Trabalho informal na universidade como cabeleireiro mantém estudante na graduação
Por Lorena Vieira
Ao caminhar pelos corredores da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) é possível notar uma diversidade de cartazes que anunciam algum tipo de serviço – aulas, venda de comidas, brechós – mas, um em específico chama atenção: um cabeleireiro que atende no prédio. No terceiro andar, na sala do centro acadêmico dos cursos de comunicação (Comunica), além dos sons comuns de conversas de alunos, músicas e risos, um ruído não rotineiro assume seu protagonismo: o barulho de uma máquina de cortar cabelo.

Lucas Alves, de 21 anos, mais conhecido como “Ducone”, é estudante de Jornalismo e fruto de uma família simples residente em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte. Ducone conseguiu acessar o ensino superior devido aos seus pais. Eles sempre trabalharam para que os filhos tivessem a oportunidade de estudar, realidade essa negada ao casal que veio do interior de Minas em busca de melhores condições de vida. Mesmo com condições mais favoráveis que a deles, Lucas também enfrentou dificuldades ao ingressar na vida acadêmica, tentando conciliar os estudos com uma atividade que gerasse renda para se manter na capital mineira.
O apelido foi recebido quando comercializava cones trufados no campus do CEFET, onde estudou no ensino médio. “O menino que vende cone; o menino do cone, e aí fiquei sendo chamado assim”, conta Ducone. Na graduação não foi diferente, precisava trabalhar para conseguir estudar. A venda do famoso doce não dava mais o retorno financeiro que Lucas precisava.
Foi quando decidiu migrar de área e se tornar “o cabeleireiro da FAFICH”. A ideia também veio a partir da demanda que estudantes têm de necessitarem de cuidados estéticos, mas não terem tempo para de deslocar até um salão de beleza ou barbearia. E ali, entre o intervalo de uma aula e outra, é só dar uma passada no Comunica que você sairá com o visual renovado. A adesão foi tão grande que Lucas precisou contratar um sistema de agendamento para dar conta da demanda do público, que deixou de ser apenas estudantes para ter também em sua clientela professores e funcionários do campus.
O cabeleireiro coleciona clientes que se tornam amigos, e a sala onde são realizados os cortes de cabelo se transforma em uma verdadeira sala de terapia, onde escuta desabafos, decepções amorosas, fofocas e reclamações sobre professores. Ducone cativou amizades e a clientela até dos guardas que fazem a vigilância dos prédios do campus, que só cortam cabelo com o estudante.

O estudante Ducone, devido à grande demanda, muitas vezes troca o horário em que deveria estar em aula para cortar mais cabelos e ter uma renda extra para sobreviver durante o mês. O retorno financeiro fez Ducone repensar o estágio que realizava, e até a graduação escolhida, já que a maioria dos estágios não chegam a pagar um salário mínimo. Isso torna inviável a subsistência de jovens que moram sozinhos porque precisam estudar, como Lucas, que reside na capital para ficar mais próximo da universidade.
Cortes orçamentários e bloqueios financeiros por parte do governo federal tem dificultado ações de assistência da universidade e afetam estudantes de baixa renda, que precisam do recurso distribuídos pela FUMP (Fundação Mendes Pimentel) e PRAE (Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis), que têm cada vez menos bolsas para repassar para os alunos. Segundo declaração da presidenta do conselho diretor da Fump, professora Teresa Kurimoto, ao boletim da UFMG em julho passado, 51% dos estudantes de graduação ingressam pelas ações afirmativas e, em 2024, 9,2 mil pessoas foram atendidas pela Política de Permanência da universidade. Ela informa ainda que cerca de 17 mil discentes de graduação têm renda per capita abaixo de um salário mínimo.
O Brasil registrou quase 8 milhões de jovens entre 15 e 29 anos que conciliam estudo e trabalho em 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso representa 15,7% da população nessa faixa etária. Histórias como a de Lucas, revelam uma realidade invisibilizada: a de universitários de baixa renda que precisam encontrar na própria universidade um meio de subsistência. Para esses jovens, a UFMG não é apenas espaço de formação acadêmica, mas também de geração de renda, fator crucial para sua permanência. E a partir do momento em que um trabalho informal paga mais que uma atividade em que, para sua realização, é necessário ter formação acadêmica, não é de se estranhar alguém questionar se estudar vale a pena.
* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Elton Antunes