Gênero se reinventa entre nostalgia, bandas covers e a busca por espaço para o autoral
Por Giulia Moreira e Pedro Henrique Santana

As luzes baixas, o som alto e as paredes cobertas por referências que atravessam décadas ajudam a contar uma história que vai além do palco. Bares dedicados ao rock em Belo Horizonte seguem como pontos de encontro de uma cena que resiste e se transforma. Entre clássicos do repertório e novas apostas autorais, esses espaços revelam um movimento que está longe de desaparecer, mesmo diante da ideia recorrente de que o gênero teria perdido força.
Durante anos, BH carregou o título de capital brasileira do heavy metal, um rótulo construído no peso da guitarra e na força de uma cena underground que ganhou o mundo. Hoje, porém, o que se vê não é exatamente um silêncio, mas uma mudança de frequência. O rock na cidade não morreu; ele se reorganizou. E é nos palcos improvisados dos bares, nas noites irregulares e no encontro entre diferentes gerações, que essa nova fase começa a tomar forma.
Retomando, de certa maneira, a dinâmica das décadas de 1980 e 1990, quando os bares e shows funcionavam como ponto de encontro e vitrine para músicos em busca de espaço. Belo Horizonte se consolidava como um circuito cultural ativo, com diversos espaços para apresentações e uma cena fortemente marcada pela autonomia dos próprios artistas, que organizavam eventos, festivais e ocupavam os palcos disponíveis. Com poucos recursos para gravação e circulação de músicas, o palco se tornava o principal meio de divulgação e também de descoberta.
Eventos como o BH Rock Independente Fest, realizado em 1994, simbolizavam esse momento, ao mesmo tempo em que a Lei Municipal de Incentivo à Cultura ampliava as possibilidades de produção. Ainda assim, a realidade exigia, como hoje, improviso: além das dificuldades de acesso a estúdios e distribuição, a própria qualidade dos equipamentos nas casas de show poderiam impactar diretamente a apresentação das bandas.
Ainda que distante do protagonismo vivido em outras décadas, o rock em Belo Horizonte continua pulsando em diferentes pontos da cidade, sustentado por casas, músicos e públicos que mantêm a cena em circulação.
“Eu sinto que o mercado musical passou a ser mais importante que a música’’, resume Alfredo Malagoli, baterista da banda WitchHammer. Acredito que estamos em uma fase de transição, e espero que o renascimento traga o devido reconhecimento a quem trabalha para manter a nossa cultura viva e eterna, acrescenta.
É nesse cenário que os bares e pubs se tornam peças centrais, não só como palco, mas como ponto de encontro entre quem toca e quem escuta. Se antes os principais redutos se concentravam nas regiões centrais e bairros como Savassi e Prado, hoje novas áreas, como Nordeste e Noroeste, começam a atrair público e redesenhar o mapa do rock em BH.

Número de bares por região em Belo Horizonte / Montagem: Arquivo Pessoal
Mas o acesso a esses locais mais afastados do coração da cidade, pode impactar a frequência do público, exigindo que esses espaços se destaquem pela qualidade das atrações. O Jeremias Bar, localizado na região Nordeste, aposta em uma atmosfera mais intimista: um espaço pequeno, de decoração rústica e com luzes baixas, que remete aos tradicionais redutos do rock. A programação reúne bandas como Disco Velho, dedicada ao repertório nacional e internacional, Banda Jeremy, tributo ao Pearl Jam, Banda Brazuza tributo ao Cazuza, In Utero cover de Nirvana e a Banda Rock Roberto tributo ao Roberto Carlos. Ainda assim, a casa enfrenta obstáculos para atrair novos frequentadores, já que com o aumento de bares, restaurantes, feiras e eventos voltados ao gênero, o Jeremias também passou a enfrentar uma concorrência crescente.
Segundo Mari, uma das administradoras do local, o cenário mudou nos últimos anos: bandas que antes lotavam a casa hoje se apresentam em diferentes espaços da cidade, o que dificulta o destaque é a atração do público. Fora da região central o desafio se torna ainda maior. “Diariamente temos que provar que, mesmo estando no São Gabriel, temos qualidade tanto quanto qualquer outra casa”, afirma. Diante dessa disputa, o bar precisou ir além e apostar em diversos tipos de atrações para conseguir se manter.
Em outro ponto da cidade, no bairro Dom Cabral, o Underground Black Pub enfrenta um desafio diferente: fazer com que a noite não termine quando o público vai embora.
Com uma combinação que envolve programação musical, decoração inspirada no rock raiz e dois palcos, a casa aposta na experiência para criar conexão com os frequentadores. Segundo Marques, produtor do pub, são esses detalhes que ajudam o espaço a continuar vivo na rotina do público. A programação é organizada procurando segmentar os eventos por estilo de rock (grunge, heavy metal, hard rock, anos 80, anos 90, 2000, emo) como forma de alcançar mais audiência.
Para uma plateia cada vez mais circulante, a escolha de quem sobe ao palco deixa de ser apenas artística e passa a ser uma estratégia de fidelização…
Entre covers, nostalgia e resistência
Sustentadas pela nostalgia e pela segurança, essas bandas se consolidaram como uma das apostas mais rentáveis da cena, se tornado parte central da engrenagem que mantém muitos bares e casas de show funcionando. Para acompanhar um público cada vez mais circulante, muitas dessas bandas transitam entre diferentes artistas, épocas e estilos, adaptando repertórios para manter a programação em movimento.
No fim, a escolha de quem sobe ao palco acaba expondo as tensões que atravessam a cena. É nesse ponto que a curadoria revela um conflito antigo: covers tocam o que já é conhecido, garantindo retorno imediato, enquanto artistas autorais tentam encontrar e conquistar espaço e visibilidade. Para Suellen de Ávila, vocalista da banda Harley Queen, a convivência entre os dois formatos ainda acontece de maneira desigual dentro da cena: “Cena autoral são poucos lugares aqui que realmente abrem espaço para bandas. Eu acho que ainda não sei se tá perto de mudar essa realidade. Mas, pelo que eu vejo, essas coisas não coexistem.”
A segurança de ouvir o que já é familiar, somado à nostalgia, faz com que o público, especialmente o mais velho, prefira o clássico em vez de apostar no novo. Para Nísio Teixeira, pesquisador da cena cultural em BH, essa preferência impacta a música autoral de diferentes formas: o retorno financeiro mais previsível para donos de casas de show cria um cenário de “overdose de bandas cover'’ disputando o mesmo espaço, deixando poucos lugares para artistas autorais.
Diante dessa demanda, músicos passam a integrar múltiplas bandas para garantir sua subsistência financeira, o que pode desviar o foco da criação autoral, que exige tempo e autonomia nem sempre disponíveis,"E por outro lado, talvez essa demanda de ter várias bandas cover de de repente, possa fazer com que eventualmente um músico que é um excepcional guitarrista ou baixista, ele possa estar em várias bandas ao mesmo tempo e com isso resolver seu problema financeiro.", sustenta o pesquisador.
Como possível alternativa, Nìsio Teixeira sugere um modelo “bicameral’’, em que bandas cover garantiriam a estabilidade financeira das casas, abrindo margem para a experimentação com projetos autorais: ”Poderia ser interessante para uma casa de show abrir um dia para esse espaço independente, uma vez que ela se garante por esse cenário mais cover.”, aponta.

Underground Black Pub, Dom Cabral, Belo Horizonte / Foto: Arquivo Pessoal
Ainda que ocupem boa parte da programação, nem mesmo as bandas covers escapam das pressões do cenário atual. Segundo a banda Honey Bomb, a concorrência ampliada exige adaptações constantes para manter o público interessado. Entre esses desafios está a necessidade de restringir o repertório para dialogar com um público mais específico, o que limita a inclusão de músicas que a própria banda gostaria de tocar e acaba direcionando o trabalho para um caminho mais comercial. “Há, por exemplo, 20 anos, você tinha que comprar o CD de um álbum e escutar ele todo. Não tinha tanto internet livre assim. Então eu acho que por conta dessa tecnologia, a gente tem acesso muito fácil ao que já é conhecido.’’
Anne Spoiler, baixista da banda, explica que diante desse comportamento algumas músicas precisam ser cortadas ou ter sua duração reduzida, já que o público tende a se desinteressar por faixas mais longas ou menos conhecidas. Para elas, o desafio está justamente nesse “jogo de cintura": equilibrar músicas mais comerciais e “farofas" sem perder a própria identidade.
O esforço para manter a cena viva
Em uma cena acostumada a se reinventar, a relação com o poder público também tem sido marcada por avanços e retrocessos. Entre dificuldades para construir diálogo e reconhecimento, o rock em BH segue tentando afirmar seu espaço também no campo institucional. Uma das iniciativas mais recentes foi a promulgação do Dia do Heavy Metal em Minas Gerais, oficializada em 2026 e celebrado oficialmente no dia 1° de novembro, em um gesto simbólico que reconhece e celebra as bandas do gênero.
“O dia do Heavy Metal foi oficialmente instituído, isso mostra a força que temos. Acredito que estamos em uma fase de transição, e espero que o renascimento traga o devido reconhecimento a quem trabalha para manter a nossa cultura viva e eterna” destaca Alfredo Malagoli, baterista da banda WitchHammer.
Além disso, a cidade conta com seus próprios editais das Leis de Incentivo à Cultura e com repasses federais da Lei Aldir Blanc que ajudam a sustentar parte da produção artística local. A capital, já foi palco de grandes festivais e encontros marcantes, como o BH Rock Independente Festival Brief, realizado em 1994 na Praça da Estação. Hoje, no entanto,esse tipo de movimentação está cada vez mais concentrada no setor privado, com menor participação da administração pública. Para Nísio Teixeira, políticas de incentivo tiveram um papel importante na trajetória da cena. “A Lei Municipal de Incentivo deu um pouco mais de autonomia para as bandas pudessem, por exemplo, produzir o CD, uma das formas que você tinha para fazer isso era por meio dessas leis… Depois criou-se um fundo onde a própria prefeitura avaliava projetos que poderiam participar… A própria lei Aldir Blanc pode estimular diversas opções artísticas, mas sobretudo no caso das bandas de Rock”, aponta.
No caso de bandas emergentes, o cenário ainda é incerto, com questões relacionadas à dificuldades de se manterem em um ambiente o qual está cada vez mais se tornando comercial. “Eu sinto falta em Belo Horizonte dessa iniciativa cultura, vindo do Governo, da Prefeitura, porque a gente vê sim eventos de Rock, mas a iniciativa tinha que vir por cima: de incentivar a cultura, a música autoral, de liberar verba para os artistas, porque é difícil uma banda se inserir com um Rock autoral porque tudo é muito caro, é muito inacessível.” defende Anne, do Honey Bomb.
Quem mantém a cena em movimento?
Entre mudanças de formato, disputas por espaço e adaptações ao mercado, há um elemento que atravessa todas essas transformações: o público. O principal desafio não é apenas atrair, mas se manter relevante e fidelizar frequentadores, acompanhando suas mudanças ao longo do tempo.
A audiência do rock em Belo Horizonte é diversa. Há os veteranos da primeira leva, que seguem ativos e movimentando a cena, e os da segunda, influenciados pelos anteriores e assim sucessivamente. Ao mesmo tempo, esses ouvintes se renovam, seja por vínculo familiar ou por identificação com o gênero e suas vertentes.
Predominantemente mais velho, concentrado em grande parte entre os 30 e 50 anos, o cenário também vem registrando um crescimento recente na presença de casais. Ainda assim, esse perfil não é homogêneo e pode variar de acordo com a localização e a proposta de cada casa.Soma-se a isso uma participação feminina cada vez maior, tanto entre os frequentadores quanto nas bandas, apesar do machismo ainda recorrente dentro da cena, como explica Suellen de Ávila da banda Harley Queen, “Acontece tanto com contratantes, às vezes acontece até no próprio ambiente de trabalho assim na na cena musical mesmo com outros músicos. Então, além de não tratarem a gente como iguais, nesse sentido, de achar que por ser mulher faz pior, não é tão bom quanto se fosse um homem, ainda tem a parte da sexualização.’’
O comportamento de quem frequenta os espaços também vem mudando. As pessoas têm voltado para casa mais cedo do que antes e o público atual, especialmente o do rock, tende a buscar mais segurança, familiaridade e experiências já conhecidas, preferindo repertórios clássicos e consolidados.
No período pós-pandemia, essa relação se tornou ainda mais delicada. Muitos espaços precisaram reconstruir o vínculo com os frequentadores e reforçar a importância dos encontros presenciais, como evidência Mari do Bar Jeremias “ Foi muito difícil para a gente até mesmo para mostrar para as pessoas o quanto é importante esses momentos em conjunto, essas experiências que o que o bar proporciona.’’ Mostrar o valor desses momentos e vivências coletivas, passou a ser parte fundamental dessa retomada.
É justamente nessa experiência compartilhada, que a cena encontra sua força mais duradoura. No fim, o rock não depende apenas de tendências ou da indústria, ele sobrevive na conexão que estabelece com as pessoas. Democrático, atravessando idades, ele continua encontrando espaço para existir. Na capital mineira, mais do que resistir, o rock insiste, e enquanto houver alguém disposto a tocar, e outro a ouvir, ele continua.
Para comemorar o Rock na capital mineira e incentivar a adesão de espaços que vivem diariamente a conexão e a insistência do gênero, separamos uma lista de alguns bares de Rock presentes em todas as regionais de BH:
Jack Rock Bar – Av. do Contorno, 5623 - Funcionários, Belo Horizonte - MG, 30110-035
The Bridge Pub (Centro) – Rua dos Timbiras, 834 - Funcionários, Belo Horizonte - MG, 30140-060
The Mulligans Pub – Rua Pium-Í, 229 - Cruzeiro, Belo Horizonte - MG, 30310-080
XBK – Rua Vitório Marçola, 184 - Anchieta, Belo Horizonte - MG, 30310-360
Caverna Rock Pub – Rua dos Tupis, 1448 - Barro Preto, Belo Horizonte - MG, 30190-062
Mister Rock – Av. Teresa Cristina, 295 - Prado, Belo Horizonte - MG, 30410-620
Why American Pub – Av. Francisco Sá, 66 - Prado, Belo Horizonte - MG, 31411-145
Underground Black Pub – Av. Itaú, 540A - Jardim São José, Belo Horizonte - MG, 30535-012
Jeremias Arte & Bar – R. Codajás, 686 - São Gabriel, Belo Horizonte - MG, 31980-370
Beerstock Pub: Music-Beer-Food – Av. Aggeo Pio Sobrinho, 20 - Buritis, Belo Horizonte - MG, 30575-834
BH Original Pub – R. Ituiutaba, 363 - Prado, Belo Horizonte - MG, 30411-023
Espetinho do Pinóquio – R. José Benevides da Silveira, 364 - Letícia, Belo Horizonte - MG, 31570-200
Rota 677 Pub – R. Vila Rica, 677 - Padre Eustáquio, Belo Horizonte - MG, 30720-380
Carcamano Pub-Rock-Bikes – R. Américo Magalhães, 617 - Barreiro, Belo Horizonte - MG, 30640-510
The Road House – R. Conselheiro Lafaiete, 1530 - Sagrada Família, Belo Horizonte - MG, 31035-560
Rick Rock Cultura Bar – R. Santarém, 457 - Nova Cintra, Belo Horizonte - MG, 30516-070