Comportamentos em estádios e fandoms revelam como gênero e cultura moldam o que é visto como “paixão legítima” no Brasil

Por Davi Marinho, Felipe Veras, Laura Parreira e Vítor Martins

No Brasil, a cultura de fãs move paixões que atravessam estádios e playlists. Seja pelo gol do time do coração ou pelo lançamento de um novo álbum de uma diva pop global, a idolatria aparece com a mesma intensidade, apesar de nem sempre receber o mesmo reconhecimento social. Enquanto o torcedor de futebol fanático é celebrado como símbolo da paixão nacional, o fã de música pop enfrenta olhares de desdém, sendo frequentemente rotulado como infantil ou fútil.

Leandro Lima, professor adjunto do departamento de Comunicação da UFMG, explica que as diferenças entre “torcedor” e “fã” são, na verdade, construções culturais. “Os comportamentos são praticamente os mesmos. O que muda é a forma como a sociedade lê cada um”, diz. Segundo ele, o torcedor é um tipo específico de fã: ambos expressam devoção, pertencimento e emoção intensa, mas apenas um é socialmente legitimado. “O torcedor é visto como apaixonado. Já o fã, especialmente quando é mulher, é chamado de histérico”, relata.

Essas percepções aparecem nas falas de quem vive os dois universos. Esther Christine, fã declarada da cantora Taylor Swift e torcedora do Cruzeiro, observa que “o fanatismo por futebol é aceito, mas o fanatismo por divas pop é ridicularizado”. Para ela, a desigualdade está diretamente ligada às questões de gênero. “Gostos masculinos são validados; os femininos, vistos como perda de tempo”.

Torcedores cruzeirenses emocionados com a volta do clube à primeira divisão. Fonte: Alexandre Guzanshe/EM/DAPress

Essa visão é compartilhada por Sofia Basílio, que se identifica mais com a cultura pop. “Fãs de futebol ridicularizam fãs de pop, e os fãs de pop acham os de futebol fúteis. É como se o futebol representasse algo másculo e superior, enquanto o pop fosse diminuído por se associar às mulheres e à comunidade LGBTQIAPN+”, afirma.

Taylor Swift protagoniza momento especial ao abraçar uma fã mirim durante show. Fonte: Reprodução Instagram/ Conta oficial de Taylor Swift 

Paixão e preconceito

A estudante Maria Luiza, torcedora do Real Madrid e fã da Taylor Swift, diz que a emoção é a mesma em ambos os contextos. “Quero que o Real Madrid ganhe títulos e que a Taylor ganhe prêmios. A euforia é igual quando o time anuncia um craque ou quando uma diva lança uma música”. No entanto, ela nota que a leitura social é bem distinta. “Ser fiel a um clube é sinal de lealdade e masculinidade honrosa. Já uma mulher fã de diva pop é vista como infantil, com prazo de validade para ir a shows e gritar feito louca”.

Para Leandro, essa distinção é herança direta do patriarcado, que há séculos associa o entusiasmo feminino à irracionalidade. “Historicamente, o fanatismo foi tratado como doença. O comportamento apaixonado passou a ser visto como coisa de mulher, e, portanto, menor”, explica. “Enquanto o homem que grita no estádio é considerado viril, a mulher que chora num show é considerada fraca. O problema não está na intensidade da paixão, mas em quem a manifesta”, completou o professor. 

O professor aponta ainda que, mesmo com as tentativas de diferenciação, as lógicas de pertencimento e identidade são idênticas: “ser fã é parte de uma construção identitária. É sobre se reconhecer e pertencer a um grupo. O torcedor e o fã de diva pop vivem isso de forma muito parecida”. Para ele, camisas de time e camisetas de turnê, bandeirões e posters, tatuagens e colecionismo são expressões de afeto e vínculo simbólico. “Ambos literalmente vestem a camisa do que amam”.

Torcida do Atlético Mineiro junto com o mascote do clube. Fonte: Flickr/Atlético

A idolatria, para Leandro, também é praticamente a mesma, mas aponta: “O fã de futebol é até mais permissivo. Se o jogador comete um erro, mas marca três gols no jogo seguinte, ele é perdoado. Já no pop, o cancelamento é mais severo” .

O professor destaca ainda que para ambos os casos existe dedicação, tanto financeira quanto emocional. “É a mesma entrega. A diferença é que o torcedor tem autorização social para sentir, e o fã pop precisa se justificar”. As próprias mulheres percebem esse desequilíbrio. “Homens adultos fanáticos por um time são vistos como apaixonados, enquanto mulheres adultas fãs de cantoras pop são vistas como imaturas”, resume Esther.

Fandoms como refúgio e arquibancadas como fronteira

Se para muitos a arquibancada ainda é um espaço de preconceito e masculinidade tóxica, os fandoms de divas pop acabam surgindo como um refúgio identitário. Esther, que se identifica como parte da comunidade LGBTQIAPN+, relata: “esses espaços são acolhedores. São formados por pessoas que também sofreram preconceitos”. Maria Luiza pensa parecido: “os fandoms são mais receptivos porque reúnem minorias. Já o futebol ainda é conservador, excludente e segregador”.

Fã viaja por 72 horas para ver a cantora Beyoncé. Fonte: Reprodução/Instagram

Leandro Lima reconhece que essa diferença é real, embora não absoluta. “Os fandoms pop tendem a ser mais abertos à diversidade, mas também podem ser hostis a quem pensa diferente. Mesmo assim, ainda acolhem mais do que o futebol, que carrega práticas racistas e homofóbicas enraizadas nas arquibancadas”, explica.

O professor cita exemplos recentes de canais esportivos que vêm tentando barrar comportamentos tóxicos. “Tem gente do meio do futebol que tenta mudar esse cenário, como quando canais banem comentários misóginos ou homofóbicos em transmissões. É um movimento de abertura, mesmo que ainda tímido”.

Torcida cruzeirense aos arredores do estádio Independência para jogo da equipe feminina. Fonte: Divulgação/Instagram Cruzeiro Feminino 

Internet e rivalidades digitais

Nos dois universos, essa disputa por reconhecimento e pertencimento vai muito além do comportamento dos fãs. Ela também se estende aos espaços em que essas paixões se manifestam. Se antes a arquibancada e o fandom eram ambientes separados, hoje as fronteiras entre eles são mais porosas. A internet ampliou a convivência entre os mais diversos grupos e, com ela, criou novas dimensões de embates e rivalidades.

De acordo com estudo desenvolvido pelo Kantar IBOPE em 2022, cerca de 68% dos internautas brasileiros a partir de 18 anos se consideram fãs de futebol. Já segundo o relatório Cultura e Arte no Brasil – Hábitos e Comportamentos dos Brasileiros, elaborado pelo Opinion Box em 2025, quatro em cada dez brasileiros se declaram fãs de cultura pop. Muitos deles certamente vivem o ambiente digital diariamente.

O que antes era vivido em lugares separados passou a se cruzar diariamente. Hoje, torcedores e fãs compartilham o mesmo espaço, onde as identidades se misturam e acabam se confrontando.“Antes, o fã de Star Trek dos anos 1970 nunca encontrava o hooligan inglês no mesmo espaço. Agora, todos convivem na internet, e isso gera atritos”, diz Leandro. 

Ele acredita que a visibilidade aumentou, mas também a agressividade. “A internet dá uma falsa sensação de liberdade e impunidade. É mais fácil ser violento online do que pessoalmente”. Segundo o professor, parte das rivalidades atuais é alimentada por disputas simbólicas de pertencimento. “Muitas vezes, não é ódio real, é tentativa de provar que o meu grupo é mais intenso, mais fiel. É uma competição afetiva”.

Internautas debatem nas redes sociais a suposta tensão entre fãs de Taylor Swift e Charli XCX. A discussão começou após uma postagem de Charli ser interpretada como referência à cantora norte-americana, o que reacendeu disputas entre fandoms. Fonte: Reprodução/ X

* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes