Estabelecimentos de imigrantes chineses viram ponto de encontro entre culturas no centro de BH
Ana Júlia Corrêa, Ana Luiza Nunes, Isabella Neres
A comunidade chinesa presente nas imediações dos shoppings Oiapoque e Xavantes, na região central de Belo Horizonte, é muito conhecida por aqueles que gostam de comprar peças de roupas, eletrônicos e utensílios diversos por um valor mais em conta. Mas quem vai até a região apenas pela variedade de importados talvez não tenha percebido que no baixo centro da capital mineira tem acontecido um crescimento expressivo de restaurantes e mercados voltados à culinária asiática, especialmente a chinesa. Com isso, a região se torna um ponto de encontro entre culturas e em uma nova rota gastronômica para quem busca sabores vindos do outro lado do mundo.
No Mercadinho da Sassá, localizado ao lado do shopping Oiapoque, o fluxo de clientes é constante. O local destoa do ambiente ao redor: nas prateleiras há embalagens com cores vibrantes, rótulos em logogramas (sistema de escrita do chinês) e sabores que diferem do cardápio brasileiro, como o pé de pato apimentado vendido como snack.

A loja surgiu há cerca de três anos e meio, a partir da iniciativa de Sassá, comerciante chinesa que antes mantinha uma loja de eletrônicos. Segundo a funcionária Ariane Márcia, a mudança de segmento veio como alternativa diante das dificuldades do comércio de tecnologia, e, com o tempo, o novo formato foi se consolidando. Os miojos extra picantes são os produtos que mais fazem sucesso, de acordo com a atendente.


Outro ponto visitado pela reportagem foi o restaurante Casa do Bambu, aberto em março de 2025, também na região do chamado comércio popular e a cerca de 250 metros do shopping Oiapoque. A proprietária, Jia Li, vive no Brasil há dois anos e administra o local ao lado de um colega, responsável pela cozinha. Ela fala pouco português, por isso, não quis se estender muito ao falar sobre a história do restaurante. Mas ela conta que decidiu abrir o estabelecimento por necessidade de trabalho, aproveitando o fato de que parte de sua família já atuava no comércio no centro de BH há cerca de uma década.

O local começou sendo frequentado por chineses que trabalham nas proximidades, inclusive, até hoje, grande parte das vendas são de entregas para esses clientes. Com o passar dos meses, mais brasileiros passaram a frequentar o local, impulsionados pelo interesse crescente na culinária oriental. Os pratos mais populares são o lamen de camarão e o macarrão de arroz frito, ou “海鲜” e “炒粉干” como identificados no cardápio do local. Jia Li explica que todos os pratos são preparados da forma tradicional chinesa, sem incorporações da culinária mineira. Mas isso não parece impedir o local de ter as mesas sempre cheias e clientes com caras mais que satisfeitas.

Entre obstáculos e persistências
Apesar da crescente popularidade desses locais, manter um negócio com comida asiática no centro de Belo Horizonte ainda envolve muitos desafios, entre eles a barreira linguística. Muitos comerciantes dependem de familiares ou funcionários brasileiros para conseguir atender os clientes e lidar com questões administrativas. Alguns funcionários brasileiros relatam, ainda, que mal conseguem se comunicar com os próprios chefes mesmo trabalhando há anos no estabelecimento por não saberem falar chinês. Ariane, atendente do Mercadinho da Sassá, conta que por muito tempo se sentiu insegura para realizar as vendas, já que não sabia nada sobre os produtos, para que serviam, e também não entendia os escritos das embalagens. Com a experiência ela foi ganhando mais confiança e agora já apresenta os produtos para todos que chegam e sabe localizar exatamente onde cada mercadoria está.
Ariane conta que a loja se mantém também pelo senso de colaboração entre os comerciantes chineses da região. Muitos empresários se organizam para dividir o custo do transporte de mercadorias vindas de São Paulo, o que ajuda a manter os preços acessíveis e o estoque sempre abastecido.
Além disso, há entraves burocráticos e logísticos como a importação de produtos, o custo dos ingredientes e as exigências sanitárias brasileiras exigem esforço e adaptação constantes. Mas, mesmo assim, os empreendedores chineses persistem, não apenas por necessidade de trabalho, mas pelo desejo de manter viva a própria cultura em um espaço que, pouco a pouco, aprende a saboreá-la.
Das redes para os pratos
Ariane conta que, nos primeiros meses, a clientela do mercadinho era composta majoritariamente por chineses e coreanos que trabalhavam na região e procuravam produtos típicos de seus países. Com o tempo, a loja passou a atrair cada vez mais brasileiros. Ariane reconhece que o público jovem, especialmente fãs de doramas e animes, é hoje parte significativa dos visitantes, interessados em experimentar doces, bebidas e alimentos que veem nas produções asiáticas. Ela diz que o estabelecimento se tornou referência até mesmo para pessoas de outros estados, que fazem da loja um dos pontos turísticos da capital mineira.
Mesmo localizado no centro de BH, as redes sociais têm papel central na popularização desses espaços. A divulgação espontânea feita por clientes e influenciadores tem ampliado o alcance desses negócios, ajudando a consolidar uma cena gastronômica que combina tradição e curiosidade cultural. O Mercadinho da Sassá, por exemplo, foi divulgado na página “Curte BH”, com mais de 1 milhão de seguidores no Tiktok, e desde então teve as vendas impulsionadas. O mesmo aconteceu com o restaurante Casa do Bambu, que foi reconhecido pelos internautas como uma opção diferente e barata para se comer bem na região.

O interesse por descobrir o novo parece superar a necessidade de adaptação. Em Belo Horizonte, a curiosidade tem sabor estrangeiro. Os restaurantes chineses não precisam mudar seus temperos para agradar: o público quer justamente aquilo que é diferente; o gosto de outro lugar, mas em um ambiente muito familiar. No encontro entre o paladar mineiro e a autenticidade oriental, a cidade revela um apetite crescente por diversidade, e mostra que há espaço de sobra para o mundo inteiro caber em um prato.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes