Como a monetização transformou o debate sobre futebol e NBA em um mercado de conflito, atenção e disputa por cliques
Por Andrei Megre, Lucas Carmona e Vinícius Yutaka

No X (antigo Twitter), o esporte virou espetáculo também fora de campo. Esse fenômeno não se restringe a uma única modalidade e pode ser observado em diferentes esportes, onde torcidas, debates acalorados e rivalidades funcionam como matéria-prima para a lógica do engajamento. Ainda assim, nas comunidades brasileiras dedicadas à NBA, o principal torneio de basquete do mundo, e ao futebol, esse movimento ganha contornos mais visíveis e intensos. A partir do momento em que a plataforma passou a remunerar criadores com base em visualizações e interação, em meados de 2023, o debate esportivo passou a operar cada vez mais sob a lógica da monetização.
Nesse cenário, as discussões deixaram de ser apenas expressão de paixão clubística e passaram a se transformar em um terreno fértil para o rage bait, postagens calculadas para irritar, provocar e estimular reações em massa. Quanto mais curtidas, comentários e compartilhamentos, maior a recompensa, o que acaba incentivando um ciclo vicioso de conflitos fabricados, exageros e narrativas infladas. É nesse ambiente que se estruturam as bolhas analisadas por esta reportagem, com atenção especial aos universos do futebol e da NBA.
O termo “rage bait”, inclusive, foi eleito o termo do ano de 2025 pela Oxford University Press. Esse reconhecimento reforça a gravidade da dinâmica que tentaremos destrinchar: o esporte, assim como outros temas sensíveis à emoção coletiva, vira terreno fértil para postagens pensadas puramente em engajamento, sem compromisso algum com a verdade, apenas focadas em “hitar”, isto é, ter um engajamento acima da média.
O que pode parecer espontâneo, como torcedores debatendo com fervor, memes de rivalidade e threads polêmicas sobre lances duvidosos, muitas vezes não passa de uma estratégia calculada, calibrada para explorar raiva, polarização e pertencimento a grupos. A consagração de “rage bait” como termo do ano mostra que essa prática já ultrapassou nichos específicos e passou a fazer parte da lógica dominante da comunicação digital. Nesse cenário, a arquibancada online deixa de ser apenas um espaço de interação, feita de comentários e memes de torcedores, e passa a funcionar também como um ambiente orientado por incentivos algorítmicos e financeiros.
Perfis de todos os tamanhos, seja aqueles com pouco seguidores até as páginas com milhões, de jornalistas e influenciadores até contas anônimas, aprenderam a explorar essa lógica do algoritmo, criando rivalidades artificiais e alimentando discussões intermináveis. Em um ambiente onde cada visualização pode se converter em dinheiro, a polêmica virou estratégia.
Quem ganha com essa dinâmica e o que se perde quando o debate esportivo vira moeda de troca. Em meio a torcidas que se organizam digitalmente, influenciadores que disputam atenção a cada rodada e jornalistas pressionados por métricas, o X se consolida como um espelho de um novo tipo de arquibancada: hiperconectada, monetizada e permanentemente em conflito. Para entender esse fenômeno por dentro, a reportagem entrevistou o dono de uma página esportiva do X, que preferiu não ter seu nome divulgado, e o professor Eduardo Lopes Oliveira, mestre em Comunicação Social pela UFMG e especialista em plataformas digitais e engajamento.
Das estatísticas às ofensas
É comum ver postagens no X que distorcem estatísticas, exageram comparações entre jogadores ou lançam provocações vazias apenas para “puxar o bonde” da interação. Na comunidade brasileira da NBA, por exemplo, é frequente o embate entre fãs de astros como Shai Gilgeous-Alexander, Nikola Jokic e Luka Dončić, que se atacam diariamente por meio de threads (sequência de tweets) inflamadas. No futebol, o mesmo ocorre entre torcedores de clubes rivais, discussões que começam em lances duvidosos e terminam em insultos pessoais.
Essa lógica cria o que especialistas de redes sociais chamam de “bolhas esportivas”: grupos de usuários que consomem e reforçam apenas conteúdos que confirmam suas próprias opiniões. Dentro delas, o algoritmo age como árbitro invisível, amplificando o que gera emoção e deixando de lado o que promove reflexão. O resultado é um debate cada vez mais polarizado, em que a busca por engajamento se sobrepõe à busca por informação.
“O próprio conceito de bolha é muito controverso. Mas essas lógicas são todas baseadas em interação. Os algoritmos funcionam o tempo todo em teste ‘AB’. Eles te mostram um conteúdo que é relevante para pessoas com um comportamento similar ao seu e testam se você realmente se engajou”, nos conta Eduardo.
O professor explica que nessas bolhas, a opinião contrária dificilmente entra como contraponto legítimo, e passa a ser tratada como ataque. O efeito é um empobrecimento do debate, em que estatísticas são usadas de forma seletiva, erros são ignorados quando favorecem a própria narrativa e qualquer discordância vira motivo de confronto. A lógica do “nós contra eles” se intensifica, fortalecida pela repetição constante das mesmas ideias, perfis e discursos.
Com isso, o espaço que poderia servir à troca de argumentos e à construção coletiva de sentido se transforma em um território de reafirmações e disputas simbólicas. O torcedor deixa de dialogar para performar, não fala para convencer, mas para vencer o debate a qualquer custo. Nesse ambiente, o esporte, que historicamente também foi espaço de encontro e sociabilidade, passa a ser atravessado por uma dinâmica de isolamento em grupo, onde cada bolha constrói sua própria versão da realidade.
Entrevistamos um influenciador do X, presente tanto na bolha do futebol quanto do basquete, para entender como ele começou sua jornada na rede. A criação da página surgiu quando a própria plataforma passou a ocupar um espaço central em sua rotina de sociabilidade. Segundo ele, o seu debate sobre esporte migrou quase por completo para a rede, substituindo interações presenciais e perfis pessoais. Aos poucos, ele percebeu que participava de um sistema de camadas fechadas de circulação de conteúdo. “Eu acho que estou em uma bolha. O Twitter é uma bolha muito grande. E é uma bolha dentro da outra “, conta. Nessas bolhas, comportamentos extremos deixam de ser exceção e passam a ser parte da lógica cotidiana, especialmente nas comunidades ligadas à NBA.
“O Timberwolves Brasil uma vez postou um textão falando que não seria feliz enquanto Andrew Wiggins não morresse, que ele ia dedicar a vida para isso. São coisas que dentro da comunidade as pessoas acham graça, mas se alguém de fora vê, acha bem estranho.”, relata o influencer.
Andrew Wiggins foi a primeira escolha geral do draft de 2014 da NBA, chegando ao time Minnesota Timberwolves com grandes expectativas. Entretanto, o atleta não correspondeu às esperanças da torcida, vivendo altos e baixos na equipe, o que motivou a página Timberwolves Brasil a fazer o tweet abaixo:

Essa página, inclusive, tinha como característica esse humor mais pesado e áspero, algo bem comum em algumas bolhas do “X”. Esse tipo de linguagem, frequentemente marcado por ironias agressivas e exageros, costuma ser naturalizado dentro dessas comunidades, onde os limites do aceitável são constantemente deslocados em nome do entretenimento, da provocação e do engajamento.
Mas, curiosamente, no início de 2024 o perfil se envolveu em uma polêmica que fez com que a página sofresse um retalhamento por parte da própria comunidade, recebendo um “hate”, isto é, uma série de críticas e unfollows, tão intenso que o dono acabou desativando a conta. A reação aconteceu após uma série de interações entre o perfil “Timberwolves Brasil” e uma influenciadora conhecida por publicações de cunho racista. O episódio se tornou um marco ao demonstrar que, mesmo em bolhas mais permissivas e acostumadas ao excesso, ainda existem limites simbólicos que, quando ultrapassados, provocam rupturas internas.
O entrevistado, além de optar por não se identificar na reportagem, também não mostra sua real identidade no X. A decisão de se manter no anonimato, além de ser por questão de privacidade e segurança pessoal, parte da engrenagem de proteção construída por quem lucra, ainda que parcialmente, com a própria persona digital. Ele relata que evita qualquer exposição fora da internet por receio das implicações que o personagem pode gerar no mundo real. “Eu não sou ninguém, eu não sou o Barack Obama para me esconder. Mas eu tenho muitos amigos que têm páginas relevantes. O povo pega foto deles e fica fazendo gracinha. Isso é uma coisa que eu quero evitar.”
O professor Eduardo falou um pouco sobre a frequente relação que ocorre entre o X (antigo Twitter) e a violência e o ódio reproduzidos pelos usuários da plataforma.
“Não sei se o Twitter tem mais ódio do que outros lugares. Mas com certeza, no Twitter você precisa fazer menos esforço para chegar a um conteúdo odiento, principalmente depois da aquisição pelo Elon Musk, em 2023, quando as regulamentações foram alteradas. A primeira grande diferença foi essa timeline de curadoria algorítmica. Ele também apostou em uma liberalização, no afrouxamento de regras de conteúdo sensível e conteúdo de ódio. Tem várias mudanças objetivas específicas.”
O que é feito na plataforma é uma tentativa de liberar o máximo de assuntos e tópicos possíveis, para que tudo isso seja permitido na plataforma e ainda mais interações e discussões sejam geradas. Inclusive, esses assuntos mais polêmicos e pesados, obviamente, geram bastante discussão. Conversando com o especialista, ele fez uma análise do que gera essas reações no público.
“Quanto mais passional, mais dispostas as pessoas estão para se engajarem com o tópico. O futebol é um tópico de interesse especialmente relevante porque ele é basicamente onipresente na sociedade brasileira. E é muito fácil gerar engajamento com futebol, porque a relação das pessoas é muito passional.”
O esporte por si só, já gera essa paixão e irracionalidade em muitas pessoas. E no “X” (Twitter), talvez os usuários sintam uma liberdade maior nessa plataforma, podendo falar praticamente o que quiserem ao abordar os assuntos que mais gostam e também dos que mais odeiam.
Essa interação é promovida pela própria plataforma, que além da possibilidade de comentar nos posts, também permite ao usuário republicar um tweet com o seu comentário. O professor Eduardo explica que, para o X, a polarização é algo positivo, tendo em vista que gera mais engajamento, e consequentemente, tempo de tela no aplicativo.
“O Twitter ainda tem o ‘repost comentado’. Essas dinâmicas são feitas pensando nessa radicalização. Ele quer que todo mundo que concorda responda e todo mundo que discorda também responda.”
Diante desse cenário, o que se vê é uma consolidação de um ecossistema em que a emoção vale mais que a informação, e a provocação rende mais que a apuração.
Quando reagir em tempo real passa a valer dinheiro
Eduardo explicou que o funcionamento do X está diretamente ligado à lógica da chamada “segunda tela”, que se consolidou como o principal modo de uso da plataforma. Nesse modelo, o que movimenta as interações nem sempre é o que acontece dentro da própria rede, mas, quase sempre, algo externo, um jogo, um lance polêmico, uma entrevista, um erro de arbitragem. A provocação nasce desse deslocamento entre o acontecimento e sua repercussão digital, transformando o aplicativo em um espaço de reação imediata, onde o comentário, a ironia e o confronto passam a existir em ritmo acelerado, alimentados pelos acontecimentos fora da tela.
“O Twitter desde sempre tem uma natureza de segunda tela. É um hábito o liveposting, as pessoas comentando eventos em tempo real. A grande diferença da plataforma é a efemeridade. Espera-se que aquela mensagem funcione em um tal contexto e em uma tal janela de tempo.”
Esse curto “prazo de validade” que a maioria dos tweets tem acaba gerando uma atividade muito grande no aplicativo. A todo instante novos assuntos, notícias e discussões se espalham por ali. Em uma rede que o engajamento pode ser recompensado financeiramente, a provocação deliberada aparece como método estruturado de produção de conteúdo: “Uma das maiores estratégias é fazer afirmações. Vai ter quem concorda, vai ter quem discorda. Todo mundo responde. Isso gera o engajamento. É tipo um rage bait mesmo.”, explica o criador de conteúdo entrevistado.
Em alguns casos, ele admite publicar opiniões nas quais não acredita, apenas para ativar reações em cadeia. O objetivo deixa de ser a construção de um argumento e passa a ser a maximização do alcance. A desinformação, a distorção de dados e as comparações forçadas operam, assim, não como desvios, mas como ferramentas recorrentes dentro da lógica da plataforma.
Esse comportamento é diretamente estimulado pela monetização. Segundo o criador, os pagamentos quinzenais representam um reforço concreto para a continuidade dessas práticas, sendo uma boa renda extra. Ele também afirma conhecer perfis que transformaram o engajamento em renda principal, algo que se intensificou após a compra da plataforma por Elon Musk, em 2023. Para ele, a sensação é de que as barreiras de responsabilização foram enfraquecidas. Nesse cenário, o conflito deixa de ser um subproduto indesejado do debate esportivo e passa a se consolidar como um ativo econômico, no qual cada curtida, resposta ou xingamento pode ser convertido em dinheiro.
Mas até mesmo a compreensão de como funciona a monetização e os algoritmos do “X” são bem confusas. Tanto para os usuários comuns, quanto para os próprios influenciadores, que ganham dinheiro na plataforma. Até mesmo para quem estuda esse tópico, o aplicativo é bem misterioso nesse aspecto. Só que é algo intencional.
“O método de remuneração de plataformas como o Twitter é propositalmente opaco. Eles apostam em uma estratégia de ‘encaixapretamento’ – que é transformar a lógica disso obscura, para que as pessoas tentem de tudo, e tudo isso para a plataforma é válido.”

Quanto mais formas a comunidade encontrar para tentar “hitar”, mais vantajoso é para a plataforma. E ela nunca irá entregar a “receita” de como funciona seu algoritmo, justamente para incentivar as pessoas a sempre tentarem as mais diversas estratégias em busca de engajamento. Algo que pode acabar entrando em um caminho perigoso, assim como o nosso outro entrevistado havia dito. É importante ressaltar que, apesar das diretrizes da plataforma proibirem propagação de ódio, o que se vê na prática é totalmente diferente, especialmente após a compra de Musk.
A monetização transforma o debate esportivo em um campo de disputa permanente, no qual torcer, opinar e atacar passam a ser ações atravessadas por interesses econômicos. O algoritmo não apenas organiza o que circula, mas regula os comportamentos e incentiva excessos, normalizando o conflito como forma legítima de participação.
O público, muitas vezes sem perceber, é inserido nessa grande engrenagem. Entre um tweet polêmico e uma rivalidade fabricada, o torcedor deixa de ser apenas um espectador e passa a atuar como peça chave do sistema, que depende dele e de sua reação para continuar girando.
Nesse cenário, o engajamento, vendido como participação ativa, transforma-se no principal combustível da plataforma. A interação deixa de ser apenas um gesto de expressão para se tornar uma engrenagem que incentiva a polarização, o conflito e a radicalização das posições. Aos poucos, os espaços de diálogo e reflexão vão sendo reduzidos, substituídos por embates rápidos, superficiais e emocionalmente carregados.
Assim, o X se firma como a arquibancada de um novo tempo: não apenas barulhenta, mas monetizada, medida em métricas e atravessada por disputas invisíveis ao olhar comum. Entre curtidas, reposts e comentários inflamados, permanece a pergunta central que atravessa esta reportagem: quem realmente ganha quando o ódio vira ativo, a paixão vira produto e o esporte, mais uma vez, é capturado pela lógica do lucro digital?
* Reportagem produzida na disciplina “Esportes e mídia: do impresso às plataformas digitais”, coordenada por Taynara Gregório e Ives Teixeira Souza, sob a supervisão de Bruno Leal