Entrevistas e análises mostram como o reality se tornou um laboratório do cancelamento e quais os efeitos psicológicos e sociais desse fenômeno.

Repórteres: Ana Luisa Lopes e Izadora Felix

O paredão nunca foi só sobre sair da casa. Nas últimas edições, o Big Brother Brasil se consolidou como um entretenimento nacional, a cada nova temporada, o programa mobiliza milhões de espectadores, gera trends, memes no X (antigo Twitter) e pautas de conversas em diferentes espaços sociais, desde salas de aula até rodas de amigos. Mas, para além da audiência e do engajamento, um fenômeno tem chamado a atenção de pesquisadores e da própria sociedade: a relação entre o reality show e a consolidação da cultura do cancelamento digital entre o público jovem.

A cultura do cancelamento digital, entendida como uma prática de julgamento coletivo nas redes sociais em que indivíduos são publicamente criticados e, muitas vezes, excluídos simbolicamente por comportamentos considerados inadequados, encontrou no BBB um terreno fértil para se desenvolver. Afinal, o programa expõe participantes 24 horas por dia, oferece mecanismos de participação direta ao público, por meio do voto, paredão e enquetes, e se desenrola simultaneamente na televisão e nas plataformas digitais.

O que é a cultura do cancelamento?

Karol Conká, a participante que bateu recorde de rejeição no paredão do BBB. Créditos: reprodução Tv Globo

Antes de analisar sua relação com o BBB, é necessário compreender o que se entende por cultura do cancelamento. De acordo com uma reportagem da BBC News Brasil escrita por Mariana Sanches, o cancelamento surgiu como uma forma de mobilização social nas redes, voltada à denúncia de comportamentos considerados inadequados. Em sua origem, tratava-se de uma ferramenta utilizada por grupos minoritários para cobrar responsabilidade de figuras públicas e marcas.

O cancelamento é caracterizado como um ataque à reputação que ameaça o emprego e os meios de subsistência atuais e futuros da pessoa cancelada. O fenômeno atinge tanto personalidades públicas quanto pessoas anônimas. A influência do BBB alimenta a cultura do cancelamento digital, que ultrapassa as telas, invade o mundo real e afeta o cotidiano do indivíduo de forma permanente. Os erros do participante ficam gravados na internet como um “histórico de pesquisa”. O resultado são consequências graves, quase irreparáveis, sem empatia do público.

O BBB como amplificador do cancelamento

Finalistas da edição BBB 26.  Créditos: Foto reprodução BBB Tv Globo 

O Big Brother Brasil não é um fenômeno isolado. Ele ocorre em um ecossistema midiático no qual as redes sociais desempenham o papel comunicador. O programa utiliza as  mídias digitais para fomentar a proximidade do público com os participantes da casa, criando-se um estado de hipervigilância proposital. Nesse sentido, o comportamento do reality busca prender a atenção do espectador para ganhar mais audiência, visando o lucro final.

O formato do reality show é particularmente propício à disseminação do cancelamento. A exposição contínua dos participantes, somada à possibilidade do público votar e decidir quem permanece ou sai, cria um ambiente de julgamento permanente. A cada fala, a cada atitude, há uma repercussão imediata nas redes sociais. Essa repercussão, muitas vezes, se transforma em mobilizações coletivas para avaliar se determinada atitude ou fala é correta ou não.

O caso mais emblemático dessa dinâmica é o da cantora Karol Conká, participante do BBB 21. Ao longo de sua passagem pelo programa, Conká foi acusada de xenofobia, intolerância religiosa, assédio e violência psicológica. A rejeição do público foi recorde: ela deixou o programa com 99,17% dos votos para sua eliminação, a maior da história do programa até hoje. Em entrevista ao programa Inteligência Ltda, a cantora revelou os impactos psicológicos devastadores dessa experiência, descrevendo o momento do cancelamento como um período de profundo sofrimento e isolamento.

Danos psicológicos e sociais

Imagem da ex participante Vitória Strada chorando.  Créditos: Foto BBB reprodução Tv Globo

O cancelamento não ocorre apenas no plano simbólico. Ele tem consequências reais e, muitas vezes, devastadoras. A entrevista de Karol Conká ao Inteligência Ltda descreveu o período pós-BBB como um “mergulho no escuro”, com crises de ansiedade, depressão e isolamento social. Sua reputação, construída ao longo de anos de carreira, foi comprometida de forma profunda. 

O artigo de opinião publicado pela A Gazeta, escrito por Weverton Campos, menciona que, segundo um estudo da agência Mutato realizado em 2020, 79% das pessoas na internet se dizem contrárias à cultura do cancelamento, enquanto apenas 11% defendem a prática. Isso sugere que, embora o cancelamento seja frequente, ele não é necessariamente endossado pela maioria. No entanto, a minoria barulhenta — aquela que se organiza nas redes — acaba pautando o debate e impondo sua agenda. 

O podcast “Ao Ponto” do portal O Globo, apresentado pelos jornalistas Carolina Morand e Roberto Maltchik, ao abordar sobre a edição do BBB21 que culminou no cancelamento da cantora Karol Conká, trouxe uma análise do psiquiatra Jairo Bouer, que alertou para os danos emocionais do cancelamento, tanto para quem é cancelado quanto para quem cancela. Segundo Bouer, participar de dinâmicas de ódio coletivo, ainda que de forma indireta, também afeta a saúde mental do espectador. A exposição constante a conflitos, ataques e julgamentos pode gerar ansiedade, estresse e dessensibilização emocional.

O Tribunal das Telas: Como a Dinâmica do Reality Molda o Julgamento Jovem 

Imagem de estudantes caminhando pela UFMG. Créditos: Foto Foca Lisboa

Nos arredores do campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), quatro jovens aceitaram conversar sobre um fenômeno cada vez mais presente nas redes sociais: a cultura do cancelamento digital e a influência do Big Brother Brasil nesse processo. Para preservar a identidade dos entrevistados, todos os nomes citados nesta reportagem são fictícios.

Para Lucas, estudante de Geografia, o reality show incentiva diretamente comportamentos de julgamento coletivo. “O programa estimula o comportamento em massa tanto de jovens quanto de jovens adultos”, afirma. Segundo ele, a dinâmica do programa faz com que o público se sinta parte de um tribunal virtual, em que cada atitude dos participantes é analisada e rapidamente transformada em motivo para condenação.

A estudante Marina, compartilha da mesma opinião. “O próprio programa praticamente já treina o público para agir como júri o tempo todo. Tudo é votação, eliminação, enquete. No final, muita gente nem está mais analisando o comportamento dos participantes, só quer participar do ‘cancelamento da semana’ para se sentir incluído”, relata. Para ela, o entretenimento ultrapassa os limites da televisão e passa a alimentar práticas de exclusão nas redes sociais.

Na visão de Rafael, embora o programa ocasionalmente promova debates sobre atitudes problemáticas, sua estrutura está fundamentada na exposição, no julgamento e na punição pública. “O cancelamento virou quase um ritual semanal”, observa, destacando como o paredão e as discussões online mobilizam torcidas e intensificam a polarização.

Já Camila, chama atenção para a diferença entre crítica e linchamento digital. “Criticar é apontar um erro e abrir espaço para reflexão. Cancelar é atacar em massa, sem considerar contexto ou possibilidade de defesa”, explica. Apesar de reconhecer que muitos jovens conseguem fazer essa distinção, ela acredita que nem sempre essa consciência se traduz em atitudes mais responsáveis nas redes.

Os impactos emocionais do cancelamento também foram destacados pelos entrevistados. Alguns afirmaram evitar se envolver nesse tipo de dinâmica, enquanto outros relataram cansaço e incômodo ao acompanhar ataques coletivos. Todos concordam que os efeitos sobre quem se torna alvo podem ser profundos, incluindo ansiedade, isolamento e sofrimento psicológico.

As falas de Lucas, Marina, Rafael e Camila revelam uma contradição do comportamento juvenil contemporâneo: mesmo reconhecendo os excessos e os riscos da cultura do cancelamento, muitos ainda participam, direta ou indiretamente, dessas práticas. Nesse sentido, o fenômeno aparece não apenas como resultado de escolhas individuais, mas como consequência de uma lógica estrutural alimentada tanto pelo formato do Big Brother Brasil quanto pela dinâmica das redes sociais.

Entre o entretenimento e a responsabilidade 

 

 

Finalistas da edição BBB 26.  Créditos: Foto reprodução BBB Tv Globo 

Apesar do Big Brother Brasil ser um reality show de entretenimento, com contratos previamente estabelecidos e autorização para uso de imagem, o programa não está isento da responsabilidade ética que assume em relação aos participantes. A exposição intensa, o julgamento constante e a repercussão nas redes sociais ultrapassam os limites da casa e podem gerar impactos emocionais duradouros, mesmo após o fim da competição.

Ao transformar conflitos em espetáculo e estimular o público a decidir, comentar e condenar comportamentos em tempo real, o programa contribui para a naturalização de práticas de cancelamento que muitas vezes ignoram contexto, proporcionalidade e possibilidade de aprendizado. Nesse cenário, a responsabilidade não recai apenas sobre a produção, mas também sobre os espectadores e usuários das redes, que participam ativamente da construção dessas narrativas.

Entre o entretenimento e a responsabilidade, o Big Brother Brasil evidencia como a televisão e as plataformas digitais influenciam a forma como julgamos o outro. Mais do que gerar audiência, o programa levanta um debate necessário sobre os limites entre crítica, exposição e punição pública em uma sociedade cada vez mais conectada.

Edição: Giovanna Zanotti e Isabella Regina Ludwig


* Reportagem produzida na disciplina "Laboratório de Produção de Reportagem", sob supervisão de Elton Antunes