O que está por trás do sistema de vendas construído por estudantes da Faculdade de Educação da UFMG?
Por Analuz Martins e Luiza Souza
A comunidade da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG) convive há dois anos com a falta de uma lanchonete licenciada pela reitoria. Por conta disso, alunas e alunos da pedagogia e de outras licenciaturas organizam-se de forma independente e solidária em um espaço para comercializarem seus produtos. As vendas acontecem de segunda a sexta-feira, durante todo o dia, mas com maior operação à noite, em um sistema de confiabilidade entre o cliente e o comerciante. Funciona assim: os produtos são expostos nas mesas que estão distribuídas em uma sala junto com as informações sobre os valores e o método de pagamento aceito (pix), enquanto os vendedores saem para outros compromissos. Atualmente a cantina conta com nove vendedoras.

Esse sistema de vendas foi implementado no primeiro semestre de 2024 após a falência da cantina licenciada durante a pandemia e, até o momento, tem se mostrado uma opção satisfatória para garantir a alimentação dos estudantes e a permanência dos vendedores na faculdade. Outras tentativas de cantinas organizadas pelos movimentos estudantis em prédios como os CADs, Faculdade de Letras, Faculdade de Ciências Econômicas e Escola de Engenharia, foram rapidamente suprimidas pela reitoria da universidade. A reitoria ainda tenta normalizar a situação das cantinas na UFMG. Por isso, a FaE é um exemplo de cantina auto-organizada funcional e com modelo próprio. Mas qual a razão por trás disso?
Isabella Adriane é formada em pedagogia pela UFMG e possui uma doceria, a Guloisa. Além das vendas sob encomenda e fora do ambiente universitário, Isabella também comercializa seus doces produzidos artesanalmente na cantina auto-organizada desde o início da ocupação. Aderiu ao estilo “pegue e pague” devido a dificuldade de conciliar o emprego com a presença nas aulas. “Às vezes perdíamos vendas porque estávamos em sala. A necessidade de assistir aula, nos deu como possibilidade essa estratégia. Mas o ambiente também influenciou. Mesmo com os roubos, de modo geral, dá mais certo que errado”, disse em entrevista.

Semelhante a Isabella, a estudante de pedagogia Laura Pacheco adotou esse modelo de comércio por não poder acompanhar o processo de vendas o tempo todo por causa dos compromissos acadêmicos. “[O sistema “pegue e pague”] não é perfeito, e ainda acontecem furtos, mas de maneira geral funciona muito bem”.
Quando esses furtos acontecem é comum que haja uma mobilização por parte dos vendedores e de outros alunos nos grupos e comunidades da Educação no Whatsapp, reivindicando o pagamento ou devolução dos produtos furtados. Segundo Isabella, existem dois cenários possíveis quando alguém pega uma mercadoria e deixa de pagar: o primeiro é quando um estudante esquece de fazer o pagamento e, quando vê as mensagens nos grupos de Whatsapp, realiza a transação; o outro é, de fato, considerado furto.


No dia 16 de setembro, o perfil no instagram Spotted UFMG (@spotted_ufmg) – página sem autoria usada como um canal anônimo para denúncias, desabafos e tira-dúvidas pela comunidade da UFMG – recebeu uma denúncia sobre os furtos que vêm acontecendo no local. Na mensagem, a pessoa relata sobre um comerciante que teve R$100,00 em produtos furtados em um único dia e outra que, em uma semana, teve o prejuízo de R$250,00.

Mesmo com essa questão, a cantina continua gerando retorno positivo aos vendedores. No caso da Laura, 60% do seu lucro total advinha das vendas feitas na FaE, quando ela ainda fazia estágio e conseguia dedicar mais tempo à cantina auto-organizada. Hoje, com um emprego fixo, a margem de lucro fica por volta de 35% do total ganho.
Para Laura, a relação de confiança entre vendedor e cliente é resultado da necessidade de amenizar as inseguranças alimentares e espaciais enfrentadas pelos estudantes no campus durante a noite. Ela afirma que confia nos alunos pois precisa da renda, e não pode estar lá o tempo todo. E destaca a reciprocidade presente na iniciativa: “pela manhã, o pessoal tem mais condição de levar lanche ou comprar em outras cantinas, mas a noite é mais difícil. É uma necessidade mútua que garante a manutenção dessa relação de confiança e continuidade da oferta dos produtos”.
Camila Santuzzi, estudante do quarto período de pedagogia, também considera a ocupação do espaço pelos estudantes e o sistema desenvolvido para as vendas importantes para a manutenção do ambiente universitário à noite. O “bandejão” (Restaurante Setorial da UFMG) fecha às 19h, horário em que se inicia as aulas do noturno, e as lanchonetes de outros prédios funcionam até às 21h, o que não representa nem metade do tempo em que o estudante permanece na universidade. Para Camila, “a cantina auto-organizada, é uma forma que nós estudantes encontramos de diminuir as desigualdades existentes entre o diurno, que é mais assistido pela reitoria, e o noturno.”
Qualidade e condições
Do ponto de vista de Kaio Simião, estudante de jornalismo da UFMG e cliente assíduo da cantina auto-organizada, além dos preços acessíveis e da variedade de produtos, existe uma confiança de que os alimentos ofertados estão dentro dos controles sanitários adequados. “É mais na confiança mesmo. O ambiente está sempre muito bem limpo e as comidas aparentam estar frescas”. Kaio reitera que costuma comprar produtos que possuam a validade na embalagem e a data de fabricação. O mesmo acontece com Camila Santuzzi: “antes de realizar a compra observo como são armazenados e a maneira como os alimentos estão expostos. Geralmente tudo é muito limpinho.”
Quanto à qualidade dos produtos, os vendedores garantem que levam a sério a alimentação dos alunos e, por essa razão, reúnem-se frequentemente para conversar sobre os parâmetros de limpeza do local e medidas de segurança alimentar. Responsáveis pelo setor de secretaria da FaE afirmam que esses vendedores seguem diretrizes e instruções pré acordadas entre os membros da comunidade do prédio. Isabella, por exemplo, conta que existem indicadores de qualidade e validade dos produtos e regras sanitárias que devem ser seguidas, tais como armazenar os alimentos em caixas de isopor devidamente refrigeradas e não deixá-los expostos o dia inteiro, sobretudo em dias quentes. Quando algum estudante não cumpre as regras, é advertido pelos próprios vendedores.
Desrespeitar algum comerciante do local gera revolta em alunos e alunas que se preocupam com a manutenção universitária e veem a cantina como um ato de permanência. Mesmo não sendo um sistema perfeito, para os estudantes e frequentadores da faculdade ele ainda é o mais adequado no contexto atual. O “pegue e pague” criou uma comunidade dentro e fora da FaE, que não somente apoia os movimentos e ocupações estudantis, como também se mobiliza para que eles possam existir como forma de resistência.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes