Presença de mulheres na universidade aumenta mas, em algumas áreas, ainda enfrenta desafios
Por Keila Guedes e Sofia Silva
Em um dia comum de um estudante universitário circulando pelas dependências dos campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é impossível não observar os indivíduos que frequentam esse ambiente. Em 2023, o Censo da Educação Superior (CES) analisou os padrões universitários no Brasil e concluiu: as mulheres são maioria nas faculdades, representando 59,1% das matrículas de ensino superior. Além disso, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), entre 2013 e 2023, o aumento na quantidade de mulheres nos ambientes universitários foi de 138,6%.
Esses dados se tornam representativos por motivos além dos bons percentuais. Considerando o contexto de uma sociedade patriarcal, em que as mulheres historicamente foram confinadas no espaço doméstico, discutir a ocupação feminina no ambiente universitário é uma forma de refletir sobre a representatividade.
Em 98 anos desde a sua fundação, a UFMG já teve 26 reitores, entre eles, Sandra Goulart, atual reitora, que é a terceira mulher a ocupar o cargo e a primeira a exercer dois mandatos seguidos. Ao levar em conta uma universidade referência como a UFMG, a realidade de que apenas pouco mais de 1/10 dos mandatos de reitores foram exercidos por mulheres nos faz pensar: como é a representatividade na universidade, especialmente em cargos de liderança?

Diferentes contextos, diferentes formas de pertencer
Segundo dados do CES, apenas 21,6% dos matriculados nos cursos de Engenharia no país, até 2019, eram mulheres. Na Escola de Engenharia da UFMG é possível ver de perto essa realidade, mesmo com um aumento da presença de mulheres ao longo dos anos. Em uma conjuntura em que a luta por ampliação dos espaços ocupados por mulheres é mais intensa a cada dia, no cenário da engenharia, isso se intensifica, já que elas ainda representam a minoria entre os engenheiros em formação no país.

Ana Alice Ribeiro Rosa, 20, estudante de Engenharia Aeroespacial do sexto período, comenta sobre sua presença na Universidade, tanto como estudante quanto como membro da Fênix Estudos Astronáuticos, equipe de competições de foguetes que representa a UFMG em competições a nível internacional, como a Latin American Space Challenge. Atual Gerente de Recuperação, subsistema responsável pelo retorno seguro dos foguetes ao solo, Ana Alice se destaca não apenas por seu trabalho, mas também por algo curioso: ela é a única mulher que gerencia um subsistema técnico na equipe na atual gerência, que se iniciou em abril de 2025.
Ocupar cargos de liderança e coordenar grupos acadêmicos são funções que, quando ocupadas por mulheres, especialmente no contexto universitário, se tornam referência, uma vez que isso só passou a acontecer há poucas décadas.

A fim de tematizar questões relacionadas à gênero na universidade, o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem) que atua na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), promoveu, em junho de 2025, a primeira edição da Semana Feminista da Fafich, evento que contou com a participação de conhecidos nomes entre as lutas femininas, como Macaé Evaristo, ministra dos Direitos Humanos, e Manuela d’Ávila, ex-deputada federal. A semana, dedicada à valorização da mulher além das circunstâncias acadêmicas, foi composta por seminários, grupos de conversa, aulas, debates e oficinas, que buscavam valorizar e representar a presença feminina.
Docência em questão
De acordo com dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), as mulheres representam 35,5% das bolsas de produtividade, destinadas a cientistas com maior destaque na carreira acadêmica. A desigualdade se aprofunda nas áreas de Tecnologia e Exatas: apenas 15,7% das estudantes de TI, em 2022, eram mulheres, e elas ocupam 39% dos empregos no setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Tal disparidade de gênero, presente em diversos campos do conhecimento, também é evidenciado em áreas conhecidas por uma maior presença de mulheres quando realizamos um recorte temático. É o que ocorre, por exemplo, na área de pesquisa em esportes e comunicação.
O Coletivo Marta, grupo de pesquisa em comunicação e culturas esportivas criado em 2018 por Ana Carolina Vimieiro, professora do Departamento de Comunicação da UFMG, lidou com resistências típicas de um campo conhecido pelo protagonismo masculino.

Atualmente, o coletivo conta com docentes e alunos de graduação, atuando de maneira articulada para enfrentar hierarquias, opressões e alcançar a consolidação do esporte como objeto de pesquisa. “Acho que a existência do Coletivo Marta tem uma importância grande nos últimos anos, da existência de não só eu, como pesquisadora, mas de outras mulheres pesquisadoras da área têm tido um impacto muito positivo numa certa reconfiguração do que é essa área, o que significa também uma reconfiguração das agendas de pesquisa, temas que são muitos pesquisados. Eles estão se transformando conforme as pessoas que fazem parte desse contexto vão se transformando também.”, conta Vimieiro.
Na comunicação esportiva, por exemplo, as questões de gênero ganham relevância ao questionar hierarquias naturalizadas. “Há 10 anos atrás, a gente tinha, praticamente, quase nenhuma mulher no jornalismo esportivo, ele praticamente não cobria as modalidades femininas”, relata Ana Carolina. O esporte foi percebido como um ambiente masculino, um espaço de homens, narrado por eles e voltado para o público masculino. Mas, atualmente, o Coletivo realiza e desenvolve atividades de ensino e de extensão, por intermédio da Revista Marta, do MartaCast, do Observatório Marta e do UFMG Esportes, contribuindo para enfrentar um cenário machista.
Bem como na engenharia, na comunicação e no esporte, a forma como o ambiente acadêmico atua na reflexão crítica chama atenção. “A universidade ocupa esse lugar, de reflexão crítica, e também, a partir dessa reflexão crítica promove intervenções e práticas para mudar esse contexto da comunicação e do esporte”, conta Ana Carolina.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão da professora Dayane do Carmo Barretos