Quem é esse ser onipresente que conhece as histórias mais caóticas, denúncias, paixões passageiras e muito mais dos estudantes da UFMG 

Por Júlia Rhaine e Natália Carvalho 

Imagine que uma comunidade decida confiar, coletivamente, a uma única pessoa (que ninguém imagina quem possa ser) todos os seus anseios, dúvidas, indignações e possíveis interesses amorosos. Essa pessoa, por sua vez, ficará responsável por compartilhar essas mensagens com mais de 33 mil pessoas. Parece loucura, mas é exatamente assim que a comunidade universitária se relaciona com o Spotted.

Imagem da página do Spotted UFMG no Instagram 

O Spotted UFMG é um perfil no Instagram, não oficial da universidade, que é administrado anonimamente e funciona de forma bastante simples: tem uma reclamação, sugestão, informação de interesse da comunidade, um caso para contar ou quer encontrar aquela pessoa bonita que viu às 14h32 no Bandejão II, usando uma camisa verde e sandálias de couro? Basta enviar uma mensagem pelo direct. Em algumas horas ou dias, dependendo da demanda, a publicação aparece no perfil sem revelar a identidade do remetente, alcançando milhares de estudantes.

Mas uma dúvida que ronda os corredores da universidade é: quem administra essa grande ouvidoria geral de assuntos universitários? Qual a sua história? E nós fomos atrás da resposta.

Pedimos uma entrevista para a pessoa que é a Admin da forma mais Spotted e universitária possível: enviamos um direct explicando que a conversa ajudaria muito duas futuras jornalistas em busca de pontos para um trabalho final. E para nossa surpresa, essa figura anônima, que atende pela alcunha de Admin, aceitou.

Imagem da entrevista com a pessoa que administra o Spotted UFMG do Instagram 

A criação de um mito 

Pela primeira vez o silêncio foi rompido e a pessoa Admin concedeu uma entrevista. Com a câmera fechada e com o nome “Spotted”, a voz de quem administra a página com mais de 33 mil seguidores nos contou muito sobre o que é administrar tantas mensagens. Não vamos revelar o gênero da pessoa, mas uma característica tão importante quanto este marcador é que é uma pessoal muito gentil, aberta e interessada pela vida da comunidade acadêmica. Nesta reportagem, o pronome feminino “ela/dela” será empregado se referenciando à “pessoa”, e não à uma mulher necessariamente.

O perfil do Spotted foi criado em 2019 por uma pessoa caloura do curso de humanas. Naquele ano, a UFMG começou a instaurar as bancas de heteroidentificação para as cotas. A criadora original teve sua matrícula indeferida por essa banca e, após não conseguir o recurso, postou uma mensagem perguntando se alguém gostaria de ajudá-la com a página. “Na época, respondi: "Sim". O perfil tinha uns 50 seguidores. Era uma coisa muito mais dos cursos de humanas”, explica a Admin.

Por um período, a pessoa que administra o Spotted contou com a ajuda de outra pessoa da UFMG. Atualmente, essa segunda pessoa ainda faz parte da equipe, mas não realiza as postagens propriamente ditas; ela atua apenas na retaguarda, ajudando a avaliar se algum conteúdo é nocivo ou se deve ser publicado. Portanto, na "comissão de frente" das postagens, nossa Admin trabalha só.

E para quem acha que a Admin tem muito tempo livre para lidar com o fluxo das mensagens, se enganou. Além de administrar o Spotted, ela ainda estuda na UFMG, mas não está na graduação, e sim no mestrado. Ao ser questionada sobre como se definiria, Admin se descreveu como uma pessoa “atenta, direta, um pouco ácida” , mencionando que não tem muita paciência para certas coisas, e “fofoqueira”, afirmando que essa palavra não poderia faltar. 

Na vida cotidiana, poucas pessoas do convívio sabem que ela comanda o perfil. A Admin opta por manter seu rosto e identidade em segredo. “Algumas pessoas falam: nossa, mas por que que você não coloca o seu rosto, você não quer ser famosa? Eu acho que é uma contraproposta da página”. O anonimato faz com que as pessoas se sintam mais confortáveis e seguras para enviar suas mensagens, sabendo que a identidade de quem recebe também é invisível.

Bastidores e rotina de administração

A rotina é muito influenciada pelas demandas pessoais da pessoa administradora – semestre acadêmico, trabalho e mudança de casa. Ela tenta não entrar na página aos finais de semana, concentrando as atividades durante os dias úteis, sem um número fixo de postagens diárias.

Desde o começo, havia o cuidado de não expor as pessoas em 100%. Mesmo diante de comportamentos moralmente incorretos, a administradora evita expor indivíduos ou histórias que possam gerar grandes problemas, optando por censurar características específicas. 

No início, a conta quase caiu algumas vezes porque o algoritmo do Instagram derrubava algumas publicações. “Só o dia a dia mesmo que a gente vai pegando esse traquejo. O Instagram derrubava muita coisa por conta de algumas palavras que ele compreendia como ‘preocupantes’, por exemplo, a palavra preto, mesmo se fosse referindo a cor de roupa. Por isso hoje em dia tem a política de riscar essas palavras”. Continua: “Inclusive, hoje a gente não posta quase nada sobre professores, porque professor ameaça de processo”. 

Embora o fluxo de mensagens seja muito grande para investigar todos os usuários, Admin confessou que às vezes "dá uma bizoiada" ou "stalkeia" os perfis de quem envia mensagens, especialmente quando se trata de histórias muito absurdas, mirabolantes ou reclamações. “É raro, porque como é um fluxo muito grande de mensagens, não tem tempo, às vezes que eu tô stalkeando alguém, é o tempo que eu poderia estar printando mais conversas”.

Durante a entrevista perguntamos se Admin já passou por alguma situação engraçada e ela respondeu que sim, algumas vezes: “Aconteceu isso recente, foi engraçado, eu tava com alguns amigos em um bar, e uma amiga falou: ‘uma vez eu recebi um spotted, e queriam saber o que aconteceu comigo, porque eu estava no icex chorando’, e aí eu fiquei igual aquele meme do cara no canto da sala, só observando”. 

Histórias marcantes

Um dos casos mais marcantes relatados pelo administrador envolveu uma estudante de Direito que era perseguida por um colega da própria turma. O rapaz criou um perfil falso para se aproximar dela e enviava mensagens por meio do Spotted, fingindo ser um admirador secreto. A partir dessas interações, a estudante passou a flertar com o perfil fake e acabou iniciando um relacionamento virtual com a pessoa por trás da conta falsa.

Algum tempo depois, ela começou a namorar presencialmente esse mesmo colega, sem saber que ele era o responsável pelo perfil fake. Quando decidiu encerrar o relacionamento, o rapaz não aceitou o término e passou a persegui-la. Segundo o relato, ele chegou a tentar contra a própria vida e foi até a casa da estudante, pulando o muro da residência.

A situação levou a estudante a procurar a página para solicitar a remoção das publicações enviadas pelo ex-namorado. Durante o processo, descobriu-se ainda que uma suposta amiga do rapaz, que frequentemente intercedia em seu favor, também não existia: tratava-se de outro perfil falso criado por ele. Admin descreveu o caso como uma verdadeira “quimera de fakes”.

Entre as histórias uma delas é especialmente querida tanto pelo administrador quanto pelas entrevistadoras. Envolvia uma estudante que enviou uma mensagem declarando o desejo de "lamber as botas dos guardas" da universidade.

Outro caso foi o de um aluno, frequentador do Centro Esportivo Universitário (CEU), que utilizava o Spotted para procurar pessoas dispostas a vender ou emprestar seus calçados esportivos para que ele pudesse cheirá-los. A história circulou por bastante tempo como uma espécie de lenda universitária, até que o vazamento de um vídeo do estudante levou muitos usuários a associarem sua identidade aos antigos spotteds, confirmando os rumores que circulavam.

Apesar dos relatos caóticos, a página também acumula experiências positivas de aproximação entre estudantes. Segundo Admin, diversos casais se conheceram por meio do perfil, e pelo menos dois deles chegaram ao casamento. Todas essas histórias ocupam um lugar especial em seu arquivo pessoal. Admin conta que mantém uma pasta específica no computador para guardar as publicações e os relatos que considera mais marcantes. 

Quem será a próxima personalidade a administrar o Spotted UFMG? 

Admin revela que pretende passar o perfil para outra pessoa nos próximos meses, já que seu tempo está cada vez mais escasso. A ideia é abrir uma espécie de processo seletivo, com anúncio da vaga e realização de testes. 

Inclusive, a preservação do anonimato é o que mais preocupa Admin quando pensa em encontrar alguém para assumir a página. A transição é considerada delicada porque exige um alto nível de confiança. A atual alma do Spotted teme que um novo gestor possa expor usuários, comprometendo a relação de anonimato e credibilidade construída ao longo dos anos. “Eu tenho que confiar muito na pessoa. Eu não quero que alguém exponha todas as coisas e o rosto dessas pessoas. Porque eu acho que existe uma confiança na página porque nada nunca vazou”, explica.

Enquanto a sucessão não acontece, o Spotted UFMG segue cumprindo a sua missão: reunir crushes, reclamações, histórias improváveis, lendas universitárias e, ocasionalmente, futuros casamentos. Afinal, em uma universidade com milhares de estudantes, sempre haverá alguém com uma denúncia engasgada ou uma paixão a ser declarada em voz alta.

  • Como fechamento, Admin deixa um recado final para os seguidores da página: "Beijo pessoal que acompanha o Spotted. Muito obrigada. Espero que vocês tenham gostado da entrevista da Júlia e da Natália. É isso, um beijinho. Garota do blog”.