O Centro de Convivência Negro tem sido espaço de luta e acolhimento, mas ainda não resolve a permanência na universidade.

Por Kauet Machado e Willian Assis

 

 

Foto: Reprodução/Instagram.

Para a família de Izabela Vial, estudante de Relações Públicas, a sua aprovação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi um momento de extrema alegria e orgulho. A jovem, natural de Diamantina, se mudou para Belo Horizonte em 2022 aos 18 anos. Hoje, aos 21 anos, Izabela se encontra no sétimo período de seu curso e enxerga esse momento como um misto de alegria e surpresa. Ela lembra do contraste de realidades quando teve o primeiro contato com os seus colegas.

“Quando eu entrei no curso, eu tomei um susto, porque a maioria da minha turma eram pessoas brancas e que vieram de escolas particulares e de cursinhos e eu estudei a minha vida toda em escolas públicas”, conta a estudante.

O choque na disparidade social é algo comum no relato de  alunos que, assim como Izabela, são jovens negros com formação integral em escolas públicas. O sentimento experienciado por esses estudantes evidencia a realidade do ensino superior no Brasil, onde o elitismo social resiste frente a políticas públicas.

Cotas raciais e o acesso ao ensino superior

Historicamente, o acesso ao ensino superior era permitido somente à elite brasileira, pessoas brancas em sua maioria. Portanto, o perfil comum em universidades, ao longo das décadas, eram pessoas de alta renda, como indicado por Sharon Rigazzo Flores no artigo “A Democratização do Ensino Superior no Brasil, uma Breve História: da Colônia à República”.

Essas desigualdades se tornam mais complexas quando adicionamos a dimensão racial. A herança colonial e escravocrata, junto à ausência de políticas públicas para a população negra pós-abolição,  posicionaram a população negra do Brasil às margens da sociedade por muito tempo. 

Para mudar este cenário, o Governo Federal, formalizou a Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, que estabelece a reserva de vagas para as cotas sociais em universidades. A iniciativa tem como objetivo diminuir a desigualdade social por meio do ingresso ao ensino superior. Resumindo, o argumento era de que os alunos contemplados pelas cotas alcançariam certa ascensão social, graças ao estudo e ao acesso a atividades de maior remuneração.

Na prática, a Lei das Cotas prevê a destinação de 50% das vagas ofertadas em vestibulares para cotas sociais, raciais e para pessoas com deficiência. O restante das vagas ofertadas é direcionado para a ampla concorrência, na qual alunos de escolas privadas e públicas podem concorrer sem acessar a lei de cotas.

A UFMG tem, em sua estrutura, um robusto sistema de ações afirmativas vinculado à aplicação das cotas e ao ingresso de novos alunos. Porém, mesmo com o decorrer de uma década desde o início da aplicação da lei de cotas, é visível que o ambiente continua com graves desafios frente à permanência de estudantes negros em seus cursos.

 

 

A UFMG tem um sistema robusto de ações afirmativas. Reprodução: Foca Lisboa / UFMG

Centro de Convivência Negra

A noção de permanência universitária é um desafio enfrentado pela UFMG ao longo das décadas. Iniciativas como o acolhimento estudantil e os auxílios de permanência, ofertados a alunos de baixa renda pela Fundação Mendes Pimentel (FUMP), são algumas das ações diante da dificuldade de permanência de seus alunos no ensino superior. 

Frente à ausência de políticas institucionais eficientes, os movimentos negros da UFMG reivindicaram, ao longo dos anos, um espaço de acolhimento e debate. Nesse contexto, foi construído o Centro de Convivência Negra (CCN), juntamente à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), em 2017, com o intuito de ser um espaço de formação e de articulação para pessoas negras na universidade. 

 

Estudantes em atividades no Centro. Foto: Reprodução/Instagram.

Em 2018, foi cedida uma sala para o Centro na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich). Com a sede fixa do CCN, atividades recorrentes começaram a se desenvolver, dentre elas: formações políticas, rodas de conversa e afetos, debates, seminários. Ainda, há atividades fixas no calendário, como a Recepção Negra, que acontece na primeira semana de aulas para acolher os calouros negros que estão entrando na faculdade.Um aspecto relevante é a ideia de que, por se localizar na Fafich, muitos alunos negros de outros prédios não têm acesso ao espaço físico do Centro. E a Fafich ainda é uma faculdade muito colorida, mas a gente vai para outros prédios e alguns são extremamente embranquecidos e é muito difícil os alunos de lá saberem que existe um CCN, que o CCN não é da Fafich, ele é da UFMG, complementa Izabela.

Pandemia e retomada do espaço

Apesar de estar em um “prédio colorido”, Juan Pedro, estudante do sétimo período , de Ciências Sociais, comenta que não se sentiu acolhido quando entrou na faculdade. Ele ingressou no curso de Filosofia em 2020, mas, em 2022, fez a reopção para seu atual curso e, também, conheceu o CCN.

Durante a pandemia, Juan comenta que o espaço sofreu com diversas dissoluções de gestões, com muitos membros saindo, se formando ou trabalhando, o que, de certa forma, dificultou as atividades do espaço.

O primeiro contato de Juan ocorreu no processo seletivo para se tornar bolsista do Centro. “Foi desafiador no primeiro momento, tomar de volta, retomar um espaço que eu não sabia como funcionava, um espaço de acolhimento que eu não tive”, conta o graduando. 

A sua permanência como membro da gestão do CCN durou por um longo tempo, entre o final de 2022 e o final de 2024. Durante este período, ele teve um grande desenvolvimento, tanto pessoal quanto profissional. “[O CCN] me formou muito politicamente, e também foi esse lugar que me deu sentido na universidade, onde eu me sentia acolhido, que eu me via em outras pessoas, que fazia sentido eu estar na graduação, o espaço para o qual que eu fugia, mesmo que de vez em quando, quando não estava dando conta das coisas”, reflete o estudante.

Atualmente, a iniciativa é administrada por seis membros, dois bolsistas e quatro voluntários, e um professor orientador, acionado de acordo com a demanda dos estudantes. O número de integrantes é pequeno, considerando a dedicação demandada pelo Centro, além da necessidade dos membros por trabalhos externos para se sustentarem. “Então, necessariamente, elas [pessoas da gestão] trabalham em outros estágios, remunerados, para poderem contribuir no CCN”, complementa Juan. 

Equipe do Centro de Convivência Negra. Foto: Reprodução/Instagram.

O estudante comenta que há a necessidade de mais bolsas para os integrantes e reivindica mais unidades do CCN espalhados pela universidade, a fim de que o alcance do Centro seja maior.

Izabela, que trabalha nas redes sociais da iniciativa, relata que é preciso que a Comunicação do CCN melhore e não seja exclusiva dos meios virtuais, sugerindo a colagem de cartazes pela universidade ou momentos de divulgação presencial em salas de aula. No entanto, é preciso lembrar que isso depende da disponibilização de recursos pela universidade.

Acesso ao CCN

O acesso de estudantes negros ao Centro de Convivência Negra enfrenta desafios. Devido à correria do cotidiano, com estágios/trabalhos e deslocamento por Belo Horizonte, muitos não conseguem desfrutar das atividades oferecidas pelo Centro. Izabela Vial passou por essa dificuldade. A jovem, imersa em uma rotina apertada entre as aulas e o estágio, só conseguiu participar do CCN na greve que ocorreu em 2024, quando o seu cronograma se tornou mais livre. “Como eu não estava tendo aula, eu tive tempo para ir e aproveitar as coisas da universidade. Foi quando eu fui na minha primeira roda do CCN. E aí eu me apaixonei por aquele espaço”, destaca a diamantinense.

 

Workshop de Dancehall apoiado pelo Centro de Convivência Negra, realizado na praça de serviços da UFMG. Foto: Reprodução/Instagram.

As atividades da iniciativa são realizadas, geralmente, no período da tarde ou da noite, quando, geralmente, os estudantes estão trabalhando ou em aulas. No entanto, devido à falta de estrutura e de financiamento, a expansão para outros horários ou modalidades se torna impraticável.

Mesmo com todos os avanços e conquistas garantidos pela luta dos movimentos negros, ainda há muito o que se fazer. Heloísa Gonçalves, estudante de História, 21 anos, relata que nunca teve contato com o CCN. “Eu sou uma pessoa um pouco analógica, eu não tenho tanto contato com tecnologia. Eu evito um pouco, inclusive, as redes sociais, então não, eu nunca vi. Eu também não fico procurando”, comenta a graduanda. 

Ela relata que enquanto uma estudante negra, não se sentiu acolhida e, até hoje, avalia este período como estranho. Ao longo dos dois anos na universidade, ela disse que nunca viu panfletos ou idas à sala de aula para divulgar o projeto, algo também relatado por Isabela Vial quando perguntada sobre possíveis melhorias ao Centro. “E aí, quando você se restringe a esse tipo de público, você perde muitas pessoas, inclusive pessoas que precisam desse apoio, desse contato, que gostariam de conhecer”, destaca Heloísa.

Em meio a desafios, o Centro de Convivência Negra segue com suas atividades para alcançar alunos por toda a universidade, e, dessa forma, promover integração por meio da construção de uma comunidade negra universitária.

*Reportagem produzida na disciplina de “Laboratório de produção de reportagem” sob a supervisão de Dayane do Carmo Barretos.