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À caça dos à toa

on 11 maio, 2015 in Comportamento | 1 comment

Observamos o campus à procura dos lugares mais utilizados pelos alunos para procrastinar. Entre atividades acadêmicas, estágios e toda a correria da vida universitária, eles nos contaram quais seus lugares favoritos para descansar no campus.

 

Procrastinar. Pro-cras-ti-nar. Palavra doce que é uma espécie de baunilha dos pecados: assim como o sabor de sorvete, muita gente já provou, mas não sabe o nome daquele gosto conhecido. O latim explica: procrastinar é a combinação simples e preguiçosa dos termos pros, que significa “para frente, adiante”, e cras, palavra latina para “amanhã”. Portanto, procrastinar é deixar “para amanhã” – o que os íntimos também conhecem como “fazer corpo mole”, “empurrar com a barriga” e “enrolar”.

A universidade, cheia de leituras e trabalhos, provas e aulas, é o local perfeito para a procrastinação. São várias as atividades que os estudantes precisam realizar, mas já não há os professores do Ensino Fundamental e Médio cobrando prazos com a ameaça de mandar um bilhete para os pais ou diminuir o recreio se elas não forem cumpridas a tempo. Entre mil compromissos, universitários se espalham pelo campus Pampulha da UFMG, enchendo os bancos da universidade e os sofás dos centros acadêmicos (e até alguns gramados, onde muitos permanecem deitados por horas). À primeira vista, eles são a imagem perfeita da procrastinação.

Circulamos pelo campus observando esses alunos e alunas e conversamos com alguns deles para saber se suas poses de preguiça realmente escondiam o adiamento de tarefas. E, pensando na nossa própria procrastinação futura, aproveitamos para perguntar quais os lugares preferidos dessas pessoas quando a ordem do dia é descansar no campus.

 

Voz aos procrastinadores: parte I

 

Até quem escreve procrastinou. A preguiçosa sexta-feira na FAFICH não é exatamente o local ideal para realizar entrevistas. Era uma tarefa paralisante acompanhar o trânsito de pessoas na famosa Savassinha, o hall do terceiro andar da faculdade, onde os bancos de concreto formam pequenas praças. Passava gente, passava gato. Sentimos fome. E fomos comprar comida, até nos darmos conta de que nós mesmos poderíamos ter sido personagens para a matéria. De volta ao terceiro andar, eram vários os estudantes imersos em conversas e, aqui e ali, um deles cochilava, como Marcella Ximenes, aluna do sexto período de Comunicação Social. Esperamos pacientes que ela acordasse, quando então disse não estar procrastinando, apenas esperava o começo de uma reunião do estágio, no prédio mesmo. De qualquer forma, a situação em que a encontramos foi icônica: deitada num dos bancos do hall com a jaqueta jeans servindo como cobertor. Mas, ela tinha ainda uma carta na manga para se explicar melhor: “Acho que consigo trabalhar sobre pressão, então quando eu realmente preciso ter as coisas feitas, eu faço. Mas, quando eu tenho tempo sempre deixo para a última hora”.

“Com certeza eu já teria me formado no inglês, estaria fazendo uma terceira língua e melhor na faculdade” analisa Fernanda Soares, aluna do quarto período de Comunicação. A fã de Discovery Home & Health revelou aceitar sua situação. Nos momentos em que procrastina, ela opta entre dois extremos: fazer absolutamente nada ou assistir ao seu canal favorito, sobre o qual ainda tem uma observação assertiva: “melhor programação”.

E não apenas pelos corredores da FAFICH se espalham os procrastinadores. No pátio da Escola de Belas Artes, o “piscinão”, encontramos Fernanda Stephanie, estudante de Radiologia, Daniele Amaral, do Teatro, e Tuany Marques, que cursa Design de Moda. Sempre entre risadas, elas contaram:

Marcella – aquela do primeiro parágrafo, lembra? – pondera que o grande problema não é a falta de tempo, e sim a organização dele: “Eu tento mudar, eu tenho minhas épocas de ‘vou fazer o trabalho hoje hoje’, mas logo depois eu passo a voltar a fazer na véspera”, e se arrisca a dar a dica que deveria ter cumprido para manter uma vida mais organizada: “fazer uma lista”.

E ajuda? No caso de Juliana Rezende, aluna do terceiro período de Comunicação e ex-coordenadora de Redação na Cria UFMG, funcionou: “Há um ano tenho uma agenda e anoto todos os meus compromissos. Isso me ajuda a não esquecer as tarefas.” Mas ela nem sempre foi assim e assume que esses pequenos hábitos ajudaram no melhor uso do tempo e na qualidade de vida. “Já fui muito desorganizada, sempre esquecia as coisas e me atrapalhava. Hoje consigo mais tempo para fazer o que eu quero”, atesta, como prova de que, apesar de ser um inimigo difícil de ser combatido, não é impossível vencer a procrastinação.

 

Voz aos procrastinadores: parte II

 

Falando em caça aos à toa, conhecemos Lina Lanna, uma caçadora profissional de procrastinadores. Rodeada por estudantes jogando sinuca no  Diretório Acadêmico da Faculdade de Ciências Econômicas, a aluna de Administração contou que vende balas, alfajores e cigarros pelo campus. As pessoas em aparente descanso são seus clientes ideais. São vários os pontos da universidade que Lina percorre com sua bolsa colorida: da FAFICH à FACE, do gramado da Escola de Música ao Na Tora. Com sinceridade, ela disse:

Antes de nos despedirmos, Lina apontou uma porta nos fundos do DA: “Esta é a sala da procrastinação. Vou apresentar a galera pra vocês!”. A primeira visão da sala já confirmava o clima geral de preguiça denunciado pela garota. Uma dezena de estudantes se estirava em dois sofás e se derramava no grande pufe preto que ocupa o centro do cômodo, onde há frases e desenhos de qualquer um que deseje se manifestar ali. A vontade imediata era imitá-los e permanecer lá em profundo descanso pelo resto da tarde.

A conversa fluiu tranquila com alguns dos estudantes que ocupavam a sala, a qual chamaram divertidamente de Associação Anarco-Canábica. Frequentador assíduo do espaço, Tarsis Salazar diz que o lugar era um mero depósito de móveis velhos da faculdade até dois anos atrás. Contudo, transformou-se no ambiente mais organizado de hoje por uma iniciativa de alunos que participam com mais afinco das atividades do Diretório Acadêmico.

André Américo, companheiro de pufe de Tarsis, entrou no curso de Economia este ano e logo no início das aulas já soube da fama da sala. Rapidamente, ele aderiu à ideia de utilizá-la como seu ponto ideal de relaxamento no campus, mas garante que ela também é muito usada como espaço de estudo. As palavras de André foram comprovadas coincidentemente por outros dois alunos da faculdade que chegaram naquele instante e se postaram em um dos sofás, concentrados em sua leitura.

Nos outros pontos de venda de Lina, checamos mais uma vez suas informações. O sol das três da tarde era forte, porém não eram poucas as pessoas pontilhando o gramado da Escola de Música. Todas estavam em poses o mais relaxadas possível, sempre, claro, rodeadas pela sombra de alguma árvore. Humberto Santana era um desses personagens, e admitiu que procrastina (interrompemos sua partida de Pokémon ao celular para conversarmos). A maioria das suas aulas acontece de manhã, contudo um dia por semana ele participa de uma disciplina no final da tarde, a qual aguarda começar passando o tempo em descanso pela Universidade. Evita locais próximos ao prédio em que estuda, a  Faculdade de Farmácia, e o gramado da Música é um dos preferidos.

Na FAFICH, o foco do descanso são os Centros Acadêmicos, fartamente abastecidos com sofás que oferecem diversos níveis de conforto. Flagramos João Guisard, calouro da Publicidade, dormindo esticado em um dos sofás do CA de Comunicação Social. Por sorte, ele acordou depressa – de um sono que durou duas horas, pelo que conferiu com olhos preguiçosos no relógio – e nos contou que ali tem sido seu lugar preferido para ficar à toa no campus. Seu propósito naquela tarde não era bem descansar, mas adiantar um trabalho com seus colegas de turma, que ocupavam os demais sofás conversando. O foco do grupo se perdeu depressa e, por isso, ele dormiu – um sono que, hoje, repete-se cerca de duas vezes por semana no ComuniCA, mas que, em seus primeiros meses de aula, acontecia até quatro vezes.

Várias pessoas das quais nos aproximamos naquele dia faziam uso do celular em seus momentos de procrastinação. Letícia Papini, estudante de Música que escontramos na Praça de Serviços, foi uma exceção, já que aproveitava seu tempo livre para estudar idiomas em um aplicativo, contrariando nossa primeira impressão. E ainda relatou:

Apesar de não termos procrastinado na tarde em que realizamos essas conversas, compramos um alfajor de Lina (recomendados aos leitores que façam o mesmo se toparem com a moça por aí, o doce é realmente bom) e entendemos o porquê de ela afirmar que consegue grande clientela em sua caça aos procrastinadores. Se é esse o público-alvo da estudante, comprovamos: no campus ele não faltará.

 

Você não pode procrastinar sem saber:

 

√ Piers Steel, da Universidade de Calgary, no Canadá, distinguiu preguiça e procrastinação, como sendo a primeira uma falta de vontade em realizar uma dada tarefa, ao passo que a segunda representa um atraso irracional em realizá-la. Segundo Piers, a falta de confiança, a distração, a impulsividade e achar uma tarefa pouco prazerosa figuram entre as principais razões que levariam ao ato de procrastinar.

√ De acordo com Marta Daniela Silva Costa, pesquisadora da Universidade do Minho, de Portugal, cerca de 25% das pessoas adultas sentem-se incomodadas com a procrastinação e para 40% dos casos, procrastinar causa danos financeiros.

√ Rita Sampaio e Isabel Bariani, da Universidade Estadual de Londrina, apontam que cerca de 80% dos estudantes universitários analisados no Estado procrastinam ao menos uma vez por semana, e quase a mesma quantidade deles afirmam que esse hábito já era comum em suas vidas antes de ingressarem na universidade.

√ Joseph Ferrari, da Universidade de Paul, EUA, realizou um estudo com pessoas de diversos países, como Austrália, Venezuela e Estados Unidos, e concluiu que a procrastinação é inerente à consciência humana, muito mais ligada ao cérebro do que à cultura.

√ A pesquisadora Fuschia Sirois descobriu que a procrastinação pode ser caso de saúde pública. Ao analisar 254 adultos, percebeu que os procrastinadores tendem a ser mais estressados e pegam resfriados com mais facilidade.

√ Os repórteres registram por observação própria que é comum as visitas às bibliotecas da Universidade se converterem rapidamente de leituras profundas de material acadêmico a longos cochilos sobre os braços cruzados (que terminam dormentes). Ainda segundo os repórteres, não houve procrastinação na elaboração desta lista de dados. (Não está descartada a hipótese de que em breve eles escrevam uma reportagem sobre as pequenas mentiras).

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O hall do terceiro andar da FAFICH é também lugar para cochilos.
O piscinão da Escola de Belas Artes.
Reunião do Conselho Procrastinador na FACE.
O som do descanso no gramado da Escola de Música.
Cama alguma supera os sofás do CA de Comunicação.
Deus é doido e procrastina no ComuniCA.
Na Praça de Serviços, sem serviço algum.
Trabalho de campo sobre a procrastinação no CA de História.

 

Bruna Leles

Procrastinar ou não procrastinar? Eis a questão… E procrastinei.

Daniel Matos

Nunca faça hoje o que pode ser feito amanhã, pensou em alto e bom som.

Gabriel Rodrigues

No meio do caminho tinha uma pedra. Sentei sobre ela para procrastinar.

Kaio H Silva

Queria escrever algo interessante neste espaço, mas procrastinei e o prazo acabou…

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