Como a expansão do digital transformou a fama passageira dos primeiros vencedores do reality
Repórter: Vinícius Granussi
Se hoje um participante entra no Big Brother Brasil, ele já sai com milhões de seguidores, contratos publicitários encaminhados e uma estratégia digital pronta para transformar visibilidade em renda. A fama, que antes dependia quase exclusivamente da televisão, agora nasce integrada à internet e se sustenta na lógica da produção contínua de conteúdo, do engajamento e da monetização da atenção.
Mas esse cenário não existia quando os primeiros vencedores deixaram a casa. No início dos anos 2000, a exposição conquistada no programa ainda seguia um roteiro tradicional e de curta duração: capas de revista, presenças em eventos e participações pontuais na TV. A internet, limitada e pouco acessível, não era vista como espaço viável para prolongar essa visibilidade, muito menos como fonte de renda.
Duas décadas depois, o que mudou não foi apenas o mercado, mas o próprio destino dessa fama. Com a expansão da internet e das redes sociais, trajetórias que pareciam encerradas ganharam uma segunda chance de circulação. Em alguns casos, essa “sobrevida digital” se consolidou como estratégia; em outros, permaneceu como tentativa fragmentada.
É nesse intervalo entre o esquecimento e o retorno à timeline que se inscrevem as histórias de Kléber Bambam, Dhomini Ferreira e Jean Wyllys. Mais do que percursos individuais, eles revelam como a internet passou a redefinir o que significa permanecer relevante depois de um reality e por que essa permanência nunca foi garantida.
Quando a internet começou a crescer e mudou o destino da fama
No início dos anos 2000, a internet brasileira ainda era limitada e coexistiu com um sistema midiático fortemente concentrado na televisão. Dados da PNAD 2005, do IBGE, indicavam que cerca de 21% da população tinha acesso à rede, aproximadamente 32 milhões de pessoas, em sua maioria por conexão discada, lenta e cara. Na prática, isso significava que a TV ainda era o principal meio de construção e manutenção da fama. Programas de auditório, revistas e emissoras definiam quem permanecia em evidência, enquanto o ambiente digital tinha alcance restrito e pouco impacto econômico.
Para além dos números, o que se chamava de “internet” naquele momento era muito diferente do cenário atual. O acesso acontecia, em grande parte, por computadores compartilhados em lan houses ou em conexões domésticas instáveis. A experiência digital passava por e-mails, salas de bate-papo, fóruns e, a partir de 2004, pelas comunidades do Orkut, onde usuários se organizavam por interesses e começavam a formar redes de interação. Blogs pessoais também ganharam espaço como forma de expressão individual, ainda sem qualquer estrutura de monetização. Não havia algoritmos sofisticados de distribuição, nem métricas claras de engajamento, e muito menos um mercado organizado de publicidade digital.
Esse cenário começa a mudar de forma consistente a partir da segunda metade da década. Dados do PNAD 2008 e em reportagem elaborada pelo CanalGov em 2013, mostram que o número de acessos à banda larga fixa no Brasil saltou de cerca de 3 milhões em 2005 para mais de 20 milhões em 2012, indicando uma expansão acelerada da infraestrutura e da velocidade de conexão. Esse avanço reduz custos, amplia o tempo de permanência online e permite novas formas de consumo de conteúdo.
Ao mesmo tempo, a chegada e popularização de plataformas digitais redesenham o ambiente de circulação de conteúdo. O Orkut se consolidou como a principal rede social do país por vários anos, chegando a registrar 30 milhões de usuários em 2010, criando uma cultura de interação em larga escala. Em 2005, surge o YouTube, que inaugura a lógica da circulação massiva de vídeos, permitindo que conteúdos sejam compartilhados e revisitados continuamente. Já o Facebook começou a se popularizar no Brasil a partir de 2011, consolidando um ecossistema digital mais integrado e permanente.
Em 2013, o IBGE já registrava mais de 50% da população brasileira conectada à internet, evidenciando um crescimento acelerado em menos de uma década. Esse avanço muda profundamente a lógica da fama. Se antes ela dependia quase exclusivamente da televisão, agora passa a circular de forma contínua, descentralizada e reaproveitável, permitindo que conteúdos antigos sejam redistribuídos e ressignificados. Nesse contexto de transição, a internet deixa de ser apenas um complemento e passa a funcionar como um novo ambiente de permanência. Para os primeiros campeões do BBB, isso significou uma entrada tardia, mas decisiva: a possibilidade de adaptar uma fama originalmente televisiva a um ecossistema digital em expansão, ainda sem regras claras, mas cada vez mais relevantes.
Mas a monetização digital contemporânea depende de presença multiplataforma, da produção contínua de conteúdo e da construção de relação estável com o público, sendo uma estratégia possível apenas com a consolidação de uma internet estável e de fácil acesso. É o que apontam os pesquisadores da área de comunicação Iana Vieira Albuquerque e André Luiz Vailati, da Universidade do Vale do Itajaí. No artigo “Influenciadores virtuais e suas estratégias de monetização”, eles indicam que esses elementos simplesmente não existiam no início dos anos 2000, o que ajuda a explicar por que a adaptação dos primeiros vencedores ocorreu de forma tardia, fragmentada e, muitas vezes, incerta.
A reinvenção digital de Bambam
Logo após vencer o BBB1, Kléber Bambam passou a ocupar o espaço tradicional reservado aos vencedores de reality shows naquele momento. Participou de programas de televisão, fez presenças VIP e manteve-se na mídia principalmente por meio de aparições pontuais. A internet, naquele período, ainda não era um canal relevante para sustentar sua visibilidade, e sua imagem permaneceu vinculada à televisão e ao entretenimento tradicional ao longo dos primeiros anos.
A entrada mais efetiva de Bambam no ambiente digital ocorre apenas anos depois, acompanhando a popularização das redes sociais no Brasil, especialmente a partir da década de 2010. É nesse momento que sua imagem ganha uma nova camada de circulação, impulsionada pela cultura dos memes,que consiste na circulação e adaptação rápida de conteúdos (como frases, imagens ou vídeos) que se tornam virais. Bordões como “hora do show” e expressões performáticas passaram a ser reutilizados em vídeos e montagens, especialmente no universo fitness, permitindo que sua imagem voltasse a circular entre novas gerações.

Com o tempo, essa visibilidade passou a ser incorporada à sua atuação online. Bambam mantém perfil ativo no Instagram, com 4,5 milhões de seguidores, voltado à divulgação de rotina fitness e publicidade, incluindo a disponibilização de contato comercial para parcerias.
Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., apresentado por Rogério Vilela, em 2022, Bambam resumiu essa adaptação ao ambiente digital: “Na internet você não fica sólido do dia pra noite, é com o tempo, é constância”. A fala indica uma compreensão prática da lógica de permanência exigida pelas redes.
Sua trajetória recente inclui participações em programas de televisão e eventos de entretenimento, como a luta contra Acelino Popó Freitas, que gerou grande repercussão online e o recolocou em evidência. Além disso, segue presente na mídia por declarações polêmicas e aparições frequentes em conteúdos virais. Esse percurso mostra que a permanência de Kléber Bambam no cenário público conseguiu ir além da fama conquistada no programa, mas da adaptação a um ambiente digital que surgiu anos depois. Ao aproveitar sua imagem por meio de memes, estruturar sua presença nas redes e transformar engajamento em oportunidades comerciais, Bambam exemplifica como a internet não só prolongou sua visibilidade, mas redefiniu as formas de se manter relevante ao longo do tempo.

Visibilidade sem continuidade: os desafios de Dhomini no digital
Vencedor do BBB3, em 2003, Dhomini Ferreira também inicia sua trajetória pós-programa seguindo o padrão tradicional da época, com participações na mídia e tentativas de inserção no entretenimento que não foram bem sucedidas. Entre elas, uma carreira musical que não alcançou grande repercussão.
A entrada no ambiente digital ocorre de forma menos estruturada e mais fragmentada, acompanhando o crescimento das redes sociais já nos anos 2010. Dhomini buscou diferentes formas de reposicionamento. Suas primeiras tentativas de ingressar no mundo digital, como mostra reportagem do portal GZH, foram apenas a partir de 2019, ele passou a atuar com venda de cosméticos online e palestras motivacionais, inserindo-se no universo do “coaching", prática voltada ao desenvolvimento pessoal e profissional baseada em orientação e definição de metas.
Em 2022, ele voltou à televisão ao participar do reality Power Couple Brasil, programa da TV Record como foco em casais e com transmissão nas plataformas digitais da emissora, mas foi expulso após um episódio de conflito com outros participantes, o que gerou repercussão negativa e impactou sua imagem. Sua presença online chegou a reunir mais de 300 mil seguidores no Instagram, onde o mesmo mantinha em seu perfil o termo Influenciador Digital na descrição como forma de negócio, mas após as polêmicas no programa ele excluiu sua conta devido ao “hate” sofrido, revelado em entrevista ao Podcast Link, que cobria o evento. No mesmo episódio Dhomini também se descontrola, discute com os entrevistadores e abandona o programa com sua esposa.

Desde 2023, Dhomini passou a ocupar um cargo público como apresentador de um programa estilo televisivo online, idealizado pela Assembleia Legislativa do estado de Goiás, voltado a temas musicais, chamado “Essência da Música". O programa ainda segue em exibição, tendo as edições registradas no canal de Youtube TV Assembleia Legislativa.
Este percurso mostrou que a trajetória de Dhomini Ferreira no ambiente digital foi marcada por instabilidade, tentativas dispersas, falta de estratégia e impactos de polêmicas que dificultaram a consolidação de uma presença contínua. Ainda assim, mesmo sem uma estratégia clara e com uma relação reativa com a internet, sua trajetória indica um ponto de inflexão: ao migrar para projetos ligados à música e à apresentação, ele encontrou uma forma de permanecer ativo em um campo que já despertava seu interesse desde o pós-reality. Nesse sentido, sua “segunda vida” não se constrói pela força da viralização ou da influência, mas pela adaptação gradual a um espaço onde consegue, ainda que de forma mais discreta, sustentar sua presença.

Internet como plataforma política: a estratégia de Jean Wyllys
Após vencer o Big Brother Brasil em 2005, Jean Wyllys seguiu inicialmente o percurso tradicional da fama televisiva. Atuou como repórter do programa Mais Você e manteve presença em produções culturais e jornalísticas, já que antes mesmo do reality já trabalhava como professor e jornalista.
Com a visibilidade conquistada pelo programa, direcionou sua trajetória para a política, sendo eleito deputado federal em 2010. Já nesse período, sua atuação começa a incorporar o ambiente digital como ferramenta de comunicação. Em sua campanha de reeleição em 2014, por exemplo, utilizou vídeos na internet com o slogan falado “Graças à internet, você pode votar informado”, evidenciando uma compreensão precoce do potencial das plataformas digitais como meio de mobilização e construção de imagem pública. Ainda em 2014, ao participar do programa Metrópolis, da TV Cultura, Jean destacou o potencial da internet como ferramenta de liberdade e acesso à informação. “É fundamental para garantir a liberdade da pessoa na rede, a privacidade e o direito dela usar livremente a internet”, afirmou, ao defender o papel da rede como espaço democrático e acessível. Além disso, Jean Wyllys deixa todas as suas entrevistas e participações em programas registrados em seu canal do Youtube, com aproximadamente 40 mil inscritos.

Com o avanço das redes sociais, essa presença se intensifica. Em 2019, além de iniciar seu blog no UOL, ele amplia o uso de plataformas como Instagram e X (antigo Twitter), que passam a funcionar como canais centrais para publicação de análises, posicionamentos e interação com o público. No mesmo ano, sua decisão de deixar o Brasil após ameaças amplia significativamente sua visibilidade digital, inserindo sua trajetória em um contexto de forte repercussão política e midiática.
Desde então, Jean mantém presença constante nas redes sociais, utilizando o ambiente digital como base para sustentar sua relevância pública mesmo fora de cargos institucionais. Esse processo ganha novo impulso com o anúncio de seu retorno à disputa eleitoral pelo Partido dos Trabalhadores (PT), recolocando seu nome no debate político. Ao longo desse período, também ampliou sua atuação em debates, entrevistas e podcasts, consolidando uma presença digital centrada na produção de conteúdo e posicionamento público.
Esse percurso mostra que a trajetória de Jean Wyllys se diferencia por transformar a visibilidade conquistada no reality em capital político sustentado digitalmente. Mais do que uma “sobrevida” da fama, sua presença online se consolida como estratégia contínua de atuação, em que a internet deixa de ser extensão da imagem e passa a ser o principal espaço de construção e manutenção de sua relevância pública.
Da sobrevida digital à estratégia
As trajetórias de Bambam, Dhomini e Jean mostram que a internet não apenas prolongou a fama, mas transformou sua natureza e, principalmente, os caminhos possíveis a partir dela. No início dos anos 2000, a visibilidade era concentrada, dependente da televisão e limitada no tempo. Existia um pico de exposição seguido, quase sempre, por um desaparecimento gradual. A lógica era simples: sair da TV significava perder espaço.
Com o avanço da internet, essa dinâmica deixa de ser linear. A visibilidade passa a ser fragmentada, contínua e, sobretudo, reaproveitável. Um momento antigo pode voltar a circular, uma imagem pode ganhar novos significados, uma trajetória pode ser reativada anos depois. Mas essa nova lógica não se sustenta apenas na existência das plataformas. Ela exige adaptação, linguagem própria, frequência e alguma compreensão, mesmo que intuitiva, de como funciona a circulação digital.
Os três casos mostram que essa transição não foi uniforme. Houve tentativa, erro, improviso e, em alguns momentos, reposicionamento. Em um cenário ainda em formação, não havia modelo a seguir, nem garantias de retorno. A fama, por si só, deixou de ser suficiente, era preciso transformá-la em presença.
É nesse ponto que a internet deixa de ser apenas uma extensão da visibilidade televisiva e passa a funcionar como um espaço próprio de disputa por atenção. Nem todos conseguem atravessar esse processo da mesma forma. Alguns encontram novas formas de permanência, outros permanecem dependentes de eventos pontuais.
O que essas trajetórias revelam é que a chamada “segunda vida” da fama não é automática. Ela é construída, às vezes tardiamente, às vezes de forma instável, dentro de um ambiente que mudou mais rápido do que aqueles primeiros campeões poderiam prever.
* Reportagem produzida na disciplina "Laboratório de Produção de Reportagem", sob supervisão de Elton Antunes