diferentes níveis, além de possuir banheiros estreitos, o que atrapalha que todas as pessoas possam usufruir totalmente do espaço.

Acesso por escada aos espaços do Centro Universitário. Foto: Ana Luiza Nunes 

Os servidores que trabalham no local também percebem essa carência de estrutura, e relatam observar dificuldades e constrangimentos de estudantes com deficiência que vão ao clube. Pela falta de adaptações nos equipamentos, não há orientações específicas sobre como lidar com esses visitantes. O que resta é a boa vontade em ajudá-los, o que também nem sempre é possível, já que muitos funcionários, como seguranças, dificilmente podem se ausentar de seus postos. Com essa situação, os servidores afirmam que a presença de pessoas com deficiência é pouca, e os que vão dificilmente voltam. 

É o caso da estudante de Letras Maria Victoria Menezes, de 19 anos, que usa cadeira de rodas para se locomover. Ela relata que foi ao CEU uma vez e não teve uma boa experiência por conta da falta de acessibilidade. “Chegando lá eu percebi que não tinha um banheiro acessível. Não tem uma cabine que eu possa usar, a cadeira não entra. Então, eu tive que descer da minha cadeira, ir para o chão e passar para a cabine”, disse a estudante.

Rampas na entrada dos vestiários principais. Foto: Ana Luiza Nunes

 

Banheiros do vestiário feminino. Foto: Ana Luiza Nunes

A dificuldade já começa na entrada principal do CEU, que fica na Avenida Coronel Oscar Paschoal, onde só é possível descer por uma escada. Segundo a diretora Ana Cláudia, a alternativa para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida é a chegada por portões na rua ao lado, na quadra de tênis ou no acesso de ambulâncias. Existe também uma vaga exclusiva para que veículos deixem essas pessoas dentro do clube. 

“Eles abriram. Fui até lá com o carro do NAI [Núcleo de Acessibilidade e Inclusão da UFMG] e me deixaram lá”, contou Maria Victoria. Desde 2019, o NAI oferece um carro adaptado no campus Pampulha para transportar exclusivamente pessoas com dificuldade de se locomover entre os prédios da universidade. “Mas é um só. Uma demanda enorme. Então…”, explicou a estudante.

Mas mesmo conseguindo entrar no clube, Maria não pode aproveitar as quadras e a piscina, uma vez que não há muitas rampas ligando esses espaços e as que estão disponíveis não são muito funcionais. “Eu só cheguei perto daquele comércio que tem ali. Não consegui ir perto das arquibancadas porque lá tem duas rampas que dão para uma escada. Então, ou era ficar ali, ou era ficar ali. E a piscina também não consegui ficar perto”, contou.

Ao ser questionada sobre o que teria feito a diferença na sua experiência no CEU, Maria pontua: “o que mais me frustrou foi o banheiro, porque as outras partes a gente pode conseguir dar um jeito. Mas é claro que poderia, né? Ter uma rampinha aqui e ali, uns acessos mais fáceis para chegar até lá, sem tanta dificuldade”. Ela também afirma que, com certeza, frequentaria mais o espaço para lazer, se as questões de acessibilidade fossem melhor trabalhadas. “É um lugar bom para a gente passar um tempo, né? Fui lá atrás disso e acabei me frustrando”.

Sobre as possibilidades de adaptação do espaço, a diretoria do CEU afirma que um projeto de ampliação da acessibilidade está “em rota”, e começa pela reforma da piscina olímpica. A professora Ana Cláudia explica que uma cadeira elevatória, de uso exclusivo de pessoas com deficiência, já foi comprada pela instituição e aguarda para ser instalada na nova piscina. As obras de remodelação do espaço foram iniciadas em novembro de 2024, o planejamento passa por alterações em razão do período de chuvas, mas a direção garante que serão concluídas.

Em relação à transformação de outros espaços em locais mais acessíveis, Ana Cláudia relata que há uma série de normas técnicas, como a angulação do terreno, que dificultam a construção de acessos seguros, mas que já são estudadas para que essas adaptações saiam do papel. O planejamento envolveria desde o acesso à calçada que circunda o clube até o vestiário com espaços individuais maiores, e já foi discutido com a reitoria da UFMG e com o NAI. “O projeto existe e o dinheiro para executar também”, declarou a professora. A previsão é que essas adaptações também sejam entregues com a obra da piscina. 

Obras na piscina olímpica do CEU/UFMG. Foto: Gabriela Fagundes/Reprodução