O Mercado Central de BH é uma aventura que une muita conversa, memória e os sabores que constroem a gastronomia mineira. 

Por Davi Marinho, Felipe Veras, Laura Parreira e Vítor Martins

Parece que, ao entrar neste lugar, o nosso olfato fica até mais aguçado. O cheiro de queijo se mistura ao do “torresminho” recém-frito, que invade a mente sem pedir licença. O doce de leite brilha nas prateleiras como se tivesse saído de um desenho animado. Do outro lado, a fumaça do fígado com jiló que sobre da chapa quente atravessa os corredores e desperta a vontade de comer em qualquer um que passa.

Localizado no coração de Belo Horizonte, o Mercado Central vai muito além de um ponto turístico. É uma cozinha viva, onde a riqueza e os sabores tradicionais de Minas permanecem fortes em cada canto. A cada banca visitada, história, memória e identidade ganham espaço e respiram.

A jovem auxiliar de Recursos Humanos, Daniele, de 24 anos, observava atentamente as bancas de tempero, encantada com a variedade de produtos para as suas receitas. “Vim buscar temperinhos e coisas vegetarianas para fazer a marmita da semana”, conta. “E também almoçar em um lugar diferente”. Natural de Governador Valadares, interior de Minas Gerais e recém-chegada à capital, Daniele enxerga no Mercado um espaço de pertencimento, e não só um local de compras. “Eu entendo o Mercado Central como um lugar de resistência da cultura mineira, à gastronomia e tudo mais. Qualquer esquina agora tem McDonald’s ou Burger King, e a gente precisa manter a nossa cultura”, afirma.

Enquanto ela fala, sua voz se mistura à melodia do espaço: o tilintar dos talheres, a lata de cerveja abrindo, as conversas que cruzam os corredores.

Um brinde no Mercado CentralFoto: Vítor Martins

Morando perto dali, Daniele já planeja fazer do Mercado quase uma extensão de casa, mas da próxima vez, com companhia. “Eu pretendo vir mais vezes, mas quero vir acompanhada, porque acho que ir sozinha não dá a experiência completa. Aqui os amigos vão de um bar para o outro, do Mercado Novo para cá. Acho essa experiência legal.”

O Mercado Central é, de fato, um espaço gastronômico que atrai tanto pessoas de cidades do interior do estado quanto os belorizontinos. Esse equilíbrio também se observa no caso do médico psiquiatra Guilherme Loz, de 44 anos, frequentador assíduo do local.  “É uma tradição, eu venho na média de duas em duas semanas. É algo quase cultural, né?”, diz, animado.

Segurando o filho no colo, ele conta que o “rolê” foi a oportunidade ideal para apresentar o Mercado ao pequeno, mesmo que no futuro ele talvez não se lembre. “Ele tá todo deslumbrado. Parece um parque de diversão. É muita coisa, muito cheiro, né? Muito colorido.”

Guilherme fala com uma familiaridade que mistura afeto e hábito. “É um dos lugares que mais preservaram a cultura, a alimentação e a cozinha mineira. Você tem desde torresmo ao fígado com jiló, passando por cachaça, queijo canastra, doce de leite e linguiças artesanais. Quando você tem um espaço que concentra isso tudo, e um público que volta regularmente, você sustenta uma continuidade.”Com alegria, ele relembra tempos de faculdade. “Quando a gente se formava, tinha que vir aqui. Tomávamos cerveja e comíamos fígado com jiló”, recorda, rindo de nostalgia.

Caminhar pelo Mercado é atravessar corredores, você entra por um local e sai por outro completamente diferente. Como no filme “As Crônicas de Nárnia”, em que as crianças entram em um guarda-roupas e são transportadas para outro mundo, no Mercado basta dobrar um corredor para ser teletransportado para outro ambiente, sempre acompanhado do aroma acolhedor do café, tão típico do mineiro tradicional que não vive sem um “cafezim”.

Foto: Reprodução

Nesta aventura, nossa reportagem também conversou com o gastrônomo, confeiteiro e especialista em café, Vitor, de 35 anos. Mineiro de origem, ele passou mais de uma década em Recife e, hoje, sempre que está em BH, faz do Mercado uma parada obrigatória. “Eu sempre vinha pra feira de café aqui de BH e aproveitava para passar no Mercado para levar algumas coisas: queijos, doce de leite, goiabada. E também para comer fígado com jiló, pão de queijo com pernil e queijo Minas”, conta.

Vitor aproveita para relembrar momentos vividos ao lado da amiga Carol, que o acompanhava no dia da visita e sempre esteve presente nas viagens anuais para a Semana Internacional do Café (SIC). “A gente vinha todo ano pra SIC. Fazíamos sempre o mesmo roteiro: comíamos fígado com jiló, pão de queijo com pernil, tomávamos uma cachacinha, um chopp. Perfeito!”

A cada passo, percebemos que a culinária é uma grande peça que une as mais variadas histórias. É por meio dela que Daniele, recém-chegada do interior, se aproxima da capital; que Guilherme revive momentos da juventude com o filho nos braços; que Vitor reencontra raízes e memórias ao lado da amiga. No Mercado, comer ultrapassa a ideia de saciar a fome, é participar de algo coletivo, afetivo, profundamente mineiro. Rodeado pelo burburinho das pessoas e pelo cheiro de comida boa, há ali uma serenidade que não se vê, mas se sente. É a certeza de que muita coisa da culinária mineira continuará viva.

Numa época em que a pressa domina e o fast food ganha espaço, o Mercado surge como resistência. Um lembrete de que comer é mais do que matar a fome, é guardar memória, afetos e tradições que não podem desaparecer.


* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes