Mesmo com o crescimento das discussões sobre saúde mental, mulheres negras ainda enfrentam uma série de entraves para acessar cuidados psicológicos. Essas dificuldades revelam como questões estruturais, simbólicas e afetivas interferem no acesso e na permanência dessas mulheres em processos terapêuticos. Reportagem produzida com base em escuta anônima, realizada com mulheres negras em maio de 2025, e em artigos científicos e reportagens disponíveis no Google, além de referências a Lélia Gonzalez e Patricia Hill Collins.
Por Aline Assis

E eu não sou uma mulher?
O debate sobre saúde mental ganhou visibilidade nos últimos anos, especialmente após a pandemia de Covid-19. Contudo, essa discussão não tem se estendido de forma equitativa a todos os grupos sociais. Para mulheres negras, o acesso ao cuidado psicológico permanece um desafio, marcado por barreiras concretas — como o alto custo, a falta de tempo e a escassez de profissionais negros — e por barreiras subjetivas, como o peso do estereótipo da "mulher negra forte" e a percepção de que o sofrimento não lhes é permitido.
Os trechos que compõem esta matéria fazem parte de uma escuta realizada com mulheres negras que vivenciaram diferentes formas de violência simbólica e institucional em contextos terapêuticos. Por se tratar de relatos profundamente pessoais e marcados por experiências de dor, desconforto e discriminação, as entrevistadas não serão identificadas. O compromisso com o anonimato foi estabelecido previamente como parte de uma escuta ética e afetiva proposta por esta reportagem, que reconhece o impacto subjetivo das narrativas e busca proteger a integridade emocional das participantes.
Durante a escuta, que foi conduzida com 18 mulheres negras, tanto cisgênero quanto transgênero, foi revelado que a maioria delas nunca iniciou ou já interrompeu a psicoterapia. Os motivos são variados: desde a dificuldade em se identificar com os profissionais até a falta de recursos financeiros ou de tempo. Mais da metade das participantes indicou o custo como o principal obstáculo. Além disso, a falta de confiança nos profissionais e a sensação de não pertencimento surgem como elementos recorrentes nos relatos. "Estou na minha quarta terapeuta, pois justamente tenho dificuldade de encontrar alguém que me compreenda", desabafou uma das participantes.
O processo de escuta também destacou que muitas mulheres só se sentem seguras para iniciar o processo terapêutico quando encontram uma profissional negra. A ausência dessa identificação frequentemente leva à interrupção ou à não iniciação do cuidado. Entre as entrevistadas, oito mulheres afirmaram explicitamente que só fariam terapia com uma mulher negra, ressaltando a importância da representatividade e da compreensão das vivências específicas. Como expressou uma das participantes: “Minha última terapeuta foi uma mulher negra... Foi essencial ter alguém que em algum momento já passou por situações que mulheres negras passam.”
Outra entrevistada afirmou: “Quando tive psicoterapia com uma mulher negra, foi muito positivo. Anteriormente, tive experiências com mulheres brancas em que senti incômodo em algumas abordagens.” Ainda que algumas relatem experiências mais acolhedoras com terapeutas brancas, os relatos indicam que isso nem sempre ocorre: “Atualmente me sinto mais confortável em abordar assuntos que afetam minha saúde mental e que são mediados pelo racismo, mesmo minha terapeuta sendo branca. Mas em outras tentativas tive dificuldade, pois percebia que o fato de relatar racismo em muitas experiências e como isso impactava minha saúde ampliava minha dificuldade de me posicionar diante de diversas situações, me causava insegurança e ansiedade. A questão racial não era considerada.”.
"O Não Tratado Vira Maltrato": Barreiras Institucionais e a Falta de Letramento Racial
Romper o silêncio e acolher as dores de mulheres negras é mais do que uma necessidade, é crucial para reestruturar a própria concepção de saúde mental em uma sociedade onde as desigualdades raciais são flagrantes. A fala de uma das participantes da escuta – "Sim. Muitas vezes não me enxergam como alguém que pode adoecer mentalmente" – sintetiza a invisibilidade e a pressão cultural que as impede de expressar vulnerabilidades.
O racismo institucional também aparece como barreira dentro do próprio sistema de saúde. Segundo estudo do Grupo de Estudos Multirreferenciais do Cuidado (Gecuid), da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), muitas psicólogas da atenção básica relataram não abordar a questão racial nos atendimentos, mesmo atuando em territórios majoritariamente negros. Esse silêncio é sintoma de uma prática ainda marcada por neutralidade racial e desconhecimento dos efeitos psíquicos do racismo cotidiano.
A psicóloga Isildinha Baptista Nogueira, em um artigo disponível no SciELO ("A saúde das mulheres negras: atuação da psicologia na atenção básica"), reforça a urgência da questão: "O não dito pode se tornar maldito. Minhas colegas não efetuam diretamente o mau trato às pessoas negras, mas o não trato acaba, como consequência, virando mau trato." Sua análise ilumina a falha sistêmica em oferecer suporte adequado, resultando em um agravamento do sofrimento psíquico.
A escassez de profissionais negros na psicologia clínica e nos serviços de psicoterapia, aliada à falta de uma formação antirracista nos cursos de Psicologia, também contribui para esse cenário de exclusão e apagamento. A falta de letramento racial dos terapeutas faz com que vivências cruciais não sejam compreendidas, como evidencia o relato de uma das participantes da escuta: “Quando eu explicava que ser chamada de ‘fisio’ e não pelo meu nome no ambiente de trabalho do qual fiz parte por nove anos era racismo, e as pessoas procurarem pelo profissional de fisioterapia e ignorar minha presença, pois eles buscavam por um profissional branco e não por mim. Quando levei essa questão para terapia e disse que isso me causava raiva, tristeza, ansiedade, angústia e desânimo, ela justificou que isso não seria racismo, mas a minha dificuldade de me relacionar com as pessoas. Ou seja, ela não ouviu o que eu disse, pois ao longo da terapia eu sempre deixei claro que eu era insegura nas minhas relações, que eu aceitava pouco e que não sabia me posicionar, justamente porque sofria com a discriminação.”.
Imagens de Controle e Sofrimento Invisível
A dificuldade em acessar a psicoterapia não se resume a questões econômicas. O imaginário social que constrói a mulher negra como resistente e inabalável também é parte central do problema. Como alertava a filósofa e ativista Lélia Gonzalez — mulher negra cisgênero, referência fundamental do pensamento antirracista brasileiro, fundadora do Movimento Negro Unificado (MNU) e crítica da hegemonia eurocêntrica nas ciências humanas —, a identidade negra feminina foi historicamente silenciada pelas ciências ocidentais, que reproduzem uma ideia de humanidade universal que exclui corpos racializados.
A socióloga norte-americana Patricia Hill Collins nomeou essas representações como “imagens de controle” — estereótipos como o da “mãe preta”, da “negra raivosa” ou da “hipersexualizada”, que restringem o acesso de mulheres negras à empatia, ao cuidado e ao direito de sofrer. Não à toa, durante a escuta realizada para esta matéria, as 18 mulheres mencionam culpa, desconforto e vergonha ao tentar falar sobre suas emoções:
"Me sinto pequena, frágil e sentimental demais."
"Sim, me culpava por sentir cansaço, por estar esgotada."
"Sim, não temos tempo para chorar e sofrer, temos que ser fortes sempre."
Essa sobrecarga contribui para que mulheres negras, especialmente as mães solo, acumulem responsabilidades e enfrentam simultaneamente o racismo, o machismo e a pobreza. Segundo levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em 2023, 62% das famílias brasileiras chefiadas por mães solo tinham uma mulher negra como principal provedora. O texto “Mulheres negras chegam ao limite da exaustão antes de encontrar ajuda”, publicado pela organização Think Eva no mesmo ano, destaca como esses fatores estruturais afetam diretamente a saúde mental, o bem-estar e as possibilidades de acesso a cuidados.
Mulheres Negras Trans e Saúde Mental
Considerando a interseção de raça e gênero, o panorama da saúde mental para mulheres negras trans e travestis é ainda mais crítico. Essa população enfrenta uma complexidade de violências e discriminações que se somam, resultando em dados alarmantes. O dossiê de entidades como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) realizado em 2024 e publicado no início deste ano, indica que, entre as tentativas de suicídio, mulheres trans e travestis apresentam um percentual elevado, chegando a 42%, um índice significativamente maior em comparação com outros grupos. A violência psicológica contra pessoas trans, em geral, subiu 20% no Brasil, com a população negra sendo a mais afetada, e mulheres trans negras representando 58% das vítimas em relação às brancas, conforme aponta matéria publicada pelo Summit Saúde Estadão em fevereiro de 2024. A falta de visibilidade, o estigma social, a dificuldade de acesso a serviços de saúde humanizados e a ausência de profissionais que compreendam suas vivências específicas contribuem para o adoecimento mental.
Formas de Cuidado Reinventadas e o Desafio da Psicologia
Diante de tantas barreiras, mulheres negras têm criado caminhos alternativos para cuidar da saúde mental. Algumas acessam terapias populares on-line, com profissionais negras e valores acessíveis, como um dos relatos ouvidos para a produção deste texto: "Por uma indicação, fiz a terapia por um site em que consegui com uma mulher negra por valor acessível." Outras encontram no acolhimento espiritual, na conversa com amigas ou nas redes de apoio comunitárias uma forma de sustentar o emocional.
A necessidade de uma ação educativa transcende o consultório: construir redes de apoio, valorizar os saberes e práticas comunitárias e assegurar a presença de profissionais negros e negras são atos de cuidado que precisam migrar do discurso para a prática. É fundamental que esses gestos se transformem em políticas públicas e afetivas, capazes de garantir um acesso à saúde mental que seja verdadeiramente inclusivo e respeitoso às singularidades de cada mulher negra.
Referências:
- Nascimento, C., & Soares, G. A. (2023). O CUIDADO EM SAÚDE MENTAL DAS MULHERES NEGRAS NO BRASIL: : uma revisão de literatura. Revista Psicologia & Saberes, 12(1). Disponível em: https://revistas.cesmac.edu.br/psicologia/article/view/1578
- Santos, A. S. R. dos, & Emílio, S. A. (2021). A mulher negra e a formação em Psicologia. Quais as barreiras existentes?. Semina: Ciências Sociais e Humanas, 42(1), 115–132. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/seminasoc/article/view/39926
- SciELO. Psicoterapia, raça e racismo no contexto brasileiro: experiências e percepções de mulheres negras. Publicado em 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pe/a/WLqvt9yG7rmBzz4kvp8TVSL/
- Think Eva. Mulheres negras chegam ao limite da exaustão antes de encontrar ajuda. Publicado em 21 de novembro de 2023. Disponível em: https://thinkeva.com.br/exaustao-das-mulheres-negras/
- Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA): Os dados sobre tentativas de suicídio de mulheres trans e travestis podem ser encontrados nos dossiês anuais da ANTRA sobre assassinatos e violência contra pessoas trans no Brasil. Você pode consultar os relatórios mais recentes no site oficial da ANTRA, na seção de violência ou dossiês:
- Um exemplo específico de dossiê que aborda o tema é o "Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024" (observe que a data do arquivo no link pode ser do ano seguinte ao da publicação dos dados, como é comum em relatórios anuais).
- Summit Saúde Estadão: A informação sobre o aumento da violência psicológica contra pessoas trans no Brasil, com a população negra sendo a mais afetada, é do Summit Saúde do Estadão. Você pode conferir a matéria completa aqui:
* Reportagem produzida no "Laboratório de Comunicação: Jornalismo sobre Ciência e Decolonialidade", coordenado por Antonio Fausto Jr., Jornalista e Residente pós-doutoral do PPGCOM/UFMG