O evento, que reúne atrações culturais variadas, tenta driblar as barreiras de acesso na arte, para integrar artistas e públicos historicamente excluídos.

Por Vitória Pessoa Lapa

 

Dupla estreante da Virada Cultural em 2024: Ogoin&Linguini. Créditos: Matheus Andres

Durante a 9ª edição da Virada Cultural de Belo Horizonte, um dos maiores festivais culturais municipais, a diversidade musical foi marcante. Ao longo das apresentações, gêneros muitas vezes à margem dos grandes palcos ganharam visibilidade, ampliando a importância do acesso e da inclusão de públicos e artistas historicamente excluídos. Para muitos, como o rapper itabirano Ogoin, que se apresentou pela primeira vez no evento, o festival demonstrou uma oportunidade de construção do universo cultural da cidade na cena independente local. 

Acesso a vozes marginalizadas

Como o Rap é um gênero musical que tem sua produção concentrada em territórios urbanos periféricos, sua ascensão e prospecção tem sido uma ferramenta de construção de lutas e de identidade política para os grupos periféricos. Em sua essência, a maioria das letras do Rap retratam o cotidiano desses locais e apresenta a sua cultura e suas narrativas. Com letras que denunciam questões como o racismo estrutural, a violência policial e a precarização dos ambientes periféricos, artistas como o mineiro Djonga, transformaram a música em um instrumento de conscientização para um público que vê nas suas palavras um reflexo da própria vivência. Assim, como uma forma de resistência social, a música e a arte trabalham frente ao combate de desigualdades presentes no Brasil. No artigo “Música e identidade cultural: O rap como a ferramenta de comunicação dos territórios urbanos marginalizados” publicado na Revista Internacional de Folkcomunicação, a professora Thífani Postali, da Universidade de Sorocaba (UNISO), aborda a identidade cultural presente no Rap.Os rappers, que a nosso ver são os principais agentes do movimento, promovem a comunicação popular entre a sua comunidade; criam identidades que fortalecem o grupo negro e produzem contranarrativas para minar os discursos dominantes que, de algum modo, acabam por criar identidades proscritas sobre o seu grupo”. 

Ao falar acerca da relação entre o acesso de públicos marginalizados e a cena do rap/eletrônica em BH, João Lucas, o Ogoin, reflete sobre a importância de valorizar a cena:

“Acho que é uma relação que ainda possui muitas necessidades, mas que essas necessidades tem se tornado cada vez mais evidentes, tanto para quem consome, quanto para quem quer produzir ou já produz. E isso aproxima mais a galera que consome e se identifica com os movimentos que surgem, gera uma relação que vai para além do consumo e que justifica certos esforços como, por exemplo, colar em um lugar muito longe da sua casa para curtir uma festa/artista que você gosta. Isso vai tornando os movimentos cada vez mais irresistíveis e maiores, fica difícil ignorar que existe esse esforço acontecendo. É complicado porque, pela falta de investimento, o esforço vem se tornando cada vez maior. Tanto de quem consome quanto de quem produz”, reforça.

Ao se apresentar pela primeira vez na Virada Cultural ao lado da sua dupla Vinícius Fernandes, o DJ Linguini, Ogoin fala sobre sua empolgação. “A Virada é um evento muito importante para construção do universo cultural da cidade e ter um espacinho dentro dessa construção é algo que considero uma grande vitória. Principalmente porque não é um processo simples e eu já vi, em outros momentos, as oportunidades serem menores para artistas e agitadores da cena independente daqui”, conta.

Expressão cultural no hipercentro

A Virada Cultural de Belo Horizonte oferece uma jornada de 24 horas ininterruptas de programação artística. Música, teatro, dança, circo, literatura, artes plásticas, artes cênicas, e até gastronomia, são formas de expressão cultural que têm destaque no hipercentro da cidade. O evento tem como objetivo a transgressão e inovação, e busca desafiar as fronteiras tradicionais da arte e tentar mudar a visão sobre o uso do espaço público, a mobilidade e a acessibilidade.

A Virada Cultural é inspirada no festival francês Nuit blanche (Noite Branca), e procura proporcionar ao público acesso a produções artísticas brasileiras em várias linguagens (música, teatro, exposições etc) por 24 horas ininterruptas. A primeira versão no Brasil é a de São Paulo, que ocorre desde 2005, seguida por Belo Horizonte que começou em 2013 e Fortaleza que teve sua primeira edição em 2019.

Em suas edições anuais, Belo Horizonte recebe palcos para artistas e públicos ocuparem as ruas, praças e locais de destaque da cidade. A programação é gratuita, e visa valorizar a criação artística municipal. As intervenções urbanas e performances são voltadas para a valorização da cidade e de suas múltiplas vivências, dando à arte um espaço de resistência e pertencimento.

Na edição da Virada Cultural BH de 2024, o hipercentro da cidade foi um palco a céu aberto, com expressões artísticas nos locais do cotidiano urbano. Durante 24 horas de programação, os visitantes exploraram a variedade de linguagens culturais da cena artística local. A música é uma das principais atrações em todas as edições, mas a Virada inclui moda, cinema, fotografia, literatura, artesanato, jogos e atividades diversas. Com a programação, a Virada Cultural teve o propósito de ser uma experiência plural para o público de todas as idades e estilos.

Responsável pelo evento, a Fundação Municipal de Cultura (FMC) afirma que os objetivos da Virada se alinham com a acessibilidade social. “O objetivo [da Virada Cultural] é garantir a democratização do acesso à cultura, tornando-a acessível a todas as camadas sociais. Por meio de uma programação gratuita e diversificada, a Virada busca proporcionar a vivência da cultura em suas múltiplas formas, promovendo a inclusão de diferentes públicos e aproximando a população de expressões artísticas locais e globais, ocupando espaços públicos de fácil acesso e permitindo a participação de todos sem barreiras financeiras ou sociais. […] [o evento] tem como pilares a promoção da diversidade cultural, a valorização da produção artística local e a formação de públicos. Essas ações buscam não apenas democratizar o acesso à arte, mas também incentivar a reflexão sobre questões culturais e sociais”, conclui.

O público vê

Compreender como o evento é visto de fora é fundamental para captar as experiências, identificar o que falta e garantir que ele seja realmente acessível e atrativo para diferentes públicos. Ao entrar em contato com a Fundação Municipal de Cultura, a assessoria citou o trabalho da organização do evento para assegurar a acessibilidade social. “Um dos principais focos é a criação de um ambiente seguro, acolhedor e respeitável para artistas e público. Para isso, a programação sempre inclui atividades para todos os públicos, de diferentes idades, e garantiu a participação de grupos diversos, representando a pluralidade de identidades da cidade. Em 2024, por meio do seminário Diálogos Transversais, criou-se um ambiente de reflexão para que fornecedores e produtores observassem a melhor condução de políticas públicas em suas respectivas frentes de atuação. O seminário incentivou a integração e o aprimoramento dos princípios institucionais da cadeia cultural, destacando a importância da qualificação dos profissionais envolvidos e o respeito à diversidade, com atenção ao racismo, acessibilidade e outros eixos relacionados à preservação cultural, inclusão social e representatividade artística”, declarou.

A percepção do público em relação ao evento engloba como as pessoas se conectam com as atrações, com a acessibilidade ao local e até a maneira como são recebidas e tratadas. Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Quéren Hapuque Alves da Silva, 21 anos, acredita que há esforço na inclusão, mas existem lacunas. “Vejo esforço para promover a inclusão nas atividades, com apresentações e espaços que buscam representar diferentes manifestações culturais. Porém, a inclusão parece ser mais superficial em alguns aspectos, como na participação de grupos marginalizados, que estão mais presentes como público do que como protagonistas.” A estudante ainda reconhece que há iniciativas voltadas para a inclusão, evidenciadas pela diversidade nas apresentações culturais, mas pensa que essa inclusão apresenta fragilidades. Ela aponta que grupos marginalizados, embora participem como público, não possuem um papel de protagonismo nas atividades propostas. “Em futuras edições, seria interessante ver mais protagonismo de grupos marginalizados também nas programações e na curadoria dos eventos. A presença de mais artistas e grupos dessas comunidades, com espaços de diferentes expressões, traria mais representatividade”.

Social media, produtor de conteúdo voltado para a cultura urbana e frequentador de eventos da cena underground, Rodrigo Hazeite, 25 anos, conta sua percepção. “Acredito que a virada cultural pode ser uma grande vitrine para os artistas da cidade que muitas das vezes não têm acesso a palcos de casas de shows e festas mais “comerciais”, como festivais já estabelecidos. Ultimamente percebo que a prefeitura tem se aberto mais para a cultura na cidade, principalmente à cultura periférica, que se mostrou forte na busca por acesso de lazer e cultura em suas comunidades. Para mais inclusão, a prefeitura precisa continuar abrindo mais espaço para pessoas não brancas, trans e travestis sem rotular apenas pelos estereótipos, mas tratando apenas como são: pessoas artistas”, sugere.

Em prol de expandir o acesso de grupos socialmente vulneráveis à cultura em Belo Horizonte, a Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Fundação Municipal de Cultura, diz estabelecer planos para os grupos marginalizados. “Esses planos incluem o fortalecimento de iniciativas que garantiram a participação desses grupos na produção cultural, como a ampliação de editais específicos para artistas de periferias, negros, indígenas e outras comunidades marginalizadas”, confirmou a Funcação, que planeja manter os investimentos em iniciativas de formação, acesso à inclusão digital e no apoio a espaços culturais comunitários, para que as políticas culturais públicas alcancem todas as regiões da cidade.

Caminhos futuros

A percepção do público sobre o acesso à Virada Cultural em 2024 refletiu sobre o empenho para a inclusão e a qualidade da experiência proporcionada a grupos historicamente excluídos. Apesar do avanço, ainda há espaço para melhorias, especialmente em atrações e no diálogo com o que a audiência quer. A forma como um evento é acessado não vai apenas de questão técnica, mas um termômetro de sua relevância social e compromisso com os cidadãos. Para criar experiências mais justas e transformadoras é preciso ouvir as necessidades de quem participa, seja como artista ou plateia.

* Reportagem produzida na disciplina “Laboratório de Produção de Reportagem”, sob supervisão de Dayane do Carmo Barretos.