Adaptação, saudade e novos desafios. Como estudantes lidam com a vinda para UFMG em busca de oportunidades acadêmicas.

Por João Pedro Rocha e Vitor Pepino

Rafael Souza é o primeiro de sua família a se formar em uma Universidade Federal. Foto: Arquivo Pessoal.

“Não conhecia ninguém. Isso me desmotivou bastante no início, então já estava descrente para a realização da mudança para cá. Liguei para o colegiado e comuniquei que gostaria de realizar o trancamento total da matrícula, então a Sônia Caldas, que era a coordenadora do colegiado, me incentivou a ir e procurar um local para morar, e eu vim”. Sem um lugar para ficar e com dificuldades financeiras, Rafael Souza Silva saiu, aos 23 anos, de Arujá, cidade da região leste metropolitana de São Paulo, rumo a Belo Horizonte para cursar Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Mesmo com todas as dificuldades, Rafael foi para Belo Horizonte no dia 8 de maio de 2022, tendo apenas três dias para encontrar o que seria sua casa pelos próximos anos. Depois de inúmeras tentativas frustradas e já a caminho da Universidade para comunicar o seu trancamento, uma mensagem de última hora de uma república estudantil e a ajuda de uma colega de sala mudaram o rumo da história. “Ela guardou minhas malas enquanto eu ia conhecer a república, onde moro até hoje”, conta o paulista.

Assim como a história de Rafael, milhares de alunos enfrentam as dificuldades que é mudar de cidade para realizar o tão sonhado curso. Segundo dados do GLOBO de 2022, na UFMG, dos 34 mil estudantes de graduação, aproximadamente 20% são de fora de Minas Gerais, refletindo a necessidade de uma rede de acolhimento e apoio dentro das universidades.

Atualmente mais de 120 instituições utilizam o Exame do Ensino Médio (ENEM) por meio do Sistema único de Seleção (SISU), permitindo o estudo em qualquer universidade no Brasil. De acordo com o Governo Federal, em 2024 foram 4,3 milhões de pessoas inscritas para realizar a prova.

Conforme o Mapa da Educação Superior do Instituto SEMESP divulgado em 2024, Minas Gerais teve 49,8% de taxa de desistência em redes privadas e públicas, de forma a demonstrar um problema na educação brasileira: a alta evasão.

 

De acordo com a divulgação do Censo da Educação Superior de 2023, o secretário de Educação Superior do MEC, Alexandre Brasil, afirma que: “No caso das federais, tem todo o desafio de investir na consolidação, na construção de restaurantes universitários e de moradias estudantis. A preocupação é fortalecer a permanência, o acesso e oferecer recursos para os que os estudantes terminem os cursos, para ampliar a educação superior e contribuir no desenvolvimento desse país”, opinou.

Por ano a UFMG oferece 6.400 vagas para graduação. Foto: Foca Lisboa, UFMG

Na cara e na coragem

Foto: Arquivo Pessoal

“Na cara e na coragem”, é como Carlos Lorran, de 23 anos, define sua decisão de vir para Belo Horizonte estudar o tão cobiçado curso de medicina. Vindo do interior da Bahia, Carlos foi mais um dos estudantes que tiveram à sua frente a decisão de sair do conforto de casa para buscar melhores oportunidades, que, de acordo com ele, vão ser mais oferecidas estando na UFMG.

Assim como uma grande parte de ingressos à capitais, o tamanho da cidade e sua dinâmica, de início, gerou um susto em Carlos. “O processo de mudança foi complicado para se adaptar, para conhecer a cidade, vim de cidade pequena”, conclui o estudante.

Período de adaptação

Muitos estudantes se tornam seguidores fiéis de esportes e modalidades em grupo para tornar o processo de mudança mais leve. Entrar nas equipes das atléticas presentes dentro da faculdade abre portas para novas interações e amizades com alunos mais experientes e também com aqueles que vivenciam o mesmo processo de mudança.

Adepto da prática de esportes, Rafael buscou no time de futebol da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) uma forma de se adaptar e fazer amizades. “Eu entrei para a FAFUT, já que sempre fui um cara adepto de modalidades esportivas, busquei justamente algo que me fizesse bem. Treinar e resenhar aos sábados fazia muito bem para mim, ainda mais porque naquele contexto enquanto fumpista não pagava treino, então não me prejudicava financeiramente”, conta.

Além do futebol, outra paixão na vida de Rafael é a música. Estando em Belo Horizonte, sua relação com eventos culturais e consumo da cena de RAP cresceu. “Em BH os espaços culturais são mais acessíveis morando perto da região central, meu primeiro show de RAP foi no Beagrime, rolê que entrei de graça e assim foi também na virada cultural”.

Hoje, o paulista faz estágio na Secretaria de Comunicação de Minas Gerais, visita sua família em São Paulo sempre que pode e enxerga sua história com orgulho, “a mudança me desenvolveu coragem, tanto para arriscar no trabalho quanto para fazer novas amizades. Hoje bem adaptado e com laços afetivos, consigo realizar coisas que o Rafael dos primeiros semestres não conseguia”, afirma o estudante.

Em um início similar ao de Rafael, Carlos Lorran chegou à Universidade com saudades de casa, mas precisava de se adequar à nova vida. “Uma das principais dificuldades foi a locomoção, conhecer a cidade. Em comparação ao interior, em BH, as coisas são mais longes”, destaca Carlos sobre seu período de conhecimento do espaço belo-horizontino.

Políticas de permanência

No caso da UFMG, a Fundação Universitária Mendes Pimentel (Fump) é a responsável pela assistência estudantil, fornecendo desde alojamento, até auxílio financeiro e gratuidade no restaurante universitário, sendo então uma importante ferramenta para alunos que, como o Rafa, chegam de contextos socioeconômicos vulneráveis. Porém, nem todos conseguem o acesso a esses benefícios que facilitam a adaptação do aluno, seja pela alta demanda ou critérios de renda. Para muitos alunos, o suporte financeiro não é apenas um facilitador, mas uma condição indispensável para que possam se dedicar aos estudos e permanecer de forma digna em Belo Horizonte.

Para Carlos, que passou por dificuldades financeiras durante o período de estabilização na cidade, o suporte oferecido pelas políticas da Universidade são vitais, mas é preciso de outros trabalhos para conseguir viver melhor. “Sinto que estou muito bem assegurado e assistido no curso. Atualmente moro na Moradia da UFMG e sinto que estou em um lugar melhor, viver bem e estudar bem, para completar a renda faço freelas nos fins de semana. Isso me ajuda a não só comprar as coisas básicas de subsistência, mas as que quero também”, conclui o estudante.


“Eu demorei muito a me sentir em casa. Nos primeiros meses, queria ir embora, chorava”, é como descreve o estudante de medicina Carlos, sobre o choque da adaptação inicial.

Saúde mental e assistência estudantil

A saúde mental é uma questão cada vez mais notória e protagonista da vida acadêmica, sendo motivo até de evasão das universidades. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 35% dos estudantes universitários convivem com sentimentos de ansiedade e depressão.

“Acho que consegui desenvolver melhor minhas amizades, minhas habilidades. Hoje, acredito que penso melhor por conta própria, consigo ser eu. Me descobri mais”, destaca o estudante de Medicina.

Como já mostrado, dar um passo à frente e decidir escrever uma nova página da vida em uma Universidade Federal, como estudante, é inegavelmente desafiador, e isso se maximiza quando é preciso ficar longe do afeto da cidade-natal, ou, do seu porto seguro. Para Alice Moreira Pauferro, estudante de psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais e voluntária no plantão psicológico oferecido pela faculdade, a mudança traz um choque no estudante, mesmo que varie de pessoa para pessoa. “Para a psicologia, cada experiência é única. É um processo difícil de ser vivido, que impacta muito no estudante, principalmente pensando na distância de onde veio, se mora sozinho ou acompanhado”, explica.

“O plantão psicológico é um dos projetos mais conhecidos e procurados na Universidade. Há pessoas que vêm do interior e não sabem se locomover, pegar um ônibus em BH,” completa a estudante de psicologia. Ela afirma ainda, que o serviço voluntário do qual faz parte é fundamental para aquele estudante que necessita de uma mão-amiga em meio às mudanças, e seus encontros “fazem o acadêmico entender o caminho que está seguindo, se quer retornar, se o curso escolhido faz sentido”, afirma.

Para Alice Moreira Pauferro, a universidade tem papel ímpar no efeito de permanência do estudante, e ações de integração e socialização são o pilar para os novos rumos. “Em muitas vezes, o aluno se sente melhor quando estabelece seus núcleos sociais, o que depende das atividades extracurriculares oferecidas pela faculdade. Ações como eventos musicais, Domingo no Campus trazem as pessoas que vieram de fora para um ambiente mais convidativo”, conclui a voluntária.

Campus: um cruzamento de histórias

Histórias como as de Rafael Silva e Carlos Lorran demonstram os desafios diários na vida do universitário migrante, que muitas vezes abandona o ensino superior por falta de políticas de acolhimento e permanência, mas que também se depara com uma jornada incrível, que, em meio a inúmeros desafios, encontra o sentimento confortável de se sentir em casa, antes reservado por dentro nas mentes de cada um.

“Pretendo ficar por aqui, me desenvolver aqui. Sinto que há mais oportunidades profissionais.”, é como Carlos Lorran enxerga sua vida em BH hoje. Diferente do tímido e receoso recém-chegado, hoje, ele já se vê construindo sua vida na capital mineira.

Olhando as jornadas de futuros graduados e seguidores de sonhos da imensidão do Brasil, enxergamos o poder transformador que há dentro das universidades, principalmente as públicas, que abrigam e cruzam os caminhos de acadêmicos de diversas idades, classes sociais e origens. Não só a busca pelo título de graduado ou alguma instância após, conhecendo os relatos de vidas nesse meio, é possível entender a importância do acolhimento e da integração social com os futuros médicos, jornalistas e toda a imensidão de talentos que se desenvolvem dentro de um campus.

*Reportagem produzida na disciplina de “Laboratório de Produção de Reportagem” sob a supervisão de Dayane do Carmos Barretos